quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Histórias da Casa Branca: o «elefante Trump» e mais nove no primeiro debate


TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 6 DE AGOSTO DE 2015:

Tem nome de pato famoso, mas promete ser o «elefante na sala» do primeiro debate televisivo da corrida à nomeação presidencial republicana: Donald Trump, líder improvável mas destacado nas sondagens, já está a ser o protagonista, ainda antes de começar a discussão. 
  
A vantagem do multimilionário nas sondagens não só se mantém como parece estar a crescer. Pesquisa da FOX, revelada ontem, dá 26% a Trump, para apenas 15% de Jeb Bush e 9% de Scott Walker. Os restantes pretendentes à investidura na Convenção Republicana do verão de 2016 nem sequer passam dos seis pontos percentuais. 
  
Outras duas sondagens libertadas nos últimos dias apontam tendência idêntica: na Bloomberg, Trump aparece à frente com 21%, para 10% de Jeb e 8% de Walker. Na CBS, o multimilionário soma 24% das preferências, para 13% de Bush e 10% do governador do Wisconsin. 
  
Neste ponto da corrida, parece, pois, seguro afirmar que Donald Trump não é apenas um meteorito que aproveitou os primeiros dias de lançamento da candidatura: por muito estranho e surpreendente que isso possa parecer, o polémico empresário tem sido, nas últimas semanas, o «frontrunner»destacado da corrida republicana. 
  
O prolongar desta surpresa torna óbvia a antecipação: o «elefante Trump» vai perturbar inevitavelmente a sala, no primeiro debate televisivo desta «pré-temporada» das primárias republicanas. 
  
Será a primeira grande prova para Donald. Organizado pela FOX, está agendado para esta quinta, às 21h locais (duas da manhã em Lisboa) e tem duração prevista de duas horas. 



«Não vai haver flores na parede»
 
  
Terá três moderadores (Chris Wallace, Bret Baier e Megyn Kelly), experientes apresentadores da FOX. O momento tem sido preparado ao detalhe nas últimas semanas, com várias reuniões entre os três para escolherem as melhores perguntas. 
  
Apesar do estatuto e da longa experiência televisiva, Megyn Kelly admite, citada pelo «Politico», que moderar o primeiro debate desta campanha presidencial «é um momento de nervosismo, que faz o coração bater mais forte». 
  
«E não vai haver flores na parede», promete Chris Wallace. «Tentámos escolher as perguntas mais duras, os temas mais quentes. Foi por isso que nos escolheram para moderar o debate, somos três dos entrevistadores mais exigentes do meio». 
  
Com dez candidatos no «plateau», as duas horas vão parecer curtas: em média, cada um falará 10/11 minutos. Não vai dar para «recuperar» de «gaffes»; só dará mesmo para lançar as ideias fortes. 
  
Quantos ao papel dos moderadores, Anderson Cooper, da CNN, também citado pelo «Politico», define assim a questão: «É mais ou menos como um maestro numa orquestra: ninguém presta muita atenção ao desempenho deles, a menos que estejam a fazer alguma coisa de forma errada». 
  
Cruz, Kasich e Christie ‘in’; Perry, Santorum e Fiorina ‘out’ 
  
Com tantos pretendentes à nomeação republicana (17!), a FOX definiu um teto de dez convidados. Mais do que isso era complicado: nem sequer cabiam todos no mesmo plano e a discussão ficava dispersa e sem o ritmo desejado. 
  
O critério escolhido foi a média das últimas sondagens nacionais para eleger os dez mais prováveis nomeados e eliminar os sete menos competitivos. 
  
Se Donald Trump, Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio, Mike Huckabee, Ben Carson e Rand Pauleram nomes indiscutíveis (têm sido, consistentemente, os sete primeiros das sondagens republicanas nas últimas semanas), houve até anteontem algumas dúvidas quanto a quem ocuparia as restantes três vagas. 
  
Ted Cruz, senador do Texas e primeiro a avançar, conseguiu lugar na sala, apesar de começar a aparecer em alguns estudos entre os 3 e os 5 pontos. Cruz terá sido (a par de Paul, Huckabee e Walker) dos mais prejudicados com a «surge» de Trump, uma vez que boa parte dos seus potenciais eleitores «tea party» estão para já muito entusiasmados com a liderança do multimilionário nova-iorquino. 
  
