sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

245 mil postos de trabalho criados em Janeiro



Desemprego continua a descer nos EUA: está agora nos 8.3%, o valor mais baixo dos últimos três anos. Só em Janeiro, foram criados 243 mil postos de trabalho na América.


Bons sinais para a reeleição de Obama



«The pace of job creation surged in January, with the US economy generating 243,000 new positions while the unemployment rate dropped to 8.3 percent, according to government data released Friday.


Both numbers were far better than consensus, which expected a growth of 150,000 jobs and a steady unemployment rate of 8.5 percent.

The stock market rallied on the jobs news, with gains of better than 1 percent, while bond yields surged as well to push the benchmark 10-year Treasury to 1.93 percent.

"What’s not to like about the report?" said Andrew Wilkinson, chief economic strategist at Miller Tabak in New York. "Not only did payrolls exceed forecasts...but between the November and December revisions employers added 160,000 more jobs than first thought."

The overall work week remained unchanged at 34.5 hours while wages rose an average of four cents an hour to $23.29.

On the downside, the closely watched labor-force participation number, which can skew the unemployment rate, fell to 63.7 percent, the lowest since May 1983. The number of those working part-time for economic reasons rose 1.2 percent.

The January numbers can be volatile as the Bureau of Labor Statistics makes seasonal adjustments. This year's round produced 1.25 million fewer people in the workforce in December, a number that drew some focus as evidence that the drop in the jobless rate could be misleading.

"Looking beyond these statistical quirks, watching the unemployment rate drop five months in a row is rare event, and our expectation is that the unemployment rate rises in the immediate-term," said Neil Dutta, economist at Bank of America Merrill Lynch.

Job gains have been concentrated primarily in the service sector, particularly in retail and the food and beverage industries. Warehousing, manufacturing, mining and health care also have participated.


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True to form, services were responsible for 162,000 of the January swell, with manufacturing payrolls growing 50,000. Government cuts subtracted 14,000 from the total. Retail has added 390,000 jobs since December 2009, while durable goods manufacturing is up 418,000 over the past two years, according to government figures.

"The pattern is definitely indicating the economy is improving," Alan Kreuger, chairman of President Obama's Council of Economic Advisors, told CNBC.

With a bruising presidential campaign yet to come and both sides jockeying for position on the economy, Republicans scoffed at the gains and said the economy still needs repair.

"Our economy remains unacceptably weak, and families across the country are still struggling to make ends meet,” Republican National Committee Chairman Reince Priebus said in a statement.

The total number of unemployed fell below 13 million for the first time since February 2009, while the total amount of employed Americans rose to 141.6 million, an increase of 847,000 from December.



The unemployment rate was last this low in February 2009 as well.

"The real kicker is not the additional 200-plus thousand that got a job. That's certainly going to help, but it's the other 92 percent that have been employed," said James Paulsen, chief market strategist at Wells Capital Management in Minneapolis. "They'll step up a little bit more because they feel more comfortable about things. That's a little juice to the economy."

Several economists noted that a jump in courier workers during the holiday season that was expected to be temporary did not appear to impact the January numbers.

Unemployment for blacks plunged from 15.8 percent to 13.6 percent, while the rate for Hispanics fell from 11.0 percent to 10.5 percent. The teen unemployment rate rose one-tenth to 23.2 percent.

The so-called real unemployment rate, which measures discouraged workers as well and is referred to as the U-6, nudged lower to 15.1 percent.



Long-term unemployment, though, remains a problem, with the duration dropping from a near-record 40.8 weeks to 40.1 weeks.

Also, the level of discouraged workers surged, rising 7 percent to its highest level since December 2010.

Job growth remains one of the two missing pieces of the recovery puzzle, even though the rate has been on a steady trek lower.

In December, the economy created 203,000 jobs (revised from an originally reported 200,000) and the unemployment rate slipped to 8.5 percent, well off its 10 percent cycle peak in October 2009.

November's payroll number also was revised, from 100,000 to 157,000. Revisions overall for 2011 added about 180,000 jobs to the initial monthly reports.

The monthly jobs report generally draws considerable trader reaction, which as of late has been all negative. The Standard & Poor's 500 [.SPX 1343.64 18.10 (+1.37%) ] has fallen the last eight months on the first Friday of the month when the nonfarm payrolls account is released. This has been true even when the market beats expectations, with the index averaging a decline on the 10 strongest performances against expectations since 1998, according to Bespoke Investment Group.»

(in CNBC.com)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: A pergunta depois da Florida - haverá mesmo alternativa à nomeação de Romney?


A vitória esmagadora na Florida recolocou Mitt Romney na rota da «inevitabilidade»: mesmo sem convencer a base conservadora, não se vê outra hipótese que não seja a da coroação do mais elegível dos candidatos republicanos


A pergunta depois da Florida:
haverá mesmo alternativa à nomeação de Romney?


Por Germano Almeida

Ainda é muito cedo para se declarar um vencedor e todos sabemos como as corridas presidenciais americanas são férteis em surpresas de última hora.

Mas a clara vitória de Mitt Romney na Florida reforçou a ideia de que será difícil imaginar outro cenário que não seja o da nomeação do ex-governador do Massachussets.

Mitt, um mórmon com fortes raízes familiares à igreja da qual já foi pastor, está longe de convencer a base conservadora, maioritariamente evangélica? É um facto.

As credenciais centristas do antigo governador de um dos estados mais liberais dos EUA, o Massachussets, fazem a Direita americana franzir a sobrancelha perante a coroação de um candidato “too moderate” para os anseios republicanos? Também parece ser esse o caso.

Só que a longa disputa pela nomeação presidencial do Partido Republicano tem um objectivo dominante: escolher o candidato que poderá reunir melhores condições de vencer a eleição geral em Novembro.

E as sondagens mostram que Mitt Romney é de longe, entre os candidatos que restam nesta bizarra disputa republicana, o que tem mais hipóteses de bater o Presidente Barack Obama.

Apesar de derrapagem na Carolina do Sul (batalha onde quase tudo jogou contra as hipóteses de Mitt: as características do eleitorado, os apoios de última hora a Gingrich, o caso da declaração de rendimentos desconfortavelmente alta….), a verdade é que os pilares que sustentam esta corrida se mantêm actuais: Romney é o candidato mais sólido, mais capaz de agarrar o eleitorado moderado e fazer ceder os mais radicais – e é, também, o candidato com mais dinheiro e melhores apoios no terreno.
Comparada com o Iowa, o New Hampshire -- e mesmo com a Carolina do Sul -- a Florida é um estado muito maior.

Vale 50 delegados na Convenção Republicana, tem um sistema “winner takes all” – e independentemente do que tivesse ocorrido antes, quem vencesse o “sunshine state”, passaria fatalmente para a liderança da corrida.

Com esta clara vitória de Romney, o «efeito Carolina do Sul» que parecia ter relançado Gingrich desvaneceu-se quase na hora.

A história dominante volta a ser a de uma «quase inevitabilidade» da nomeação de Romney – o candidato que não convence o seu próprio partido, mas que visto de fora é o menos… assustador.

Tim? Rudy? Mitch? Agora é tarde…
Olhando para o avanço que Romney pode vir a ter em breve (as próximas corridas são Maine, Nevada, Colorado e Minnesota, tudo estados onde Mitt parte com clara vantagem), vale a pena perguntar: no que estarão, neste momento, a pensar Tim Pawlenty (“terei desistido demasiado cedo?”), Rudy Giuliani ou mesmo Mitch Daniels (“porque diabo não aceitei avançar?”, pensarão o ex-mayor de NY e o governador do Indiana).

É que, neste quadro profundamente favorável à nomeação do candidato mais «moderado» (mesmo sem o entusiasmo do Tea Party e da ala dura do GOP), Mitt Romney parece estar a aproveitar, de mão beijada, o espaço deixado por outras hipóteses que optaram por não ir a jogo – receosos, talvez, do ambiente especialmente agressivo que o Tea Party foi preparando nos últimos dois anos.

Com uma máquina preparada desde 2008, Mitt Romney ganhou embalagem com as primárias de há quatro anos e, na verdade, nunca deixou de estar em campanha, desde aí, sempre com o olhar em 2012.

Identificando a viragem do Partido Republicano à direita – contagiado pelo Tea Party e atiçado pela reacção anti-Obama pós-2008 – Mitt Romney foi corrigindo o discurso em pontos que lhe seriam especialmente sensíveis (a tolerância que mostrou, anos atrás, sobretudo quando era governador do Massachussets, a temas como o aborto e os direitos dos homossexuais) e apresentou-se como um candidato mais sintonizado com o “core” dos valores republicanos.

O seu excelente resultado na Florida prova três coisas: por muito que Newt Gingrich se reivindique como o herdeiro dos «verdadeiros conservadores» nesta corrida, é Mitt quem mostra maior capacidade de vencer nos estados-chave; o perfil empresarial de Romney tem mais a ver com o que está em causa nesta corrida; os rios de dinheiro que Mitt despejou na corrida da Florida (ultrapassou Gingrich numa relação de… cinco para um) foram importantes para travar a ideia de que ainda havia espaço para uma “reviravolta conservadora”).

E agora, Newt?
É certo que só estão atribuídos cerca de dez por cento dos delegados. Mas o calendário eleitoral não parece dar espaço a viragens dramáticas no curso de Romney para a nomeação.

Gingrich dificilmente discutirá uma vitória com Mitt nos estados em jogo até à Super Terça-Feira. É certo que Newt ainda tem muito por onde apostar (terá vantagem nos estados do Sul e na chamada “Bible Belt”), mas teria que somar muito mais dinheiro para poder disputar a nomeação com hipóteses mais reais de vitória.

Não chega lançar o mantra do “anything but Mitt”. Newt não se terá livrado o estigma de ser um candidato do passado. E assumir-se como o candidato religioso, dos «valores», não é, propriamente, o fato que melhor serve a um Gingrich acossado pelas acusações das ex-mulheres (na mesma altura em que, como speaker, exigia a destituição do Presidente Clinton pelo caso com Monica Lewinsky, propunha à segunda ex-mulher uma… “relação aberta” no casamento para evitar um escândalo de divórcio, porque já matinha um relacionamento extra-conjugal com aquela com Callista, que é hoje a sua mulher…)

Matematicamente, tudo ainda é possível neste imprevisto duelo entre Mitt Romney e Newt Gingrich.

Mas não se vislumbra um caminho viável para a tese de uma histórica recuperação de Newt. Não por acaso, o discurso de vitória de Romney na Florida foi quase exclusivamente focado nas críticas a Obama e já não nas diferenças com Gingrich.

