sábado, 8 de setembro de 2012

Histórias da Casa Branca: Descer à terra e reforçar diferenças na nomeação de Obama


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 7 DE SETEMBRO DE 2012:


Descer à terra e reforçar diferenças na nomeação de Obama

Por Germano Almeida





«Mais tempo para concretizar a mudança. O estado da Economia americana não é positivo, mas o caminho iniciado pelo Presidente Obama em janeiro de 2009 inverteu a tendência desastrosa que estava a conhecer na fase final dos anos Bush e é preciso continuar esse percurso por mais quatro anos.



Foram estas as linhas fortes da Convenção Democrata que, durante três dias, energizaram as bases do partido do burro, em Charlotte, Carolina do Norte. «Forward», «Opportunity», «More four years» foram as tiradas mais lançadas.



Dias antes, em Tampa, na Florida, a Convenção Republicana tinha demonizado a herança económica de Barack Obama, acusando o Presidente de ter atirado a América para o endividamento, o défice excessivo e o desemprego.



Os democratas tentaram desmontar esta ideia, acusando-a de ser simplista. O argumento para a reeleição de Obama é, muito claramente: era difícil fazer melhor, tendo em conta o estado das coisas no final de 2008; para que o panorama volte a ser favorável, há que dar uma segunda oportunidade a Barack Obama.



As intervenções na Convenção Democrata destacaram também algumas das conquistas do primeiro mandato presidencial de Obama: a Reforma da Saúde (aprovada no Congresso e confirmada no Supremo Tribunal); a recuperação da indústria automóvel; a criação de 4,5 milhões de empregos nos últimos 29 meses; a eliminação de Bin Laden e a retirada do Iraque e do Afeganistão; os programas da Administração Obama de alargamento no acesso à Educação e nas linhas de crédito para universitários poderem pagar os seus cursos.



Para os eleitorados tradicionais do Partido Democrata, estas são conquistas importantes – de tal modo, que a ideia de renomear Barack Obama como candidato presidencial foi consensual.



O problema é que muitas das conquistas de Obama como Presidente não são populares: não é líquido que a Reforma da Saúde dê mais votos a Obama do que vá tirar; mesmo a salvação da indústria automóvel implicou um gasto federal que está longe de ser pacífico.



Mas foram três noites bem conseguidas – com momentos emocionantes (como os discursos de Michelle Obama e Julián Castro), exemplos de coragem americana (Gabrielle Giffords a aparecer no palco, ajudada por Debbie Wasserman Schultz, perante uma plateia extática e de lágrimas nos olhos) e mensagens de clara eficácia política (Bill Clinton a decretar que nenhum Presidente, nem ele, seria capaz de em apenas quatro anos resolver o que Barack Obama herdou; Ted Kennedy, recordado em tributo, a arrasar Mitt Romney num debate para o Senado na década de 90).



Fixar segmentos

Obama venceu claramente em 2008 em vários segmentos: negros, judeus, jovens, mulheres, hispânicos, ‘swing states’.



Perante a desilusão de muitos eleitores que representam esses segmentos, a grande preocupação da campanha Obama é fixar esses segmentos. É uma questão de aritmética: se isso for conseguido, o Presidente será reeleito.



Não foi, por isso, de estranhar a aposta forte que o alinhamento em Charlotte deu às mulheres. Elizabeth Warren, candidata ao Senado pelo Massachussets e uma pessoa próxima do Presidente na primeira fase do mandato em questões como a regulação financeira e a proteção dos consumidores, teve um dos discursos mais destacados (precedeu Bill Clinton no segundo dia).



Gabrielle Giffords, ex-congressista do Arizona que foi vítima de atentado a tiro em Tucson, Caroline Kennedy (única filha viva de JFK), Eva Longoria e Scarlett Johansson foram outras das apostas femininas da convenção.



No caso de Eva, além da óbvia ligação ao ‘star power’ de Hollywood (que volta a estar em peso com Obama), há também a conexão com o eleitorado latino – que poderá ser decisivo em estados como o Colorado, o Nevada ou a Florida. Quanto a Scarlett, fez apelo claro ao eleitorado jovem para não ficar em casa – e votar no dia 6 de novembro.



Mas o maior trunfo para essa junção de latinos e jovens foi, sem dúvida, o destaque dado a Julián Castro. Presidente da sétima câmara mais populosa da América, o jovem mayor de San António, Texas, de apenas 37 anos, contou a uma comovida plateia a sua história de sucesso nos EUA, graças à avó mexicana que foi para a América para dar uma oportunidade de educação à filha e aos netos.



Castro foi visto como uma espécie de... Barack Obama em 2004. Não terá sido tão brilhante, mas lançou um dos melhores soundbytes da Convenção: «Opportunity today, prosperity tomorrow». Uma ideia profundamente democrata e repescada, por exemplo, no discurso de Eva Longoria.



Clinton brilhante, Michelle comovente

Mas as grandes intervenções do conclave democrata (para lá, obviamente, da aceitação de nomeação de Barack Obama) foram de Michelle Obama e Bill Clinton.



A Primeira Dama pode até garantir que não tem ambições políticas. Mas depois do seu discurso de terça à noite, até houve quem lançasse a possibilidade de Michelle Obama concorrer à nomeação presidencial democrata em 2016.



Michelle garantiu que Barack «continua a ser o mesmo» e não mudou depois de ser Presidente. A esposa de Obama fez um poderoso argumento pela reeleição, mobilizando sobretudo o eleitorado feminino e ajudando a fazer renascer o espírito da campanha de 2008.



Quanto a Bill Clinton... bem, terá feito, de acordo com Paul Begala (seu estratega quando era Presidente e antigo assessor da campanha presidencial de Hillary Clinton), «o melhor discurso desde que deixou a Casa Branca».



Bill juntou um discurso muito bem articulado em termos retóricos com uma grande substância. Foi ao pormenor, acusou os republicanos de obstrucionismo e definiu as linhas de argumentação para a reeleição de Obama: «O argu¬mento para a reeleição de Obama é este. Ele her¬dou uma econo¬mia pro¬fun¬da¬mente dan¬i¬fi¬cada. Mas pôs um fundo ao poço, e começou o longo, duro processo de recu¬per¬ação, con¬stru¬indo uma econo¬mia mais mod¬erna e mais equi¬li¬brada, capaz de pro¬duzir mil¬hões de bons empre¬gos, novas e vibrantes empre¬sas e riqueza para os inovadores. Agora, esta¬mos onde gostaríamos de estar? Não. O Pres¬i¬dente está sat¬is¬feito? Claro que não. Mas esta¬mos mel¬hor do que está¬va¬mos quando ele tomou posse».



Ainda houve espaço para John Kerry (possível secretário de Estado de um segundo mandato presidencial de Obama) arrasar as credenciais de Mitt Romney em política externa e para Joe Biden, no discurso de aceitação da nomeação vice-presidencial, endeusar Obama por ter salvado a indústria automóvel («este homem tem coragem na sua alma, compaixão no coração e uma espinha de aço», disse Joe sobre Barack, e questionar, criticamente: «Como é possível que Mitt Romney, tendo crescido a gostar de carros, não ter percebido como era fundamental salvar Detroit?»





«O melhor caminho para seguir em frente»

Depois de Michelle o ter humanizado, e de Bill Clinton ter explicado de forma brilhante as razões pelas quais os americanos lhe devem dar uma segunda oportunidade, Barack Obama tinha o caminho livre para fazer um discurso de aceitação da nomeação presidencial virado para o futuro e marcado por um tom positivo.



Em mais um momento de grande qualidade retórica, Obama focou-se em «olhar para a frente», prometendo um «melhor caminho para o futuro». «Não estou a tentar dizer-vos que o caminho será fácil ou rápido. Nunca o fiz. Não me elegeram para dizer o que querem ouvir. Elegeram-me para vos dizer a verdade. E a verdade é que vai demorar mais quatro anos para resolver desafios que se acumularam durante décadas. Mas ouve isto, América: os nossos problemas podem ser resolvidos. Os nossos desafios podem ser vencidos. O caminho que vos ofereço pode ser duro, mas leva-nos para um sítio melhor», apontou Barack.



Obama deu prioridade em marcar a diferença em relação à visão de Romney: «Se rejeitam a noção de que a promessa desta nação está reservada a alguns, a vossa voz tem que ser ouvida nesta eleição. Não achamos que o Governo é a solução para tudo. Mas também não achamos que o Governo é a fonte de todos os problemas».



Faltam 59 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Histórias da Casa Branca: Dois caminhos para a mesma ideia de América


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 4 DE SETEMBRO DE 2012:


Dois caminhos para a mesma ideia de América

Por Germano Almeida




«A essência da América é que não importa de onde se veio, mas para onde se vai», Condolleezza Rice, secretária de Estado norte-americana (2005-2009) e Conselheira de Segurança Nacional (2001-2005).



O duelo presidencial Barack Obama/Mitt Romney de 6 de novembro promete ser dos mais agressivos e fraturados das últimas décadas na América.



As diferenças de estilo, ideias e propostas dos dois nomeados são tão grandes que não há plataforma de entendimento possível em matérias essenciais. A agravar tudo isto, o ambiente nas hostes democratas e republicanos é especialmente crispado, depois de quatro anos de mandato presidencial de Obama muito marcado pelas divisões entre os dois campos – sobretudo depois do controlo do Congresso por parte do Partido Republicano.



A Convenção Republicana que se realizou, na semana passada, em Tampa, na Florida, foi um bom indicador dos níveis de hostilidade e, nalguns casos, mesmo de raiva que as principais figuras do conservadorismo têm pelo atual Presidente.



A lamentável cena da cadeira vazia onde supostamente estaria um invisível, protagonizada por Clint Eastwood, foi um belo exemplo do sentimento que invade o Partido Republicano.



A política americana sempre teve um lado ‘silly’, mas o número preparado por Eastwood terá sido um dos momentos mais ridículos já vistos numa convenção partidária.



Com ele, o protagonista de ‘Dirty Harry’ terá querido simbolizar o que muitos conservadores americanos consideram ter sido o esvaziamento do poder presidencial (dentro dos moldes que eles consideram que este deve ser corporizado), desde que Obama chegou à Casa Branca.



A mentalidade subjacente à crítica encenada de Eastwood tem como principal ideia a de que Obama diminuiu a carga que a figura de Presidente dos EUA deve ter – e vai ao encontro da tese republicana de que Barack foi demasiado permissivo com o Irão ou com os países árabes do Médio Oriente, que podem ameaçar Israel.



Para muitos republicanos, Obama teve uma política de demasia-a abertura para com países que possam constituir uma ameaça ao poder americano. Daí se percebem, por exemplo, as referências de Mitt Romney à China e à Rússia (o nomeado presidencial republicano prometeu ser mais duro com Putin e acusou Obama de ter permitido que os chineses aumentassem a sua influência junto da economia americana).



Esta visão republicana de um Obama «demasiado macio» para com o exterior foi especialmente referida no discurso de Condoleeza Rice.