Os últimos dois a garantir lugar no primeiro debate foram o governador do Ohio, John Kasich, e o governador da Nova Jérsia, Chris Christie. 


Kasich foi o último a arrancar, mas rapidamente somou 5 a 6 pontos nas sondagens e dá mostras de poder angariar mais apoios numa área moderada. Christie é o grande mistério da corrida até agora: até há uns meses, surgia perto de Bush como provável nomeado, mas foi por aí abaixo nas sondagens, culpa dos problemas e escândalos na governação do seu estado. 
  
De fora ficaram o governador do Texas, Rick Perry, outra «vítima» do furacão Trump, também pela reação violenta que teve contra as diatribes de Donald; Carly Fiorina, única mulher na corrida republicana, que não consegue passar de 1% nas sondagens; e até Rick Santorum, ex-senador da Pensilvânia, que apesar de ter ficado em segundo nas primárias de 2012, está afundado nos 2%. 
  
Também Bobby Jindal (governador da Luisiana), Jim Gilmore (antigo governador da Virgínia),George Pataki (antigo governador de Nova Iorque) e Lindsey Graham (senador da Carolina do Sul) foram excluídos do primeiro debate.  
  
Estes sete candidatos agora remetidos à «segunda divisão» vão estar num debate à parte, de apenas 60 minutos, a ter lugar quatro horas antes. 

Se Trump promete dominar as atenções, há expetativas em relação à forma como Jeb Bush vai tentar retomar a ideia de que é o favorito natural e ainda aos desempenhos de Marco Rubio (senador da Florida que também alimenta perspetivas de nomeação) e de Rand Paul (que apesar dos números fracos nas sondagens revela base forte de apoio). 

Mas este é só o primeiro de muitos debates que ocorrerão nos próximos meses. Afinal de contas, estamos a falar da mais louca corrida do Mundo. 
  

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Histórias da Casa Branca: Obama aos 54, razões para festejar


TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24 A 4 DE AGOSTO DE 2015:


Barack Obama aos 54: o quarto presidente mais jovem da História da América (foi eleito aos 47) aproxima-se dos «mid fifties» (é hoje o seu aniversário, nasceu a 4 de agosto de 1961) na melhor fase da sua Presidência. 

Nunca como agora ficou agora ficou claro que os anos Obama deixarão marca forte: Reforma da Saúde aprovada em definitivo, relações com Cuba reatadas (e embaixada cubana em Washington reaberta); acordo nuclear com o Irão (quem acreditava nele no início desta presidência?); aposta clara nas renováveis e apelo ao #ActonClimate, com o recém-anunciado «Plano Energia Limpa», de combate às alterações climáticas (o objetivo é reduzir até 2030 cerca de 32% das emissões de dióxido de carbono nas centrais termoelétricas); acordos comerciais com o Pacífico e TTIP com a Europa a caminho; decisões presidenciais para combater a paralisação do Congresso e proteger imigrantes em risco de deportação, consumidores a precisar de regulação, doentes a precisar de tratamento e trabalhadores que não recebiam horas extra. 

Subjacente a isto tudo, uma recuperação económica que hoje até já parece «normal», mas que um apelo à memória revela como muito significativa: Obama pegou nos EUA em plena tempestade e prepara-se para deixar os Estados Unidos de novo a liderar a economia mundial, com um desemprego de pouco mais de 5% e crescimento trimestral nos melhores índices da última década. 

Nada mau para quem, tantas vezes, levou com sentenças como «líder fraco», «presidente falhado» ou«lame duck». 

«Coisas interessantes» para esta reta final 
  
Um dia depois da derrota nas «midterms» de novembro de 2014, muitos apontaram o «fim» de Obama. Da Casa Branca, Barack retaliou com um aviso: «A minha presidência está apenas a entrar no último quarto. Coisas muito interessantes acontecem nessa fase. Estou ansioso por vivê-las». 

Mera retórica política para contornar derrota tão expressiva dos democratas? Houve quem achasse que sim. 
Mas não. Os meses que se seguiram falam por si. E revelaram, de longe, a fase mais concretizadora e efetiva desta presidência. 

A ponto de já ser claro que o fantasma do «falhanço», que perseguiu durante tantos anos o desempenho de Obama na Casa Branca, estar definitivamente afastado. 