A Florida, que em 2000 foi dramaticamente decisiva para a derrota de Al Gore para George W. Bush na eleição geral, pode ter entrado para a história da corrida republicana de 2012 como o momento que traçou, mesmo que com alguns meses da confirmação oficial, a vitória de Mitt Romney.


RESULTADOS FINAIS NA FLORIDA

Mitt Ronney: 46% (50 delegados para Romney)
Newt Gingrich: 32%
Rick Santorum: 13%
Ron Paul: 7%

sábado, 28 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: State of The Union'2012 - Obama põe o pé no acelerador


Acreditar na América e numa economia «construída para durar»: Obama enunciou, no último discurso do Estado da União até às eleições, argumentos e trunfos que o podem levar à reeleição


State of The Union'2012: Obama põe o pé no acelerador

Por Germano Almeida


Foi uma das melhores intervenções de Barack Obama desde que é Presidente: claro nos objectivos, incisivo no diagnóstico, disposto a partir para o combate sempre que a linha da «conciliação» já tenha sido ultrapassada pelo «obstrucionismo» dos dogmas republicanos.

O discurso do Estado da União (terceiro da Presidência Obama e último antes das eleições presidenciais de Novembro) já mostrou uma boa parte do argumentário que Barack pretende usar para a reeleição: o caminho da recuperação económica já foi iniciado e traduz-se nos três milhões de empregos criados nos últimos 22 meses; as injustiças fiscais iniciadas nos anos Bush e agravadas pela maioria republicana no Congresso podem ser corrigidas, desde que a opinião pública perceba o que está em causa e legitime nas urnas a visão do Presidente; a América continua a ser a «nação indispensável», mesmo perante a ascensão da China e a crise europeia.

Há um ano, Obama tinha escolhido o State of The Union para mostrar que a América continua a ser o melhor país para se acreditar num discurso «Winning the future» e tinha falado no «momento Sputnik» desta geração.

Agora, o Presidente reforçou a necessidade de os EUA estarem à frente da China ou da Índia em áreas como a investigação, a inovação e o conhecimento – mas foi mais longe no discurso «proteccionista» e prometeu assinar de imediato projectos que prevejam investimentos fortes em solo americano para «fixar empregos nos EUA e impedir que eles se desloquem para outros países».

Barack, o combatente, já vestiu as luvas e promete não as descalçar até às eleições.

Jobs, jobs, jobs
“Estes são os factos: nos últimos 22 meses, foram criados mais de três milhões de postos de trabalho. As empresas americanas estão a contratar, acrescentando emprego à economia pela primeira vez desde o fim dos anos 90”

Será o principal barómetro para avaliar as hipóteses de Barack obter a reeleição: qual será a taxa de desemprego em Novembro de 2012? Os índices actuais continuam altos (8.5%, sendo que desde Franklin Roosevelt que nenhum Presidente se conseguiu reeleger com desemprego acima dos 7.5%).

Mas a tendência de descida progressiva é clara – e prolonga-se há dois anos seguidos. O Presidente sublinhou, neste discurso, que foram criados mais de três milhões de empregos nos últimos 22 meses. Obama sabe que essa tendência terá sempre mais a ver com dados da economia privada, mas este é, sem dúvida, um trunfo na argumentação do Presidente contra o mantra do corte na despesa dos seus adversários republicanos.

Os estímulos dados à economia nos pacotes aprovados em 2009 estão a ter algum efeito – e isso dá base de sustentação ao discurso de recuperação económica de Obama.

Recuperação Económica
“Pretendo combater o obstrucionismo com acção e opor-me-ei a todas as tentativas de voltar às mesmas políticas que provocaram a crise económica. Não voltaremos a uma economia fragilizada pela deslocalização de postos de trabalho, défice incontrolável e falsos lucros financeiros”

Este foi o discurso da definitiva demarcação de Obama em relação à chantagem política do Congresso de maioria republicana.

Barack sempre se comprometeu com uma pretensão «bipartidária». Mas a prática de quase ano e meio de «coabitação» com uma Câmara dos Representantes esmagadoramente republicana (e um Senado com escassa maioria democrata, longa da Super Maioria da primeira fase do mandato presidencial) mostrou que essa preocupação bipartidária levou, quase sempre, ao adiamento e à paralisação.

A forma como o Presidente não desistiu de aplicar o American Jobs Act, mesmo não tendo ele passado no Congresso, foi o primeiro sinal do que agora é confirmado. Obama combaterá «o obstrucionismo com acção».

O Presidente «da conciliação» mostra, agora, a sua face de «político de combate», que não abdicará da sua tese de reduzir desigualdades e incentivar a classe média com programas de estímulos, apesar da permanente oposição republicana, presas nos dogmas da «baixa de impostos e redução do défice».

Compromisso
“Não há nenhum desafio mais urgente nem nenhum debate mais importante. Podemos contentar-nos com um país em que um número reduzido de pessoas vive muito bem, enquanto um número cada vez maior de americanos sobrevive com dificuldade. Ou então podemos restaurar uma economia em que toda a gente dá a sua contribuição e toda a gente joga pelas mesmas regras. O que está em causa não são valores democratas ou republicanos, mas valores americanos – e temos de os ressuscitar. Os milhões de americanos que trabalham no duro e cumprem as regras merecem que o Governo e o sistema financeiro façam o mesmo. As regras têm de ser iguais para todos – sem resgates, nem dádivas, nem compromissos. Uma América de futuro tem de exigir responsabilidade a todos”

As primárias republicanas têm mostrado candidatos muito diferentes uns dos outros. Mas se há factor que une Romney, Gingrich, Ron Paul ou Rick Santorum é acusar Barack Obama de ser um Presidente que tem «contribuído para o declínio da América».

Essa acusação, tão falsa como simplista, apoia-se no crescimento da China, Índia e Brasil, e no reerguer da Rússia (dados verdadeiros) – e também na noção, essa sim errada, de que a influência dos Estados Unidos está em queda, por culpa, supostamente, de um Presidente que não defende os interesses da América na nova cena internacional.

Obama tem reagido a tudo isto com uma ideia forte: a identificação com os «valores americanos» não é monopólio da Direita americana, muito menos de um Tea Party que diz seguir cegamente os princípios fundadores da Constituição.

O modo como o Presidente transporta para a prática política a sua identificação com os «valores americanos» está muito mais nesta frase: “As regras têm de ser iguais para todos – sem resgates, nem dádivas, nem compromissos. Uma América de futuro tem de exigir responsabilidade a todos”.

A América de Obama tem mais a ver com «equidade», «responsabilidade» como formas de recuperar a ideia do país «das oportunidades», em que «todos cabem», desde que «as regras sejam iguais».

Depois de três anos de discurso demagógico da Direita radical, há sinais que uma boa parte do eleitorado americano saberá fazer a interpretação certa do que deve significar «ser americano».

A secretária de Warren Buffett
“Por causa de subterfúgios do código fiscal, um quarto dos milionários paga menos impostos do que milhões de famílias de classe média. Actualmente, o Warren Buffett paga uma taxa de imposto menor do que a sua secretária”

É um dos temas centrais da mensagem do primeiro mandato presidencial de Obama: enfrentar o poder dos republicanos no Congresso e conseguir aplicar medidas que alterem a realidade fiscal que o Presidente considera injusta.

Barack retomou a narrativa da «secretária de Warren Buffett, que paga mais impostos que o terceiro homem mais rico do Mundo».

Uma aberração fiscal criada pelo ‘mantra’ dos anos Bush (baixar os impostos aos mais ricos, supostamente para deixar dinheiro em quem investe para criar empregos, uma estratégia desmentida pela realidade americana dos últimos anos).

Essa ideia tem sido radicalizada pela Direita americana – e os resultados estão à vista. Obama defende uma profunda alteração a esta realidade fiscal, com benefícios à classe média e fortes penalizações aos extractos com rendimentos mais elevados.

O tema promete dominar a discussão nos próximos meses, até porque o favorito à nomeação republicana, Mitt Romney, viu-se obrigado a revelar os seus rendimentos multimilionários e percebeu-se que paga apenas 13,6% de impostos – menos que os 25 por cento da classe média americana.

Irão
“A América está determinada a impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear e eu não excluirei nenhuma opção para conseguir esse objectivo”

Os maiores sucessos da Presidência Obama têm residido na frente externa – e neste discurso do Estado da União, Barack relembrou-os: a eliminação de Bin Laden e neutralização do perigo internacional da Al Qaeda; a luta contra o terrorismo islâmico; as retiradas do Iraque e do Afeganistão; a forma original como os EUA participaram na deposição de Khadafi na Líbia e contribuíram para a Primavera Árabe.

A questão chave da política internacional até às eleições é o Irão. A tensão é crescente, com as ameaças de Teerão em fechar o estreito de Ormuz e em avançar para o programa nuclear – que a comunidade internacional interpreta como ameaça real e o regime de Ahmadinejad garante ter efeitos não bélicos.

Depois de ter “estendido a mão” ao diálogo com Teerão, na primeira fase do seu mandato, Obama acaba agora por reconhecer que não há alternativa que não seja a de endurecer o discurso para travar Ahmadinejad.

O lado realista de Barack na política externa é um dos seus maiores trunfos para chegar a algum eleitorado centrista e republicano.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Gingrich ressuscita na Carolina do Sul


Um leão nos debates, mais mobilizador que Romney no discurso e na mensagem: Newt Gingrich aproveitou território conservador e venceu folgadamente na Carolina do Sul. Quem ganhar na Florida, já no dia 31, assume o estatuto de favorito à nomeação


Gingrich ressuscita na Carolina do Sul

Por Germano Almeida


Mitt Romney descolou cedo dos opositores e terá uma nomeação descansada. Certo? Errado! Quem pensava que, desta vez, os republicanos seriam rápidos e previsíveis na escolha estava completamente enganado.

A Carolina do Sul voltou a mostrar o seu enorme peso na história das primárias republicanas – e gerou uma alteração dramática no curso desta corrida.

O primeiro sinal foi dado dias antes, com a recontagem no Iowa: afinal, o vencedor à tangente foi Rick Santorum e não Mitt Romney. A diferença foi mais simbólica do que estatisticamente significativa – mas a verdade é que retirou a Romney o estatuto (psicologicamente relevante) de vencedor dos dois estados de arranque – algo raro nas primárias republicanas.

As hesitações do multimilionário Romney em revelar publicamente os seus rendimentos também não ajudaram – e Mitt foi entrando em queda livre nas sondagens nas vésperas da Carolina do Sul, estado onde chegou a ter 20 pontos de vantagem.