A secretária de Estado do segundo mandato de George W. Bush (primeira mulher a chefiar o Conselho de Segurança Nacional, no primeiro mandato de Bush filho e assessora diplomática de Bush pai) foi particularmente dura com o estilo de Obama nas relações externas, ao referir: «Uma América que não lidera pode ter duas consequências: o caos, se ninguém ocupar o seu lugar; ou uma séria ameaça, se outros países que não defendem os nossos valores assumiram o espaço que estamos a deixar vazio».



A América como «país excecional»



Este fogo cruzado dos republicanos sobre Obama remetem para uma das ideias fortes que Mitt Romney tentará lançar nos próximos dois meses: a de que esta administração democrata enfraqueceu a liderança dos EUA no Mundo e que, com uma vitória republicana em novembro, a Casa Branca voltará a lançar a América como «um país excecional e indispensável» na ordem internacional.



Quem tenha ouvido as principais intervenções políticas da Convenção Republicana (Mitt Romney, Paul Ryan, Chris Christie, Mike Huckabee, Marco Rubio, Condoleeza Rice, Jeb Bush, Bob McDonnell...), pode ter ficado com a noção de que democratas e republicanos têm, por estes dias, visões radicalmente opostas sobre a América.



Mas uma análise mais atenta às ideias fortes que foram passadas em Tampa faz-nos perceber que o que move e, sobretudo, comove um democrata e um republicano não difere muito: uma boa história americana, de alguém que, como muito bem definiu Condoleezza Rice, «não tenha sido marcada pelo seu passado, mas pelo seu futuro; não pelo que está para trás, mas por aquilo que está por vir».



Essa ideia, que basicamente explica o sucesso retumbante de Barack Obama há quatro anos, é a que continua a dominar o discurso político americano.



Momentos depois da cena lamentável da cadeira vazia, Clint Eastwood fez aquela que foi talvez a melhor declaração da Convenção Republicana, definindo muito do espírito americana, ao virar-se para a assistência em Tampa: «Quem manda na América são vocês. Os políticos são apenas funcionários. Se fizerem um mau trabalho, devem ser despedidos».



Romney tem tentado contar a sua história de empresário de sucesso. Falta saber se conseguirá convencer a maioria dos americanos que poderá ser mais do que isso.



Faltam 63 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos»

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Raiva anti-Obama na Convenção Republicana


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 31 DE AGOSTO DE 2012:


Raiva anti-Obama na Convenção Republicana

Por Germano Almeida





«A Convenção de Tampa, na Florida, ajudou a fixar os temas fortes dos republicanos para a eleição presidencial de 6 de novembro: a América, com um segundo mandato de Obama, estaria em risco de perder o seu lugar dominante no Mundo; Mitt Romney e Paul Ryan têm soluções para evitar a escalada do monstruoso défice americano, agravado por esta administração democrata em «seis triliões de dólares».



Mesmo tendo nomeado o candidato menos comprometido com a ala dura do partido, os republicanos estão particularmente motivados a seguir uma linha agressiva e radical contra este Presidente – e preparam-se para assumir um dos duelos mais fraturados e ideológicos das últimas décadas na América.



Para o atual argumentário do Grand Old Party, o Presidente Obama é o grande culpado pela difícil situação económica que a América atravessa e, mais grave ainda, Barack tem permitido uma progressiva redução da importância e da autoridade dos EUA no Mundo.



À ‘change’ do candidato democrata Obama em 2008, os republicanos acrescentaram um ‘We can change it’ para 2012.



Os conservadores acusam o atual Presidente democrata de levar a América para o «endividamento insustentável» e prometem um regresso a uma América «do trabalho», do «empreendedorismo» e da «livre iniciativa», atirando Obama para uma visão «socialista» da economia.



Desde o radicalismo populista de Mike Huckabee, ao discurso terra-a-terra de Chris Christie e ‘real America’ de Bob McDonell, passando pela argumentação mais refinada -- mas especialmente ressentida -- de Tim Pawlenty, o tom dos discursos do GOP profundo, na Convenção Republicana que formalizou a nomeação presidencial de Mitt Romney, foi de crítica impiedosa à herança deste Presidente.



‘Big government’ vs liberdade individual

Obama é, para o discurso oficial republicano, o paladino do ‘big government’ – conceito que provoca aversão a qualquer republicano nos dias que correm.



A dicotomia que os republicanos acentuaram na convenção poderá definir-se assim: na mente do conservadorismo americano, Obama protagoniza o peso «excessivo» e «ilegítimo» do Governo; os republicanos respeitam a tradição, vinda da Constituição e dos Founding Fathers, do poder «do povo», concedido diretamente «por Deus», sem intermediação do poder federal.



Mesmo figuras respeitadas fora do campo republicano, e com uma história política e intelectual bem anterior a esta fase tão fraturada entre Obama ‘vs’ republicanos, como o senador John McCain, ou a ex-secretária de Estado, Condoleeza Rice, acabaram por transmitir este registo nos discursos que proferiram na convenção.



O que ficou dos três dias de discursos republicanos em Tampa foi a quase obsessão existente na Direita americana em deitar abaixo, logo que Mitt Romney consiga derrotar Obama nas urnas, todas as prioridades legislativas deste Presidente nos últimos três anos que tivessem a ver com intervenção federal que implicasse investimento público: ‘repeal ObamaCare’ foi, por isso, uma das frases mais proclamadas da Convenção...



Romney quis mostrar um sinal de união junto das novas estrelas do Partido Republicano – e pudemos ver a influência que nomes como Marco Rubio (jovem senador pela Florida), Nikki Haley (governadora da Carolina do Sul) ou Susana Martinez (a primeira mulher hispânica a governar um estado na América, no Novo México), já têm no GOP.



Mas o que Mitt não foi capaz foi de retirar do guião momentos como o de Rick Santorum a citar o exemplo da sua filha deficiente para acusar Obama e os democratas de permitir o aborto.



Paul Ryan é bom ou... mau sinal?

É justo reconhecer que a escolha de Paul Ryan para número dois conferiu alguma garantia de credibilidade política ao ticket de Mitt Romney.



Se nos lembrarmos dos desvarios lançados pelas estrelas do Tea Party nos últimos três anos, é um facto que Romney poderia ter enveredado por um caminho mais perigoso, se optasse por Michele Bachmann, Sarah Palin ou Mike Huckabee, por exemplo.



Muito bem preparado, trabalhador e, possivelmente, um dos mais inteligentes congressistas que neste momento servem em Washington, Ryan é uma lufada de ar fresco intelectual nesta corrida.



O problema é que, à luz de atacar a herança de Obama a todo o custo, os republicanos se permitiram passar ao lado da verdade em questões chave desta Convenção.



O discurso de aceitação de Paul Ryan, como nomeado para vice-presidente dos republicanos, foi talvez o melhor exemplo disso.



Do ponto de vista retórico, foi muito bem construído – um discurso que junta referências ao orçamento, a Led Zeppelin e uma garantia de que os republicanos vão ganhar a discussão sobre o Medicare com os democratas merece ser elogiado. Ryan teve o condão de energizar a base republicana num ticket que ainda coloca algumas reservas – e ajudou Romney a chegar a setores mais à direita do partido.



Só que o discurso de Ryan teve um... pequeno problema: no meio da torrente de críticas e acusações à herança de Obama, houve várias imprecisões e inverdades.



Romney em versão humanizada

Mitt Romney ainda não se conseguiu livrar de uma imagem robotizada, de candidato pouco mobilizador.



A sua mulher, Ann, terá protagonizado um dos melhores momento da Convenção de Tampa, ao proferir um discurso humanizado, que ajudou a mostrar um lado menos conhecido de Mitt.



No discurso de aceitação, Mitt Romney tentou apelar ao voto dos indecisos e fez um esforço para se descolar da imagem de ser um orador pouco convincente. Teve um desempenho sólido e focado na agenda republicana – mas não conseguiu lançar uma novidade capaz de agitar a campanha a seu favor.



Faltam 67 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Pode Romney escapar aos radicais?



TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 28 DE AGOSTO DE 2012:


«Mitt Romney obteve a nomeação presidencial por ser o menos radical dos candidatos que se apresentaram às primárias do Partido Republicano para a eleição de 2012.




A pouco mais de dois meses do duelo com Barack Obama, a grande dúvida que permanece no campo republicano é mesmo esta: será que o nomeado do GOP (Grand Old Party) vai ser capaz de evitar o contágio dos radicais, que dominaram o discurso político da Direita americana nos últimos quatro anos?



Se dúvidas houvesse sobre o excessivo peso da ala dura no ideário republicano para 2012, basta prestar um pouco de atenção à narrativa que dominará a Convenção que formalizará a escolha de Mitt Romney para a candidatura à presidência dos Estados Unidos.



O paradoxo republicano para estas eleições ficará bem visível nos próximos dias: o conclave que hoje terá início na Florida nomeará aquele que -- a par de Jon Huntsman (ex-governador do Utah e embaixador na China até abril passado, curiosamente indicado por Barack Obama) – era o pretendente menos envolvido com o Tea Party.



Mas a verdade é que a força das ideias extremistas foi tão grande nas mentes e nos corações dos conservadores americanos desde a eleição de Barack Obama que a narrativa prevalecente é particularmente dura.



Depois de novembro de 2008, foi muito difícil ser-se republicano moderado nos EUA. A ‘Obamania’, especialmente atrativa no eleitorado independente e, nalguns estados, até nos republicanos centrisas, tinha, aparentemente, deslocado o eixo ideológico do GOP para a Direita.



O contágio do Tea Party nas escolhas do Partido Republicano para os candidatos ao Congresso, em novembro de 2010, e mesmo nos apoios aos candidatos presidenciais para 2012 reforçou esta tendência.



A forma como Mitt Romney foi adaptando o seu discurso, durante as primárias, tirou todas as dúvidas: para conseguir convencer as bases do seu partido de que era mesmo o melhor candidato para derrotar Obama, o ex-governador do Massachussets teve que endurecer posições em temas como o aborto, a Reforma da Saúde e até na frente externa.



Mesmo depois de Romney ter ficado com a clara certeza de que iria ser o nomeado, a verdade é que Mitt nunca se conseguiu livrar o do peso dos radicais. Para conseguir obter níveis de financiamento para a sua campanha capazes de combater a elevada capacidade de Obama nesse capítulo, Romney foi construindo o caso da sua suposta «conversão» a uma visão da política, da sociedade e do Mundo mais próxima com os ultraconservadores -- e menos enquadrável naquilo que Mitt foi sendo como governador ou como candidato ao senado por um dos estados mais liberais dos EUA, o Massachussets.



Os perigos do ‘flip flop’

É claro que este ‘flip flop’ político tem os seus riscos. Se é certo que a política é «a arte do possível» e que, nesse plano, ninguém nos EUA pode considerar-se totalmente imune a «adaptações» (basta que nos lembremos da evolução do Presidente Obama em relação ao direito dos homossexuais de acederem ao casamento civil: era contra nas eleições de 2008 e agora passou a ser a favor...), a verdade é que o caso de Mitt Romney mostra uma excessiva tendência para a mudança de opiniões ao sabor das circunstâncias.



