sexta-feira, 16 de março de 2012

«Razão e Liberdade - O Pensamento Político de James Madison»



O meu caro "colega" blogger José Gomes André, co-autor do «Era Uma Vez na América» e um dos maiores especialistas em política norte-americana da nossa praça, tem um novo livro, sobre James Madison, o quarto Presidente da história dos EUA, com o título apropriado de «Razão e Liberdade».

A apresentação está marcada para 19 de Março, segunda-feira, às 18h30, na FNAC do Colombo, em Lisboa, e será feita por Viriato Soromenho Marques. A obra tem a chancela da Esfera do Caos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney não conseguiu fechar a questão


Mitt Romney venceu, mas ainda não convenceu: precisava de vitórias mais gordas para travar, de vez, as críticas de que não é um candidato mobilizador, capaz de representar todos os sectores do Partido Republicano


Romney não conseguiu fechar a questão

Por Germano Almeida


Mitt Romney foi vencedor matemático da Super Terça-Feira, mas perdeu mais uma oportunidade para fechar a questão da nomeação.

O ex-governador do Massachussets saiu da noite eleitoral mais importante da corrida republicana com vantagens mais largas em todos os aspectos: ainda mais estados, ainda mais votos, ainda mais delegados. Arrecadou o grande prémio da noite, o Ohio, ainda que por uma margem muita curta (12 mil votos num universo de um milhão). Tem, por isso que ser considerado o vencedor da noite.

O problema é que os “fantasmas” que têm perseguido Romney nesta longa corrida continuam lá todos: Mitt perdeu o Sul para Santorum (e para Gingrich, na Geórgia); perdeu as zonas rurais e em muitos dos condados dominados pelo eleitorado “blue collar”. Precisava de uma vitória mais retumbante para passar a ideia de que é mesmo «inevitável».

Romney arrecadou seis estados: Ohio, Massachussets, Virgínia, Vermont, Idaho e Alasca. Santorum ficou com o Oklahoma, o Tennessee e o Dakota do Norte. Newt Gingrich arrebatou o seu estado natal, a Geórgia.

Após a Super Terça-Feira, a contagem dos delegados é esta: Romney lidera com 354, seguido de Santorum, com 147. Gingrich tem apenas 84 e Ron Paul é um candidato marginal, com 54.

O Ohio voltou a ser o espelho
A distribuição de votos no Ohio é um bom exemplo das diferenças entre Romney e Santorum: Mitt, mais rico e sofisticado, teve apoios nas cidades e nos extractos mais altos; Rick, mais conotado com sectores da base conservadora, teve vantagem nos trabalhadores “blue collar” e nas zonas rurais.

É verdade que o Ohio tem quase um poder mágico nas eleições americanas. Desde 1964 que quem vence no Ohio, na eleição geral, é eleito Presidente. Mas, nas primárias, as coisas não são exactamente assim: há quatro anos, na corrida democrata, por exemplo, Hillary derrotou Obama no Ohio por dez pontos, mas nem assim evitou a nomeação de Barack.

Já se sabia que esta Super Terça-Feira não iria ser decisiva. Primeiro, porque foi bem menos influente do que em 2008: há quatro anos, foram disputados, num só dia, 23 estados. Desta vez, apenas dez foram a jogo.

Depois, porque do ponto de vista matemático, há muito ainda em aberto. São necessários 1.144 delegados para obter a nomeação – e Romney saiu desta Super Terça-Feira com pouco mais de 350.

A corrida vai, por isso, prosseguir, com o Alabama, o Mississipi, o Kansas e o Havai, já na próxima semana. Para mais, os estados com mais delegados para distribuir (Nova Iorque, Califórnia, Texas, Nova Jérsia) só vão a jogo entre o final de Abril e Junho. E, pelo andar da carruagem, ninguém conseguirá atingir o número mágico antes disso.

Santorum, um católico filho de emigrantes italianos, passou no teste dos estados do Sul: ganhou claramente no Tennessee e no Oklahoma e ainda arrecadou o Dakota do Norte (que há quatro anos foi de Romney).

Somou muitos delegados, assumiu-se, de modo definitivo, como o «candidato anti-Romney». Mas continua muito atrás de Mitt na contagem dos delegados e, ao perder o Ohio para o seu rival, falhou mais um objectivo simbólico: depois de ter perdido no Michigan na recta da meta, deixou escapar o Ohio também nos últimos dias.



Rick Santorum falhou o Ohio por muito pouco, mas as vitórias claras no Oklahoma e no Tennessee dão-lhe argumentos para se assumir como o "anti-Romney"


Rick liderou as sondagens no 'swing state' mais influente das presidenciais americanas nas últimas semanas. Mas este terá sido mais um daqueles casos em que a força do dinheiro se mostrou decisiva nos momentos chave: Romney, que tinha verbas cinco vezes maiores que Santorum para gastar no Ohio, conseguiu a reviravolta na fase final – e acabou por vencer no buckeye state, ainda que por curta margem.

Gingrich, candidato regional
A Super Terça-Feira foi, também, a confirmação de uma desilusão: Newt Gingrich. O antigo ‘speaker’ da Câmara dos Representantes chegou a liderar a corrida republicana, mas foi apenas uma das muitas fases de experimentação do eleitorado que buscava o… anti-Romney.

Inconsistente, errático, por vezes zangado com o mundo, Newt deu uma ideia, nestas últimas semanas, de estar no filme errado – e de pertencer a um tempo que já passou.
Ignorou conselhos dos seus assessores, recusou-se a seguir a cartilha mediática.
Teve a sua oportunidade, ao vencer, com estrondo, na Carolina do Sul.

Mas falhou rotundamente ao não apostar na tripla noite Missouri/Colorado/Minnesota, permitindo que, a partir desse ponto, quem liderasse a facção conservadora fosse Rick Santorum.

Gingrich cumpriu os serviços mínimos, vencendo na Geórgia, o seu estado natal. Fê-lo de forma clara, é certo, mas o péssimo resultado no Ohio (estado que prometera vencer naquela tripla noite de Santorum) foi a prova de que a sua candidatura não tem viabilidade.

Os resultados de Newt fazem dele um candidato regional: forte nos estados do Sul, fruto do seu apelo conservador, mas fraco em zonas onde teria de se bater, como o Midwest e os grandes estados.

Gingrich consegue mobilizar alguns sectores da Direita com o seu discurso agressivo contra os media (a quem acusa de favorecer o Presidente Obama e agora, também, Mitt Romney) e tem atraído os eleitores que estavam com candidatos que, no último ano, foram ‘Tea Party darlings’ mas acabaram por cair por falta de consistência política: Rick Perry, Herman Cain (ambos apoiam-no claramente) ou Michele Bachmann e Sarah Palin (a congressista do Minnesota e a ex-governadora do Alasca estão ainda mais ligadas aos movimentos Tea Party e, ainda que não tenham declarado apoios oficiais, têm produzido afirmações favoráveis a Gingrich).

Outras figuras da Direita americana, como Fred Thompson, estão com Gingrich – mas isso não basta.

Newt coloca-se como «o conservador com ideias», o único que tem «visão», perante «dois senhores simpáticos, mas sem visão» (Romney e Santorum) e um Presidente «com uma visão errada para a América».

Num ponto, Gingrich terá razão: é o candidato mais culto desta corrida. Mas será, também, o mais inconsequente.

Ron Paul, estável no seu eleitorado anti-Washington, anti-sistema e anti-governo, somou percentagens acima dos dez por cento – mas voltou a falhar o objectivo simbólico de vencer um estado.

A conferência de Obama
Obama vai assistindo a esta ‘sangria’ republicana com indisfarçável diversão. Sabe que tem em Mitt Romney o único adversário a temer – e talvez por isso fez questão de dizer, em pleno dia de Super Terça-Feira, que desejava “sorte” a Mitt.

O Presidente marcou uma conferência de Imprensa de agenda aberta para o mesmo dia da grande corrida republicana. Antecipou-se aos rivais, marcou espaço na agenda mediática e colocou-se acima dos candidatos republicanos, dizendo que «quando não se tem responsabilidades, é fácil criticar e lançar exigências irrealistas», acusando-os de estarem a «rufar os tambores da guerra» em torno do Irão e da Síria.

O prolongar da luta republicana favorece as hipóteses de reeleição de Obama. As sondagens mostram-no cada vez mais: quanto mais Romney é atacado pelos seus opositores internos, mais Obama se distancia de Mitt no duelo para a eleição geral.

A campanha negativa, traduzida em anúncios muito agressivos, que, estado após estado, estão a somar milhões de dólares, está a atingir níveis muito piores do que a batalha de há quatro anos entre Hillary e Obama, na corrida democrata.

Com o arrastar da luta até ao Verão, o saldo só pode ser negativo para o futuro nomeado republicano.

terça-feira, 6 de março de 2012

Histórias da Casa Branca: Oito meses para provar que é conservador


Mitt Romney voltou a ganhar vantagem depois de um bom mês de Fevereiro, mas precisa de uma Super Terça-Feira vitoriosa para reforçar estatuto de «inevitável» junto de uma base conservadora que o olha com desconfiança


Oito meses para provar que é conservador

Por Germano Almeida


A tripla vitória de Rick Santorum na noite do Missouri/Colorado/Minnesota parecia ter baralhado as contas à narrativa da «inevitabilidade de Romney».

O campo de Mitt chegou a tremer, sobretudo quando viu as sondagens nacionais feitas nos dias seguintes a esse triplo combate a darem uma inesperada vantagem a Santorum.
Mas o mês de Fevereiro ajudou a recolocar as coisas na sua ordem natural – se é que isso é possível num processo tão complexo e tendencialmente caótico, como é uma corrida presidencial na América.

Romney venceu os cinco estados que foram a jogo até à Super Terça-Feira (por esta ordem: Maine, Arizona, Michigan, Wyoming e Washington) e recuperou a tese de que será muito difícil perder a liderança da corrida.

É preciso explicar que as três vitórias de Santorum não se traduziram num número significativo de delegados – e depois desta série de cinco triunfos consecutivos, Romney volta a exibir uma clara vantagem na contagem de delegados: chega à Super Terça-Feira com 203, mais do dobro do que Santorum (92) e muito mais do que Gingrich (33) e Ron Paul (25).