É uma questão de verificar os factos: Obama conseguiu, em menos de sete anos na Casa Branca, o que a maior parte dos presidentes de dois mandatos não chegou sequer perto em oito. 
  
O que pode vir aí ainda? 
  
É sempre uma incógnita, mas haverá três grandes desafios a resolver: 

-- Guantánamo, prisão que Obama prometeu fechar, logo nos primeiros dias da sua presidência, e que ainda está a funcionar (embora de forma completamente diferente que há sete anos, não sendo de excluir que até janeiro de 2017 Obama ainda consiga anunciar a concretização desse fecho); 

-- uma visita a Havana, para selar em definitivo o acordo histórico que terminou com mais de meio século de costas voltadas entre EUA e Cuba; 

-- medidas mais fortes na reforma fiscal, de modo a concretizar uma das suas ideias principais: taxar as riquezas mais elevadas para aliviar fiscalmente a classe média e os mais desfavorecidos. 
«Este é um presidente muito experiente, que está disposto a tomar passos muito fortes para cumprir o que prometeu», aponta Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, para acrescentar: «E acho que, na sua maioria, o povo americano o aprecia e apoia. Os seus números de aprovação têm vindo a aumentar e isso dá-lhe ainda mais força para fazer o que pretende».   
  
O que talvez não consiga mesmo fazer
 
 
Se a Reforma Fiscal não é ainda uma derrota definitiva, há algumas batalhas que dificilmente Barack Obama vencerá. 
Em recente entrevista a Jon Stewart, na sétima e última aparição no «Daily Show», Obama confessou:«A única coisa que lamento profundamente (e isso é algo que sentirei ainda mais quando sair do governo) tem a ver com o problema das armas que tantas tragédias já causou. É um problema que nós, enquanto nação, temos que refletir e temos que tentar sarar». 

Outro ponto em relação ao qual Obama já terá perdido as esperanças tem a ver com a tal «reconciliação» prometida nos primeiros anos. A sucessão de «gridlock» no Congresso fê-lo mudar de estratégia (a mudança definitiva foi mesmo em novembro passado), desistindo de perder muito tempo em tentar estabelecer consensos impossíveis. 

No final do dia, o que vai definir? Talvez o modo como decidiu apostar todas as fichas no acordo com o Irão, perante tantos avisos em contrário. 

Afinal de contas, em 2007, na campanha das primárias que viria a ganhar contra Hillary, o então jovem senador do Illinois Barack Obama já dizia: «Não tenho qualquer interesse em sentar-me à mesa com os adversários apenas pelo prazer de falar. A questão é que não fazemos a Paz com os amigos. Fazemos com os possíveis inimigos. Não por causa deles, mas por nós. Como presidente dos EUA, devo liderar uma diplomacia forte e determinada com o líder iraniano apropriado, em tempo e local escolhidos por mim -- se isso for do interesse dos Estados Unidos». 
  
Cumpriu.  

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Histórias da Casa Branca: Obama em África, moral e risco


TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 31 DE JULHO DE 2015:

«Tratar as mulheres como cidadãs de segunda classe é uma má tradição. Mantém-vos na retaguarda. É uma desculpa para a agressão sexual e para a violência doméstica. Não há razão para que raparigas sofram mutilação genital. Não há lugar, em sociedades civilizadas, para forçar crianças a casar. Estas tradições podem ter séculos; mas não têm lugar no século XXI». 
Barack Obama no Quénia, julho de 2015 
  
  
«Não se deve ser presidente para sempre. Não entendo porque as pessoas querem ficar tanto tempo - sobretudo quando têm tanto dinheiro! Eu acho que sou bom presidente. E se me recandidatasse, podia vencer. Mas não posso. E lei é lei e ninguém está acima dela. Nem o presidente». 
Barack Obama na Etiópia, julho de 2015 
  
    
Há quem não goste de ver um presidente dos Estados Unidos pregar os valores que considera certos num país estrangeiro, com o homólogo local ao lado, a ouvir de soslaio. 
  
Mas também há quem ache que África continua a ter demasiados países com leis e hábitos antiquados e que as mentalidades têm que mudar pelo exemplo. 
  