Os casos das últimas semanas puseram a nu os riscos desta estratégia. As declarações disparatadas do congressista Todd Akin (candidato republicano ao Senado pelo Missouri) sobre a violação e a alegada «capacidade do corpo feminino em evitar a gravidez nos casos de violações verdadeiras» são um sinal claro do nível de radicalismo de uma boa parte dos republicanos, neste momento.



É justo ressalvar que tanto Mitt Romney como o seu número dois, Payl Ryan, se demarcarem destas posições – tendo mesmo solicitado a Todd Akin que se retirasse da corrida (coisa que ele ainda não fez).



Mas um olhar para as ideias fortes do programa republicano a analisar na Convenção Tampa mostra-nos uma visão que se enquadra nos disparates ditos por Todd Akin: aborto sempre proibido, mesmo em casos de violação, deficiência profunda do feto ou risco de vida para a mulher; casamento é só entre um homem e uma mulher; endurecimento de posições sobre a imigração.



Apesar de Romney e Ryan não terem, no geral, posições tão radicais sobre estes temas, Bob McDonnell, governador da Virgínia e responsável pela redação do documento, deixou bem clara; «Ele reflete o coração e a alma do Partido Republicano».



Obama já alertou para o facto de «o governador Romney estar a apresentar ideias muito extremistas, que afrontam os direitos das mulheres». As sondagens mostram que os republicanos estão atrás dos democratas no eleitorado feminino – e esse dado pode ser determinante em estados chave para a eleição.



Faltam 70 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Uma campanha nada alegre


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 23 DE AGOSTO DE 2012:


Uma campanha nada alegre

Por Germano Almeida



«Se a campanha presidencial de 2008 foi das mais inspiradoras de sempre (um jovem senador negro frente a um velho leão com traços de herói), o duelo eleitoral de 2012 está a ser muito crispado e menos mobilizador do que se esperaria.



Obama perdeu uma boa parte da aura santificada com que arrebatou uma enorme vitória há quatro anos. Romney está longe de ser um candidato convincente – mas mesmo para uma boa parte dos segmentos eleitorais que acabarão por votar nele.



Esta não será, por isso, uma campanha alegre. Os republicanos marcaram, desde cedo, o tom: praticamente desde que Barack Obama pôs o pé na Casa Branca, o grande objetivo do Grand Old Party passou a ser o de fazer tudo para que este fosse um «one term President».



Há quatro anos, John McCain optou por uma via institucional: perante o momento histórico que a nomeação presidencial democrata de Obama já representava, enquanto primeiro candidato negro a obter a nomeação por um grande partido do sistema, o senador pelo Arizona tratou Barack com elevação – e travou sempre os ataques mais cerrados à personalidade do seu adversário que eram feitos pelas alas mais duras do Partido Republicano.



Mas já se percebeu que essa não será a via seguida por Mitt Romney. Mesmo não sendo geneticamente um político da direita radical americana, o ex-governador do Massachussets tem interpretado o «sabor do tempo» e está a enveredar por um caminho perigoso.



Mitt escolheu a versão ‘no more Mr. Nice Guy’ e já prometeu aos seus apoiantes que não vai «cair no erro de McCain». Obama está a ser tratado pelo futuro nomeado republicano como alguém que «tem feito mal à América», que «não representa os verdadeiros valores americanos», que «não sabe criar empregos».



O clima político em Washington tem sido dominado pela divisão e pela hostilidade nos últimos anos. Obama tentou, sobretudo quando ainda tinha a maioria no Congresso, estabelecer plataformas bipartidárias – mas perdeu essa batalha e, em momentos chave da sua presidência, teve mesmo que assumir ordens executivas da Casa Branca, para descongelar impasses políticos no Capitólio.



Uma fatia significativa da direita americana não suporta a ideia de ver Obama a cumprir um segundo mandato na Casa Branca.



E uma grande parte dos democratas e independentes que apoiam o Presidente sentem que Barack deve ser mais claro na fratura política a estabelecer com visões republicanas assustadoramente retrógradas (como a desvalorização da violação feita pelo candidato ao senado pelo Missouri, Todd Akin...)



Com o aproximar do duelo eleitoral de 6 de novembro, este clima tenderá a piorar. E o registo inspirador de 2008, com dois candidatos a protagonizar duas grandes histórias americanas que colhiam a admiração da esmagadora maioria do eleitorado, parece cada vez mais distante no tempo e na memória.



Em 2008, tanto Obama como McCain puxavam pelo «melhor da América» -- fosse com o apelo regenerador do jovem Barack ou com o exemplo de heroísmo do experiente John.



Desta vez, o que está em causa são conceitos mais convencionais como: «quem é capaz de criar mais empregos?», «quem consegue tirar os EUA da crise?», «qual dos dois é melhor para defender a classe média e diminuir as desigualdades?»



Romney a recuperar nos estados decisivos

Não terá sido o ‘bounce’ que Mitt Romney desejaria, mas a verdade é que o pré-candidato republicano à Casa Branca beneficiou de uma ligeira subida nas sondagens nos dias que se seguiram ao anúncio de Paul Ryan como seu vice-presidente.



Romney, que chegou a estar a nove pontos de Obama nas sondagens nacionais, está a encurtar a distância para Barack e parece voltar a ter esperanças de conquistar alguns dos estados decisivos, como o Ohio, a Florida ou mesmo o Michigan (lutas muito equilibradas nestes três estados).



Obama mantém-se muito forte na Virgínia e na Pensilvânia e continua com boa vantagem no Colégio Eleitoral. Mas as probabilidades de reeleição já foram mais claras – e a diferença entre Barack e Mitt nas sondagens é cada vez mais pequena.



Faltam 75 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Já não é Messias, mas ainda pode ser vencedor


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 21 DE AGOSTO DE 2012:


Já não é Messias, mas ainda pode ser vencedor


Por Germano Almeida




«O vento e as ondas estão sempre do lado dos melhores marinheiros»

Edward Gibbon, historiador e político inglês do século XVIII



«Os tempos não estão para grandes sonhos. Depois do verão, existe um risco real de a Europa vir a conhecer ainda mais perturbações económicas e, por arrasto, as ondas da crise possam afetar a recuperação da Economia americana.



As eleições presidenciais nos Estados Unidos estão marcadas para 6 de novembro. São pouco mais de dois meses e meio e isso parece pouco.



Mas até lá muito pode ainda acontecer: uma saída da Grécia do euro; um eventual resgate de Espanha e Itália que poderá provocar a derrocada de todo o projeto europeu; um possível ataque de Israel a interesses militares do Irão; o agravar da guerra na Síria, com presença crescente de potências regionais como a Turquia, o Irão e até mesmo a Rússia.



Há, por isso, vários cisnes negros que ameaçam a criação de uma situação internacional imprevisível – e de consequências eventualmente nocivas para os indicadores económicos dos EUA até novembro.



Todos estes fatores parecem jogar contra a reeleição de Barack Obama. Com um desemprego de 8.3%, acima do que supostamente tem sido a barreira que um Presidente em funções aguenta eleitoralmente (há sete décadas que ninguém consegue segundo mandato na Casa Branca com uma taxa de desemprego acima dos 7.5%)



Só que uma eleição presidencial na América mexe com muito mais coisas do que isto. O fator humano é muito importante. E as qualidades políticas também. Nesses planos, Barack Obama tem-se mostrado muito superior a Mitt Romney – e as apostas estão, claramente, do lado do Presidente. As ‘intrade odds’ dão entre 55 a 70 por cento de probabilidades de vitória de Obama a 6 de novembro. E as sondagens (tanto a nível nacional como no plano estadual) mostram o candidato democrata à frente do pretendente republicano.



Mais tempo para a concretização
Barack Hussein Obama II, 51 anos, é o 44.º Presidente dos Estados Unidos da América. Filho de um queniano (Barack Obama I), que ganhou uma bolsa para estudar nos EUA, e de uma antropóloga americana branca do Kansas (Ann Dunham), nasceu e cresceu no Havai e é produto da diversidade americana.



Passou parte da adolescência na Indonésia, estudou em Nova Iorque e em Harvard. Foi o primeiro negro a dirigir a Harvard Law Review. Teve uma carreira política quase cem por cento vencedora (a única exceção, antes de chegar à Casa Branca) foi a perda da corrida ao Congresso para Bobby Rush, em 2000.



Habituado a quebrar fronteiras e preconceitos, foi várias vezes «o primeiro». Passou no Senado como um relâmpago, já com a Casa Branca no horizonte. E habituou-se a ter um discurso de fasquia elevada, a apelar ao sonho.



Em 2008, no declínio do desastre Bush, essa era a receita indicada. 2012 tem, no entanto, uma narrativa bem diferente.



O que esta disputa presidencial tem mostrado é que, apesar da crise, os americanos continuam a gostar Obama. Continuam a conferir-lhe bons níveis de simpatia e uma taxa de rejeição relativamente baixa, para quem é Presidente há quatro anos.



Se, em 2008, Barack prometia a «mudança» e a «reconciliação», em 2012 pede mais tempo para a concretização. «Yes we can but... but we need more time», disse Obama a Jon Stewart, no Daily Show.



As vitórias conseguidas no primeiro mandato são históricas e falam por si: primeiro Presidente em sete décadas a conseguir aprovar no Congresso a Reforma da Saúde, posteriormente confirmada no Supremo Tribunal; Osama Bin Laden eliminado; ratificação do novo Tratado START, com a Rússia; saída do Iraque e do Afeganistão; lançamento do programa «Race To the Top» e criação de empréstimos para o pagamento de cursos universitários na área da Educação; criação de 4,5 milhões de empregos nos últimos 29 meses.



Seriam feitos suficientes para justificar uma reeleição tranquila, não fosse Obama ter apanhado quatro anos terríveis, com uma Economia que insiste em não arrancar, um ambiente político em Washington muito hostil e divisivo e uma indefinição internacional assustadora.



Já ninguém acredita que Barack Obama seja o Messias. Mas o mais provável é que continue a ser o ás de trunfo da política americana. E, por isso, se sagre vencedor a 6 de novembro.



Faltam 77 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos»

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Que América depois de novembro?


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 16 DE AGOSTO DE 2012:


Que América depois de novembro?

Por Germano Almeida



«Os Estados Unidos da América são um país complexo e, muitas vezes, difícil de decifrar.



Na mesma semana, o mesmo país foi capaz de um feito extraordinário – o de colocar o robô “Curiosity” em solo marciano, abrindo fantásticas perspetivas de descoberta científica e dando-nos novas razões para acreditar no sucesso de missões noutros planetas – e mostrou-nos um ato horrendo: o massacre num templo sikh, no Wisconsin.



São estes EUA contraditórios, capazes do melhor mas também do pior, que albergam a diversidade e que, continuamente, ao longo de décadas, nos põem a sonhar e, por vezes, a chorar.



O sucesso do “Curiosity” provou que a América continua a ser o país dominante na inovação científica e tecnológica. Apesar dos avanços da China e da Índia nesses campos, os EUA permanecem muito à frente na capacidade de serem pioneiros no melhor que a humanidade consegue produzir.