Quem aproveitou foi Newt Gingrich. Os SuperPAC’s que o apoiam gastaram milhões em anúncios agressivos contra Romney – e o eleitorado mais conservador da Carolina do Sul foi-se identificando com o discurso tradicionalista de Newt.

Nem a entrevista-choque da segunda ex-mulher de Gingrich, Marianne, exibida no auge da luta pelos votos na Carolina do Sul, prejudicou Newt. Pelo contrário, até lhe proporcionou um dos melhores momentos desta campanha, com a resposta veemente, no último debate, contra «os media» e a suposta ajuda que dão a Barack Obama.

Com um discurso mais mobilizador, Gingrich passou os 40 por cento e relançou-se na perseguição a Romney. Mitt não conseguiu aproveitar a desistência de Jon Huntsman (que lhe pode dar ainda mais votos da ala moderada) e, em contraponto, o apoio de
Rick Perry serviu de combustível para que Newt Gingrich acelerasse no campo conservador.

‘Too risky to be nominee?’
É a grande questão lançada no campo republicano, depois da reviravolta da Carolina do Sul: não será arriscado equacionar Newt Gingrich como o nomeado presidencial do GOP?

É certo que o ex-speaker do Congresso se tem mostrado um leão nos debates (com respostas eficazes e argumentação politicamente sólida), mas a longa carreira de
Newt torna praticamente impossível que a sua equipa de campanha prepare uma lenda de um Gingrich inatacável, exibindo um poço de virtudes.

Mais «presidenciável», Romney manterá, por isso, a carta da «inevitabilidade» da sua nomeação, mesmo por quem, no Partido Republicano, assumidamente não morra de amores por ele.


Romney derrapou na Carolina do Sul e, afinal, não ganhou no Iowa: a estratégia "centrista" tem riscos para Mitt, apesar continua a parecer o mais "presidenciável"

Os resultados da Carolina do Sul foram claros na confirmação: as faces mais conservadoras do GOP não gostam de Mitt Romney – e olham para Gingrich como um republicano mais identificado com a ala clássica do partido. Apesar das infidelidades do seu passado pessoal, apesar das inconsistências.
Estão relançadas as dúvidas existenciais dos republicanos.

Santorum perdeu o comboio
Enquanto renasce o duelo Romney-Gingrich, Rick Santorum deverá entrar para a narrativa desta corrida à nomeação presidencial republicana como… ‘o tipo que podia ter feito história, mas passou ao lado dela’.

Soube, dias antes das primárias na Carolina do Sul, que, afinal, tinha mesmo ganho no Iowa (por 34 votos, depois das recontagens, e não a oito de Mitt Romney, como inicialmente se decretou), mas isso de pouco ou nada lhe valeu.

No New Hampshire, tinha perdido a oportunidade de ouro para se afirmar como o «candidato anti-Romney» -- não capitalizou o ‘momentum’ do Iowa e ficou-se pelos mesmos 9 por cento de Gingrich.

A estrondosa derrota para Newt (16 por cento, contra 40.5 de Gingrich) terá conotado Santorum como o grande perdedor da batalha da Carolina do Sul. Resta-lhe a esperança de entrar no ticket como vice-presidente – mas só se o nomeado for Romney, para fazer o equilíbrio entre o moderado e o ultraconservador.

Ron Paul, com um eleitorado mais fiel, ficou-se pelos 13 por cento. Nada mau para quem continua a ser propositadamente ignorado pelo ‘establishment’, mas talvez abaixo do que se chegou a esperar, depois de muito bons desempenhos nos estados de arranque.

O congressista do Texas confirma-se como o candidato de protesto, com ideias arrojadas – mas não passará disso.

Isso, isso, boa Newt!
A ‘surge’ de Newt Gingrich é uma excelente notícia para Barack Obama. A Casa Branca está, há meses, a trabalhar num Plano A. Esse plano prevê que o Presidente tenha em Mitt Romney o adversário mais temível na luta pela reeleição.

A equipa de recandidatura de Obama – de novo liderada pelo núcleo duro de Barack (David Axelrod, David Plouffe, Jim Messina) – considera Mitt o osso mais duro de roer. E calcula que, apesar de todas as dúvidas, a maioria dos delegados à Convenção Republicana acabar por nomear Romney.

Se esse Plano A não se confirmar, isso significará que Obama terá menores dificuldades em segurar a sua base natural de apoio: os democratas, os independentes e a classe média branca dos estados do Midwest.

Barack sabe que há uma fatia de perto de 35 por cento do eleitorado que nunca conseguirá convencer. Essa fatia votará sempre no candidato republicano – seja ele Romney ou Gingrich. Mas a zona flutuante de democratas ‘blue dogs’ e de republicanos moderados (que em 2008 preferiu, em massa, Obama a McCain e, dois anos depois, votou republicano para o Congresso), continua muito indecisa. Num duelo Obama/Romney, talvez prefira Mitt. Se a escolha recair entre o Presidente e Newt Gingrich, o lado mais racional e previsível de Barack deve prevalecer.

Por isso, sobretudo por isso, a campanha de Obama reagiu com sorrisos aos resultados da Carolina do Sul e exclamou: “Isso, isso, boa Newt!”

CAROLINA DO SUL – RESULTADOS
-- Newt Gingrich 40.5%
-- Mitt Romney 27.8%

-- Rick Santorum 16.97%
-- Ron Paul 12.97%

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney destaca-se, mas ainda não convence


Mitt Romney venceu folgadamente no New Hampshire, estado onde tem residência, mas as suas grandes provas de fogo serão na Carolina do Sul e na Florida


Romney destaca-se, mas ainda não convence

Por Germano Almeida


O New Hampshire confirmou o favoritismo de Mitt Romney para a nomeação presidencial republicana – mas esta está longe de ser uma história com um final já contado.

É verdade que Romney começa a parecer lançado para uma vitória inevitável, depois do folgado triunfo (17 pontos à frente de Ron Paul, mais de 20 sobre Huntsman e quase 30 por cento sobre Gingrich e Santorum).

E a dupla vitória nos primeiros dois combates confere-lhe uma força que há muito (36 anos, para sermos mais precisos) não acontecia num arranque de um candidato republicano nas primárias.

Desde 1976 que o Iowa e o New Hampshire não conheciam o mesmo vencedor nas primárias do Grand Old Party. Na história moderna da política americana, o nomeado presidencial republicano venceu pelo menos um destes estados (John McCain, por exemplo, teve mau desempenho no Iowa há quatro anos, mas renasceu para a campanha de 2008 com um sólido e inesperado triunfo no New Hampshire).

Todos estes dados poderiam indicar um passeio no parque para Romney até à Convenção Republicana de Tampa Bay.

Mas o ex-governador do Massachussets ainda não conseguiu convencer por completo as bases conservadoras.

Os quase 40 por cento que arrecadou no New Hampshire são enganadores. No ‘granite state’, Mitt quase jogava em casa: tem residência no New Hampshire, apostou milhões neste combate e é visto como um ‘insider’. Trata-se de um estado muito diferente do Iowa – mais diverso e com menor propensão a teses radicais como as que o Tea Party foi derramando nos últimos anos.

Mas as próximas duas batalhas serão bem mais difíceis para Romney: a Carolina do Sul tem um eleitorado muito mais conservador e o peso dos evangélicos pode ser uma barreira para o mórmon Mitt. E, no final do mês, a Florida pode ser o grande teste à suposta «inevitabilidade» da nomeação de Romney.

Impossível ignorar Ron Paul
Se Romney tem que ser considerado o maior vencedor do New Hampshire, há, no entanto, outro candidato que terá toda a legitimidade em cantar vitória: Ron Paul.

O congressista do Texas, que sempre foi considerado um ‘outsider’ pelo Partido
Republicano, teve um fantástico resultado: 55 mil votos, 23 por cento. Depois do positivo terceiro lugar no ‘caucus’ do Iowa, com quase 22 por cento, Ron Paul confirma-se como um candidato com um eleitorado muito fiel e mobilizado, baseado, sobretudo, no segmento mais jovem, propenso ao seu discurso altamente crítico do sistema político e do peso de Washington.


Ron Paul não será o nomeado, mas já é uma das figuras desta corrida presidencial republicana de 2012

Anti-instituições, contra todo o tipo de ingerências do poder federal e da máquina estatal, Ron Paul tem capitalizado parte do descontentamento dos eleitores em relação à carga fiscal e demarca-se dos restantes candidatos republicanos em questões como o aborto ou as intervenções militares (é isolacionistas e considera que os EUA não devem gastar dinheiro em guerras que não lhes dizem respeito).

Mesmo depois de dois bons resultados nos primeiros combates, Ron Paul sabe que não terá hipóteses reais de nomeação.

Sem capacidade para competir em estados como a Carolina do Sul ou a Florida, vai apostar nas votações por ‘caucus’ e poderá continuar a surpreender. Aconteça o que acontecer, já será uma das figuras da corrida republicana de 2012 – e está a marcar terreno para uma eventual candidatura presidencial do filho, o senador Rand Paul, do Kentucky, em 2016 ou 2020.

Ainda há espaço para o ‘anti-Romney’?
É mais uma das contradições desta estranha corrida presidencial republicana de 2012: Mitt Romney é o mais «presidenciável» -- é o candidato com mais dinheiro, o mais moderado e o que tem a campanha mais organizada – mas nem as duas vitórias do ex-governador do Massachussets fazem terminar com as dúvidas dos sectores dominantes do GOP.

Isso abriria espaço para uma facção ‘anti-Romney’. Só que o problema é que, em vez de esse sector se concentrar num candidato eventualmente vencedor, ele continua dissolvido em quatro nomes pouco convincentes: Newt Gingrich, Rick Santorum, Rick Perry e Jon Huntsman.

Começando por Huntsman. O ex-governador do Utah apostou tudo no New Hamsphire. Precisava de ter ficado em segundo, com uma votação superior a 20 por cento. Ficou perto, mas não alcançou nenhum dos objectivos cruciais: ficou atrás de Ron Paul e não foi além dos 17 por cento.

Ser um «candidato moderado» num tempo de radicalização do discurso republicano foi uma estratégia pouco prudente – sobretudo quando vemos que o próprio Mitt Romney tenta parecer menos centrista do que, na verdade, é. O antigo embaixador da China (nomeado por Obama…) disse ter ficado entusiasmado com a sua votação no New Hampshire. Mas, no fundo, sabe que a sua oportunidade já passou.