Com mais dinheiro, mais votos, mais delegados, mais experiência e mais apoios que os seus rivais (nos últimos dias, o ex-governador do Massachussets passou a contar com os ‘endorsements’ de Eric Cantor, líder da maioria republicana no Congresso, e do senador Tom Coburn, do Oklahoma), Romney parece ter tudo para obter a nomeação.

Só que Mitt ainda não conseguiu provar que tem uma coisa fundamental para quem pretenda chegar à presidência dos EUA: carisma. Capacidade de mobilização.
Conquistar os corações do seu eleitorado.

O terceiro lugar de Romney no Minnesota – estado onde tinha o apoio do governador Tim Pawlenty – fez soar as campainhas de alarme em Boston, sede do quartel-general da campanha do ex-governador do Massachussets.

Com muito mais dinheiro para gastar em anúncios (em alguns estados, essa vantagem de Romney sobre Santorum chega a ser de cinco para um), Mitt tratou de atacar os pontos fracos de Rick. Nas últimas semanas, ficámos, assim, a saber que afinal o registo de Santorum como senador da Pensilvânia não foi assim tão conservador – e que em muitas situações, Rick votou alinhado com a via clássica do Partido Republicano.

Santorum viabilizou programas federais, nos anos Bush, que implicaram gastos públicos elevados na Educação e na Saúde – o que vai contra o ‘mantra’ dos apoiantes de Rick em temas como o ObamaCare.

O teste do Michigan
Romney chega à Super Terça-Feira tendo cumprido os serviços mínimos. Não está a fazer uma campanha brilhante (a ex-Primeira Dama Barbara Bush, apoiante de Mitt, desabafou ontem que «esta está a ser campanha mais horrível de que tem memória»), mas perante as debilidades da concorrência, começa a fazer valer a sua tese de que só ele poderá derrotar Obama em Novembro.

Há quem defenda que Mitt já ultrapassou o seu maior risco: o Michigan. Romney é filho de um antigo governador do Michigan (George Romney) e nasceu naquele estado.
Se perdesse a batalha do Michigan, teria ficado em maus lençóis.

E isso esteve perto de acontecer: Rick Santorum liderou as sondagens quase até ao dia da eleição, muito por culpa do que Romney disse sobre o plano de apoio da Administração Obama à indústria automóvel – e que salvou os três grandes fabricantes de Detroit (GM, Chrysler e Ford) da falência.

Uma boa parte dos eleitores ainda não esqueceu a posição de Romney, expressa em artigo no New York Times (“Deixem Detroit ir à falência”) – e Mitt teve que se explicar. Evitou o desastre mesmo sobre a meta, vencendo por uma curta margem (41-39) sobre Santorum. E, na mesma noite, obteve vitória folgada no Arizona.

O que podia ter sido o início do fim para Mitt, acabou por ser o momento da reafirmação da «inevitabilidade de Romney».


Jeb Bush está a ser desafiado a avançar com uma candidatura de última hora pelos sectores republicanos que não estão convencidos com as possibilidades de Mitt Romney derrotar Obama em Novembro

Corre, Jeb, corre?
As debilidades políticas de Mitt Romney estão a prolongar a ideia – improvável, mas, neste ambiente, não totalmente impossível -- de que ainda haverá espaço para uma candidatura de última hora.

Basta ouvir os lamentos dos apoiantes do Tea Party, que consideram não existir nenhum candidato que os convença no actual leque de quatro sobreviventes, para perceber que ainda haveria alguma margem para que Sarah Palin aparecesse de surpresa na Convenção Republicana – a fim de arrebatar os apoios da Direita radical.

Sectores mais moderados do Partido Republicano não se cansaram de apelar, nos últimos meses, a figuras como o governador do Indiana, Mitch Daniels, o ex-governador do Mississipi, Haley Barbour, o governador da Nova Jérsia, Chris Christie, ou mesmo ao jovem congressista do Wisconsin Paul Ryan, líder do Comité do Orçamento, no sentido de uma candidatura mais capaz de federar as diferentes sensibilidades do Partido Republicano.

O caso não é para menos: estudos recentes apontam para que os eleitores americanos, neste momento, confiam mais no Partido Democrata do que no Partido Republicano, numa relação de dois para um – um cenário totalmente diferente do que se verificava por alturas das midterms, em Novembro de 2010, que deram enorme maioria aos republicanos na Câmara dos Representantes.

A recuperação de Barack Obama nas sondagens (está nos 50 por cento de aprovação como Presidente e lidera confortavelmente os duelos para Novembro contra os quatro possíveis adversários republicanos) é outro sinal de alarme para as hostes republicanas.

Ann Coulter, escritora e comentadora conservadora, lançou recentemente, o repto: “Corre, Jeb, corre!”, num apelo ao ex-governador da Florida, Jeb Bush, para que se lance numa “last minute call” para a Casa Branca.

Irmão e filho de dois antigos Presidentes (George Bush pai e George W. Bush), Jeb foi um governador razoavelmente popular na Florida e tem uma rede de apoios que poderá ser activada a qualquer momento.

Por enquanto, não se mostra disponível para uma jogada de tamanho risco. Mas se esta estranha desconfiança do eleitorado republicano em torno do mais-que-provável-nomeado Mitt Romney se prolongar, será prudente admitir todos os cenários.

E a verdade é que, com esta distribuição proporcional dos delegados na maioria dos estados, é matematicamente possível que se chegue à Convenção Republicana sem que Romney consiga atingir o número mágico dos 1.144. Se assim for, a hipótese de uma convenção à antiga, onde tudo pode acontecer, não será de afastar.

É isso, Mitt: restam exactamente oito meses (a eleição geral é a 6 de Novembro) para provar que é mesmo conservador…

Super Terça-Feira: entrevista à Rádio Renascença


Aqui vai o link da entrevista que dei à Edição da Noite da Rádio Renascença, na antecipação à Super Terça-Feira de hoje nos EUA:


http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=26&did=53301

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Obama recupera o controlo do jogo


Barack Obama está com níveis de popularidade próximos dos 50 por cento e vantagens sólidas sobre os potenciais rivais republicanos: o Presidente está a voltar a ter a bola do seu lado, agora que os dados económicos estão a comprovar a tese dos estímulos federais para a criação de emprego


Obama recupera o controlo do jogo

Por Germano Almeida


Os últimos meses foram muito positivos para a Presidência Obama: o desemprego nos Estados Unidos está no valor mais baixo dos últimos três anos (8.3%, com a criação de três milhões de postos de trabalho desde Março de 2009) e o sentimento de confiança parece estar a regressar aos investidores – embora os dados sejam ainda relativamente tímidos.

Por consequência a esta tendência, lenta mas consistente, de recuperação da Economia americana desde meados de 2009, os índices políticos de Barack Obama têm vindo a conhecer uma progressiva melhoria: a aprovação do Presidente está agora próxima dos 50 por cento (entre os 46 e os 50, dependendo dos estudos) e o candidato à reeleição Barack Obama passou a ter vantagens confortáveis sobre os seus potenciais rivais republicanos em Novembro (cerca de seis pontos de avanço sobre Mitt Romney, oito sobre Rick Santorum, dez sobre Newt Gingrich e 12 sobre Ron Paul).

É certo que esta recuperação já não impedirá uma média relativamente modesta na Taxa de Popularidade do primeiro mandato de Obama: os primeiros três anos, com excepção do estado de graça dos primeiros meses, foram marcados por valores frustrantes na casa dos 40 e pouco por cento.

Mas esta ‘surge’ política de Obama comprova a tese de que Barack foi vítima do seu próprio tempo: foi eleito na ideia messiânica de que seria o salvador da crise, só que os primeiros anos da sua presidência foram comprometidos por essa mesma crise.

A insatisfação pela situação económica foi, rapidamente, canalizada para o Presidente e foi preciso algum tempo para que uma boa parte dos americanos percebessem que os estímulos federais à economia -- promovidos por Obama e só aprovados no Congresso (então ainda maioritariamente democrata) depois de duras negociações que desgastaram a imagem do Presidente – foram fundamentais para que esta recuperação apareça nesta altura.

No início, a tese republicana de que não se podem aumentar os impostos, mesmo às classes mais ricas, rendeu popularidade. Mas a realidade está a mostrar que a visão do Presidente é a mais correcta.

E os republicanos (que controlam a produção legislativa desde Novembro de 2010) começam a ser penalizados nas sondagens pelo seu dogmatismo em matéria fiscal e nas juras de se oporem a qualquer tipo de ‘bailout’ (Mitt Romney, nesse aspecto, está agora a sofrer o ricochete político nas primárias para o Michigan por não ter apoiado a salvação da indústria automóvel de Detroit...)

A manter-se este trend até Novembro, Obama terá todas as condições de ser reeleito.

De novo como favorito
No quadro em que, neste momento, assenta a corrida presidencial norte-americana, Barack Obama voltou a ser o ás de trunfo. Apesar de ter passado tanto tempo numa tempestade de impopularidade, a verdade é que os dados actuais lhe dão fortes hipóteses para a reeleição: tem muito mais dinheiro angariado que os seus rivais; dispõe da natural vantagem de já ser Presidente; as sondagens mostram que lidera nos itens fundamentais para a eleição de Novembro.

Um estudo recente do Gallup/USA Today refere que 58 por cento dos americanos consideram que «Obama tem a personalidade e a capacidade» necessárias para ser Presidente, aparecendo à frente de Santorum e Romney, ambos com 53.

Além da vantagem no plano nacional já mencionada sobre todos os rivais, as sondagens já feitas a nível estadual confirmam que Barack se mantém muito forte em estados cruciais, como a Florida, o Ohio ou a Pensilvânia – terrenos onde, aliás, já começou a fazer campanha.

Em função da fantástica vitória eleitoral que obteve em 2008 sobre John McCain, será difícil repetir triunfos em estados muito conservadores, onde os democratas raramente conseguem vencer nas eleições presidenciais, como a Virgínia ou a Carolina do Norte.

Mas os primeiros sinais dados por David Axelrod e David Plouffe (que vão voltar a ser os estrategas da campanha de Barack) apontam para que Obama não descure os estados mais difíceis, seguindo assim, novamente, a receita da “fifty state strategy”, que tão bons resultados deu há quatro anos.