Mesmo em tempos de profunda contenção orçamental, Barack Obama nunca descurou, no seu discurso político, essa dimensão tão importante para a autoestima americana. E reforçou especialmente esse vetor no discurso do Estado da União de Janeiro de 2011, por exemplo, quando definiu o «momento Sputnik desta geração».



Dias depois do episódio de Aurora, no Colorado, quando um tresloucado atirou indiscriminadamente num cinema, o tiroteio do Wisconsin recolocou a questão do controlo no acesso às armas na América.



E é aí que entra o lado sombrio daquele grande país: nem depois das tragédias do Colorado e do Wisconsin, o controlo no acesso às armas passou a ser um tema pacífico na América. O lobby da NRA (National Rifle Association) é poderosíssimo, sobretudo junto dos republicanos.



Mas a verdade é que Obama não tem tido a coragem de colocar o tema no topo da agenda político – com receio de ser penalizado eleitoralmente em estados conservadores onde tem ambições de bater Romney, a 6 de novembro.



A «nova América» ou o regresso ao passado?

O resultado do duelo Obama/Romney definirá, em grande parte, que imagem a América pretende no resto do Mundo, depois de 6 de novembro.



Um dos melhores desempenhos do primeiro mandato presidencial de Barack Obama está na política externa – e, para que tal tivesse sido possível, uma boa parte dos méritos deve ser atribuída à chefe da diplomacia, Hillary Clinton.



Se a crise económica impediu um melhor saldo na frente interna, a verdade é que a imagem dos Estados Unidos, que estava muito desgastada na parte final dos anos Bush, teve inegáveis melhorias durante a Administração Obama.



O Prémio Nobel da Paz atribuído ainda em fase precoce ao Presidente Obama foi o maior sinal da mudança ocorrida. O prestígio internacional de Hillary serviu para reforçar o posicionamento diplomático dos EUA em áreas chave para os interesses americanos, como o Médio Oriente, África e, sobretudo, a Ásia-Pacífico.



Perante o avanço da influência da China, a política externa americana tem dado cada vez mais atenção à Ásia. Não por acaso, a primeira viagem de Hillary como secretária de Estado foi ao continente asiático, onde tem voltado repetidamente nos últimos quatro anos.



O périplo de Mitt Romney à Europa e a Israel foi, neste domínio, preocupante. O aspirante republicano mostrou uma visão muito fechada e unilateral, a apontar para os piores tempos de Bush filho – e longe, até, do «realismo» de Bush pai, que nalguns aspetos foi recuperado por Barack Obama.



Ao escolherem entre Obama e Romney, os americanos vão, também, dizer que América pretendem mostrar ao Mundo, depois de novembro.



Faltam 81 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca - Paul Ryan: muitas virtudes e alguns riscos


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 14 DE AGOSTO DE 2012:


Paul Ryan: muitas virtudes e alguns riscos

Por Germano Almeida



«Paul Davis Ryan, 42 anos, membro da Câmara dos Representantes eleito pelo estado do Wisconsin, líder do Comité de Orçamento do Congresso, foi a escolha de Mitt Romney para candidato a vice-presidente, no ticket republicano.



Não era a escolha mais óbvia (o senador Rob Portman, do Ohio, e o governador Tim Pawlenty, do Minnesota, reuniam maior favoritismo), mas foi uma boa aposta de Romney para lançar um novo fôlego a uma candidatura republicana que parecia estar a perder terreno em relação a Obama, nas últimas duas semanas.



Apontado como um dos melhores valores da nova geração de políticos republicanos, Paul Ryan chegou a ter condições para avançar, ele próprio, com uma candidatura à nomeação presidencial republicana – mas optou por não avançar já, talvez considerando ser demasiado novo para arriscar com tamanha empreitada.



Perante a maior probabilidade de vitória de Obama em 2012, Paul Ryan ter-se-á resguardado para 2016, a exemplo do governador da Nova Jérsia, Chris Christie, ou do ex-governador da Florida, Jeb Bush.



Apesar de só ter 42 anos, Ryan vai já no sétimo mandato no Congresso – passou toda a sua vida adulta em Washington, tendo iniciado esse caminho com apenas 25 anos, como assessor do senador Bob Kasten.



Ao escolhê-lo para número dois, Romney mostrou que não tem medo do risco de muitos acharem que Paul Ryan seria até mais apto para Presidente do que ele próprio.



Trunfos e contra-indicações

Os critérios seguidos por Romney para escolher Paul Ryan para seu número dois são relativamente fáceis de identificar.



Paul é jovem (é ainda mais novo do que era Obama em 2008 e tem menos 23 anos que Mitt); bem parecido (os peritos em imagem dizem que Romney e Ryan fazem uma dupla muito telegénica e isso na política americana tem grande importância); muito bom tecnicamente (mesmo os rivais democratas lhe reconhecem essa qualidade); pertence a um estado eleitoralmente competitivo, onde Obama arrasou há quatro anos, mas que tem dado sinais de poder oscilar para o campo republicano (o Wisconsin).



A juntar a tudo isto, o agora pretendente a vice-presidente dos EUA tem-se afirmado, nos últimos anos, como um dos ‘tea party darlings’.



É, por isso, bem visto pela mais à direita do Partido Republicano, embora tenha muito mais consistência e credibilidade política do que as figuras que foram dando a cara pelos movimentos radicais dos conservadores americanos (Sarah Palin, Michele Bachmann, Mike Huckabee, Donald Trump).



Como Mitt Romney nunca foi capaz de tocar o coração dos ultraconservadores, acolher Paul Ryan no seu ticket pode ajudar a mobilizar as bases republicanas, que estavam a começar a dar sinais de alguma reserva em relação à capacidade de Mitt vir a bater Obama a 6 de novembro.



Mas Paul Ryan não tem só vantagens. Como líder do Comité do Orçamento do Congresso, tem sido um dos campeões dos cortes na despesa.



Defende uma profunda alteração no Medicare (megaprograma de apoio a cuidados de saúde), que passaria pela distribuição de vouchers e poria em risco o acesso de milhões de americanos ao programa.



Logo após o anúncio da escolha de Paul Ryan (que voltaria a se rmarcado por uma ‘gaffe’ de Mitt Romney, ao anunciá-lo como... o «próximo Presidente dos EUA»), o campo de Obama foi pronto a reagir, lembrando que o congressista do Wisconsin votou a favor das políticas de Bush em matéria fiscal e acentuando a clivagem das duas candidaturas: Obama, Biden e os democratas defendem a classe média; Romney, Ryan e os republicanos advogam impostos baixos para os mais ricos, aparentemente para manter dinheiro do lado da economia (algo que se provou, nos últimos anos, não ser suficiente para criar emprego numa altura como esta).



Deste modo, e por contraditório que isso possa parecer, a escolha de Paul Ryan foi positiva para Romney e para Obama: Paul ajuda Mitt a reforçar a mensagem de conservadorismo fiscal e permite a Obama uma demarcação clara em relação a questões como a Reforma da Saúde ou a defesa da Segurança Social (que Ryan chegou a admitir privatizar).



Outro dado que pode ser perigoso para Romney é que Paul Ryan é católico. Um ticket republicano sem um único protestante (Mitt é mórmon), não é muito seguro numa América ainda maioritariamente WASP.



Tradicionalmente, os vice-presidentes não são decisivos nas eleições americanas. Mas a escolha de Paul Ryan ajudou a clarificar as águas nestas eleições.



Do lado republicano, ficámos a saber que a mensagem forte é mesmo a demarcação com as políticas de investimento federal defendidas pela Administração Obama nos últimos quatro anos.



Ryan é um dos principais advogados republicanos de bandeiras cruciais para o conservadorismo americano: liberdade de empreendedorismo, menos estado, mais iniciativa privada, cortes nas despesas mesmo em áreas sociais.



Barack já elogiou as qualidades de Paul Ryan, um «homem decente, de família e o líder ideológico dos republicanos no Congresso», mas fez questão de avisar que discorda «radicalmente» das suas posições políticas.



Confirma-se: a eleição de 2012 será das mais fraturadas da história recente da política americana.



Faltam 84 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Mitt Romney, a incógnita republicana


TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 12 DE AGOSTO DE 2012:


Mitt Romney, a incógnita republicana

Por Germano Almeida



«Willard Mitt Romney, 65 anos, será nomeado, na Convenção de Tampa, na Florida, no final de agosto, candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos.

Casado com Ann Romney, tem cinco filhos: Taggart (42 anos), Mathew (41), Joshua (37), Benjamin (34) e Craig (31).

Governador do Massachussets entre 2003 e 2007, liderou um dos estados mais liberais dos EUA. Terceiro classificado nas primárias do Partido Republicano em 2008, teria sido, certamente, o segundo classificado, logo atrás de John McCain, caso não tivesse desistido quando percebeu que não conseguiria evitar a nomeação do senador do Arizona.

É um republicano moderadamente conservador, que há quatro anos se apresentou como alternativa à direita a McCain – e agora se posicionou como o menos radical de um leque de candidatos excessivamente colocados na esfera conservadora ou mesmo ultraconservadora do GOP (Grand Old Party).

Empresário de sucesso, Romney apresenta-se como o candidato CEO – aquele que sabe como criar empregos, descolando-se, assim, da imagem excessivamente política e teórica do seu adversário nestas eleições.

Dono de uma fortuna pessoal muito significativa – é, certamente, o candidato presidencial mais rico desde John Kerry – Mitt Romney tem nesta questão um dos maiores problemas: muitos dos seus críticos acusam-no de ser «elitista» e representante dos interesses dos mais ricos – e de não fazer a mínima ideia do que é passar pelas dificuldades financeiras que muitos milhões de americanos estão a atravessar.

Romney obteve a nomeação republicana com relativa facilidade, ajudado, em parte, pela pobreza de opções que se apresentaram nas primárias.

Conversão artificial

Sem ter tido a concorrência de nomes como Jeb Bush, Chris Christie, Paul Ryan (que será o seu candidato a vice-presidente), Mitch Daniels ou Rudy Giuliani, Mitt acabou por ser o esocolhido por se afirmar como o único «eleigível» contra Obama – mas nunca conseguiu dissipar as dúvidas sobre as suas reais capacidades para enfrentar o embate de um duelo presidencial.

Pouco mobilizador junto de uma base republicana excessivamente radicalizade, depois de três anos de domínio do Tea Party, Romney foi adaptando o seu discurso ao ambiente do momento.

Ele, que enquanto governador do Massachussets teve posições tolerantes em relação ao aborto ou aos direitos dos homossexuais, voltou a mostrar pouca convicção nas ideias e deu prioridade às conveniências eleitorais: tem um discurso duro em matérias sociais e morais e apresenta-se como um ‘falcão’ na política externa, sobretudo no tema israelo-palestiniano.

Mórmon, tem na religião outro problema: nos EUA, a religião professada por Mitt ainda desperta algumas reservas. As sondagens não indicam que essa questão possa ser decisiva, mas Romney tem feito um esforço para evitar alusões aos mórmones no seu discurso político.

A crise económica daria, em 2012, boas chances ao candidato challenger. Mas Mitt tem-se mostrado um candidato com menos argumentos que Barack e está atrás nas sondagens. Nos meios republicanos comenta-se, em surdina: «Romney não consegue ganhar. Mas Obama ainda pode perder».