Na zona mais à direita, Rick Santorum foi a desilusão da noite. Depois de ter ficado a oito votos de vencer o Iowa, não aproveitou o ‘momentum’ da boa estreia e deixou a sensação de não ter capacidade para se assumir como a alternativa conservadora desta corrida. Terá na Carolina do Sul a sua última chance de virar os acontecimentos a seu favor.


Rick Santorum não foi capaz de aproveitar o 'momentum' do Iowa e está a perder fôlego na luta pelo estatuto de 'anti-Romney'

Quase fora da corrida parece Newt Gingrich: quarto lugar no Iowa, quarto no New Hampshire. Não se vê como poderá tirar a nomeação a Romney – nem mesmo com a sua tese de que é o «único republicano com conhecimento suficiente para vencer um debate cara a cara com o Presidente Obama».

Ainda sem ter desistido oficialmente, mas já fora de qualquer cenário vencedor, está Rick Perry. Bom sinal: é a prova de que, na política americana, quem está mal preparador não tem mesmo hipóteses de sobreviver.

Notas sobre o New Hampshire



Romney é cada vez mais favorito (há 36 anos que um candidato republicano não vencia os dois primeiros estados);

Ron Paul teve um grande resultado e já não pode ser ignorado pelo 'establishment';

Jon Huntsman precisava de mais do que 17% para ter relevância;

Rick Santorum não aproveitou o 'momentum' do Iowa;

Gingrich está quase fora da corrida


RESULTADOS NEW HAMPSHIRE:

-- Mitt Romney 39,4%

-- Ron Paul 22,8%

-- Jon Huntsman 16,8%

-- Newt Gingrich 9,4%

-- Rick Santorum 9,3%

-- Rick Perry 0,7%

domingo, 8 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Ainda haverá uma 'América de Obama'?


O «ano três» de Barack Obama na Casa Branca agravou os fantasmas da «desilusão» em temas como a crise económica, mas confirmou sucessos na frente externa e até terminou com indicadores positivos. Segurar apoios nos segmentos que lhe deram uma enorme maioria em 2008 pode ser a chave para a reeleição em Novembro


Ainda haverá uma ‘América de Obama’?

Por Germano Almeida


(sobre as eleições presidenciais norte-americanas de 2012)
“Se vencer um candidato republicano, creio que o isolamento dos EUA poderá tomar uma forma mais radical do que aquela que antecedeu a sua participação militar nas duas guerras mundiais do século XX. Os candidatos republicanos que se alinham constituem, para mim, uma extraordinária ameaça para a Europa, mas sobretudo para os EUA, cujos valores, cultura, ciência, etc., eu aprendi a amar, pois foi lá que me ensinaram a democracia”

(será que Obama consegue ser reeleito?)
“É uma incerteza que perturba quem (eu incluído) acreditava que Obama faria a diferença. O sucesso dos seus programas-bandeira, como a reforma dos cuidados de saúde ou as políticas ambientais e de energia, virá a ser provavelmente muito reduzido, e a "amabilidade" com que tratou Wall Street não lhe será perdoada. Também não é claro que um segundo mandato lhe permita acabar o que começou, por não ter o apoio político. Temo que venha a ser um 'one term president', como os republicanos estão apostados em fazê-lo. Votaria, mais uma vez, nele.”

JOÃO LOBO ANTUNES, neurocirurgião que viveu e leccionou em Nova Iorque durante 13 anos, em entrevista ao Diário de Notícias


O ano que agora começou será decisivo para se determinar a sentença sobre o «caso Obama».

Há três anos e pouco, uma onda de entusiasmo varreu a América: cansada de oito anos de uma Administração Bush que atiraram os EUA no descrédito internacional e num défice crónico e profundo, uma larga maioria de americanos voltou a provar que é mesmo «tudo possível» na terra da oportunidade – e elegeram um Presidente com características improváveis e um nome de sonoridade entre o muçulmano e o africano.

Com 80 por cento do seu mandato presidencial já cumprido, Barack Obama ainda não conseguiu afastar o fantasma da desilusão – e continua a ser perseguido por uma crise económica de longa duração.

Tendo partido com uma das mais largas e diversificadas maiorias presidenciais da história política americana, Barack Obama foi perdendo a sua base de apoio, a tal ponto que se torna legítimo perguntar: ainda se poderá falar numa «América de Obama»?

“Yes” na política externa…
O «ano três» da Presidência Obama foi particularmente positivo na frente externa: Osama Bin Laden foi apanhado e morto, um objectivo que a Casa Branca e os serviços de inteligência norte-americanos buscaram durante dez anos; os prazos para a retirada do Iraque foram cumpridos; a intervenção militar na Líbia teve o desfecho desejado, com a deposição de Kadhaffi, e inaugurou uma nova forma de os EUA participarem numa acção internacional em grande escala, com intervenção directa na primeira fase do conflito e posterior cedência da liderança do processo a ingleses e franceses.

O «realismo» que Barack Obama assumiu para as relações externas (definido em Oslo na aceitação do Nobel da Paz ou no discurso de Praga) foi aprimorado em 2011: os EUA devem ser parte activa dos grandes acontecimentos internacionais, mas liderar não obriga a superpotência miliar a fazer as despesas de todas as grandes acções.

A saída do Iraque foi outra altura aproveitada por Obama para recordar que «é tempo de voltar ao essencial e apostar na recuperação económica dos EUA».

Mas a História tem-nos mostrado que a política externa, sendo importante para a imagem global dos Presidentes dos EUA, não é decisiva para a sua reeleição. Se assim fosse, Obama já tinha a vitória assegurada em Novembro.

… “No” na frente doméstica
Os grandes problemas têm estado na frente interna. Apesar dos indicadores de alguma recuperação da economia americana no último trimestre de 2011, a verdade é que o desemprego na América continua alto (8,5%, sendo que, historicamente, nenhum Presidente americano conseguiu ser reeleito com uma taxa de desemprego superior a 7,5%).

Nas primárias republicanas, alguns candidatos do GOP (sobretudo Mitt Romney, Michele Bachmann e Rick Perry) têm sublinhado o facto de que Obama chegou à Casa Branca sem qualquer experiência executiva ou empresarial, apontando esse dado como uma forte adversidade de Barack numa altura em que a Economia é, ainda mais, o factor que conta.

A evolução dos próximos meses deverá ser, nesse capítulo, decisiva para Obama: ou o desemprego, que até já começou a decrescer, desce de forma mais acentuada ou ficará difícil vender a ideia de que será ele o candidato da recuperação económica.

É verdade que os EUA foram uma das escassas excepções positivas, em 2011, nas bolsas mundiais: num cenário quase generalizado de perdas enormes, só cinco ou seis países tiveram ganhos: Venezuela, Indonésia, Filipinas, Islândia, América.

Mas isso não chega para quem ainda se pode reivindicar de ser a maior economia do Mundo e o farol das grandes ideias e da inovação.

Ameaçada pelo crescimento exponencial da China, da Índia e do Brasil, a América precisa urgentemente de ganhar gás na Economia, na Inovação e na Ciência.

Obama, que baseou parte da sua campanha nessa ideia, tem falado menos sobre essas questões (o discurso “Winning the Future” terá sido o último grande momento do género), forçado que está a negociar com o Congresso a melhor forma de preparar cortes orçamentais.

Que plataforma para a reeleição?
Dias depois do Iowa, e já com as primárias do New Hampshire e da Carolina do Sul a bater à porta, o foco das atenções dos media, dos ‘pundits’ e das empresas de sondagens está, obviamente, nos candidatos republicanos.

Mas as últimas semanas têm denotado uma tendência consistente de recuperação da Taxa de Aprovação de Obama.

Mesmo assim, não é muito claro, nesta fase, se o Presidente está em condições de conseguir segurar maiorias nos segmentos que o lançaram para a eleição em 2008. Há alguns sinais que apontam para que o eleitorado jovem (que votou em massa em Obama há três anos) tenha fortes movimentações para a abstenção e mesmo para o candidato republicano.

As mulheres, os latinos e os judeus são outros três segmentos a olhar com especial atenção. Sobretudo nos estados do Midwest, a maioria feminina que elegeu Obama em 2008 pode estar em perigo, devido ao desemprego e à Reforma da Saúde (particularmente impopular no eleitorado feminino centrista).

Por enquanto, o voto hispânico continua a pender para Obama, mas é outro segmento que o Presidente poderá ter dificuldade em segurar. E quanto aos judeus, que embora não decidam demograficamente as eleições na América têm sempre um peso muito forte a nível de ‘lobby’ e de financiamento, são votantes de peso em estados como Nova Iorque ou Nova Jérsia, que Obama não poderá dar-se ao luxo de perder em Novembro.

Não se admirem, por isso, que as posições da Administração Obama em relação à questão israelo-palestiniana sejam menos neutrais nos próximos meses. “It’s all about politics”.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Obama aproxima-se da linha verde


Os últimos meses de 2011 revelaram sinais positivos para a Economia americana: o desemprego ainda está alto, mas está no nível mais baixo dos últimos três anos: 8.5%; no mês de Dezembro, foram criados 200 mil novos postos de trabalho na América; a produção industrial está a crescer e a confiança dos investidores dá mostras de reactivação. A dez meses da reeleição, a popularidade de Barack Obama volta a estar perto dos 50 por cento


Obama aproxima-se da linha verde

Por Germano Almeida


“Nos últimos meses de 2011, todos os indicadores decisivos da Economia americana melhoraram: a produção industrial, a confiança dos investidores, vendas de férias, ‘e-commerce’, inflação e emprego. O número de americanos com emprego aumentou. Em quase todos os sectores, a Economia americana está estável, o que é ainda muito diferente de dizer que está robusta ou invulnerável”
Zachary Karabell, economista, historiador e escritor norte-americano


A parte final do ano de 2011 foi politicamente proveitosa para Barack Obama. O Presidente entrou em 2012, ano em que tentará a reeleição, com alguns trunfos na manga.

Focados nas primárias que definirão o nomeado presidencial que irá defrontar Obama a 6 de Novembro de 2012, os republicanos diminuíram o nível de hostilidade no Congresso – num reflexo, também, do menor peso do Tea Party na estratégia e no discurso dos líderes do GOP na House e no Capitólio.

2010 e 2011 foram anos particularmente difíceis para quem está a governar no mundo ocidental. Obama sentiu-o na pele – mas, curiosamente, as partes finais dos últimos dois anos trouxeram vitórias importantes para o Presidente: em 2010 tinha sido a aprovação, com larga maioria, no Senado da ratificação do novo Tratado START; desta vez o final do ano coincidiu com a aprovação no Senado da lei orçamental (traduzida num pacote de medidas de mais de um bilião de dólares, que assegura o financiamento do Estado federal até ao final de Setembro de 2012).