Estimular a curto prazo, cortar a longo prazo
Pode parecer um contrasenso, mas é sob esse difícil equilíbrio que tem assentado a abordagem de Obama em relação ao que se deve fazer à economia americana, no actual panorama: por um lado, o monstro do défice americano é um problema incontornável e, como tal, não pode ser ignorado; mas, por outro, as dificuldades sociais que a crise está a gerar têm que ter uma resposta política por parte da Casa Branca.

Nessa medida, Obama não desiste das grandes linhas que defende desde Setembro passado, quando apresentou o American Jobs Act – um gigantesco plano de apoio à criação de emprego, inicialmente composto por 447 mil milhões de dólares.

O lema é, assim, estimular a curto prazo, de forma a prosseguir a criação de postos de trabalho e combater o desemprego jovem e a degradação do poder de compra da classe média. Mas é, simultaneamente, cortar a longo prazo: Obama sabe que é crucial reduzir o monstruoso défice americano e tem um plano a dez anos para o fazer.

A proposta de Orçamento da Administração Obama para 2013, apresentada em meados de Fevereiro, reflecte essa dupla realidade.

Obama pretende aumentar a receita em 1,5 biliões de dólares, através de um aumento da carga fiscal para quem ganhe mais de um milhão de dólares por ano (e que passa a ser taxado a 30 por cento, com o fim das Bush Tax Cuts e a implementação da Proposta Buffet) e quer apostar as obras públicas, a fim de renovar as infra-estruturas na América e dinamizar o emprego.

O Presidente prevê uma verba de 500 mil milhões de dólares na próxima década para investimento público, sendo que quase metade (231 mil milhões) virá dos cortes na Defesa, decorrentes do fim das missões militares americanas no Iraque e no Afeganistão, até ao fim do próximo ano.

A mudança demora, mas uma parte dela estará neste tabuleiro: Obama cumprirá a promessa de sair do Iraque e do Afeganistão no seu primeiro mandato e foca-se no essencial: a recuperação económica, baseada no apoio à classe média e ao americano comum, com verbas que voltam a ser colocadas na criação de emprego – e não em gastos brutais em guerras em que os EUA não poderiam estar eternamente.

‘Back to basics’? Esperemos que sim.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Alerta laranja para Mitt Romney


Rick Santorum e Mitt Romney: o antigo senador da Pensilvânia agarrou o "momentum" e já lidera as sondagens nacionais. Se vencer o duplo combate Arizona/Michigan, coloca o favoritismo de Romney em zona de risco total - e obriga Mitt a jogar tudo na Super Terça-Feira

Alerta laranja para Mitt Romney

Por Germano Almeida



Parece que a tese do ‘anyone but Romney’ tinha mais consistência do que muita gente pensou. A tripla vitória de Rick Santorum no Minnesota/Colorado/Missouri foi o primeiro grande sinal de alarme, mas podia ter sido apenas um voto de protesto da base conservadora, perante a falta de opções.

Só que os problemas da candidatura de Mitt Romney são mais profundos. A cartada económica já não é tão preponderante do que há uns meses, perante a recuperação da Administração Obama (taxa de desemprego a descer há vários meses, confiança dos agentes económicos a crescer).

Se é certo que Mitt tem as melhores credenciais na parte da gestão e no meio empresarial entre as quatro opções ainda no terreno, a verdade é que a base do eleitorado republicano e, sobretudo, os entusiastas da ala radical (Tea Party) continuam mais sensíveis às questões ideológicas e mais dispostos a discutir valores como «a liberdade», o «ser americano», o «respeito pela Constituição», as «questões morais» e, nesses planos, Rick Santorum oferece um argumentário mais atractivo aos segmentos mais radicalizados do Partido Republicano. Definitivamente, 2012 parece ser o ano da viragem à direita de um Grand Old Party (GOP) que, há apenas quatro anos, foi capaz de nomear o candidato mais moderado e com um perfil rebelde de ‘maverick’: John McCain.

Olhem para o Michigan
Nem o triunfo no Maine foi suficiente para travar a ideia de derrapagem de Romney.

Num estado com tudo para lhe ser favorável (moderado, Costa Leste, com pouca influência da Direita radical), Mitt venceu por curta diferença (39-36) em relação a Ron Paul, o candidato da sensibilidade libertária.

Os olhos estão, por isso, postos no duplo teste Arizona/Michigan, no próximo dia 28. As sondagens em ambos os estados parecem confirmar os sinais de alarme para Romney:

Mitt lidera no Arizona, mas por uma curta diferença; e no Michigan, Rick Santorum aparece à frente, sendo que nalgumas sondagens a vantagem do antigo senador da Pensilvânia sobre o ex-governador do Massachussets passa os dois dígitos.

Ainda que a mera soma de delegados em jogo não seja particularmente significativa, a verdade é que o duplo combate Arizona/Michigan ganha uma enorme importância para se definir o resto da corrida à nomeação presidencial republicana.

Ambos os estados vão a jogo a apenas uma semana da Super Terça-Feira, a 6 de Março.

Tudo indica que essa data vá ser decisiva para Newt Gingrich: se não vencer na Geórgia e no Ohio, dificilmente continuará na corrida. O ex-speaker do Congresso não foi capaz de capitalizar o triunfo na Carolina do Sul e, depois do desastre que têm sido os últimos resultados (sobretudo na noite da tripla vitória de Santorum), até já recebeu apelos de sectores republicanos para desistir da corrida.

Não há sinais que pretenda sair de cena até à Super Terça-Feira, mas a verdade é que poderá ser obrigado a fazê-lo nessa mesma noite (sem duas grandes vitórias, ficará sem dinheiro para continuar na batalha).

Mas não é só Gingrich que está em perigo nos próximos dias. O próprio Romney ficará em muito maus lençóis se perder, no mesmo dia, no Arizona (estado onde, há poucas semanas, liderava com mais de 20 pontos de avanço) e no Michigan, estado onde nasceu e viveu até à adolescência e do qual o seu pai, George Romney, foi governador.

E há outro factor que convém antecipar: se Gingrich desistir mesmo, Rick Santorum fica na posição de agarrar todo o campo conservador. E isso, pelo menos até agora, tem significado a maioria dos votos e dos delegados. O que tem salvo, até agora, Romney é a dispersão dos votos à sua direita em Santorum, Gingrich e Ron Paul.

Mais surpresas?
A menos que Mitt logre uma recuperação notável nos próximos dias e vença claramente este duplo combate (cenário que não será de excluir, dadas as armas que Romney ainda tem no plano da máquina, do dinheiro e dos apoios do 'establishment'), começa a ser claro que a tese da «inevitabilidade» dificilmente continuará a colar.

O entusiasmo e o ‘momentum’ estão, por estes dias, do lado de Rick Santorum, que até passou à frente nas sondagens nacionais (39-27 sobre Romney no Rasmussen Reports, 36-26 no Gallup).

É preciso explicar que as sondagens nacionais reflectem, na prática, os efeitos dos resultados nos estados – e são esses, por isso, que devem ser mais valorizados nesta altura.

Quem tenha acompanhado esta estranhíssima corrida republicana desde os seus primórdios, não pode deixar de abrir a boca de espanto: Rick Santorum foi, nos primeiros tempos, o ‘underdog’, o menos notado dos sete que iniciaram a peleja.

Nos primeiros debates, a sua irrelevância era tal que quase nem o deixavam usar da palavra. As atenções dos media e dos moderadores estavam em Michele Bachmann, Herman Cain, Rick Perry e Newt Gingrich: ironicamente, os três primeiros já caíram, o quarto pode desistir em breve.

Será que exemplos como este abrem caminho à entrada de um candidato surpresa, mesmo numa fase tão avançada como esta? É muito improvável, mas há quem defenda essa tese, apelando a nomes como o governador Chris Christie, da Nova Jérsia, o congressista Paul Ryan, jovem estrela em ascensão do Partido Republicano e líder do Comité de Orçamento do Congresso, o governador do Indiana, Mitch Daniels, ou, para a ala mais radical, Sarah Palin.

Já será muito tarde para acreditar numa surpresa destas, mas a realidade matemática mostra que ainda só estão atribuídos 15 por cento dos delegados. Nunca se esqueçam: é mesmo tudo possível numa corrida presidencial americana…

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Romney venceu no Maine


Mitt Romney venceu os caucuses do Maine, estado da Costa Leste com características que o favorecem, por uma pequena diferença sobre Ron Paul: 39-36%.

Trata-se de um estado pequeno, não será significativa esta eleição para o resultado final. Mas depois da péssima semana em que perdeu três estados para Rick Santorum, Romney recupera uma certa dinâmica de vitória -- e conserva o estatuto de frontrunner.

MAINE

-- Mitt Romney 39%
-- Ron Paul 36%

-- Rick Santorum 18%
-- Newt Gingrich 6%


CONTAGEM DOS DELEGADOS
-- Romney 98
-- Santorum 44
-- Gingrich 32
-- Paul 20
(1.144 necessários para a nomeação)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Rick Santorum lança-se como ‘anti-Romney’


Rick Santorum teve três vitórias surpreendentes no Colorado/Minnesota/Missouri e lidera, pela primeira vez, as sondagens nacionais. Só que o seu ideário excessivamente conservador fá-lo ter poucas hipóteses de destronar um Romney que não entusiasma a base republicana, mas que é claramente mais "presidenciável"


Rick Santorum lança-se como ‘anti-Romney’

Por Germano Almeida


Quem disse que as primárias republicanas já estavam decididas?

Quando muitos já haviam entronizado antecipadamente Mitt Romney como o escolhido, eis que a noite do triplo concurso Colorado/Minnesota/Missouri baralhou tudo outra vez, ao dar enormes vitórias ao ultraconservador Rick Santorum.

O ex-senador da Pensilvânia venceu no Colorado por 3.600 votos, ganhou claramente no Minnesota, com quase o triplo da votação de Romney (21.985 de Rick, contra apenas 8.231 de Mitt, que só ficou em terceiro) e até venceu no Missouri, embora a atribuição dos delegados naquele estado só se faça a 17 de Março (em sistema de caucuses, numa altura em que a dinâmica da corrida já poderá ser diferentes).