Seja qual for a posição que tomemos, a verdade é que Barack Obama voltou a provar, na visita a África, que está decidido, nesta reta final, a dizer o que pensa e a bater-se pelo que acredita, mesmo que isso possa provocar críticas ou desconfortos. 
  
Na emotiva passagem pelo Quénia, Obama reencontrou parentes próximos, foi a lugares que diziam muito ao pai falecido e com quem pouco conviveu. 
  
Mas a marca que ficou da primeira visita de um presidente norte-americano a Nairobi e Adis Abeba vai muito para lá da parte sentimental para o primeiro presidente afro-americano dos EUA. 
  
Obama marcou posição, arriscou, deixou claro que os valores que os EUA representam não comportam a cumplicidade com práticas de agressão sexual, intolerâncias para com os homossexuais, violência contra as mulheres ou trabalho infantil. 
  
O homólogo queniano, ainda um pouco surpreendido por não ter na «photo op» com Obama um momento de simples consagração, viu-se forçado a rebater, lembrando que «a tradição de países como o Quénia é diferente». 
  
Na Etiópia, Obama foi mais longe: não se limitou a expor as diferenças no plano ideológico e civilizacional em temas como direitos das minorias. Falou de práticas políticas, de hábitos de democracia. De  como é saudável evitar «eternização do poder», de como é importante saber sair. 

Fez, na verdade, o que muito poucos líderes mundiais, nas últimas décadas, tiveram coragem de fazer em África. 
  
  
«Podemos não ser capazes de deter todo o mal no mundo, mas eu sei que a forma como nos tratamos uns aos outros é inteiramente nossa. Eu acredito que apesar de todas as nossas imperfeições, estamos cheios de decência e bondade, e que as forças que nos separam não são tão fortes como aquelas que nos unem». 
Barack Obama em 2015 
  
«Negociaria com inimigos. Faria isso. E a razão por que o faria é que a noção de que não falar com determinados países é uma forma de os punir – que tem sido o guia diplomático da administração Bush – é ridícula» 
Barack Obama em 2007, durante debate nas primárias democratas, que viria a ganhar 
  
«Não fazemos a paz com os amigos. Fazemos a paz falando com os nossos adversários, para evitar que eles se tornem nossos inimigos» 
Barack Obama, em entrevista a Jon Stewart, sobre acordo com o Irão 
  
«Se não escolhermos de forma sensata, acredito que as futuras gerações vão julgar-nos de forma severa, por termos deixado perder este momento.» 
Barack Obama  sobre a necessidade aprovar a «Climate Bill» 
  
«Se olharmos para os números dos americanos mortos no 11 de Setembro, foram menos pouco mais de dois mil. Se olharmos para os números de americanos assassinados pela violência de armas, são dezenas de milhares.»   
BARACK OBAMA  sobre a frustração de ainda não ter aprovado lei que restrinja o risco de violência com armas 


Os últimos tempos deixaram mais claro o que pretende Obama enquanto Presidente dos EUA em final de mandato. 
  
Já sem os condicionamentos de quem tinha que procurar a reeleição, e sabendo por experiência que a sua taxa de aprovação não sobe dos 50% e não baixa dos 40% independentemente de vitórias ou derrotas políticas que tenha, Barack Obama posiciona-se, no segundo mandato, como «presidente ideológico», com opinião própria e uma visão do seu poder que aponta para um líder que quer deixar um legado de «exemplo»: na prática política, na abertura ao Mundo, na promoção dos direitos das minorias.  

Mesmo quando assume frustração por ainda não ter avançado o suficiente no «gun control», Obama está a assumir uma posição arriscada, enquanto presidente um país onde o direito ao posse de arma é uma ideia tão forte.  

A história política de Barack Obama já teve muitos altos e baixos. Mas a menos de ano e meio da sua saída da Casa Branca, temos tido exemplos repetidos de que o melhor ainda pode estar para vir. 
  

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Histórias da Casa Branca: o que fazer com este Trump na sala?




TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 24 DE JULHO DE 2015:


É sabido que a eleição presidencial norte-americana é «a mais louca corrida do Mundo». 
  
São dois anos de avanços e recuos, surpresas e solavancos, com vários pretendentes a declararem-se dos dois lados da barricada, qual deles o mais distinto. 
  
É normal, por isso, que na fase de arranque, a meses das primeiras votações nos estados que iniciam as primárias partidárias, haja ainda uma certa confusão, tanto no discurso como na evolução das sondagens. 
  