Evitou-se, assim, a paralisia dos serviços administrativos, que chegaram a estar em risco por algumas vezes durante o ano de 2011 (Março, Abril e Setembro), nos diversos momentos de quase ruptura entre democratas e republicanos, só desbloqueados graças a acordos de última hora, que necessitaram da intervenção do Presidente.

Afastado o fantasma do ‘bloqueio’, a Administração Obama está a acelerar a aplicação do prometido Plano de Estímulos ao Emprego. Mesmo sem conseguir aprovar o American Jobs Act na sua globalidade no Congresso, o Presidente tem vindo a adoptar uma estratégia a conta-gotas, com resultados razoavelmente positivos.

Noutra frente, a retirada total do Iraque, mesmo que feita num cenário de ainda muita indefinição sobre o futuro do país sem a presença militar norte-americana, corresponde ao cumprimento de uma das mais importantes promessas eleitorais da campanha presidencial de Obama em 2008.

O melhor valor dos últimos cinco meses
As ondas de choque da crise internacional têm-nos feito distrair de alguns dados animadores para Barack Obama. É que a taxa de popularidade do Presidente atingiu, esta semana, os melhores valores dos últimos cinco meses: 47% no registo diário do Gallup, 45% no Rasmussen Reports, 49% na CNN/Opinion Research Corporation e na ABC/Washington Post.

Estes dois últimos indicadores revelam, aliás, um outro dado significativo: pela primeira vez desde há muito tempo, o Presidente consegue um saldo positivo entre opiniões favoráveis e desfavoráveis (49/48 na CNN/ORC e 49/47 na ABC/WP).

Sinais ainda pouco claros sobre se a popularidade de Obama assumiu finalmente uma tendência consistente de subida, mas que, pelo menos, desmontam a ideia de que o Presidente está condenado a manter-se com uma aprovação a rasar a casa dos 40 por cento.

Dias antes do acordo sobre o aumento do tecto da dívida, em pleno Verão, chegou a bater nos 38 por cento – mínimos da sua Presidência e que começavam a soar à reprovação maciça de que foi vítima o final de mandato de George W. Bush.

A recuperação, lenta mas sustentada, de Obama nos últimos meses tem duas explicações: a melhoria dos indicadores económicos nos EUA, com especial enfoque na diminuição do desemprego (8.5%, valor mais baixo dos últimos três anos, com a criação de 200 mil novos postos de trabalho só no mês de Dezembro) e os acordos obtidos pelo Presidente no Congresso e que permitiram o prolongamento do subsídio de desemprego e reduções de impostos que terminariam no final deste ano para 160 milhões de americanos – e que tiveram a garantia de que os continuarão a receber pelo menos por mais dois meses.

Barack Obama ainda não ultrapassou totalmente o Rubicão da impopularidade. Mas os diversos indicadores começam, a dez meses e meio da reeleição, a sinalizar a aproximação à linha verde.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney lançado, Santorum renascido


Mitt e Ann festejam a vitória no Iowa: o casal Romney parte para o New Hampshire em vantagem, mas os 25% do antigo governador do Massachussets mostram que ainda há reservas no Partido Republicano em relação à nomeação. Rick Santorum, ultraconservador, esteve a oito votos de provocar uma grande surpresa


Romney lançado, Santorum renascido

Por Germano Almeida


O Iowa confirmou o favoritismo de Mitt Romney na corrida à nomeação presidencial republicana, mas a questão está longe de estar fechada.

O antigo governador do Massachussets venceu o estado de arranque por apenas… oito votos (!!) sobre o segundo classificado, Rick Santorum. O antigo senador da Pensilvânia foi a surpresa da noite – e pode ter colocado em risco a estratégia de Newt Gingrich e do próprio Mitt Romney.

Em política, uma vitória é sempre uma vitória: mesmo que tenha sido só por oito votos num universo de 120 mil votantes. Romney marcou pontos e deverá, até, ser o primeiro republicano a vencer as duas primeiras batalhas (Iowa e New Hampshire), desde 1976.

Saiu fortalecida a ideia de que Mitt Romney tem tudo para obter a nomeação – e no ‘day after’ do triunfo no Iowa, Romney até recebeu mais um apoio de peso: John McCain, seu antigo rival em 2008.

Mas permanecem algumas incógnitas em torno da viabilidade do sucesso de Romney: para todos os efeitos, 75 por cento dos eleitores que ontem votaram não o escolheram e isso prova que as bases do GOP ainda não estão convencidas quanto ao «conservadorismo» de Mitt.

A excelente votação de Santorum é um sinal de alarme para Romney. Mitt teve, no Iowa, exactamente a mesma votação de há quatro anos – e isso não é, propriamente, um augúrio de que terá um passeio até à nomeação.

Santorum é o novo caso a seguir
Rick Santorum é o novo ‘case study’ desta tão impressível corrida. Passou meses e meses com valores residuais. Nos primeiros debates, os outros candidatos quase nem se lembravam que ele estava presente.

Foi trabalhando, discretamente, na ideia de que seria o candidato da ala mais à direita com melhores condições de sobreviver ao embate eleitoral. Enquanto Michele Bachmann e Rick Perry se desgastavam, Santorum foi apostando tudo no Iowa.

A sua tentativa de ser o Mike Huckabee do Iowa, quatro anos depois, quase foi premiada com a vitória. Falhou por oito votos o objectivo de terminar em primeiro no estado de arranque, mas saiu do ‘hawk eye state’ muito reforçado.

O antigo senador da Pensilvânia coloca Deus em todo o seu argumentário político. Conseguiu agarrar uma importante fatia do eleitorado evangélico do Iowa que torce o nariz ao facto de Romney ser mórmon e não gosta do passado pessoal de Newt Gingrich.

Com quase o dobro da votação de Newt, Rick Santorum sai do Iowa com fortes hipóteses de roubar a Gingrich o estatuto de principal opositor de Romney.

Newt joga tudo na Carolina do Sul
Um dos perdedores da noite foi, obviamente, Newt Gingrich. Até ao final de Novembro, logo após a queda livre de Herman Cain, o ex-speaker da Câmara dos Representantes assumiu-se como ‘frontrunner’ da corrida.

Inteligente, culto, profundo conhecedor da História da América, Newt era apontado por sectores ligados à zona mais tradicional do Partido Republicano como o melhor candidato entre os sete que chegaram ao ‘caucus’ do Iowa.

Só que Gingrich, um veterano da política americana, tem muitos telhados de vidro.

Com um passado pessoal e familiar atribulado (dois divórcios litigiosos e falhas de carácter dificilmente minimizáveis), Newt foi alvo de fortes ataques por parte dos seus adversários, quando se destacou nas sondagens.

Uma boa parte do seu eleitorado, conservador e muito propenso às questões do carácter e da vida pessoal, assustou-se. Newt passou, em poucas semanas, de líder destacado no Iowa para… o quarto lugar, com apenas 13,3%.

A nível nacional, ainda tem bons números, mas terá que resistir ao teste do New Hampshire de modo a chegar à Carolina do Sul, no dia 21 de Janeiro, em condições de vencer Romney. As próximas semanas serão, por isso, o «make or break» para Newt Gingrich.

Bachmann e Perry ‘out’
Rick Perry foi o grande perdedor da noite. O governador do Texas partiu para esta corrida na ‘pole position’, arrancando no Verão em primeiro lugar. Parecia ter argumentos para agarrar a tese de ser o candidato duro, que representa a ala mais conservadora do GOP. Mas revelou-se um desastre em campanha: mal preparado, mal aconselhado. Os dez por cento no Iowa, estado que tem características que supostamente beneficiariam Rick, atira o ‘cowboy’ para fora do rodeo presidencial.

Outra vítima do Iowa foi Michele Bachmann, ironicamente o seu estado natal. Tinha sido o ‘sabor do Verão’ antes de Perry avançar, energizada pela força do Tea Party e ocupando o espaço deixado vago pela abdicação de Sarah Palin (um dos mistérios desta corrida republicana, depois daquele Tour pela América que a ex-vice de John McCain fez durante dois anos…)

Radical, extremista, incoerente e, em muitos temas, ignorante, Michele Bachmann foi passando do ‘buzz’ mediático para uma progressiva insignificância. Um dia depois do péssimo resultado que teve no Iowa, a congressista do Minnesota anunciou a desistência. Não deixará saudades.

Ron Paul corre por fora
Ron Paul, congressista do Texas que representa a facção libertária do Partido Republicano, sai do Iowa com um sabor agridoce. Teve um grande resultado (21,4% dos votos para um candidato que foi sempre tratado pelo seu partido como estando à margem do sistema) é a prova de que as suas ideias anti-Estado e anti-instituições têm um valor eleitoral inegável.

Não será, certamente, o nomeado, mas passou, desde ontem, a ser um dos ‘wild cards’ desta corrida. A partir de agora, o ‘establishment’ do GOP já não pode desdenhar as visões desalinhadas e, em muitos casos, radicais deste médico de 76 anos que consegue ter forte apelo junto do eleitorado mais jovem.

Próxima paragem: New Hampshire
Cumprido o estado de arranque, a próxima paragem neste longa jornada é já na terça-feira, dia 10, no New Hampshire, naquela que será a primeira batalha desta corrida em sistema tradicional de «primárias», por voto secreto em urna. O ‘granite state’ é um estado bem maior que o Iowa, menos conservador e mais diverso.

As sondagens dão um enorme avanço a Mitt Romney, mas o ‘momentum’ ganho por Santorum no Iowa pode alterar os dados nos próximos dias.

Se não houver uma alteração dramática na corrida até dia 10, Romney vencerá o New Hampshire com uma diferença significativa sobre os adversários (talvez de 20 ou 25 pontos), estando a grande questão reservada para o segundo classificado neste segundo round: Gingrich, Santorum ou Huntsman?

Jon Huntsman, que não foi a jogo no Iowa, aposta tudo no New Hampshire, mas precisava que Mitt Romney se saísse pior na estreia para defender a tese de que é o candidato centrista ideal para os republicanos nesta fase. Se não conseguir, pelo menos, o segundo lugar no ‘granite state’, o antigo governador do Utah só tem uma alternativa: desistir da corrida.