Os surpreendentes resultados da última terça à noite mostram duas coisas: a base republicana está longe de estar convencida com Romney; mas, ao mesmo tempo, não é claro quem possa destronar o favoritismo de Mitt, atendendo à irregularidade revelada por Gingrich (que quase desapareceu nestes três estados) e Santorum (que parecia afastado da corrida depois da Florida/Nevada e agora renasce, subitamente).

Isso, isso, força Rick…
Enquanto o campo à direita de Romney se mantiver espartilhado, com Gingrich e Santorum a repartirem vitórias e Ron Paul a somar boas votações, Mitt não correrá o risco de perder o estatuto de ‘frontrunner’.

Mas se Gingrich não cumprir os mínimos na Super Terça-Feira, Rick Santorum, energizado com estas surpreendentes vitórias (já soma quatro, com o Iowa…) pode assumir todo o campo conservador ‘mainstream’ – e os dados da corrida podem alterar-se de forma dramática para Romney.

Isso seriam, diga-se, muito boas notícias para o Presidente Obama – que está à espera de defrontar Mitt Romney em Novembro, mas que, num duelo com Rick Santorum, ganharia facilmente. Rick é demasiado à direita, mesmo para a realidade político-social da América. Foca em demasia o seu discurso nos temas sociais, diz que Obama, ao apostar em políticas federais que aumentam o peso do Governo, se intromete na «relação directa de Deus com o povo».

Os independentes e o eleitorado moderado dos dois partidos, nesse cenário, prefeririam claramente um segundo mandato de Obama a um nomeado republicano tão declaradamente “right wing”.

“Boston, we have a problem!”
Começa a ser o… paradoxo Romney: Mitt continua a parecer o nomeado quase inevitável (tem mais dinheiro que Santorum numa relação de quase dez para um; tem mais experiência; tem o apoio da máquina e do ‘establishment’ republicano), mas há uma claro problema na forma como a campanha de Mitt está a correr.

Apesar de liderar com avanço confortável a contagem dos delegados e o voto popular, Romney revela muitas dificuldades em se mostrar um candidato abrangente no eleitorado republicano.

Mitt, que havia ganho no Colorado em 2008 com 60% dos votos, e no Minnesota com 41%, teve derrotas copiosas nesses dois importantes estados.

E são dois casos especialmente preocupantes para a capacidade de Romney poder agarrar o eleitorado do seu próprio partido: no Minnesota, ficou em terceiro, atrás do ‘outsider’ Ron Paul, e apesar do apoio do governador Tim Pawlenty; no Colorado, a derrota de Mitt para Santorum obrigará os estrategas de Romney a reflectir profundamente. Não por acaso, nos últimos dias foi ouvida a frase: “Boston, we have a problem!”

O Colorado tinha tudo para ser um estado favorável ao ex-governador do Massachussets: não por acaso, Romney montou as suas bases em Denver na noite do triplo concurso eleitoral.

É certo que os dados deste jogo continuam a parecer favoráveis às pretensões de Romney: é o único candidato com dinheiro e capacidade para discutir todos os estados; revela excelentes perspectivas de vitórias já no Arizona e no Michigan (no Arizona, tem o apoio de John McCain, o Michigan é um dos estados onde quase joga em casa, dado que o seu pai foi lá governador na década de 60).

Mas Mitt já não se livra do estigma de ser um candidato pouco amado pela base do seu próprio partido – e os resultados mostram que está a fazer uma campanha mais fraca do que a que fez há quatro anos, sendo que, em 2008, acabou por perder a nomeação para John McCain e, quando desistiu, até tinha menos delegados do que o ultra-conservador Mike Huckabee.

Gingrich joga tudo na Super Terça-Feira
Newt Gingrich tentou ser o “claro conservador”, em contraponto com um “moderado do Massachussets”, pós Carolina do Sul.

Mas os maus resultados na Florida e no Nevada furaram-lhe os planos. E a tripla vitória de Santorum complicou definitivamente a estratégia de bipolarização Romney ‘vs’ Gingrich que o ex-speaker do Congresso tentou lançar.

Sabendo que iria ter resultados meramente simbólicos no triplo concurso Colorado/Minnesota/Missouri, Newt antecipou-se e ainda antes da confirmação dos sucessos de Santorum, tentou desvalorizar o que se iria passar nessa noite e, em entrevista a Wolf Blitzer, na CNN, apontou baterias para o Arizona/Michigan e, sobretudo, para a Super Terça-Feira.

O dia 6 de Março será, claramente, o ‘sim ou sopas’ para Newt Gingrich. Se não tiver grandes vitórias em estados como a Geórgia ou o Ohio, poderá ter que abandonar a corrida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Edição Internacional - Rádio Renascença

Participei ontem no "Edição Internacional", programa da Rádio Renascença, com o José Bastos e o Nuno Gouveia, do "Era Uma Vez na América".

Tema: as primárias republicanas e o resto da corrida presidencial norte-americana.


Aqui vai o link do programa:
http://rr.sapo.pt/informacao_prog_detalhe.aspx?fid=81&did=49988&infaz=000

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Obama 51/Romney 45


Sondagem ABC/Washington Post: Obama 51/Romney 45;
Obama 54/Gingrich 43

(dados recolhidos entre 1 e 4 de Fevereiro de 2012)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney já pisca o olho aos conservadores


O Nevada confirmou o favoritismo de Mitt Romney, que parece inapelavelmente lançado para a nomeação republicana. A Super Terça-Feira, daqui a um mês, deve fechar a corrida, a menos que, até lá, Newt Gingrich consiga um milagre


Romney já pisca o olho aos conservadores

Por Germano Almeida


O Nevada confirmou o momentum de Romney e deu mais uma vitória por números ainda mais folgados do que tinha sido o enorme triufo de Mitt na Florida.

Já poucos duvidam da nomeação do ex-governador do Massachussets, mas é ainda muito cedo para declarar encerrada esta corrida presidencial republicana.

Newt Gingrich está disposto a prolongar a batalha até onde puder – mesmo sabendo que o caminho para uma reviravolta se torna difícil imaginar, neste momento.

Romney tem mais dinheiro, uma máquina mais mobilizada e parece ter agarrado muito melhor do que o ex-speaker do Congresso os dois temas que, tudo indica, irão dominar esta corrida presidencial norte-americana de 2012: a Economia e o que fazer para evitar o «declínio da América».

Cumpridas que estão as cinco primeiras etapas, num total de 50, há uma clara tendência a identificar: Romney está muito mais forte nos estados maiores, mais heterogéneos e com uma distribuição demográfica mais variada; Gingrich tem o seu território confinado aos estados mais conservadores, com pendor religioso mais acentuado e, geograficamente, mais a Sul.

Essa dualidade foi clara nos resultados na Carolina do Sul (grande vitória de Gingrich) e na Florida (o maior estado até agora disputado, com uma forte comunidade hispânica e que deu a Romney um empurrão que pode ter sido decisivo para o resto das primárias).

Os milhões estão a favorecer Mitt
O gordo triunfo de Mitt no caucus do Nevada já era esperado: trata-se de um estado com uma forte comunidade mórmon, vizinho do Utah, onde Romney já havia ganho em 2008.

Mas a esmagadora vitória na Florida, dias antes, terá ajudado ainda mais à noção de «inevitabilidade» de Romney.

O duelo no sunhine state foi duro e chegou a baixar a níveis que, mesmo numas primárias americanas, só costumam ser atingidos numa fase mais terminal da corrida. A escalada de milhões gastos pelos campos de Romney e Gingrich (quer pelas campanhas oficiais quer pelas Super PAC’s que apoiam cada um dos candidatos) tornou o teor dos anúncios especialmente agressivo – mas Mitt acabou por sair claramente vitorioso da peleja.

Não é só o momentum político e mediático que favorece Romney. São as próprias mensagens de campanha: Romney já assesta baterias contra o Presidente, dizendo que o «tempo de Obama está a acabar». «Senhor Presidente, este tempo exigia liderança. Em vez disso, o senhor preferiu seguir em frente. Agora, chegou a altura de sair do caminho», lançou Mitt.

O Nevada mostrou ainda que Santorum é uma carta fora do baralho nesta corrida, mas está a prejudicar os interesses de quem pretende unificar a direita em torno de Gingrich: com 11%, impede Newt de se aproximar de Romney, esbatendo assim a noção, que Gigrich pretendia passar, de esta ser «uma corrida entre o conservador Gincrich e um moderado do Massachussets» (referência Romney).

Os conservadores estão a ceder
Os triunfos nas urnas estão a ajudar ao processo de «legitimação» de Romney junto do eleitorado conservador – que até ao início das primárias olhou para Mitt com reserva e, até, alguma desconfiança.

Depois de somar apoios junto do establishment do Partido Republicano, há uns dias aconteceu o que, até há uns meses, parecia impensável: o multimilionário Donald Trump (que alimentou esperanças de ser, ele próprio, o candidato imposto pelo Tea Party ao Partido Republicano) deu apoio a Romney. Se nos lembrarmos das diferenças no tom e nas ideias entre os dois, só podemos concluir que a explicação reside na tal «inevitabilidade» de Romney.

O ascendente de Mitt sobre Gingrich está a ajudar, aliás, Romney a piscar o olho aos conservadores. Na Florida, o ex-governador do Massachusset bateu Gingrich junto de eleitores do Tea Party, algo que parecia impossível há poucas semanas.

Mesmo assim, este é um processo ainda pouco linear: mesmo na Florida, 40 por cento dos eleitores republicanos, enquanto davam a Romney uma clara vitória nas primárias, respondiam numa sondagem que «veriam com bons olhos uma candidatura surpresa», em sinal de não estarem completamente convencidos com a investidura de Mitt.

Até à Super Terça-Feira, a 3 de Março, seguem-se um conjunto de estados não muito significativos na contagem dos delegados, mas que deverão reforçar a ideia de claro favoritismo de Romney: Minnesota, Maine, Missouri, Colorado, Arizona e Michigan.
Se no Minnesota, Maine, Colorado e Michigan o triunfo parece inevitavelmente pender para Mitt, Gingrich vê-se obrigado a vencer no Arizona, se quiser chegar à Super Tuesday com uma réstia de esperança em prolongar o duelo.


