domingo, 18 de setembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Perry derrapa no teste presidencial


O discurso anti-Washington valeu a Rick Perry um arranque muito forte, mas o governador do Texas começa a dar mostras de não estar preparado para aguentar o embate de uma campanha presidencial


Perry derrapa no teste presidencial

Por Germano Almeida


Rick Perry ainda pode exibir o estatuto de ‘frontrunner’ das primárias republicanas, mas começam a surgir dúvidas sobre a capacidade do governador do Texas poder passar no teste presidencial.

O salto da política texana para a exigentíssima corrida à presidência dos Estados Unidos não é coisa pouca. E mesmo sendo Rick o governador há mais tempo em funções na América, a verdade é que as suas credenciais como governador popular no Texas podem não ser suficientes para que consiga aguentar o embate nacional.

O Texas é o segundo maior estado da América, em área geográfica (só atrás do Alasca). E é o segundo estado mais relevante na corrida presidencial (só atrás da Califórnia).

Neste início de campanha, Rick tem feito valer as suas credenciais na criação de emprego e os indicadores económicos no seu estado. Mas estará Perry preparado para se adaptar às regras do jogo presidencial?

«Esquema de Ponzi», Rick?
Os últimos dias mostraram que os temas económicos podem não ser assim tão favoráveis ao campo republicano na eleição de 2012.

O terceiro debate das primárias republicanas, que marcou a estreia de Rick Perry, pôs a nu algumas das fragilidades do governador do Texas. De forma inteligente, Mitt Romney até recordou que os bons indicadores económicos da governação de Perry têm muito mais a ver com o petróleo que o Texas tem -- e não tanto por eventuais méritos de Rick como governador.

Com um discurso perigosamente excessivo, Perry não conseguiu demarcar-se da comparação disparatada que havia feito sobre Segurança Social americanas ser equiparável a um «esquema de Ponzi» (algo que Mitt Romney habilmente recordou) e mostrou-se pouco interessado em apresentar soluções para viabilizar um sistema que, ao contrário do que acontece com o programa de Saúde de Obama, é muito popular na América -- 87 por cento dos eleitores defendem que a Segurança Social deve ser protegida, sendo que muitos deles são eleitores-tipo do Partido Republicano, representando as faixas etárias mais velhas.

Mais moderado, com melhor preparação do que Perry em todos os temas essenciais para uma corrida presidencial e definindo cada vez mais o seu posicionamento como o candidato mais capaz de disputar o centro com Obama, Mitt Romney (que apresentou o seu próprio plano económico, numa antecipação ao American Jobs Act de Obama) pode ter tido neste debate a oportunidade de recuperar terreno, depois do entusiasmo que Perry conseguiu arrancar junto da base conservadora, nas semanas que se seguiram ao anúncio da sua candidatura.


Mitt Romney: mesmo depois de perder a liderança da corrida para Rick Perry, o ex-governador do Massachussets continua a parecer o republinano mais bem preparado para defrontar Barack Obama na eleição geral

Por enquanto, as sondagens ainda dão Perry à frente da corrida republicana, mas Romney vai reduzindo a distância – e, sobretudo, o que dá para perceber é que, entre o leque dos candidatos que estão no terreno, a questão será mesmo entre Rick e Mitt.

Sondagem publicada pela CBS News e pelo New York Times, realizada entre 10 e 15 de Setembro (apanhando já os eventuais efeitos do terceiro debate republicano) dá Rick Perry com 23 pontos, com Mitt Romney nos 16. Michele Bachmann cai para os sete por cento, os mesmos de Newt Gingrich, tendo Ron Paul apenas cinco. Rick Santorum e Jon Huntsman, definitivamente fora do círculo de eventuais nomeados, quebram nos dois e um por cento, respectivamente.