Iowa: Romney vence por oito votos e está lançado para o New Hampshire



RESULTADOS FINAIS DO IOWA
Mitt Romney - 24.6%
Rick Santorum - 24.5%

Ron Paul - 21.4%
Newt Gingrich - 13.3%
Rick Perry - 10.3%
Michelle Bachmann - 5%
Jon Huntsman - 1%

Notas breves sobre o 'caucus' do Iowa:
Romney confirmou-se como favorito à nomeação e deve ganhar o New Hampshire por diferença superior a 20 pontos;

Rick Santorum pode agarrar o voto conservador, mas tinha que vencer ontem para ameaçar a 'inevitabilidade' de Romney;

Gingrich jogará tudo na Carolina do Sul, a 31 de Janeiro; Ron Paul corre por fora;
Rick Perry e Michele Bachmann estão 'out'

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney já lidera e começa a ser inevitável


George H. Bush, Presidente dos EUA entre 1989 e 1993, apoia a candidatura de Mitt Romney, em mais um sinal de que o ex-governador do Massachussets começa a ser olhado como «inevitável» pelo 'establishment' do Partido Republicano


Romney já lidera e começa a ser inevitável

Por Germano Almeida


"Mitt Romney não é conservador - mas eu quero ganhar"
Charles Krauthammer, destacado comentador de tendência conservadora, num sinal de que defende a nomeação de Romney como única forma de o Partido Republicano poder derrotar Obama em Novembro de 2012


No dia do arranque das primárias do Partido Republicano, a nomeação de Mitt Romney começa a parecer a narrativa mais sustentável.

Ainda não se trata da tal «inevitabilidade» que alguns analistas defenderam quando o ex-governador do Massachussets lançou a sua candidatura – mas decorre de uma leitura que muitos já estão a fazer.

A questão que se coloca quando se inicia um processo de nomeação presidencial de um grande partido do sistema é esta: qual é o candidato que está melhor colocado para oferecer aos delegados da respectiva convenção partidária uma vitória em Novembro seguinte, nas eleições gerais?

Depois de meses de hesitações e dúvidas, parece que o ‘establishment’ republicano já se decidiu por este empresário de sucesso, com 64 anos mas aparência ainda jovem, mórmon de religião embora com credenciais de governação num dos estados mais liberais dos EUA -- o Massachussets, em plena Costa Leste, bem longe de… Salt Lake City, Utah.

O recente ‘endorsement’ do Presidente George H. Bush (Bush pai) é uma boa prova desta tendência e junta-se a outros apoios de relevo no espectro republicano, como a governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, o governador da Nova Jérsia, Chris Christie, ou o senador e antigo candidato presidencial republicano, Bob Dole.

O antigo Presidente George H. Bush justificou a sua opção referindo que Romney é «o candidato que oferece mais experiência, estabilidade e princípios».

Mesmo elementos destacados do Tea Party, como Christine O’Donell, já declararam apoio a Romney, num sinal de que Mitt pode conseguir chegar ao lado mais radical da Direita americana – embora não se integre, claramente, nesse sector.

Também os principais jornais nacionais e estaduais norte-americanos que já declararam os seus respectivos apoios oficiais (tradição antiga nos EUA e que contrasta com a suposta neutralidade dos títulos europeus) têm dado clara preferência a Romney.

O que continua a ser estranho é que esse apoio do establishment ainda não corresponde a uma liderança de Romney nas sondagens nacionais -- mas a verdade é que Mitt tem subido dia após dia, a ponto de, no Iowa, já surgir na frente das pesquisas feitas nos últimos dias.

Mesmo em queda, Gingrich mantém um ligeiro avanço na média das pesquisas nacionais, sendo que, no Iowa, Ron Paul liderou a maioria das sondagens até ao Natal. Em queda livre no Iowa, Newt já admitiu que não irá ganhar o estado de arranque -- e tem perdido os votos da ala direita do GOP para Rick Santorum (que poderá ser a surpresa da votação de amanhã).

Trocado por miúdos, o ponto da situação na corrida do GOP, quase no arranque oficial, é este: Romney não é o preferido da base conservadora, mas no fundo, no fundo, os eleitores republicanos sabem que a única hipótese que têm de escolher um candidato que derrote o Presidente Obama é nomear Romney...

Sinais de fraqueza
Enquanto Mitt vai consolidando a sua caminhada para a nomeação com apoios de peso e a noção de ser o único «presidenciável» de um leque de candidatos muito pouco recomendáveis, os seus adversários vão tropeçando nas suas próprias fraquezas.

A queda de Newt (que até já admitiu que, provavelmente, não ganhará no Iowa) pôs a nu mais uma perplexidade desta louca corrida republicana para 2012: o ex-speaker do Congresso, líder da «maioria moral» que tentou trucidar Bill Clinton na década de 90, pouco ou nada traria de novo à política americana.

Numa altura em que o ambiente em Washington é quase irrespirável, tamanha é a divisão e o clima de bloqueio, uma Presidência Gingrich seria andar ainda mais para trás.

A falta de mobilização da candidatura Gingrich teve como consequência recente o afastamento de Newt das listas para as primárias da Virgínia. Não sendo um estado-chave, trata-se de um estado importante para a dinâmica desta corrida (e, curiosamente, Gingrich até liderava as sondagens na Virgínia).

O comité eleitoral da Virgínia exigia dez mil assinaturas validadas para aceitar cada candidatura. Gingrich, apesar de ainda ser o frontrunner, não reuniu o número necessário, o mesmo tendo acontecido com os candidatos Rick Perry, Michele Bachmann e Jon Huntsman.

Caminho aberto, por isso, para que Romney apanhe uma grande quantia dos 49 delegados reservados para a Virgínia.

E se Romney ganhar no Iowa?
Quer isto dizer que Mitt Romney pode atingir uma vantagem já muito confortável na Super Terça-Feira, a 6 de Março – mesmo que não ganhe no Iowa.

Basta olhar para o calendário e seguir a lógica: Romney vencerá, tudo indica, no New Hampshire, com um forte avanço; seguem-se a Carolina do Sul (21 de Janeiro, provável disputa Gingrich/Romney ) e a Florida (31 de Janeiro, provável vitória Romney).

Ainda antes da Super Terça-Feira, temos os ‘caucuses’ do Nevada, Maine, Colorado, Minnesota e Washington (com prováveis vitórias Romney em três ou mesmo quatro desses estados) e, ainda, as primárias no Arizona e no Michigan -- Gingrich lidera no Arizona, mas Romney deve vencer no Michigan, estado do qual o seu pai foi governador.

E se, antes de tudo isso, Romney ainda conseguir vencer, esta noite, no Iowa? Bom, então nesse cenário, a pré-anunciada «longa corrida pela nomeação republicana» poderá ser encurtada para a história da inevitabilidade de Mitt Romney.

O que os eleitores do Iowa vierem a dizer no ‘caucus’ ajudará a
clarificar o filme da corrida republicana - mas convém lembrar que, há exactamente quatro anos, John McCain foi apenas quarto no estado de arranque, mas foi ele quem, no fim, arrecadou a nomeação...

O Iowa é já hoje: Romney e Paul quase empatados



Last call for Iowa:

Romney 23%; Ron Paul 22%;
Santorum 18%; Gingrich 16%; Perry 10%; Bachmann 6%; Huntsman 2%

Newt Gingrich já admite que vai perder no Iowa.
http://reportergary.com/2012/01/newt-i-wont-win-in-iowa/

Se Romney vencer o estado de arranque, pode ganhar no New Hampshire, daqui a uma semana, um avanço já muito considerável para a nomeação republicana...

E atenção a Rick Santorum: fez um final de campanha muito forte no Iowa e parece estar a agarrar os eleitores evangélicos que torcem o nariz ao facto de Romney ser mórmon.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Seja o que Deus e o Iowa quiserem


Mitt Romney, Newt Gingrich e Ron Paul: os primeiros dois vão discutir a nomeação republicana para 2012, mas o congressista do Texas está muito forte no Iowa e pode baralhar as contas ao favoritismo do antigo speaker da Câmara dos Representantes. Romney aposta tudo no New Hampshire e na ideia de ser mais «presidenciável» do que Gingrich


Seja o que o Deus e o Iowa quiserem

Por Germano Almeida



Numa corrida à nomeação republicana, a palavra «Deus» tem sempre importância. Mas há outra que também irá contar muito para a dinâmica deste tão imprevisível combate: e essa palavra é... «Iowa».

De quatro em quatro anos, este pequeno estado do Midwest ganha uma importância inusitada na corrida eleitoral à presidência dos Estados Unidos da América.

Manda a tradição que as primárias tenham no Iowa o seu estado de arranque. E isso pode ter uma enorme relevância na decisão sobre os nomeados.

Em ciclo de eventual reeleição do Presidente em funções (Barack Obama), desta vez a incógnita só se põe num dos lados da barricada.

E que incógnita: os últimos meses foram férteis em mostrar que a disputa pela investidura republicana para 2012 navega ainda num terreno indefinido, sendo pouco claro quais os dados que acabarão por determinar o desfecho da corrida.

A 16 dias do ‘caucus’ do Iowa, Newt Gingrich continua à frente, mas tem vindo a perder, nos últimos dias, alguns pontos num avanço que, até ao início de Dezembro, parecia ser folgado.

Desde que assumiu a liderança das sondagens, o ex-speaker da Câmara dos Representantes passou a estar sob fogo dos seus adversários. Mas ao contrário do que sucedeu com os anteriores frontrunners, Herman Cain e Rick Perry, não se tem saído mal com o embate e ainda não cometeu gaffes comprometedoras.

O Iowa é um estado com uma percentagem de eleitorado branco muito superior à média nacional. Tendo uma população pequena para a realidade americana, conta pouco para o Colégio Eleitoral, mas a sua localização geográfica ajuda a servir de barómetro para corridas mais significativas.

O problema é que é muito difícil fazer previsões sobre os resultados naquele pequeno, mas importante, estado: o sistema que por lá continua a vigorar não é de voto secreto em urna, mas de vários ‘caucuses’: assembleias de vizinhos que definem, de forma colectiva, que candidato apoiar.

Não será, por isso, de estranhar se os resultados de 3 de Janeiro próximo foram diferentes daqueles que as sondagens vierem a indicar.

Romney prepara o pós-Iowa
Se Gingrich vencer o primeiro combate, obtém a legitimação da sua recente condição da ‘frontrunner’. Mas a dinâmica do resto da corrida faz colocar o Iowa como um ‘must-win-state’ para Newt: é que o estado seguinte, o New Hampshire, terá Mitt Romney como vencedor quase certo – e o recente apoio da governadora Nikki Haley, uma 'rising star' do conservadorismo americano, coloca Romney com boas hipóteses no terceiro desafio, a Carolina do Sul (a 21 de Janeiro).

Apesar das óbvias dificuldades em descolar dos 30 por cento de preferências republicanas (valor manifestamente baixo para quem pretende ser o nomeado), Mitt Romney continua a apostar na via do «candidato legítimo».