CAUCUS DO NEVADA
-- Mitt Romney 48%

-- Newt Gingrich 23%
-- Ron Paul 18%
-- Rick Santorum 11%

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

245 mil postos de trabalho criados em Janeiro



Desemprego continua a descer nos EUA: está agora nos 8.3%, o valor mais baixo dos últimos três anos. Só em Janeiro, foram criados 243 mil postos de trabalho na América.


Bons sinais para a reeleição de Obama



«The pace of job creation surged in January, with the US economy generating 243,000 new positions while the unemployment rate dropped to 8.3 percent, according to government data released Friday.


Both numbers were far better than consensus, which expected a growth of 150,000 jobs and a steady unemployment rate of 8.5 percent.

The stock market rallied on the jobs news, with gains of better than 1 percent, while bond yields surged as well to push the benchmark 10-year Treasury to 1.93 percent.

"What’s not to like about the report?" said Andrew Wilkinson, chief economic strategist at Miller Tabak in New York. "Not only did payrolls exceed forecasts...but between the November and December revisions employers added 160,000 more jobs than first thought."

The overall work week remained unchanged at 34.5 hours while wages rose an average of four cents an hour to $23.29.

On the downside, the closely watched labor-force participation number, which can skew the unemployment rate, fell to 63.7 percent, the lowest since May 1983. The number of those working part-time for economic reasons rose 1.2 percent.

The January numbers can be volatile as the Bureau of Labor Statistics makes seasonal adjustments. This year's round produced 1.25 million fewer people in the workforce in December, a number that drew some focus as evidence that the drop in the jobless rate could be misleading.

"Looking beyond these statistical quirks, watching the unemployment rate drop five months in a row is rare event, and our expectation is that the unemployment rate rises in the immediate-term," said Neil Dutta, economist at Bank of America Merrill Lynch.

Job gains have been concentrated primarily in the service sector, particularly in retail and the food and beverage industries. Warehousing, manufacturing, mining and health care also have participated.


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Current DateTime: 05:38:38 03 Feb 2012
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True to form, services were responsible for 162,000 of the January swell, with manufacturing payrolls growing 50,000. Government cuts subtracted 14,000 from the total. Retail has added 390,000 jobs since December 2009, while durable goods manufacturing is up 418,000 over the past two years, according to government figures.

"The pattern is definitely indicating the economy is improving," Alan Kreuger, chairman of President Obama's Council of Economic Advisors, told CNBC.

With a bruising presidential campaign yet to come and both sides jockeying for position on the economy, Republicans scoffed at the gains and said the economy still needs repair.

"Our economy remains unacceptably weak, and families across the country are still struggling to make ends meet,” Republican National Committee Chairman Reince Priebus said in a statement.

The total number of unemployed fell below 13 million for the first time since February 2009, while the total amount of employed Americans rose to 141.6 million, an increase of 847,000 from December.



The unemployment rate was last this low in February 2009 as well.

"The real kicker is not the additional 200-plus thousand that got a job. That's certainly going to help, but it's the other 92 percent that have been employed," said James Paulsen, chief market strategist at Wells Capital Management in Minneapolis. "They'll step up a little bit more because they feel more comfortable about things. That's a little juice to the economy."

Several economists noted that a jump in courier workers during the holiday season that was expected to be temporary did not appear to impact the January numbers.

Unemployment for blacks plunged from 15.8 percent to 13.6 percent, while the rate for Hispanics fell from 11.0 percent to 10.5 percent. The teen unemployment rate rose one-tenth to 23.2 percent.

The so-called real unemployment rate, which measures discouraged workers as well and is referred to as the U-6, nudged lower to 15.1 percent.



Long-term unemployment, though, remains a problem, with the duration dropping from a near-record 40.8 weeks to 40.1 weeks.

Also, the level of discouraged workers surged, rising 7 percent to its highest level since December 2010.

Job growth remains one of the two missing pieces of the recovery puzzle, even though the rate has been on a steady trek lower.

In December, the economy created 203,000 jobs (revised from an originally reported 200,000) and the unemployment rate slipped to 8.5 percent, well off its 10 percent cycle peak in October 2009.

November's payroll number also was revised, from 100,000 to 157,000. Revisions overall for 2011 added about 180,000 jobs to the initial monthly reports.

The monthly jobs report generally draws considerable trader reaction, which as of late has been all negative. The Standard & Poor's 500 [.SPX 1343.64 18.10 (+1.37%) ] has fallen the last eight months on the first Friday of the month when the nonfarm payrolls account is released. This has been true even when the market beats expectations, with the index averaging a decline on the 10 strongest performances against expectations since 1998, according to Bespoke Investment Group.»

(in CNBC.com)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Histórias da Casa Branca: A pergunta depois da Florida - haverá mesmo alternativa à nomeação de Romney?


A vitória esmagadora na Florida recolocou Mitt Romney na rota da «inevitabilidade»: mesmo sem convencer a base conservadora, não se vê outra hipótese que não seja a da coroação do mais elegível dos candidatos republicanos


A pergunta depois da Florida:
haverá mesmo alternativa à nomeação de Romney?


Por Germano Almeida

Ainda é muito cedo para se declarar um vencedor e todos sabemos como as corridas presidenciais americanas são férteis em surpresas de última hora.

Mas a clara vitória de Mitt Romney na Florida reforçou a ideia de que será difícil imaginar outro cenário que não seja o da nomeação do ex-governador do Massachussets.

Mitt, um mórmon com fortes raízes familiares à igreja da qual já foi pastor, está longe de convencer a base conservadora, maioritariamente evangélica? É um facto.

As credenciais centristas do antigo governador de um dos estados mais liberais dos EUA, o Massachussets, fazem a Direita americana franzir a sobrancelha perante a coroação de um candidato “too moderate” para os anseios republicanos? Também parece ser esse o caso.

Só que a longa disputa pela nomeação presidencial do Partido Republicano tem um objectivo dominante: escolher o candidato que poderá reunir melhores condições de vencer a eleição geral em Novembro.

E as sondagens mostram que Mitt Romney é de longe, entre os candidatos que restam nesta bizarra disputa republicana, o que tem mais hipóteses de bater o Presidente Barack Obama.

Apesar de derrapagem na Carolina do Sul (batalha onde quase tudo jogou contra as hipóteses de Mitt: as características do eleitorado, os apoios de última hora a Gingrich, o caso da declaração de rendimentos desconfortavelmente alta….), a verdade é que os pilares que sustentam esta corrida se mantêm actuais: Romney é o candidato mais sólido, mais capaz de agarrar o eleitorado moderado e fazer ceder os mais radicais – e é, também, o candidato com mais dinheiro e melhores apoios no terreno.
Comparada com o Iowa, o New Hampshire -- e mesmo com a Carolina do Sul -- a Florida é um estado muito maior.

Vale 50 delegados na Convenção Republicana, tem um sistema “winner takes all” – e independentemente do que tivesse ocorrido antes, quem vencesse o “sunshine state”, passaria fatalmente para a liderança da corrida.

Com esta clara vitória de Romney, o «efeito Carolina do Sul» que parecia ter relançado Gingrich desvaneceu-se quase na hora.

A história dominante volta a ser a de uma «quase inevitabilidade» da nomeação de Romney – o candidato que não convence o seu próprio partido, mas que visto de fora é o menos… assustador.

Tim? Rudy? Mitch? Agora é tarde…
Olhando para o avanço que Romney pode vir a ter em breve (as próximas corridas são Maine, Nevada, Colorado e Minnesota, tudo estados onde Mitt parte com clara vantagem), vale a pena perguntar: no que estarão, neste momento, a pensar Tim Pawlenty (“terei desistido demasiado cedo?”), Rudy Giuliani ou mesmo Mitch Daniels (“porque diabo não aceitei avançar?”, pensarão o ex-mayor de NY e o governador do Indiana).

É que, neste quadro profundamente favorável à nomeação do candidato mais «moderado» (mesmo sem o entusiasmo do Tea Party e da ala dura do GOP), Mitt Romney parece estar a aproveitar, de mão beijada, o espaço deixado por outras hipóteses que optaram por não ir a jogo – receosos, talvez, do ambiente especialmente agressivo que o Tea Party foi preparando nos últimos dois anos.

Com uma máquina preparada desde 2008, Mitt Romney ganhou embalagem com as primárias de há quatro anos e, na verdade, nunca deixou de estar em campanha, desde aí, sempre com o olhar em 2012.

Identificando a viragem do Partido Republicano à direita – contagiado pelo Tea Party e atiçado pela reacção anti-Obama pós-2008 – Mitt Romney foi corrigindo o discurso em pontos que lhe seriam especialmente sensíveis (a tolerância que mostrou, anos atrás, sobretudo quando era governador do Massachussets, a temas como o aborto e os direitos dos homossexuais) e apresentou-se como um candidato mais sintonizado com o “core” dos valores republicanos.

O seu excelente resultado na Florida prova três coisas: por muito que Newt Gingrich se reivindique como o herdeiro dos «verdadeiros conservadores» nesta corrida, é Mitt quem mostra maior capacidade de vencer nos estados-chave; o perfil empresarial de Romney tem mais a ver com o que está em causa nesta corrida; os rios de dinheiro que Mitt despejou na corrida da Florida (ultrapassou Gingrich numa relação de… cinco para um) foram importantes para travar a ideia de que ainda havia espaço para uma “reviravolta conservadora”).

E agora, Newt?
É certo que só estão atribuídos cerca de dez por cento dos delegados. Mas o calendário eleitoral não parece dar espaço a viragens dramáticas no curso de Romney para a nomeação.

Gingrich dificilmente discutirá uma vitória com Mitt nos estados em jogo até à Super Terça-Feira. É certo que Newt ainda tem muito por onde apostar (terá vantagem nos estados do Sul e na chamada “Bible Belt”), mas teria que somar muito mais dinheiro para poder disputar a nomeação com hipóteses mais reais de vitória.