No verão de 2007, por exemplo, a meses das primárias de 2008, quase todos apostavam em Hillary Clinton e Rudy Giuliani como favoritos às nomeações e, como se sabe, foram Barack Obama e John McCain quem acabou por obtê-las.  
  
Até aí, tudo bem: faz parte da dinâmica da corrida e mostra a capacidade que as eleições na América têm de mostrar surpresa e novidade. 
  
Mas o que se passa neste momento no campo republicano vai muito para além disso. 
  
A entrada de Donald Trump perturbou definitivamente o evoluir da situação – e os estragos podem ainda estar só a começar. 
  
Caitlin Huey-Burns, no Real Clear Politics, chamou-lhe «o elefante na sala republicana». 
  
Num leque alargadíssimo de 16 nomes (hão de cair alguns nos próximos meses, mas parece já certo que esta época de primárias baterá recordes de adesão de candidaturas do lado da direita) Trump tem, como é óbvio, todo o direito de tentar a sua sorte. 
  
Ainda por cima, tendo o multimilionário fortuna pessoal tão considerável, e estando disposto a gastar uma parte nesta sua aventura presidencial. 
  
O problema é o resto: tudo o resto. O comportamento. A verborreia. A arrogância. As acusações disparatadas em jeito de franco-atirador. 
  
Donald desdenhou o passado militar de John McCain («admiro os que não são capturados, não vejo qual o heroísmo que existe em ser capturado»). 
  
Foi simplista e factualmente errado com os mexicanos, dizendo que estão a «invadir os EUA com traficantes e violadores».   
  
Arrasou o registo de Rick Perry como governador do Texas (depois de Rick dizer que Trump devia retirar-se da corrida). 
  
Escancarou perante os seus apoiantes o número de telemóvel pessoal de Lindsey Graham (o senador da Carolina do Sul, também candidato às primárias republicanas, chamou-lhe ‘jackass’, estúpido, ignorante), num ato de pura irresponsabilidade. 
  
Chamou Hillary de «pior secretária de Estado de sempre» e Jeb Bush de «fraco na imigração». 
  
Seria de esperar que, nas sondagens, Trump se mantivesse numa bolsa própria, com números relativamente baixos, sendo um candidato tão «sui generis». 
  
Como, de forma divertida, Jon Stewart disse no «Daily Show», mais do que «republican», Donald é… «trumpablican» (ele que até já esteve do lado dos democratas). 
  
O que quase ninguém previu é que, nesta fase, Donald Trump estaria… em primeiro lugar nas sondagens, com vantagem considerável sobre os eventuais nomeados (Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio). 
  
Trump não devia ser levado a sério: a forma como insistiu durante anos no disparate do local de nascimento de Obama diz tudo sobre a credibilidade das suas posições. Mas que está a influenciar a corrida republicana, isso é já um facto concreto. 

Como lidar com isto? 
  
Do insulto à minimização 
  
Os adversários de Trump têm lidado de forma diversa com o problema (sim, ele existe). 
  
Ted Cruz, quase tão colado à direita radical como Donald, é o único que tenta aproximar-se do multimilionário, repetindo a ideia de que «Trump levantou questões importantes, que merecem ser debatidas». 
  
Lindsey Graham, senador respeitado e experiente mas com números pouco animadores nas sondagens, é o candidato republicano que mais tem apontado baterias a Trump. 
  
Mas não é o único: Rick Perry tem tentado descolar da imagem de demasiado à direita e estará a aproveitar o «disparate Trump» para ganhar visibilidade e credibilidade. 
  
Jeb Bush e Scott Walker, os candidatos com mais potencial para ultrapassar Trump na hora decisiva, têm optado pela estratégia da minimização: quase ignoram o fator Trump, esperando que ele, simplesmente, se desvaneça. 
  
É provável que seja mesmo isso que vá acontecer. 
  
Por muito que, nesta altura, as sondagens apontem números muito bons para Donald Trump, a forma explosiva como ele tem conduzido a campanha tem tudo para dar para o torto com o decorrer do tempo. 
   
Jeb à espera que a tempestade passe 
  
Nos «media», os devaneios de Trump começaram por ser «pitorescos», depois passaram a ser «preocupantes», agora voltam a ser rotulados de «não credíveis». 
  