Tantas ‘gaffes’, Mitt!

Ainda ninguém saberá se Mitt Romney será eleito, no próximo dia 6 de novembro, Presidente dos Estados Unidos da América.

Mas o que já parece quase garantido é que Mitt irá ganhar o prémio do candidato que mais ‘gaffes’ cometeu numa campanha presidencial nos EUA.

A sucessão de deslizes do pré-candidato republicano à Casa Branca tem sido simplesmente inacreditável.

A mais recente teve a ver com a confusão entre ‘sikhs’ e ‘sheikhs’. Num discurso no Iowa, em que apelava à compreensão quanto à religião sikhs, referindo-se ao tiroteio do Wisconsin contra um templo daquela religião, Mitt Romney falou em ‘sheikhs’.

Como os xeques árabes nada têm a ver com quem professe a religião sikh, a confusão até obrigou a um esclarecimento por parte do porta-voz de futuro nomeado republicano, Rick Groka.

Mas este foi só um dos muitos capítulos recentes que mostram que Romney não terá a preparação adequada para assumir funções tão elevadas como as de Presidente dos Estados Unidos.

No périplo realizado na Europa e em Israel, Mitt falhou redondamente nos números do PIB de israelistas e palestinianos. Referiu-se a Jerusalém como a capital de Israel, facto que irritou profundamente os palestinianos.

Em vésperas do arranque dos Jogos Olímpicos, disse à NBC que «algumas coisas foram desconcertantes» na organização londrina – como que anunciando que iria haver falhas graves nos Jogos de Londres (que acabariam por se revelar um sucesso).

Também em Londres, falando ao lado do líder da oposição trabalhista, nunca referiu o nome de Ed Miliband, falando apenas em... «Mr. Leader» e revelou um encontro com o chefe dos serviços de epionagem MI6, uma informação que costuma ser mantida em segredo.

Um candidato que não conhece, sequer, os principais líderes do maior aliado histórico dos Estados Unidos e que não consegue seguir os preceitos do jogo político internacional tem sérias razões para estar preocupado.

Faltam 86 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»



sábado, 11 de agosto de 2012

Paul Ryan será o número 2 de Mitt Romney

Paul Ryan, 42 anos, membro da Câmara dos Representantes eleito pelo Wisconsin, líder do Comité de Finanças do Congresso, foi a escolha de Mitt Romney para vice-presidente.

Reforça a importância da Economia e confere juventude e credibilidade ao ticket republicano.

Não era a opção óbvia (o senador Rob Portman, do Ohio, e o governador Tim Pawlenty, do Minnesota, eram os favoritos), mas foi uma boa aposta.

Faltam 87 DIAS para as eleições presidenciais nos EUA


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: A forte aposta de Obama na classe média



TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 8 DE AGOSTO DE 2012:

A forte aposta de Obama na classe média

Por Germano Almeida



«Não é só em 2012, mas será sobretudo em 2012: estas eleições presidenciais norte-americanas serão especialmente marcadas pela Economia.

Mais do que um duelo político entre o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney, o sufrágio de 6 de novembro promete ser um plebiscito ao desempenho económico da atual administração norte-americana.

Há quatro anos, Obama derrotou McCain sob a promessa de resolver a crise lançada pela parte final dos anos Bush. Nas primeiras entrevistas dadas após a sua eleição, Barack chegou a dizer que «se passados três anos, os números da Economia americana permanecerem tão maus» como que herdou do antecessor, então é porque esta seria «uma presidência falhada».

O problema para o atual Presidente é que, apesar de já ter conquistado grande feitos em várias áreas (retirada de tropas no Afeganistão e no Iraque; Prémio Nobel da Paz com apenas nove meses na função; Reforma da Saúde aprovada no Congresso e confirmada no Supremo Tribunal), a verdade é que, no plano económico, esta não pode ser considerada uma presidência de sucesso.

Mesmo com a criação de perto de mais de quatro milhões de empregos na América nos últimos três anos e meio, a Taxa de Desemprego mantém-se muito elevada para os níveis norte-americanos (8.3 por cento).

Desde Franklin Roosevelt, nenhum Presidente logrou a reeleição com uma taxa superior a 7.5 por cento. Os casos mais recordados têm sido os de Carter, em 1980, e de Bush pai, em 1992: ambos eram Presidentes respeitados na frente internacional (como é Barack Obama), mas acabaram por falhar a reeleição, por força dos problemas económicos vivia nesses períodos.

Esse será, talvez, o maior desafio que Obama tem a vencer no próximo dia 6 de novembro: conseguir evitar ter como fim político o de ser um «one term President», como os republicanos tanto têm repetido que ele estará condenado a ser.

O último relatório sobre o emprego nos EUA mostrou resultados ambíguos: em julho, foram criados 163 mil postos de trabalhos (e isso dá razão às políticas de estímulo ao emprego defendidas por Barack); mas, mesmo assim, isso não foi suficiente para evitar nova subida de 0.1% na taxa de desemprego (e isso prova que continuam a perder-se demasiados empregos na América).


CLIMA DE DIVISÃO
Há muito que a política americana não estava tão dividida socialmente como nestas eleições.

Obama tem sido, como Presidente, um forte defensor da classe média. Da Casa Branca, têm saído propostas claras para estimular o emprego e reduzir a carga fiscal dos americanos que não ganham acima dos 250 mil dólares/ano.

É claro que, em tempos de ‘spending freeze’ (assumidos pelo Presidente desde o primeiro orçamento deste mandato, aprovado em 2009), reduções fiscais à classe média implicam aumentos de impostos sobre as maiores fortunas.

As reduções fiscais aos mais ricos, aprovadas nos anos Bush, foram inicialmente prorrogadas por Obama em 2010, em nome de um clima de negociação com o novo Congresso de maioria republicana.

Mas o aproximar das eleições presidenciais de 2012 voltou a acentuar o clima de divisão ideológica nesta matéria: Mitt Romney, ainda que mais moderado que os seus opositores republicanos nas primárias, tem defendido, no essencial, as teses mais duras da Direita americana nesta questão – as reduções fiscais sobre as maiores fortunas são para manter, à luz das ideias de que «o Estado federal não deve intrometer-se na livre circulação do capital» e de um suposto incentivo à criação de emprego mantendo livres de obrigações fiscais os potenciais empregadores.

Obama mantém a tecla da defesa da classe média e argumenta com a proposta Buffet, a tal que se indigna com o facto de a secretária do terceiro homem mais rico do Mundo pagar percentualmente mais impostos que o patrão.

A realidade económica da América nos últimos anos tem dado razão às posições do Presidente. Mas tudo o que tenha a ver com o aumento da carga fiscal, mesmo sobre os mais ricos, é muito difícil de ter popularidade num país como os EUA.

Há quatro anos, a mensagem de Obama passou – ajudada pelo clima de «tudo menos Bush» que se vivia em 2008. David Plouffe, um dos principais estrategas de Obama, acredita que «os democratas voltaram a ter o ‘momentum’ junto da classe média».

As sondagens mais recentes em estados como o Ohio, a Pensilvânia ou a Florida parecem dar razão a essa tese.
Faltam 90 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»

domingo, 5 de agosto de 2012

Histórias da Casa Branca: Romney escorrega na política externa



TEXTO PUBLICADO NO SITE DE A BOLA A 4 DE AGOSTO DE 2012:


Romney escorrega na política externa

Por Germano Almeida



«Mitt Romney tem vários motivos para acreditar que pode bater Barack Obama em novembro e tornar-se no 45.º Presidente dos Estados Unidos.

Basta olhar para os números da Economia desde 2008 para percebermos que, com uma taxa de desemprego tão elevada, e níveis de incerteza a persistirem nos mercados, a probabilidade de o Presidente em funções falhar a reeleição é sempre de considerar.

O combate Obama/Romney promete ser renhido, mas uma análise focada nas qualidades políticas dos dois candidatos continua a mostrar uma forte vantagem de Barack sobre Mitt.

O périplo de Romney à Europa foi o mais recente exemplo das falhas do republicano enquanto nomeado presidencial.

Mitt foi a Londres (preferiu a capital inglesa a Berlim, num contraste com a opção feita por Obama há quatro anos, em idêntico período eleitoral) e conseguiu dizer mal da organização dos Jogos Olímpicos, antes mesmo de esta ter início – talvez para mostrar que tem no currículo a organização dos Jogos de Inverno em Salt Lake City...

Ao abdicar de Berlim, além de um óbvio receio de ser comparado com os 200 mil que receberam, em apoteose, Barack Obama em 2008 em frente às Portas de Brandenburgo, Romney terá dado um sinal de não temer o país mais poderoso da Europa, desvalorizando assim a questão europeia e mostrando que, na sua visão do Mundo, a América continua a poder dar-se ao luxo de ignorar o velho parceiro do outro lado do Atlântico.

Regresso à visão Bush
Mais preocupantes foram as gaffes de Romney sobre a questão israelo-árabe. Querendo mostrar-se claramente do lado israelita (Mitt pretende namorar uma boa parte dos eleitores judeus que preferiram Obama em 2008), o nomeado republicano teceu comentários depreciativos sobre a realidade palestiniana e mostrou uma notória falta de dimensão presidencial naquela que será, talvez, a questão mais sensível na política externa americana.

À política de braços abertos ao mundo muçulmano, tentada sobretudo no início deste mandato, pela Administração Obama, Romney mostrou um argumentário muito mais próximo da visão de George W. Bush – e que, basicamente, fecha portas para qualquer avanço num processo de paz que, nos anos Obama, passou sempre pelo reconhecimento da «two states solution» e pelo impedimento da construção de novos colonatos.

Ligeira subida de Obama
Os últimos dias foram positivos para Barack Obama. No dia em que completou 51 anos, o Presidente vê as sondagens nacionais a mostrarem um ligeiro aumento no avanço (embora pequeno) que o candidato democrata dispõe sobre o nomeado republicano.

Essas variações não serão alheias aos deslizes de Romney no seu desastrado périplo europeu. E podem, sobretudo nos estados do midwest, mostrar também que a criação de emprego na Administração Obama tenderá a beneficiar o Presidente nas disputas decisivas no Ohio, na Pensilvânia, no Michigan ou no Wisconsin.

A três meses do grande duelo, a reeleição de Obama mantém-se como cenário mais provável. Mas tudo continua em aberto – e a ameaça de hecatombe da economia europeia pode, perfeitamente, ser o cisne negro capaz de alterar os dados do jogo.

Não por acaso, nas últimas semanas houve movimentações de bastidores na diplomacia americana, no sentido de aguentar a situação grega, pelo menos até novembro. A visita de Bill Clinton a Atenas foi o exemplo mais claro dessas diligências.

Faltam 94 DIAS para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.»



terça-feira, 31 de julho de 2012

Histórias da Casa Branca: Cem dias para o duelo Obama/Romney



Texto publicado no site de A BOLA, secção Outros Mundos, a 29 de julho de 2012:


Cem dias para o duelo Obama/Romney


Por Germano Almeida



«A cem dias da eleição presidencial nos Estados Unidos, as dúvidas são bem maiores do que as certezas.