Não chega lançar o mantra do “anything but Mitt”. Newt não se terá livrado o estigma de ser um candidato do passado. E assumir-se como o candidato religioso, dos «valores», não é, propriamente, o fato que melhor serve a um Gingrich acossado pelas acusações das ex-mulheres (na mesma altura em que, como speaker, exigia a destituição do Presidente Clinton pelo caso com Monica Lewinsky, propunha à segunda ex-mulher uma… “relação aberta” no casamento para evitar um escândalo de divórcio, porque já matinha um relacionamento extra-conjugal com aquela com Callista, que é hoje a sua mulher…)

Matematicamente, tudo ainda é possível neste imprevisto duelo entre Mitt Romney e Newt Gingrich.

Mas não se vislumbra um caminho viável para a tese de uma histórica recuperação de Newt. Não por acaso, o discurso de vitória de Romney na Florida foi quase exclusivamente focado nas críticas a Obama e já não nas diferenças com Gingrich.

A Florida, que em 2000 foi dramaticamente decisiva para a derrota de Al Gore para George W. Bush na eleição geral, pode ter entrado para a história da corrida republicana de 2012 como o momento que traçou, mesmo que com alguns meses da confirmação oficial, a vitória de Mitt Romney.


RESULTADOS FINAIS NA FLORIDA

Mitt Ronney: 46% (50 delegados para Romney)
Newt Gingrich: 32%
Rick Santorum: 13%
Ron Paul: 7%

sábado, 28 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: State of The Union'2012 - Obama põe o pé no acelerador


Acreditar na América e numa economia «construída para durar»: Obama enunciou, no último discurso do Estado da União até às eleições, argumentos e trunfos que o podem levar à reeleição


State of The Union'2012: Obama põe o pé no acelerador

Por Germano Almeida


Foi uma das melhores intervenções de Barack Obama desde que é Presidente: claro nos objectivos, incisivo no diagnóstico, disposto a partir para o combate sempre que a linha da «conciliação» já tenha sido ultrapassada pelo «obstrucionismo» dos dogmas republicanos.

O discurso do Estado da União (terceiro da Presidência Obama e último antes das eleições presidenciais de Novembro) já mostrou uma boa parte do argumentário que Barack pretende usar para a reeleição: o caminho da recuperação económica já foi iniciado e traduz-se nos três milhões de empregos criados nos últimos 22 meses; as injustiças fiscais iniciadas nos anos Bush e agravadas pela maioria republicana no Congresso podem ser corrigidas, desde que a opinião pública perceba o que está em causa e legitime nas urnas a visão do Presidente; a América continua a ser a «nação indispensável», mesmo perante a ascensão da China e a crise europeia.

Há um ano, Obama tinha escolhido o State of The Union para mostrar que a América continua a ser o melhor país para se acreditar num discurso «Winning the future» e tinha falado no «momento Sputnik» desta geração.

Agora, o Presidente reforçou a necessidade de os EUA estarem à frente da China ou da Índia em áreas como a investigação, a inovação e o conhecimento – mas foi mais longe no discurso «proteccionista» e prometeu assinar de imediato projectos que prevejam investimentos fortes em solo americano para «fixar empregos nos EUA e impedir que eles se desloquem para outros países».

Barack, o combatente, já vestiu as luvas e promete não as descalçar até às eleições.

Jobs, jobs, jobs
“Estes são os factos: nos últimos 22 meses, foram criados mais de três milhões de postos de trabalho. As empresas americanas estão a contratar, acrescentando emprego à economia pela primeira vez desde o fim dos anos 90”

Será o principal barómetro para avaliar as hipóteses de Barack obter a reeleição: qual será a taxa de desemprego em Novembro de 2012? Os índices actuais continuam altos (8.5%, sendo que desde Franklin Roosevelt que nenhum Presidente se conseguiu reeleger com desemprego acima dos 7.5%).

Mas a tendência de descida progressiva é clara – e prolonga-se há dois anos seguidos. O Presidente sublinhou, neste discurso, que foram criados mais de três milhões de empregos nos últimos 22 meses. Obama sabe que essa tendência terá sempre mais a ver com dados da economia privada, mas este é, sem dúvida, um trunfo na argumentação do Presidente contra o mantra do corte na despesa dos seus adversários republicanos.

Os estímulos dados à economia nos pacotes aprovados em 2009 estão a ter algum efeito – e isso dá base de sustentação ao discurso de recuperação económica de Obama.

Recuperação Económica
“Pretendo combater o obstrucionismo com acção e opor-me-ei a todas as tentativas de voltar às mesmas políticas que provocaram a crise económica. Não voltaremos a uma economia fragilizada pela deslocalização de postos de trabalho, défice incontrolável e falsos lucros financeiros”

Este foi o discurso da definitiva demarcação de Obama em relação à chantagem política do Congresso de maioria republicana.

Barack sempre se comprometeu com uma pretensão «bipartidária». Mas a prática de quase ano e meio de «coabitação» com uma Câmara dos Representantes esmagadoramente republicana (e um Senado com escassa maioria democrata, longa da Super Maioria da primeira fase do mandato presidencial) mostrou que essa preocupação bipartidária levou, quase sempre, ao adiamento e à paralisação.

A forma como o Presidente não desistiu de aplicar o American Jobs Act, mesmo não tendo ele passado no Congresso, foi o primeiro sinal do que agora é confirmado. Obama combaterá «o obstrucionismo com acção».

O Presidente «da conciliação» mostra, agora, a sua face de «político de combate», que não abdicará da sua tese de reduzir desigualdades e incentivar a classe média com programas de estímulos, apesar da permanente oposição republicana, presas nos dogmas da «baixa de impostos e redução do défice».

Compromisso
“Não há nenhum desafio mais urgente nem nenhum debate mais importante. Podemos contentar-nos com um país em que um número reduzido de pessoas vive muito bem, enquanto um número cada vez maior de americanos sobrevive com dificuldade. Ou então podemos restaurar uma economia em que toda a gente dá a sua contribuição e toda a gente joga pelas mesmas regras. O que está em causa não são valores democratas ou republicanos, mas valores americanos – e temos de os ressuscitar. Os milhões de americanos que trabalham no duro e cumprem as regras merecem que o Governo e o sistema financeiro façam o mesmo. As regras têm de ser iguais para todos – sem resgates, nem dádivas, nem compromissos. Uma América de futuro tem de exigir responsabilidade a todos”

As primárias republicanas têm mostrado candidatos muito diferentes uns dos outros. Mas se há factor que une Romney, Gingrich, Ron Paul ou Rick Santorum é acusar Barack Obama de ser um Presidente que tem «contribuído para o declínio da América».

Essa acusação, tão falsa como simplista, apoia-se no crescimento da China, Índia e Brasil, e no reerguer da Rússia (dados verdadeiros) – e também na noção, essa sim errada, de que a influência dos Estados Unidos está em queda, por culpa, supostamente, de um Presidente que não defende os interesses da América na nova cena internacional.

Obama tem reagido a tudo isto com uma ideia forte: a identificação com os «valores americanos» não é monopólio da Direita americana, muito menos de um Tea Party que diz seguir cegamente os princípios fundadores da Constituição.

O modo como o Presidente transporta para a prática política a sua identificação com os «valores americanos» está muito mais nesta frase: “As regras têm de ser iguais para todos – sem resgates, nem dádivas, nem compromissos. Uma América de futuro tem de exigir responsabilidade a todos”.

A América de Obama tem mais a ver com «equidade», «responsabilidade» como formas de recuperar a ideia do país «das oportunidades», em que «todos cabem», desde que «as regras sejam iguais».

Depois de três anos de discurso demagógico da Direita radical, há sinais que uma boa parte do eleitorado americano saberá fazer a interpretação certa do que deve significar «ser americano».

A secretária de Warren Buffett
“Por causa de subterfúgios do código fiscal, um quarto dos milionários paga menos impostos do que milhões de famílias de classe média. Actualmente, o Warren Buffett paga uma taxa de imposto menor do que a sua secretária”

É um dos temas centrais da mensagem do primeiro mandato presidencial de Obama: enfrentar o poder dos republicanos no Congresso e conseguir aplicar medidas que alterem a realidade fiscal que o Presidente considera injusta.

Barack retomou a narrativa da «secretária de Warren Buffett, que paga mais impostos que o terceiro homem mais rico do Mundo».

Uma aberração fiscal criada pelo ‘mantra’ dos anos Bush (baixar os impostos aos mais ricos, supostamente para deixar dinheiro em quem investe para criar empregos, uma estratégia desmentida pela realidade americana dos últimos anos).

Essa ideia tem sido radicalizada pela Direita americana – e os resultados estão à vista. Obama defende uma profunda alteração a esta realidade fiscal, com benefícios à classe média e fortes penalizações aos extractos com rendimentos mais elevados.

O tema promete dominar a discussão nos próximos meses, até porque o favorito à nomeação republicana, Mitt Romney, viu-se obrigado a revelar os seus rendimentos multimilionários e percebeu-se que paga apenas 13,6% de impostos – menos que os 25 por cento da classe média americana.

Irão
“A América está determinada a impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear e eu não excluirei nenhuma opção para conseguir esse objectivo”

Os maiores sucessos da Presidência Obama têm residido na frente externa – e neste discurso do Estado da União, Barack relembrou-os: a eliminação de Bin Laden e neutralização do perigo internacional da Al Qaeda; a luta contra o terrorismo islâmico; as retiradas do Iraque e do Afeganistão; a forma original como os EUA participaram na deposição de Khadafi na Líbia e contribuíram para a Primavera Árabe.

A questão chave da política internacional até às eleições é o Irão. A tensão é crescente, com as ameaças de Teerão em fechar o estreito de Ormuz e em avançar para o programa nuclear – que a comunidade internacional interpreta como ameaça real e o regime de Ahmadinejad garante ter efeitos não bélicos.

Depois de ter “estendido a mão” ao diálogo com Teerão, na primeira fase do seu mandato, Obama acaba agora por reconhecer que não há alternativa que não seja a de endurecer o discurso para travar Ahmadinejad.

O lado realista de Barack na política externa é um dos seus maiores trunfos para chegar a algum eleitorado centrista e republicano.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Gingrich ressuscita na Carolina do Sul


Um leão nos debates, mais mobilizador que Romney no discurso e na mensagem: Newt Gingrich aproveitou território conservador e venceu folgadamente na Carolina do Sul. Quem ganhar na Florida, já no dia 31, assume o estatuto de favorito à nomeação


Gingrich ressuscita na Carolina do Sul

Por Germano Almeida


Mitt Romney descolou cedo dos opositores e terá uma nomeação descansada. Certo? Errado! Quem pensava que, desta vez, os republicanos seriam rápidos e previsíveis na escolha estava completamente enganado.