O Huffington Post, num ato com o seu tom de originalidade, anunciou que passará a incluir as notícias sobre Trump na secção de entretenimento. 
  
Falta saber como sobreviverá o Partido Republicano a tudo isto. 
  
Se Jeb Bush, até agora muito alheado ao tema, não conseguir rapidamente recuperar a posição de favorito nas sondagens nacionais, pode ter um problema de «elegibilidade». 
  
Como Lindsey Graham bem apontou em entrevista recente, «as tiradas de Trump estão a impedir os republicanos de se focarem nos temas certos». 
  
Com 16 pretendentes à nomeação, esta fase inicial está a ser dominada por quem está a fazer mais barulho e por quem, pelas piores razões, atrai as luzes mediáticas. 
  
É um daqueles casos de «quanto pior melhor», que não resistirá ao «choque da realidade». 
  
Hillary, que do lado democrata parece perder algum fôlego perante a subida de Bernie Sanders (embora sem pôr em causa a noção de «inevitabilidade» da nomeação de Clinton), vai assistindo a toda esta «cena Trump» com um sorriso. 
  
Em novembro de 2016, pode ser ela a principal beneficiária. 
   

terça-feira, 21 de julho de 2015

Histórias da Casa Branca: esqueçam a «maldição dos segundos mandatos»


TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT A 21 DE JULHO DE 2015:
Barack Obama tomou posse para segundo mandato como Presidente dos EUA faz hoje dois anos e meio -- a 21 de janeiro de 2013. 
A «reta final» da presidência do primeiro negro na Casa Branca há muito que tem vindo a ser anunciada, mas a verdade é que ainda falta exatamente ano e meio para que Obama abandone o mais alto cargo político eleito a nível mundial. 
 
Não sendo já muito tempo para quem foi eleito para um total de oito anos, a verdade é que ainda são quase 550 dias. Dá para fazer muita coisa.
 
Tendo em conta a estratégia adotada pelo Presidente dos EUA nos últimos meses, sobretudo depois da derrota dos democratas nas intercalares de novembro de 2014, é de prever que os próximos 18 meses venham a ser aproveitados ao limite para que a marca que Obama deseja deixar na Casa Branca fique bem presente.
 
A política americana é uma caixinha de surpresas.
 
Obama teve fases muito difíceis na sua presidência. Sobretudo durante aqueles meses iniciais, com a economia americana a perder 750 mil postos de trabalho por mês, o PIB a recuar 9%, o Congresso (mesmo democrata, na altura) a torcer o nariz a grandes planos de estímulo económico (não está nos genes daquela sociedade avessa ao peso do Estado).
 
Mesmo depois da reeleição (momento que parecia ter clarificado as águas, perante o triunfo claro de Obama sobre Romney nas urnas), a verdade é que o Presidente quase nunca passou dos 50% de aprovação – e teve a sua agenda política declarada morta demasiadas vezes.
 
A derrota avassaladora dos democratas nas «midterms» de novembro (em ambiente em que os próprios candidatos democratas pareciam fugir do «contágio Obama», não querendo muitos deles sequer fazer campanha ao lado do Presidente) foi, para muitos, a sentença de «morte política» do sucessor de George W. Bush na Casa Branca.
 
Os últimos sete meses, no entanto, estão a provar o oposto: Obama soma vitória sobre vitória, está a conseguir impor a sua agenda, revela uma taxa de cumprimento das suas promessas eleitorais absolutamente invejável num tempo em que os políticos são olhados, nas democracias, como «mentirosos» ou «sem palavra».
 
Cumprir as promessas, coisa estranha
 
Esqueçam a «maldição dos segundos mandatos» (ideia dominante na história dos Presidentes americanos que, após a reeleição, são afetados por uma estranha incapacidade de cumprirem o que prometeram).
 
Para Barack Obama, o «pós reeleição» está a ser ainda melhor (bem melhor até) do que os primeiros quatro anos.
 
E com essa… coisa estranha nos tempos que correm, que é ver um líder de um grande país a cumprir no exercício das suas funções o que prometeu antes de ser sujeito ao escrutínio eleitoral.
 