Nos últimos dois debates, tentou mostrar que não está assustado com o «momento Gingrich» e não foi atrás da regra de atacar directamente quem está a liderar a corrida. Preferiu continuar a assestar baterias para o Presidente, lançando, repetidamente, a farpa ao agora também candidato Barack Obama: «Para se poder prometer empregos, convém ter-se criado empregos».

Desde que não tenha um resultado desastroso no Iowa, Romney continua a ser a carta mais temível para Obama.

Não subestimem Ron Paul
Talvez já seja tarde para antecipar outro cenário que não seja o de um duelo Romney/Gingrich para a nomeação. Mas parece cada vez mais provável que, desta vez, Ron Paul, o candidato libertário, é mesmo para levar a sério.

O discurso frontal e desconcertante de Paul sempre teve uma base fiel de apoio – mas os media nunca o encararam como um candidato credível para sonhar com a nomeação.

Os números mais recentes no Iowa apontam para que Ron Paul fique pelo menos em segundo lugar, não estando afastada a hipótese de ainda ultrapassar Gingrich no estado de arranque.

Mesmo que o Iowa premeie a persistência do congressista do Texas, que já vai na terceira candidatura à presidência, Paul não será, certamente, o nomeado republicano para 2012.

Mas quem o subestimar pode vir a ter uma grande surpresa.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Romney 'vs' Gingrich - quem diria?


Mitt Romney e Newt Gingrich: a menos de um mês do Iowa, os dados parecem apontar para este duelo na corrida à nomeação republicana. Ou será que ainda há tempo para mais uma surpresa?


Romney ‘vs’ Gingrich: quem diria?

Por Germano Almeida



A menos de um mês do ‘caucus’ do Iowa, momento que marcará o arranque das primárias, começa, finalmente, a fazer algum sentido a dinâmica de uma corrida que, nos últimos meses, pareceu ter contornos… esquizofrénicos.

A desistência de Herman Cain, ditada pelos escândalos sexuais que perturbaram a parte final campanha do empresário afro-americano que defendia o plano 9-9-9, ajuda a definir a questão central num duelo entre Mitt Romney e Newt Gingrich.

Romney, mais moderado, será, à primeira vista, um osso mais duro para Obama roer na eleição geral, dada a sua maior capacidade de disputar com o Presidente o eleitorado do centro e mesmo alguns sectores democratas desiludidos com a Presidência Obama.

Mas Gingrich, ressuscitado nas suas aspirações presidenciais depois de um início desastroso (em que parecia que tudo de negativo que poderia acontecer sucedia mesmo), pode mesmo arrebatar a nomeação republicana – e lançar uma narrativa de um republicano mais clássico e capaz de mobilizar a base conservadora contra o Presidente.

Romney e Gingrich são políticos muito diferentes. Apesar de terem apenas quatro anos de diferença (Mitt tem 64, Newt 68), o ex-governador do Massachussets exala uma imagem de maior juventude.

Gingrich, de cabelo branco há muitos anos e com uns quilos a mais, não preenche os requisitos ditados por esta sociedade da imagem. Mas tem uma carreira política longa e recheada (com altos e baixos) e fortes credenciais nos debates.

Tem uma melhor preparação política que Romney e dispõe de um conhecimento sobre a história norte-americana muito superior a qualquer outro candidato republicano.

Mitt calculista, Newt indisciplinado
Mitt tem como pontos fortes a experiência de 2008, a capacidade de desafiar Obama em estados-chave como o Ohio, a Pensilvânia, a Florida ou o Michigan e, é claro, a maior abrangência eleitoral.

Newt apostará no seu passado como ‘speaker’ de um Congresso que fez a vida negra a Bill Clinton – sendo que esta eleição de 2012 poderá ter alguns pontos de contacto com os dados que levaram Clinton à reeleição em 1996, dois anos depois de ter perdido o controlo da House e do Capitólio para os republicanos.

Mais previsível e calculista, Romney deverá, à primeira vista, criar mais dificuldades ao Presidente. Gingrich segue menos as regras do marketing político.

Por vezes, chega a ser politicamente incorrecto – mas consegue fazer melhor a identificação com os eleitorados que necessita agarrar: os republicanos clássicos e a base conservadora que se ‘desviou’ para terrenos próximos do Tea Party.

Seja Romney ou Gingrich o nomeado, parece já certo que Barack Obama não terá propriamente um passeio para a reeleição, dentro de 11 meses.

O Iowa aqui tão perto
A três semanas do Iowa, as sondagens dão Gingrich à frente. Mas continua tudo completamente em aberto. Por esta altura, há quatro anos, nas primárias democratas quem liderava no Iowa era… John Edwards.

O ‘caucus’ do Iowa não é uma votação normal. Os resultados decorrem de assembleias de vizinhos que se reúnem e decidem, em conjunto, que candidato apoiar. Da soma das diferentes assembleias surgem os votos em cada um.

Há quatro anos, essa estranha forma de se escolher representantes políticos em pleno século XXI foi o empurrão decisivo para Obama na corrida democrata – mas o péssimo resultado de McCain não o impediu de garantir, mais tarde, a nomeação republicana.

É preciso, por isso, admitir todos os cenários perante um terreno tão imprevisível como é uma corrida presidencial nos EUA.

Iô-iô
A actual liderança de Newt Gingrich nas sondagens da corrida republicana é a mais recente surpresa do autêntico iô-iô que têm sido as pesquisas para se tentar perceber quem está melhor colocado para desafiar a reeleição de Obama.

Primeiro, foi Romney a aparecer à frente. Mas as dificuldades em segurar o eleitorado mais à direita, que não gosta dele, rapidamente mostraram que Romney terá dificuldades em «descolar» dos 25/30 por cento -- e precisa de bem mais para atingir a nomeação.

Perante a demora de Sarah Palin (que acabou mesmo por não avançar), quem aproveitou
o espaço à Direita foi a congressista do Minnesota, Michele Bachmann. Só que o excessivo radicalismo da candidata -- uma espécie de Sarah Palin do Midwest (um pouco menos ignorante, mas a acusar também falta de preparação política para ser Presidente) – foi fatal para esta ‘Tea Party darling’ que defende que «a mulher deve ter uma atitude submissa para com o marido».

No final do Verão, eis que surge em força Rick Perry. Com ares de cowboy do Texas, prometia discurso duro contra Obama e chegou a ter larga vantagem sobre Romney. Mas não resistiu aos debates, onde foi somando ‘gaffes’ e erros de palmatória. Já esteve acima dos 30%. Agoniza agora pelos cinco a sete.

Chegou, então, a vez de Herman Cain, um afro-americano de discurso populista, a roçar o anti-político, com apoios muito à Direita e uma solução simplificada para a questão fiscal.


Herman Cain passou da liderança à desistência em poucos dias. Falta saber quem irá agarrar os apoios do empresário afro-americano de perfil populista

Deu para assustar Romney e foi preciso ser alvo de ataques fortíssimos para se afastar. Não resistiu às acusações de infidelidade e assédio sexual – e atirou a toalha ao chão há poucos dias.

Enquanto acontecia este iô-iô (em que Romney se mantinha pelos 20/25 por cento e um dos seus opositores, à vez, lhe passava à frente e depois caía…), Ron Paul, um candidato geralmente subestimado pelo ‘mainstream’ media, mantém-se com apoios na ordem dos 15/18 por cento – que até o colocam com algumas aspirações de vitória no Iowa.

Libertário, defende a supressão de instituições como a ONU ou a NATO e é contra impostos e outro tipo de intromissões do Estado. Não será o nomeado, mas pode vir a fazer mossa nos apoios mais previsíveis para Romney e Gingrich.

Ainda há um monte de dúvidas no campo republicano, mas à medida que se aproxima o ‘caucus’ do Iowa, esta história começa a fazer sentido. Pelo menos, parece.

Herman Cain desiste


Herman Cain, 65 anos, chegou a liderar a corrida republicana, mas não resistiu às acusações de infidelidade e assédio sexual - e atirou a toalha ao chão.

Afro-americano, homem de negócios, não tem passado político (nunca foi eleito), mas somou pontos com um plano fiscal simples e atractivo para a base conservadora.

Foi o fenómeno do mês de Outubro, mas não sobreviveu aos ataques que apareceram por estar à frente. A questão que agora se coloca é: quem agarrará o seu discurso populista?

Com Rick Perry e Michele Bachamann pelas ruas da amargura, e Ron Paul forte no Iowa mas sem capacidade nos grandes estados, a questão, na nomeação republicana, deverá residir entre Mitt Romney e Newt Gingrich.


Faltam 30 dias para o caucus do Iowa

Texto de Kyle Adams, no Real Clear Politics:

«Hobbled by accusations of sexual harassment and infidelity, Republican presidential candidate Herman Cain announced Saturday that he is suspending his campaign.

Appearing at the opening of a new campaign office in DeKalb County, Ga., Cain praised his supporters, lambasted the media and touted the success of his campaign before announcing that because "false and unproved" accusations had taken a "painful" toll on his family, he was suspending his campaign.

However, he vowed to continue making the case for his policies, including the 9-9-9 tax plan ("It's not going away," he said), and announced the launch of a new website, TheCainSolutions.com. He also said he would make an endorsement in the GOP race "in the near future."

After walking off his campaign bus with his wife, Gloria, he opened his speech by thanking supporters and discussing his motivation for running for office before announcing the end of his campaign.

"I am suspending my presidential campaign because of the continued distraction, the continued hurt caused on me and my family, not because we are not fighters, not because I'm not a fighter," he said. "It's just that when I went through this reassessment of the impact on my family first, the impact on you, my supporters -- your support has been unwavering and undying -- as well as the impact on the ability to continue to raise the necessary funds to be competitive, we had to come to this conclusion."

Politico reported on Oct. 31 that two women accused Cain of inappropriate behavior during his time as the head of the National Restaurant Association. In early November, another woman, Sharon Bialek, publicly accused Cain of sexual harassment. Cain has maintained that he never harassed anyone.

This week, an Atlanta woman, Ginger White, came forward and said that she had a 13-year affair with the businessman. Cain has admitted to giving her money but denies the affair.

After surging into first place in several national polls in late October and early November, Cain has seen his support erode over the past few weeks. A Rasmussen Reports poll released Thursday showed him with only 8 percent support.

His support in Iowa has plunged as well. He has dropped to 8 percent in the latest Des Moines Register Iowa poll, down from 23 percent in late October.»