A Carolina do Sul voltou a mostrar o seu enorme peso na história das primárias republicanas – e gerou uma alteração dramática no curso desta corrida.

O primeiro sinal foi dado dias antes, com a recontagem no Iowa: afinal, o vencedor à tangente foi Rick Santorum e não Mitt Romney. A diferença foi mais simbólica do que estatisticamente significativa – mas a verdade é que retirou a Romney o estatuto (psicologicamente relevante) de vencedor dos dois estados de arranque – algo raro nas primárias republicanas.

As hesitações do multimilionário Romney em revelar publicamente os seus rendimentos também não ajudaram – e Mitt foi entrando em queda livre nas sondagens nas vésperas da Carolina do Sul, estado onde chegou a ter 20 pontos de vantagem.

Quem aproveitou foi Newt Gingrich. Os SuperPAC’s que o apoiam gastaram milhões em anúncios agressivos contra Romney – e o eleitorado mais conservador da Carolina do Sul foi-se identificando com o discurso tradicionalista de Newt.

Nem a entrevista-choque da segunda ex-mulher de Gingrich, Marianne, exibida no auge da luta pelos votos na Carolina do Sul, prejudicou Newt. Pelo contrário, até lhe proporcionou um dos melhores momentos desta campanha, com a resposta veemente, no último debate, contra «os media» e a suposta ajuda que dão a Barack Obama.

Com um discurso mais mobilizador, Gingrich passou os 40 por cento e relançou-se na perseguição a Romney. Mitt não conseguiu aproveitar a desistência de Jon Huntsman (que lhe pode dar ainda mais votos da ala moderada) e, em contraponto, o apoio de
Rick Perry serviu de combustível para que Newt Gingrich acelerasse no campo conservador.

‘Too risky to be nominee?’
É a grande questão lançada no campo republicano, depois da reviravolta da Carolina do Sul: não será arriscado equacionar Newt Gingrich como o nomeado presidencial do GOP?

É certo que o ex-speaker do Congresso se tem mostrado um leão nos debates (com respostas eficazes e argumentação politicamente sólida), mas a longa carreira de
Newt torna praticamente impossível que a sua equipa de campanha prepare uma lenda de um Gingrich inatacável, exibindo um poço de virtudes.

Mais «presidenciável», Romney manterá, por isso, a carta da «inevitabilidade» da sua nomeação, mesmo por quem, no Partido Republicano, assumidamente não morra de amores por ele.


Romney derrapou na Carolina do Sul e, afinal, não ganhou no Iowa: a estratégia "centrista" tem riscos para Mitt, apesar continua a parecer o mais "presidenciável"

Os resultados da Carolina do Sul foram claros na confirmação: as faces mais conservadoras do GOP não gostam de Mitt Romney – e olham para Gingrich como um republicano mais identificado com a ala clássica do partido. Apesar das infidelidades do seu passado pessoal, apesar das inconsistências.
Estão relançadas as dúvidas existenciais dos republicanos.

Santorum perdeu o comboio
Enquanto renasce o duelo Romney-Gingrich, Rick Santorum deverá entrar para a narrativa desta corrida à nomeação presidencial republicana como… ‘o tipo que podia ter feito história, mas passou ao lado dela’.

Soube, dias antes das primárias na Carolina do Sul, que, afinal, tinha mesmo ganho no Iowa (por 34 votos, depois das recontagens, e não a oito de Mitt Romney, como inicialmente se decretou), mas isso de pouco ou nada lhe valeu.

No New Hampshire, tinha perdido a oportunidade de ouro para se afirmar como o «candidato anti-Romney» -- não capitalizou o ‘momentum’ do Iowa e ficou-se pelos mesmos 9 por cento de Gingrich.

A estrondosa derrota para Newt (16 por cento, contra 40.5 de Gingrich) terá conotado Santorum como o grande perdedor da batalha da Carolina do Sul. Resta-lhe a esperança de entrar no ticket como vice-presidente – mas só se o nomeado for Romney, para fazer o equilíbrio entre o moderado e o ultraconservador.

Ron Paul, com um eleitorado mais fiel, ficou-se pelos 13 por cento. Nada mau para quem continua a ser propositadamente ignorado pelo ‘establishment’, mas talvez abaixo do que se chegou a esperar, depois de muito bons desempenhos nos estados de arranque.

O congressista do Texas confirma-se como o candidato de protesto, com ideias arrojadas – mas não passará disso.

Isso, isso, boa Newt!
A ‘surge’ de Newt Gingrich é uma excelente notícia para Barack Obama. A Casa Branca está, há meses, a trabalhar num Plano A. Esse plano prevê que o Presidente tenha em Mitt Romney o adversário mais temível na luta pela reeleição.

A equipa de recandidatura de Obama – de novo liderada pelo núcleo duro de Barack (David Axelrod, David Plouffe, Jim Messina) – considera Mitt o osso mais duro de roer. E calcula que, apesar de todas as dúvidas, a maioria dos delegados à Convenção Republicana acabar por nomear Romney.

Se esse Plano A não se confirmar, isso significará que Obama terá menores dificuldades em segurar a sua base natural de apoio: os democratas, os independentes e a classe média branca dos estados do Midwest.

Barack sabe que há uma fatia de perto de 35 por cento do eleitorado que nunca conseguirá convencer. Essa fatia votará sempre no candidato republicano – seja ele Romney ou Gingrich. Mas a zona flutuante de democratas ‘blue dogs’ e de republicanos moderados (que em 2008 preferiu, em massa, Obama a McCain e, dois anos depois, votou republicano para o Congresso), continua muito indecisa. Num duelo Obama/Romney, talvez prefira Mitt. Se a escolha recair entre o Presidente e Newt Gingrich, o lado mais racional e previsível de Barack deve prevalecer.

Por isso, sobretudo por isso, a campanha de Obama reagiu com sorrisos aos resultados da Carolina do Sul e exclamou: “Isso, isso, boa Newt!”

CAROLINA DO SUL – RESULTADOS
-- Newt Gingrich 40.5%
-- Mitt Romney 27.8%

-- Rick Santorum 16.97%
-- Ron Paul 12.97%

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney destaca-se, mas ainda não convence


Mitt Romney venceu folgadamente no New Hampshire, estado onde tem residência, mas as suas grandes provas de fogo serão na Carolina do Sul e na Florida


Romney destaca-se, mas ainda não convence

Por Germano Almeida


O New Hampshire confirmou o favoritismo de Mitt Romney para a nomeação presidencial republicana – mas esta está longe de ser uma história com um final já contado.

É verdade que Romney começa a parecer lançado para uma vitória inevitável, depois do folgado triunfo (17 pontos à frente de Ron Paul, mais de 20 sobre Huntsman e quase 30 por cento sobre Gingrich e Santorum).

E a dupla vitória nos primeiros dois combates confere-lhe uma força que há muito (36 anos, para sermos mais precisos) não acontecia num arranque de um candidato republicano nas primárias.

Desde 1976 que o Iowa e o New Hampshire não conheciam o mesmo vencedor nas primárias do Grand Old Party. Na história moderna da política americana, o nomeado presidencial republicano venceu pelo menos um destes estados (John McCain, por exemplo, teve mau desempenho no Iowa há quatro anos, mas renasceu para a campanha de 2008 com um sólido e inesperado triunfo no New Hampshire).

Todos estes dados poderiam indicar um passeio no parque para Romney até à Convenção Republicana de Tampa Bay.

Mas o ex-governador do Massachussets ainda não conseguiu convencer por completo as bases conservadoras.

Os quase 40 por cento que arrecadou no New Hampshire são enganadores. No ‘granite state’, Mitt quase jogava em casa: tem residência no New Hampshire, apostou milhões neste combate e é visto como um ‘insider’. Trata-se de um estado muito diferente do Iowa – mais diverso e com menor propensão a teses radicais como as que o Tea Party foi derramando nos últimos anos.

Mas as próximas duas batalhas serão bem mais difíceis para Romney: a Carolina do Sul tem um eleitorado muito mais conservador e o peso dos evangélicos pode ser uma barreira para o mórmon Mitt. E, no final do mês, a Florida pode ser o grande teste à suposta «inevitabilidade» da nomeação de Romney.

Impossível ignorar Ron Paul
Se Romney tem que ser considerado o maior vencedor do New Hampshire, há, no entanto, outro candidato que terá toda a legitimidade em cantar vitória: Ron Paul.

O congressista do Texas, que sempre foi considerado um ‘outsider’ pelo Partido
Republicano, teve um fantástico resultado: 55 mil votos, 23 por cento. Depois do positivo terceiro lugar no ‘caucus’ do Iowa, com quase 22 por cento, Ron Paul confirma-se como um candidato com um eleitorado muito fiel e mobilizado, baseado, sobretudo, no segmento mais jovem, propenso ao seu discurso altamente crítico do sistema político e do peso de Washington.


Ron Paul não será o nomeado, mas já é uma das figuras desta corrida presidencial republicana de 2012

Anti-instituições, contra todo o tipo de ingerências do poder federal e da máquina estatal, Ron Paul tem capitalizado parte do descontentamento dos eleitores em relação à carga fiscal e demarca-se dos restantes candidatos republicanos em questões como o aborto ou as intervenções militares (é isolacionistas e considera que os EUA não devem gastar dinheiro em guerras que não lhes dizem respeito).

Mesmo depois de dois bons resultados nos primeiros combates, Ron Paul sabe que não terá hipóteses reais de nomeação.

Sem capacidade para competir em estados como a Carolina do Sul ou a Florida, vai apostar nas votações por ‘caucus’ e poderá continuar a surpreender. Aconteça o que acontecer, já será uma das figuras da corrida republicana de 2012 – e está a marcar terreno para uma eventual candidatura presidencial do filho, o senador Rand Paul, do Kentucky, em 2016 ou 2020.