A lista é impressionante:
 
-- acordo com Raul Castro para o restabelecimento de relações com Cuba, com benefícios nas trocas comerciais dos dois países, libertações de presos e reabertura de embaixadas (a bandeira de Cuba voltou ontem a ser hasteada em Washington, 54 anos depois);
 
-- acordo com o Irão, no sentido da travagem da ameaça nuclear e desanuviamento de tensões políticas e melhoria de relações comerciais (alargado a outras potências, com efeitos na redução dos preços do petróleo);
 
-- confirmação do ObamaCare no Supremo, em nova garantia de que a Reforma da Saúde será implementada e durável;
 
-- confirmação do «Equal Marriage» como lei federal a aplicar em todos os estados; acordo comercial com o Pacífico, com resistências democratas e apoios republicanos;
 
-- caminho para maior apoio financeiro a quem trabalha horas a mais; primeira visita de um Presidente americano em funções a uma prisão federal, em forte sinal de avanço para uma reforma do sistema prisional (a realidade atual nas prisões americanas é alvo de críticas duras de relatório de direitos humanos)
 
-- discurso notável em Charleston, terminando a cantar o «Amazing Grace», em recordação das vítimas de atentado com arma de fogo em igreja negra
 
-- proposta de Reforma Fiscal de apoio à classe média, taxando os 1% mais ricos, em análise no Congresso
 
-- medidas executivas unilaterais (após inviabilização de um acordo no Congresso) de proteção aos imigrantes ilegais, para evitar deportação imediata de perto de cinco milhões de cidadãos sem cidadania americana que residem e trabalham nos EUA
 
Algumas destas medidas políticas podem não ser consensuais.

Mas a sua globalidade mostra um Presidente em clara estratégia de concretização, que está a ser capaz de ser «efetivo», depois de uma primeira fase em que foi adiando algumas das suas prioridades, de modo a assegurar o essencial: evitar que os EUA caíssem numa nova Grande Depressão e criar alicerces para a recuperação económica.
 
Os resultados estão à vista: os Estados Unidos criam emprego há 65 meses seguidos, estando agora com uma taxa de desemprego de 5.3%, pouco mais de metade do que era em meados de 2009, no pico da tempestade financeira (10%).
  
Dado inesperado: o Estado Islâmico
 
Nem tudo correu bem a Obama nestes primeiros dois anos e meio do segundo mandato.
 
A ascensão do Estado Islâmico ainda não foi devidamente travada e a operação internacional que os EUA lideram desde setembro de 2014 tem tido recuos inesperados.
 
O calendário aponta-nos, para já, esta certeza: Obama não tem qualquer plano para um envio maciço de tropas americanas para o terreno. O caminho deverá continuar uma conjugação de bombardeamentos cirúrgicos, ataques com drones, apoio às monarquias árabes da região (aliadas dos EUA na luta contra os jiadistas sunitas) e o reforço de «know-how» e equipamento do exército regular iraquiano.
  
O que esperar deste ano e meio final?
 

Com a corrida à sua sucessão a acelerar (16 candidatos do lado republicano, Hillary super favorita no campo democrata), Barack Obama tem agora 18 meses para fechar em grande.
 
Na verdade, terá mais um ano: a partir do verão de 2016, as atenções mediáticas e políticas vão virar-se quase em exclusivo para a eleição presidencial, quando se foram investidos os nomeados dos dois partidos, nas convenções.
 
Há sempre a hipótese de Obama estar já a preparar uma surpresa em larga escala, do estilo que fez com Cuba, em dezembro passado. E há sempre um grau de imprevisibilidade no Mundo complicado em que vivemos.
 
Mas com os dados que existem hoje, é de esperar que Obama mantenha o foco na recuperação económica (e, com o petróleo baixo nos próximos meses, tudo indica que haverá condições para que os dados possam ser ainda melhores em 2016), na aprovação de medidas legislativas que melhorem a classe média e aumentem os direitos dos imigrantes e das minorias.
 
À falta de melhor, haverá o acordo com a Europa (TTIP) para concluir e anunciar, já perto de novembro de 2016.
 
Faz hoje dois anos e meio, Barack Obama, a tomar posse para segundo mandato, prometeu ser um Presidente defensor das minorias, dos direitos de todos os cidadãos e com foco especial na classe média trabalhadora.
 
A realidade está a provar que está ser mesmo isso e até mais.
 
Quem diria?