Barack Obama, o Presidente da «esperança», da «reconciliação» e da «mudança» em 2008, teve que deixar cair muitas das expectativas que gerou há quatro anos – altura em que protagonizou a mais notável caminhada eleitoral de que há memória na política moderna.

Tolhido pela crise mundial, o 44.º Presidente dos Estados Unidos foi forçado a puxar do seu lado pragmático e apresenta, para a reeleição, várias credenciais. O problema é que algumas delas têm a ver com necessidades do momento (como a salvação da indústria automóvel de Detroit, em 2009).

O lado quase mágico que conseguiu mostrar aos eleitores em 2008 foi-se esvaindo com o impacto brutal da crise em que o Mundo ocidental viveu nos últimos quatro anos. Mesmo com sucessos como a aprovação da Reforma da Saúde ou a eliminação de Bin Laden, a impressão que fica é a de uma presidência condicionada por um momento excecionalmente difícil.

Mitt Romney, um empresário de sucesso, moderadamente conservador, que governou com elevados níveis de popularidade um dos estados mais liberais dos Estados Unidos, não é propriamente o candidato mais temível para Obama.

Muito menos carismático que Barack, o nomeado republicano não consegue gerar forte mobilização – nem mesmo na base conservadora, que o escolheu de forma resignada.

Único candidato «elegível» numa eleição nacional -- entre um leque quase assustador de republicanos zangados, radicais e com um discurso que remete para ideias oitocentistas -- Romney acabou por vencer com relativa facilidade as primárias republicanas, mas está longe de ter convencido.

Perante indicadores económicos que, num quadro político normal, colocariam o candidato challenger como superfavorito (e o Presidente incumbente em muito maus lençóis na luta pela reeleição...), a verdade é que Romney nunca conseguiu descolar nas sondagens – e mantém-se ligeiramente atrás de Obama no duelo a nível nacional.

Quanto vale a Economia?

Os dois candidatos que se apresentam ao duelo americano de 2012 são muito diferentes. Dificilmente poderiam sê-lo mais.

Obama é um político de fino recorte, com traços pouco comuns nos dias que correm, ao juntar um apelo mediático indiscutível a uma base argumentativa fora do normal.

Tem uma história pessoal quase perfeita e dotes oratórios inigualáveis. Gera empatia e, apesar de um certo segmento da Direita americana persistir numa hostilidade doentia contra ele, a verdade é que mantém níveis de aceitação pessoal muito elevados – mesmo quando a sua Taxa de Popularidade como Presidente se ressente com as ondas da crise.

Romney é o oposto. Como político, tem um percurso errático, oscilando entre a esfera moderada do Partido Republicano (década de 90, quando tentou o Senado e, mais tarde, se elegeu governador do Massachussets), a zona conservadora (primárias de 2008) e de novo a perspetiva centrista (campanha de 2012).

Mitt apresenta-se como um executivo de sucesso, que sabe «criar empregos», contrastando com o percurso ideológico e mais universitário de Barack.

O problema de Romney é que já mudou tantas vezes de opinião em questões importantes para os americanos como o aborto, os direitos dos homossexuais ou a política externa que já não se sabe muito o que ele pensa.

Tudo somado, Obama mostra-se mais forte que Romney nas questões políticas, na capacidade de mobilização, na geração de «empatia» e «confiança» junto do eleitorado. Mitt transmite mais garantias aos americanos na pergunta: «Quem é capaz de lidar melhor com a Economia»?

Como essa é, geralmente, a questão chave numa eleição presidencial nos EUA, e como o desemprego continua com uma preocupante taxa de 8.2%, seria de supor que Romney estivesse com o estatuto de favorito neste momento.

Mas não é o caso: Obama, que se mantém muito forte nos estados decisivos, parte ligeiramente à frente no sprint dos últimos cem dias.

A evolução económica ditará a resposta definitiva.»



sábado, 28 de julho de 2012

Histórias da Casa Branca: Os dilemas de Romney na escolha do 'vice'



Texto publicado no site de A BOLA , secção Outros Mundos, a 26 de julho de 2012:


Os dilemas de Romney para a escolha do ‘vice’

Por Germano Almeida



«A três meses e meio das eleições presidenciais norte-americanas, já não deve faltar muito para que a questão do vice-presidente salte para as atenções mediáticas, na cobertura do candidato republicano, Mitt Romney.

Em ano de tentativa de reeleição para Barack Obama, o ticket democrata já está mais do que certo: Joe Biden, atual vice-presidente dos EUA, voltará a ser o número dois da candidatura encabeçada por Barack.

Ainda houve, até há uns meses, algumas vozes a pedir a passagem de Hillary Clinton para a vice-presidência, perante um número inusitado de «gaffes» produzidas por Biden durante o primeiro mandato.

Mas Obama, que é tendencialmente um político racional, preferirá, por certo, manter a equipa que se mostrou vencedora há quatro anos.

A grande incógnita, no que toca a vices, estará por isso do lado republicano.

A lei das compensações
Historicamente, a escolha dos vice-presidentes não se mostra decisiva no resultado das eleições. Mas constitui sempre um barómetro daquilo que o candidato principal pretende representar, se conseguir chegar à Casa Branca.

Nos últimos anos, temos assistido a uma espécie de lei das compensações nas opções para vice - os pontos onde o candidato não se revela tão forte acabam por ser compensados pelo seu substituto na função.

Foi isso que Obama acabou por fazer: sabendo que, então com 47 anos, era um Presidente pouco experiente, foi chamar um dos mais antigos membros do Capitólio. Senador durante 36 anos, Joe Biden dava ‘cabelos brancos’ a uma candidatura que, para muitos, era demasiado jovem.

Critério idêntico teve George W. Bush, ao escolher o ‘falcão’ Dick Chenney em 2000, velha raposa do GOP (Grand Old Party) e secretário da Defesa da administração de Bush pai, uma década antes.

No polo oposto, George Bush pai optou por compensar a sua idade avançada com a juventude de Dan Quayle (e não se deu muito bem com isso, se nos lembrarmos da forma como os media americanos tratavam o então vice-presidente...)

Mas essa regra da compensação nem sempre prevaleceu: Reagan preferiu a experiência de Bush pai (passou de diretor da CIA para vice-presidente em 1980); Clinton escolheu Al Gore em 92, praticamente da sua idade, com uma base eleitoral muito parecida (democratas sulistas com forte apelo em segmentos minoritários) e candidato, também ele, às primárias democratas, quatro anos antes.

Portman e Pawlenty são os favoritos

E em 2012, o que fará Mitt Romney? São vários os dilemas do nomeado presidencial republicano, para a escolha do seu número dois.

As primárias mostraram que Romney é um candidato com alguns problemas em agarrar a base do seu próprio partido. Não será, por isso, de estranhar que Mitt possa escolher um ‘vice’ com credenciais mais conservadoras e que seja forte em estados onde ele não tenha a certeza de bater Obama. Um nome que pode reunir essas características é o senador Rob Portman, do Ohio.

Mas pode haver outras grelhas de leitura para esta difícil escolha. O governador Tim Pawlenty, do Minnesota, é outra forte possibilidade. No início das primárias, parecia um dos poucos republicanos com hipóteses de disputar com Romney os segmentos mais moderados. Mas Tim nunca conseguiu energizar a sua campanha e acabou por desistir em fase precoce.

Se Romney o escolher para ‘vice’, é porque pretende reforçar a ideia de ter um ‘ticker’ credível e de forte apelo centrista, capaz de ameaçar terrenos em que Obama arrasou McCain há quatro anos.

Portman e Pawlenty surgem, por isso, destacados como favoritos, mas a ‘shortlist’de Romney para a vice-presidência deve contar, ainda, com mais cinco nomes.

Um deles é, certamente, o do congressista Paul Ryan, do Wisconsin. Com apenas 41 anos, o líder do Comité de Finanças do Congresso é uma das mais jovens promessas da política americana. Bem visto pela base conservadora, tem, no entanto, um discurso que se encaixa na argumentação de Romney para esta campanha.

Também como hipóteses, mas menos prováveis, surgem o governador Bob McDonnell (a Virgínia é um dos ‘battlegrounds’ destas eleições, perante a vantagem de Obama em terreno habitualmente republicano) e o senador Marco Rubio, da Florida (jovem, muito forte no eleitorado hispânico e representante de um ‘swing state’ que geralmente é decisivo nas eleições presidenciais).

No caso de Romney escolher uma mulher (tal como McCain fez há quatro anos, ao lançar Sarah Palin), tem duas hipóteses mais plausíveis: a senadora Kelly Ayotte, do New Hampshire, ou a congressista Michele Bachmann, do Minnesota, uma das estrelas da primeira fase das primárias.

Surpresa? Talvez Condoleezza...
É claro que Mitt pode estar a tentar uma surpresa que baralhe os dados da corrida: por exemplo Condoleezza Rice, secretária de Estado do segundo mandato de Bush filho. Mulher, negra, experiente, intelectualmente respeitada mesmo fora dos circuitos conservadores, seria a escolha mais abrangente de todas.

Também falados nos media, mas aparentemente fora da ‘shortlist’ de Romney estão nomes como John Tune (senador pelo Dacota do Sul), o governador Chris Christie da Nova Jérsia (forte candidato à nomeação presidencial republicana em 2016, se Romney falhar a eleição em novembro), a candidata a vice de John McCain em 2008, Sarah Palin, as governadoras Nikki Haley, da Carolina do Sul, e Susana Martinez, do Novo México, ou ainda o governador da Luisiana, Bobby Jindal.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Histórias da Casa Branca: Obama na frente, em duelo imprevisível



Texto publicado no site de A BOLA, secção Outros Mundos, a 20 de Julho de 2012:

Obama na frente, em duelo imprevisível

Por Germano Almeida


«Faltam pouco mais de 100 dias para a eleição presidencial norte-americana de novembro e continua a ser impossível adivinhar o vencedor.


As sondagens nacionais vão dando uma ligeira vantagem a Barack Obama sobre Mitt Romney, mas as diferenças são suficientemente pequenas para que a questão se mantenha mais do que em aberto – e o mais provável é que assim continue até 6 de novembro.

Se um olhar pelos números nacionais nos fazem apontar para um empate técnico, é também importante referir que nos estados chave (aqueles que irão definir a eleição), o Presidente assume uma vantagem um pouco maior: está à frente do ex-governador do Massachussets na Florida, no Ohio, na Pensilvânia e até na Virgínia.

O mapa eleitoral norte-americano é difícil de decifrar. E promete sê-lo ainda mais nesta corrida de 2012.

Há quatro anos, Barack Obama desafiou as fronteiras clássicas dos «estados azuis» (democratas) e «estados vermelhos» (republicanos), ao vencer em zonas tradicionalmente conservadoras.

Os casos do Indiana, da Carolina do Norte e, sobretudo, da Virgínia (onde um candidato presidencial democrata já não vencia há 44 anos), foram os mais marcantes.