Ainda há espaço para o ‘anti-Romney’?
É mais uma das contradições desta estranha corrida presidencial republicana de 2012: Mitt Romney é o mais «presidenciável» -- é o candidato com mais dinheiro, o mais moderado e o que tem a campanha mais organizada – mas nem as duas vitórias do ex-governador do Massachussets fazem terminar com as dúvidas dos sectores dominantes do GOP.

Isso abriria espaço para uma facção ‘anti-Romney’. Só que o problema é que, em vez de esse sector se concentrar num candidato eventualmente vencedor, ele continua dissolvido em quatro nomes pouco convincentes: Newt Gingrich, Rick Santorum, Rick Perry e Jon Huntsman.

Começando por Huntsman. O ex-governador do Utah apostou tudo no New Hamsphire. Precisava de ter ficado em segundo, com uma votação superior a 20 por cento. Ficou perto, mas não alcançou nenhum dos objectivos cruciais: ficou atrás de Ron Paul e não foi além dos 17 por cento.

Ser um «candidato moderado» num tempo de radicalização do discurso republicano foi uma estratégia pouco prudente – sobretudo quando vemos que o próprio Mitt Romney tenta parecer menos centrista do que, na verdade, é. O antigo embaixador da China (nomeado por Obama…) disse ter ficado entusiasmado com a sua votação no New Hampshire. Mas, no fundo, sabe que a sua oportunidade já passou.

Na zona mais à direita, Rick Santorum foi a desilusão da noite. Depois de ter ficado a oito votos de vencer o Iowa, não aproveitou o ‘momentum’ da boa estreia e deixou a sensação de não ter capacidade para se assumir como a alternativa conservadora desta corrida. Terá na Carolina do Sul a sua última chance de virar os acontecimentos a seu favor.


Rick Santorum não foi capaz de aproveitar o 'momentum' do Iowa e está a perder fôlego na luta pelo estatuto de 'anti-Romney'

Quase fora da corrida parece Newt Gingrich: quarto lugar no Iowa, quarto no New Hampshire. Não se vê como poderá tirar a nomeação a Romney – nem mesmo com a sua tese de que é o «único republicano com conhecimento suficiente para vencer um debate cara a cara com o Presidente Obama».

Ainda sem ter desistido oficialmente, mas já fora de qualquer cenário vencedor, está Rick Perry. Bom sinal: é a prova de que, na política americana, quem está mal preparador não tem mesmo hipóteses de sobreviver.

Notas sobre o New Hampshire



Romney é cada vez mais favorito (há 36 anos que um candidato republicano não vencia os dois primeiros estados);

Ron Paul teve um grande resultado e já não pode ser ignorado pelo 'establishment';

Jon Huntsman precisava de mais do que 17% para ter relevância;

Rick Santorum não aproveitou o 'momentum' do Iowa;

Gingrich está quase fora da corrida


RESULTADOS NEW HAMPSHIRE:

-- Mitt Romney 39,4%

-- Ron Paul 22,8%

-- Jon Huntsman 16,8%

-- Newt Gingrich 9,4%

-- Rick Santorum 9,3%

-- Rick Perry 0,7%

domingo, 8 de janeiro de 2012

Histórias da Casa Branca: Ainda haverá uma 'América de Obama'?


O «ano três» de Barack Obama na Casa Branca agravou os fantasmas da «desilusão» em temas como a crise económica, mas confirmou sucessos na frente externa e até terminou com indicadores positivos. Segurar apoios nos segmentos que lhe deram uma enorme maioria em 2008 pode ser a chave para a reeleição em Novembro


Ainda haverá uma ‘América de Obama’?

Por Germano Almeida


(sobre as eleições presidenciais norte-americanas de 2012)
“Se vencer um candidato republicano, creio que o isolamento dos EUA poderá tomar uma forma mais radical do que aquela que antecedeu a sua participação militar nas duas guerras mundiais do século XX. Os candidatos republicanos que se alinham constituem, para mim, uma extraordinária ameaça para a Europa, mas sobretudo para os EUA, cujos valores, cultura, ciência, etc., eu aprendi a amar, pois foi lá que me ensinaram a democracia”

(será que Obama consegue ser reeleito?)
“É uma incerteza que perturba quem (eu incluído) acreditava que Obama faria a diferença. O sucesso dos seus programas-bandeira, como a reforma dos cuidados de saúde ou as políticas ambientais e de energia, virá a ser provavelmente muito reduzido, e a "amabilidade" com que tratou Wall Street não lhe será perdoada. Também não é claro que um segundo mandato lhe permita acabar o que começou, por não ter o apoio político. Temo que venha a ser um 'one term president', como os republicanos estão apostados em fazê-lo. Votaria, mais uma vez, nele.”

JOÃO LOBO ANTUNES, neurocirurgião que viveu e leccionou em Nova Iorque durante 13 anos, em entrevista ao Diário de Notícias


O ano que agora começou será decisivo para se determinar a sentença sobre o «caso Obama».

Há três anos e pouco, uma onda de entusiasmo varreu a América: cansada de oito anos de uma Administração Bush que atiraram os EUA no descrédito internacional e num défice crónico e profundo, uma larga maioria de americanos voltou a provar que é mesmo «tudo possível» na terra da oportunidade – e elegeram um Presidente com características improváveis e um nome de sonoridade entre o muçulmano e o africano.

Com 80 por cento do seu mandato presidencial já cumprido, Barack Obama ainda não conseguiu afastar o fantasma da desilusão – e continua a ser perseguido por uma crise económica de longa duração.

Tendo partido com uma das mais largas e diversificadas maiorias presidenciais da história política americana, Barack Obama foi perdendo a sua base de apoio, a tal ponto que se torna legítimo perguntar: ainda se poderá falar numa «América de Obama»?

“Yes” na política externa…
O «ano três» da Presidência Obama foi particularmente positivo na frente externa: Osama Bin Laden foi apanhado e morto, um objectivo que a Casa Branca e os serviços de inteligência norte-americanos buscaram durante dez anos; os prazos para a retirada do Iraque foram cumpridos; a intervenção militar na Líbia teve o desfecho desejado, com a deposição de Kadhaffi, e inaugurou uma nova forma de os EUA participarem numa acção internacional em grande escala, com intervenção directa na primeira fase do conflito e posterior cedência da liderança do processo a ingleses e franceses.

O «realismo» que Barack Obama assumiu para as relações externas (definido em Oslo na aceitação do Nobel da Paz ou no discurso de Praga) foi aprimorado em 2011: os EUA devem ser parte activa dos grandes acontecimentos internacionais, mas liderar não obriga a superpotência miliar a fazer as despesas de todas as grandes acções.

A saída do Iraque foi outra altura aproveitada por Obama para recordar que «é tempo de voltar ao essencial e apostar na recuperação económica dos EUA».

Mas a História tem-nos mostrado que a política externa, sendo importante para a imagem global dos Presidentes dos EUA, não é decisiva para a sua reeleição. Se assim fosse, Obama já tinha a vitória assegurada em Novembro.

… “No” na frente doméstica
Os grandes problemas têm estado na frente interna. Apesar dos indicadores de alguma recuperação da economia americana no último trimestre de 2011, a verdade é que o desemprego na América continua alto (8,5%, sendo que, historicamente, nenhum Presidente americano conseguiu ser reeleito com uma taxa de desemprego superior a 7,5%).

Nas primárias republicanas, alguns candidatos do GOP (sobretudo Mitt Romney, Michele Bachmann e Rick Perry) têm sublinhado o facto de que Obama chegou à Casa Branca sem qualquer experiência executiva ou empresarial, apontando esse dado como uma forte adversidade de Barack numa altura em que a Economia é, ainda mais, o factor que conta.

A evolução dos próximos meses deverá ser, nesse capítulo, decisiva para Obama: ou o desemprego, que até já começou a decrescer, desce de forma mais acentuada ou ficará difícil vender a ideia de que será ele o candidato da recuperação económica.

É verdade que os EUA foram uma das escassas excepções positivas, em 2011, nas bolsas mundiais: num cenário quase generalizado de perdas enormes, só cinco ou seis países tiveram ganhos: Venezuela, Indonésia, Filipinas, Islândia, América.

Mas isso não chega para quem ainda se pode reivindicar de ser a maior economia do Mundo e o farol das grandes ideias e da inovação.

Ameaçada pelo crescimento exponencial da China, da Índia e do Brasil, a América precisa urgentemente de ganhar gás na Economia, na Inovação e na Ciência.

Obama, que baseou parte da sua campanha nessa ideia, tem falado menos sobre essas questões (o discurso “Winning the Future” terá sido o último grande momento do género), forçado que está a negociar com o Congresso a melhor forma de preparar cortes orçamentais.

Que plataforma para a reeleição?
Dias depois do Iowa, e já com as primárias do New Hampshire e da Carolina do Sul a bater à porta, o foco das atenções dos media, dos ‘pundits’ e das empresas de sondagens está, obviamente, nos candidatos republicanos.

Mas as últimas semanas têm denotado uma tendência consistente de recuperação da Taxa de Aprovação de Obama.

Mesmo assim, não é muito claro, nesta fase, se o Presidente está em condições de conseguir segurar maiorias nos segmentos que o lançaram para a eleição em 2008. Há alguns sinais que apontam para que o eleitorado jovem (que votou em massa em Obama há três anos) tenha fortes movimentações para a abstenção e mesmo para o candidato republicano.

As mulheres, os latinos e os judeus são outros três segmentos a olhar com especial atenção. Sobretudo nos estados do Midwest, a maioria feminina que elegeu Obama em 2008 pode estar em perigo, devido ao desemprego e à Reforma da Saúde (particularmente impopular no eleitorado feminino centrista).

Por enquanto, o voto hispânico continua a pender para Obama, mas é outro segmento que o Presidente poderá ter dificuldade em segurar. E quanto aos judeus, que embora não decidam demograficamente as eleições na América têm sempre um peso muito forte a nível de ‘lobby’ e de financiamento, são votantes de peso em estados como Nova Iorque ou Nova Jérsia, que Obama não poderá dar-se ao luxo de perder em Novembro.

Não se admirem, por isso, que as posições da Administração Obama em relação à questão israelo-palestiniana sejam menos neutrais nos próximos meses. “It’s all about politics”.