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Barack desafia o seu mantra


Convencer pela força da palavra e da retórica que está em melhores condições para resolver a crise. Eis o destino de Barack Obama, a um ano de tentar a reeleição


Barack desafia o seu mantra

Por Germano Almeida


Edith: Não te preocupes, Arch. O Presidente Roosevelt disse um dia que a “única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo”.
Archie Bunker: Pois, mas ele disse isso porque tinha emprego.

(diálogo na série “All in The Family”, sitcom produzida pela CBS entre 1971 e 1979, que em Portugal teve o título “Uma Família às Direitas”)


«Acho que a polarização de posições não tinha atingido este rubro desde o tempo da presidência Lincoln, que foram tempos de guerra civil, fim da escravatura, tudo. O fenómeno actual é particularmente interessante. O que tem acontecido com frequência, ao longo da nossa História, é a franja da extrema-esquerda puxar os democratas para tão longe que, no fim, não conseguem governar, porque não obtêm maiorias suficientes. Agora é o oposto. Com o Tea Party, a guinada foi para a direita. O meio já não é o que era. (…) Mas também acho que esta fase da política americana não vai durar muito mais tempo. Só pode ser um fenómeno cíclico. Vai mudar, garanto. Mas, por enquanto, verdade seja dita: o espectáculo é terrivelmente triste»
GEORGE CLOONEY, actor e realizador norte-americano, apoiante de Barack Obama desde a primeira hora, em entrevista à Revista Única, do Expresso


Quando um dos maiores apoiantes de Barack Obama, que agora no cinema é Mike Morris (um governador democrata da Pensilvânia que concorre à Casa Branca em "Ides of March"), fala assim sobre o ambiente político que tem dominado os corredores de Washington nos últimos três anos, é preciso tirar conclusões.

Obama foi eleito sob duas plataformas que, nalguns aspectos, poderiam parecer contraditórias, mas que no candidato democrata pareciam poder ser conjugáveis: a conciliação e a transformação.

Se o lado da «change» só pôde durar enquanto Barack teve respaldo no Congresso (começou o mandato com uma Super Maioria democrata no Senado e uma larga maioria na Câmara dos Representantes), Novembro de 2010 foi a marca da viragem: sem interlocutor válido no campo legislativo, deixou de ser viável prometer uma mudança real em matérias fundamentais.

Do ponto de vista político, o da estratégia de condução desta Presidência, foi uma atitude racional, esse «recentramento» assumido desde o discurso do Estado da Nação de 27 de Janeiro de 2010 – e posto em prática nos meses a seguir.

Esta linha de rumo exigiria a refinação da outra faceta de Barack Obama: a conciliação. O de acreditar que ele seria o único político capaz de estabelecer pontes, nivelar diferenças, absorver divergências num país tão vasto, díspar e heterogéneo como são os Estados Unidos.

Mas o que já não estaria nas previsões do 44º Presidente dos EUA seria este clima tão bem descrito por George Clooney, no excerto acima mencionado.

O mantra de Obama parece ser, por isso, o de encontrar consensos onde parece só haver hostilidade. O de suavizar tensões quando, na América -- um país que durante décadas foi cimentando o seu sistema político num regime bipartidário que relegava grupos políticos e sensibilidades ideológicas minoritárias para nichos que quase não conseguiam visibilidade mediática – se começam agora a ver movimentos que reivindicam independência em relação a democratas e republicanos (à extrema-esquerda, o Occupy Wall Street; à extrema-direita, as reminescências do Tea Party, agora em declínio).

De novo a solução?
Identificado o problema, sublinhado o incómodo de ver uma sociedade como a americana, que historicamente tem sabido unir-se nos momentos fundamentais em torno de um profundo sentimento de «nação» (em contraponto, por exemplo, com a Europa), assim tão fracturada, falta saber onde está a solução para a tal «polarização de posições».

Olhando para o quadro actual, vemos que o político que está em melhores condições para dar o salto em frente continua a ser Barack Obama.

Mesmo comparando com Mitt Romney (o pretendente republicano mais moderado), Obama continua a ser olhado pelos americanos como tendo «o melhor quadro de valores», «a melhor preparação» e «mais capacidade para se entender com o outro lado».

Dito de outro modo: as pessoas continuam a gostar de Obama, e apreciar as suas qualidades políticas. Só não conseguem é aprová-lo em massa como Presidente, em tempos sombrios como este. Como disse recentemente o ex-Presidente Bill Clinton, «Obama tem feito um trabalho muito melhor do que o crédito que lhe dão».

Mas não deixa de ser significativo que, com uma taxa de desemprego ainda nos nove por cento, Obama esteja bem colocado para sonhar com a reeleição daqui a um ano – quando, historicamente, nenhum Presidente anterior garantiu um segundo mandato com uma taxa de desemprego superior a 7,5%.

É essa, por isso, outra sina de Obama: convencer com o poder da palavra e dos discursos (o seu ponto forte) uma larga fileira de desempregados norte-americanos que está em melhores condições de responder à crise do que qualquer candidato republicano.

Será que, também nesse aspecto, Barack será capaz de desafiar o seu mantra?

O texto 100
Com esta crónica, a rubrica «Histórias da Casa Branca» atinge o texto 100.

Começou em Junho de 2009, dando o nome a um espaço que se criava no site de «A Bola», secção Outros Mundos. Prosseguiu apenas neste blogue, numa cadência semanal, por vezes com mais frequência ainda (sempre que o momento o justifica), num acompanhamento permanente da Administração Obama.

A partir de hoje, com nova imagem gráfica e com o relógio já em contagem decrescente – falta menos de um ano para as eleições presidenciais de Novembro de 2012. Continuaremos por cá, então.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Entrevista na Antena 1, a um ano das eleições presidenciais de 2012


http://tv1.rtp.pt/antena1/index.php?t=Entrevista-a-Germano-Almeida.rtp&article=4260&visual=11&tm=16&headline=13&fb_source=message

Entrevista a Ricardo Alexandre, emitida na Manhã 1 de segunda-feira, 7 de Novembro (versão integral) e no Visão Global, de 6 de Novembro

VISÃO GLOBAL
http://tv3.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=2311&e_id=&c_id=1&dif=radio

domingo, 6 de novembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Um ano para merecer mais quatro


Barack Obama 2012: falta precisamente um ano para saber se a campanha da reeleição será premiada, mas os valores já angariados apontam para um recorde. Conseguirá o Presidente transformar essa capacidade de atracção em votos?


Um ano para merecer mais quatro

Por Germano Almeida


A 6 de Novembro de 2012, daqui a precisamente um ano, será realizada a 57.ª eleição presidencial nos Estados Unidos da América. Poderá indicar o nome do 45º Presidente dos EUA, no caso de o vencedor vir a ser o nomeado do Partido Republicano, ou então marcará a confirmação do segundo mandato de Barack Obama.

Pela primeira vez no seu improvável percurso, o actual Presidente, quarto mais jovem de sempre a ocupar a Casa Branca por eleição, não estará no lugar do ‘outsider’ que desperta todas as simpatias. O estigma da culpa por estar associado a três anos de terríveis dificuldades para quem governa vai marcar um facto novo nos dados que, até 2008, pareciam estar destinados a favorecer a fortuna de Barack.

Obama não poderá ser, desta vez, o ‘underdog’ que, a partir de 2007, começou a ameaçar, de forma inesperada mas arrasadora, o super-favoritismo de Hillary Clinton.

Mas a narrativa segundo a qual Obama está condenado ao fracasso já esbarrou demasiadas vezes na realidade. É ainda cedo para saber se tal voltará a acontecer nas próximas eleições presidenciais, mas a verdade é que Barack ainda tem um ano para provar merece mais quatro. E, como bem lembrou o comentador de tendência conservadora Charles Krauthammer, «convém não subestimar as extraordinárias qualidades políticas do 44º Presidente dos EUA».

Sinais contraditórios
No calendário exigentíssimo da política americana, um ano não é assim tanto tempo. E vale a pena lembrar-nos como as coisas estavam em Novembro de 2007, quando faltava precisamente um ano para as anteriores eleições presidenciais: Hillary liderava as sondagens nacionais do Partido Democrata, com mais de dez pontos de vantagem sobre Obama, ainda que Barack já alimentasse algumas esperanças de vir a surpreender no ‘caucus’ do Iowa, que marcaria o arranque das primárias, a 3 de Janeiro.

No lado republicano, Rudy Giuliani aparecia à frente das sondagens nacionais. John McCain e Mitt Romney apareciam como eventuais desafiadores ao alegado favoritismo do ex-mayor de Nova Iorque. Em alguns estados do Sul, surgia bem colocado um ex-pastor baptista com ar bem-disposto e um discurso incrivelmente duro: Mike Huckabee.

Dois meses depois, no arranque das primárias, os supostos favoritos, Hillary e Giuliani, perdiam o primeiro combate para Obama e Huckabee.

É, por isso, muito arriscado ter certezas nesta altura. Mas os ‘forecasts’ apontam para que Obama tenha fortíssimas hipóteses de se reeleger desde que o seu adversário não se chame Mitt Romney.

Se o escolhido dos republicanos vier mesmo a ser o ex-governador do Massachussets, homem de negócios bem-sucedido e mórmon de religião por herança familiar, então aí o grau de incerteza será bem maior.

A evolução da taxa de desemprego nos EUA será outro barómetro do comportamento eleitoral: até hoje, nunca um Presidente americano conseguiu reeleger-se com uma taxa de desemprego acima dos 7,5 por cento. Ora, neste momento, esse indicador é de 9,1. No mínimo, preocupante, não será Barack?

A maratona ainda nem sequer vai a meio
Numa louca maratona que nem sequer chegou a meio, Obama já começou a repartir as suas atenções entre as prioridades da governação (agora claramente centradas no ataque ao desemprego, com a aposta, junto da opinião pública, nas virtudes do seu American Jobs Act) e a campanha para a reeleição, focada nos estados-chave do Midwest.

Nessas incursões pela ‘real America’, Barack tem insistido numa ideia forte: em apenas três anos na Casa Branca, já conseguiu cumprir perto de 60 por cento da missão a que se propôs junto dos americanos – mas precisa de mais cinco anos (o que falta cumprir, ao que se juntariam os quatro de um segundo mandato) para concretizar o mais difícil (e que estará no que o Presidente considera ser os 40 por cento restantes).

Apesar de tantos espinhos que andam aí pelo caminho, nestes tempos sombrios do declínio da globalização (pelo menos a que conhecemos até agora), se olharmos com atenção percebemos que o candidato que está em melhores condições de cortar a meta em primeiro lugar, de hoje a um ano, nesta louca maratona eleitoral americana, continua a chamar-se Barack Obama.