Romney aposta forte no Indiana e na Carolina do Norte – e tudo aponta que acabará por conseguir recuperar esses dois estados para a coluna dos republicanos.

Mas, na Virgínia, o Presidente volta a ter fortes esperanças de vencer – e, a acreditar pelas sondagens, mantém um avanço significativo.

Em contraponto, a Pensilvânia, que nas últimas eleições tem recaído no campo democrata, tem-se mostrado terreno complicado para Obama (muito por culpa da crise económica e, também, pelos pergaminhos eleitorais de Romney naquele importante estado do Midwest).

Ainda que continue a ser um país com diferenças sociais claras consoante as zonas em que os estados se encontram (pendor liberal nas costas e nos grandes estados; predomínio conservador e ‘right wing’ nos estados rurais e no Sul), os EUA têm conhecido algumas alterações relevantes na sua estrutura demográfica, nos últimos anos.

O caso da Virgínia é um dos mais interessantes de analisar para este novo período eleitoral. Conservador na base, há décadas, tem vindo a ter um maior peso de eleitores democratas, por força do aumento de jovens e de eleitores representativos de minorias como negros e latinos (três segmentos eleitorais onde Barack Obama continua a obter fortes apoios).

Será isso suficiente para Obama manter o triunfo na Virgínia em 2012? Ainda é cedo para dar tal facto como certo, mas a verdade é que a equipa de reeleição de Barack está a apostar muitas fichas nessa possibilidade.

A batalha do Midwest
Numa eleição marcada por tantas incógnitas (conseguirá Romney ser um candidato à altura do desafio de superar Obama?; pode Barack repetir os triunfos imprevisíveis de 2008?), há alguns dados que parecem certos: Obama obterá os estados com mais população (Califórnia, Nova Iorque, Nova Jérsia, Minnesota), com exceção do Texas (que será, por certo, de Romney).

A Costa Oeste será toda de Obama (Califórnia, Oregon, Washington State) e a quase totalidade da Costa Leste também (os estados da Nova Inglaterra até ao Maryland).

Romney, por sua vez, arrecadará grande parte do Sul e estima-se que também as Rocky Mountains.

A questão está, essencialmente, no Midwest. Há quatro anos, Obama arrasou McCain nos estados da Região Centro/Oeste dos Estados Unidos.

Se olharmos para o mapa, a chamada «América profunda» está lá. A América que não quer depender do Estado, aquela que mais está dependente do momento económico. A que, sendo religiosa e temente à Bíblia, consegue ter um certo pragmatismo para ler o momento e separar, no essencial, a política da religião.

Nestes tempos de um forte radicalismo conservador da Direita americana, até um candidato com um certo historial moderado como o de Romney se tem deixado contagiar por esse efeito. E, à partida, Obama teria vantagens eleitorais nesse contraponto: o seu discurso centrista acabaria por prevalecer no duelo presidencial.

As sondagens em estados como o Ohio, o Michigan ou o Iowa parecem confirmar essa tese – ao dar, nesses ‘swing states’, a Obama vantagens ligeiramente superiores, quando comparadas com o todo nacional.

Mas as tremendas dificuldades da governação nestes últimos quatro anos não podem ser descuradas. A eleição de 2012 parece talhada a ser uma das mais renhidas de sempre.»


terça-feira, 12 de junho de 2012

Histórias da Casa Branca: o fantasma europeu ensombra a reeleição




Barack Obama aponta o caminho a Angela Merkel e François Hollande: o Presidente dos EUA arrisca-se a perder o segundo mandato à custa de uma Europa hesitante no ataque à crise de vários dos seus membros



O fantasma europeu ensombra a reeleição

Por Germano Almeida




A recente recuperação de Mitt Romney nas sondagens reacendeu a ideia de que Barack Obama se arrisca a entrar no lote minoritário dos presidentes que falham a reeleição.

Um olhar pela história das últimas dez tentativas de um Presidente em funções mostra que os incumbentes tiveram sucesso em sete delas. Só por três vezes, durante esse período da história eleitoral americana, isso não ocorreu: Gerald Ford em 1976 (perdeu para Jimmy Carter), Jimmy Carter em 1980 (perdeu para Ronald Reagan) e George Bush em 1992 (perdeu para Bill Clinton).

A somar a esta tendência de sete para dez em favor dos Presidentes em funções, está o facto de que a primeira das três exceções acima citadas ter sido de um Presidente que nem sequer foi eleito (Ford, que tomou posse depois da renúncia de Nixon).

Se nos lembrarmos da forte maioria obtida por Obama em 2008, poderemos ter a tentação de achar que Barack terá muitas hipóteses de repetir a eleição -- mesmo que perca folga nas margens obtidas em vários estados.

E uma parte importante da estratégia eleitoral da equipa de reeleição do Presidente passa por aí: os números que Obama continua a obter em estados decisivos como o Ohio, a Florida ou a Virgínia mostram isso -- independentemente da subida que Romney obteve a nível nacional, e que coloca o nomeado republicano ligeiramente à frente no «Tracking Poll» do Gallup de hoje (12 de junho): Romney 46/Obama 45.

Mesmo com os cisnes negros da Economia a ameaçar a estratégia de reeleição de Obama, há fatores que se mantêm favoráveis às aspirações eleitorais de Barack em novembro: Romney está longe de ser um candidato bem visto pelo americano comum; o bom senso de uma grande parte do eleitorado dos estados decisivos geralmente prefere manter o rumo de quem já conhece, em detrimento de uma nova aventura; em alguns segmentos dos independentes, Obama tem menos anticorpos do que Romney.

É verdade que Mitt passou para a frente nas sondagens de alguns estudos nacionais nos últimos dias. Mas se nos lembrarmos do estado da corrida há oito anos entre Bush filho e Kerry, no início do verão também parecia bastante provável que o "challenger" vencesse. E até em 1996, imaginem, Bob Dole passou junho com uma ligeira vantagem em relação a Bill Clinton...

Olhem para... a Europa. Não é nada costume ler-se este aviso em eleições presidenciais americanas, mas poderá ser uma das frases chave da corrida de 2012.

Barack Obama, que em 2008 se tornou um ícone 'pop' para os europeus, deixou de caminhar sobre a água em relativamente pouco, aos olhos de Berlim, Paris, Madrid ou mesmo Londres.

Rapidamente se percebeu, na Europa, que por muito que Obama seja (e continua a sê-lo) um político extremamente popular na Europa, o que ele realmente veste é a capa de Presidente dos Estados Unidos. E a primeira funções do titular do cargo eleito mais influente do Mundo é o de defender os interesses dos EUA.

A lua de mel de Obama com a Europa terminou quando o Presidente dos EUA apelou a um maior envolvimento da Alemanha, da França e mesmo do Reino Unido na gestão da retirada das tropas no Afeganistão e no Iraque. Obama foi lembrando, nestes últimos três anos, que os custos humanos e financeiros das guerras contra o terrorismo não podiam ser apenas suportados pelos Estados Unidos.

O evoluir da crise europeia foi agravando essas tensões na aliança atlântica. Obama e Hillary Clinton têm proferido declarações de apoio aos países europeus em dificuldades, mas sobretudo o Presidente tem lembrado que «a América também tem os seus problemas económicos para resolver». E deste lado do Atlântico, não se esperaria por parte de «Santo Obama» um discurso tão protecionista...

Depois do clima de tensão e medo dos últimos meses, com a indefinição na Grécia e a austeridade dos planos na Irlanda e em Portugal, os últimos dias fizeram subir ainda mais os níveis de alerta em Washington em relação à crise europeia: primeiro com a intenção de Chipre em também pedir ajuda externa e, sobretudo, com o pedido espanhol do passado dia 10 de junho.

Mais do que os ataques políticos da campanha de Mitt Romney, o que Barack Obama deverá mesmo temer, nas suas contas para a reeleição, é o fantasma europeu. Se a crise no Velho Continente se agravar seriamente nos próximos meses, a situação económica poderá ficar num ponto eventualmente crítico para as pretensões de um Presidente em busca de um segundo mandato.

A Economia, que foi o principal aliado de Obama em 2008, arrisca-se a ser o maior opositor eleitoral de Barack, quatro anos depois.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Histórias da Casa Branca: O desafio da mobilização


A última semana trouxe sinais preocupantes para Barack Obama: a vitória de Scott Walker no Wisconsin, as críticas de Bill Clinton e Ed Rendell e a maior angariação de fundos da campanha de Romney no mês de Maio levantaram dúvidas sobre a capacidade de mobilização do campo democrata para novembro



O desafio da mobilização

Por Germano Almeida



Numa altura em que Mitt Romney parece ter sossegado os críticos republicanos, depois de uma época de primárias particularmente conturbada, os sinais de divisão interna aparecem, de forma um pouco inesperada, no campo democrata.

A última semana foi especialmente difícil para o Presidente Obama. No Wisconsin, estado que vota democrata nas eleições presidenciais desde 1988, o triunfo do governador republicano Scott Walker complicou a missão de Barack para novembro.

Walker foi eleito legitimamente, mas a sua polémica governação levou a uma eleição intermédia (figura prevista no sistema americano), que o obrigou a ter que defender o seu próprio cargo, de novo nas urnas. Até há poucos dias, sempre que tal sucedeu na América, os governadores em funções perderam.

Mas Scott Walker venceu, em grande parte devido ao forte financiamento de sectores do Tea Party. Como a sua mulher oportunamente observou na noite da vitória, «Scott é o primeiro governador americano a ser eleito duas vezes para o mesmo mandato».

As sondagens continuam a mostrar uma boa vantagem de Obama sobre Romney neste importante estado do Midwest, no que à disputa presidencial diz respeito. Mas a vitória de Walker (um republicano da ala dura, que tem governado com base num programa altamente crítico dos direitos dos sindicatos e de associações ligadas ao Partido Democrata) levantou algumas dúvidas sobre se Obama conseguirá mesmo manter o Wisconsin na coluna dos estados garantidos.

Há quatro anos, Barack derrotou John McCain no Wisconsin por uma larga vantagem -- mas foi o próprio David Axelrod, principal conselheiro político de Obama, a reconhecer: "A partir de agora, o Wisconsin passa a estar entre os estados em disputa nas eleições de novembro".

Unir o campo democrata. É o principal desafio de Obama nas próximas semanas: afastar os sinais de divisão que começam a desenhar-se no Partido Democrata, em função da herança do primeiro mandato presidencial de Barack.

Bill Clinton, o último Presidente democrata antes de Obama, surgiu nos últimos dias com afirmações um pouco contraditórias. Apesar de apoiar Barack de forma clara, na tentativa de reeleição, o 42º Presidente dos EUA demarcou-se das críticas feitas pela campanha de Obama ao trabalho de Mitt Romney na Bain Capital, elogiando o desempenho empresarial do nomeado republicano (e mesmo quando esclareceu as declarações, Clinton pareceu querer assumir um discurso diferente do da campanha de Obama).

O marido da atual secretária de Estado foi prontamente "corrigido" pela presidente do Comité Nacional Democrata, Debbie Wasserman Schultz, que sentenciou: "O Presidente Clinton está errado em relação ao passado de Mitt Romney na Bain Capital".

Mas Clinton não foi o único notável democrata a aparecer em dissonância com a mensagem de Obama, nos tempos mais recentes. Ed Rendell, antigo governador da Pensilvânia e elemento importante do Democratic Nacional Comittee, admitiu «não ter a certeza que Obama será reeleito» e mostrou-se «desapontado» com os ataques da campanha de Barack ao passado empresarial de Mitt Romney, na gestão da Bain Capital.

Convém explicar que Ed Rendell foi um dos principais líderes do Partido Democrata a apoiar a candidatura presidencial de Hillary Clinton, há quatro anos. Nunca foi do núcleo próximo de Obama, embora tenha sido, por exemplo, forte defensor da forma como o Presidente geriu politicamente a batalha pela aprovação legislativa da Reforma da Saúde.

Há quem veja nestas críticas de Rendell a Obama um resquício de uma certa facção do Partido Democrata, que se estará a preparar para uma candidatura presidencial de Hillary Clinton em 2016.

Certo, certo é que Barack Obama tem que saber interpretar estes sinais, se pretender repetir a fantástica mobilização de há quatro anos. Sem uma boa parte dos independentes que nele votaram em 2008, Obama não pode dar-se ao luxo de perder um segmento que seja do eleitorado tradicionalmente democrata.

Há outro dado recente que merece reflexão junto da máquina de apoio a Obama: em Maio, a campanha de reeleição de Barack angariou 60 milhões de dólares de apoios. No mesmo período, a campanha de Romney amealhou 76,5 milhões -- uma diferença que ainda está longe de ser suficiente para colmatar a grande vantagem de Obama sobre Mitt no dinheiro total angariado, mas que sinaliza uma certa desaceleração no entusiasmo das hostes democratas. 

O próximo desafio será, por isso, o da mobilização do seu próprio partido, para uma reeleição que, tudo o indica, permanecerá uma incógnita até 6 de novembro. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Histórias da Casa Branca: Quatro caminhos para a reeleição




Barack Obama em campanha no Iowa: há quatro anos, os triunfos no Midwest foram decisivos na nomeação democrata e, sobretudo, na eleição geral. Em 2012, Obama continua forte na América profunda, apesar da timidez da recuperação económica




Quatro caminhos para a reeleição


Por Germano Almeida 


A exatamente cinco meses das eleições presidenciais nos EUA (serão a 6 de novembro de 2012), prevalece a ideia de que esta será uma disputa muito renhida.

Há fatores de enorme relevância que só ficarão mais claros depois do verão (como se comportará a evolução do emprego nos próximos meses?; a aparente união dos republicanos em torno da nomeação de Mitt Romney é passageira, ou será para manter?), mas tudo indica que o duelo Obama/Romney será mesmo definido por detalhes nos estados chave.

As probabilidades de reeleição de Obama, que já chegaram a passar a barreira dos 65 por cento, estão agora abaixo dos 55 por cento -- embora o Presidente continue a ser favorito.

Obama é, em traços gerais, melhor político do que Romney. É mais mobilizador, tem uma oratória mais convincente e apresenta um conjunto de qualidades políticas mais consistentes, quando comparadas com as características do seu adversário.

Se a isto juntarmos o facto de ser historicamente mais provável que um Presidente se reeleja, então teremos, aparentemente, um conjunto de dados muito favoráveis ao triunfo de Obama em novembro.

Mas há um dado com muito peso que pode baralhar as contas: o fator económico. Romney apresenta-se como «o candidato CEO» -- e faz valer no seu currículo gestões positivas nos Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City (1992); no governo do estado de Massachussets (primeiros anos do século XXI) e na Bain Capital (ainda que a campanha de Obama já o tenha atacado por, supostamente, Mitt ter tido intervenção no corte de postos de trabalho na empresa).

A verdade é que Romney tem feito valer, nesta primeira fase da campanha, a sua imagem de «criador de empregos aproveitando o melhor do capitalismo americano», contrapondo com o registo mediano da Administração Obama no aspeto económico.

A campanha de Barack recorda que, em três anos, «foram criados 3,7 milhões de empregos na América» e contextualiza: «O Presidente Obama começou o seu mandato herdando a pior crise desde os anos Roosevelt». Romney rebate e comenta: «Tem havido criação de emprego... apesar de Obama».

Depois de uma melhoria lenta, mas gradual, durante vários meses, o relatório de Maio sobre o emprego foi negativo para a tese económica de Obama: o desemprego subiu para 8.2% (desde Roosevelt que nenhum Presidente é eleito com uma Taxa de Desemprego superior a 7.5%) e o número de postos de trabalho criados foi muito abaixo do esperado (69 mil, bem menos que os 230 mil de meses anteriores).

Ainda é cedo para ter certezas sobre se esta tendência se manterá até novembro, mas há nuvens negras a perturbar a estratégia de reeleição de Obama.

Apostar na aritmética. As sondagens nacionais continuam a dar um grande equilíbrio, mas perante os problemas de Obama na parte económica enquanto Presidente, a campanha de reeleição de Barack está atenta e parece disposta a voltar a apostar numa estratégia eleitoral alargada.

Obama revelou-se, há quatro anos, um candidato multifacetado, capaz de se bater em campos tradicionalmente difíceis para um nomeado presidencial do Partido Democrata. E as sondagens mostram que isso voltará a acontecer em 2012, embora não com os níveis de excelência de 2008, por culpa do desgaste da governação.

Obama vai colocar muitas fichas em estados como a Virgínia, a Carolina do Norte, o Indiana, o Colorado ou o Nevada, que não costumam ser terreno propício a uma vitória democrata na eleição presidencial, mas que o Presidente venceu claramente há quatro anos.

Jim Messina, diretor de campanha da reeleição de Obama, explica: "Há quatro caminhos que foram cumpridos há quatro anos e que continuam completamente em aberto para Barack: a via do Oeste, os estados do Midwest, o Ohio e Iowa, e ainda a Florida. Se olharmos para os dados neste momento, há fortes perspetivas de vencermos nestas quatro frentes".

É certo que a recuperação de Romney nas últimas semanas retirou algum favoritismo a Obama para novembro. Mas convém lembrar que há meio ano, no final do verão de 2011, "Barack Obama parecia politicamente morto". A expressão é de Dan Pfeiffer, assessor de Obama há vários anos e atual diretor de comunicação da Casa Branca. "Depois das negociações com o Congresso sobre o teto da dívida, o Presidente foi de férias para Martha's Vineyard frustrado com o retrato que faziam do seu trabalho. Viam-no como um Presidente fraco -- e ele nunca foi isso".

O final de 2011 e os primeiros meses deste ano pareciam ter selado a recuperação de Obama -- como Presidente e como candidato à reeleição. Dos 38 por cento a que chegou a sua popularidade em Agosto passado, passou-se para níveis superiores a 50 por cento.

Mas o arrefecimento da Economia americana voltou a colocar dúvidas sobre a tese do sucesso do primeiro mandato de Obama. Os próximos tempos vão ajudar-nos a olhar para este filme de um forma um pouco mais coerente.

Faltam cinco meses para a grande eleição -- e tudo está em aberto.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Histórias da Casa Branca: cinco tendências do duelo Obama/Romney


Barack Obama e Mitt Romney: qual dos dois conseguirá agarrar a representação da bandeira americana, a 6 de Novembro? A eleição vai ser renhida e os factores de decisão ainda estão em aberto


Cinco tendências do duelo Obama vs Romney

Por Germano Almeida


A cinco meses das eleições presidenciais nos Estados Unidos, as sondagens mostram um progressivo equilíbrio.

Depois de uma primeira fase em que o favoritismo de Barack Obama parecia claro, a confirmação da nomeação de Mitt Romney (que atingiu o número mágico dos 1144 delegados depois das primárias no Texas) e o arrefecimento da economia americana nos últimos meses (o desemprego subiu para 8,2% em Maio) têm vindo a reduzir a diferença.

As 'intrade odds', que já chegaram a dar uma probabilidade de quase 70 por cento a Obama, estão agora nos 55% para a reeleição do Presidente e 40% para um cenário de vitória de Romney.
Outro dado a ter em conta passa pela recuperação do ex-governador do Massachussets nos estados chave: Romney lidera alguns estudos no Ohio (que até há poucos dias era claramente comandado por Obama) e mostra-se mais competitivo na Florida, Virgínia e na Pensilvânia.

Mais importante do que olhar para estes indicadores -- que certamente vão oscilar nos próximos meses, com o aumentar da intensidade do duelo presidencial -- é olhar para estes cinco grandes tendências:

1. FAVORABILIDADE. O termo é pouco usado na língua portuguesa, mas será mais ou menos essa a tradução para a noção de "likability", muito estudada nas sondagens políticas na América. Nesse ponto, o Presidente continua a ter uma sólida vantagem. As pessoas continuam a gostar de Obama, apesar dos problemas da governação, e atribuem-lhe vantagem no confronto com Romney, quando se questiona: "De quem gosta mais"? Nesse plano, a vantagem de Barack sobre Mitt é na ordem dos 60/30.

2. ECONOMIA. Como nota John Podhoretz, em artigo no New York Post, "certamente que o principal argumento da reeleição de Obama não será a economia". Se a tendência de recuperação económica se mantivesse forte até Novembro, não haveria grandes dúvidas de que Obama seria reeleito. Mas os cisnes negros são cada vez mais visíveis nesse capítulo, nos próximos meses. E Romney insiste, por isso, cada vez mais na tecla de que é «mais credenciado e mais experimentado» como gestor e empresário. A guerra de argumentos entre os dois candidatos passará muito por esta questão.

3. LIGAÇÃO AO "AMERICANO COMUM". Nesse ponto, a vantagem volta a ser de Obama. Mitt Romney dificilmente se livrará do rótulo de «demasiado rico» e «elitista». Uma estratégia de última hora de colocar o nomeado republicano próximo da «real America» soaria a falso. Obama, com um discurso mais terra a terra quando é preciso, consegue apelar mais ao sentimento americano e recorda, com particular mestria, as suas raízes no Midwest (de onde a mãe era natural e onde sempre foi muito forte eleitoralmente).

4. VETERANOS E UNIVERSO MILITAR. Clara vantagem de Romney neste segmento, traduzida nas sondagens por uma diferença de 66/33. Obama não se livra de ser um Presidente que está a reduzir o orçamento de Defesa e que advoga a diminuição da presença militar americana no Mundo. Mitt mantém o discurso republicano tradicional neste campo e isso basta-lhe para ter grande avanço no voto dos militares.

5. MINORIAS. São tantas, tão diferentes e tão influentes no mosaico americano, que se torna difícil simplificar num só ítem. Obama arrasou McCain há quatro anos na chamada «coligação de minorias»: negros, jovens, latinos, mulheres. Prevê-se que mantenha vantagem em todos estes campos, mas com diferenças bem menores, em relação a 2008. Romney deposita algumas esperanças em sectores hispânicos e mesmo em eleitorado jovem que está desiludido com o desempenho económico da Administração Obama. Se no eleitorado branco religioso, Romney vencerá claramente, em todos os outros segmentos, o Presidente continua a mostrar muito competitivo.