Mas o governador do Texas ainda não passou pelas principais provas de fogo: o eleitorado que, por enquanto, lhe está a dar apoio, ainda não se apercebeu que Perry já foi democrata (até ao início dos anos 90) e que até apoiava Al Gore, nas primárias de 1988; ainda não avaliou o facto do Texas ser dos estados da América com piores indicadores em questões como a Educação ou o combate à pobreza; ainda não pensou bem na questão de que um combate presidencial não é uma mera eleição no Texas e exige um tipo de linguagem mais abrangente e menos primária.

O apagamento de Bachmann
Enquanto isso, Michele Bachmann, a estrela da primeira fase da corrida, vai-se afundando no seu radicalismo, e aparece a mais de dez pontos dos dois primeiros – algo que poderá inspirar Sarah Palin a avançar mesmo lá para Outubro, assumindo-se como a única esperança do Tea Party.

É a vantagem deste longo e estranho sistema de escolha de candidatos presidenciais na América: os fenómenos de moda, com o passar do tempo, desvanecem-se e a dureza da batalha faz com que prevaleça uma espécie de selecção natural, o que aumenta a probabilidade de a escolha final se revelar a mais adequada.

domingo, 11 de setembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Resiliência - Uma década depois do 11 de Setembro


Laura e George W. Bush, Michelle e Barack Obama: a unidade dos norte-americanos em torno do que significa o 11 de Setembro é a prova de que os EUA continuam a ser uma grande Nação. Apesar das divisões e apesar do fantasma do 'declínio'


Resiliência - Uma década depois do 11 de Setembro

Por Germano Almeida


«Dez anos mais tarde, deixámos muito claro que a América não se encolhe nem se esconde atrás dos muros da desconfiança. Os terroristas que nos atacaram não conseguiram destruir o carácter do nosso povo, a resiliência do nosso país e a eternidade dos nossos valores»

BARACK OBAMA, mensagem dedicada ao décimo aniversário do 11 de Setembro de 2001


Há precisamente dez anos, o Mundo entrava em estado de choque. A única superpotência, que até então vivia na ilusão de ser inatacável, revelava uma surpreendente vulnerabilidade.

Num atentado terrorista de dimensões inimagináveis, vimos o que nunca pensámos ser possível ver: o coração financeiro de Manhattan tornou-se num cenário apocalíptico, depois do embate de dois aviões comerciais, sequestrados por comandos terroristas da Al-Qaeda, que provocou, minutos depois, a derrocada das Torres Gémeas, ícones do poder financeiro de Nova Iorque.

Na mesma manhã, o Pentágono era atacado, com a queda de um terceiro avião desviado pelos terroristas. O Capitólio e, eventualmente, a Casa Branca eram os restantes alvos dos planos de Osama Bin Laden, um filho de um milionário saudita que tinha fugido para o Afeganistão e havia sido apontado, nos anos anteriores ao terror de 11 de Setembro de 2001, como o preparador de ataques a alvos americanos (camiões armadilhados explodiram diante das embaixadas dos EUA na Tanzânia e no Quénia, em Agosto de 1998, e uma lancha suicida lançou-se, em Outubro de 2000, contra o navio de guerra USS Cole, que estava ancorado no Iémen).

Mas o voo 93 da United Airlines, o quarto avião sequestrado pelos terroristas da Al Qaeda, viria a cair na Pensilvânia.

As duas faces da retaliação
Feridos no seu orgulho, depois de terem sido atacados de forma inimaginável, os Estados Unidos tinham que reagir. Não seria, sequer, admissível outro cenário.

A questão estava na forma, na sustentação e no enquadramento internacional.

As ligações de Bin Laden e da Al Qaeda ao Afeganistão tornaram a frente afegã no primeiro passo quase inevitável. Quatro semanas depois do 9/11, os EUA voltavam à guerra.

Foi o início de um longo e pesadíssimo caminho, que, uma década depois, ainda não acabou.

A argumentação em torno da guerra afegã tinha fundamentos sólidos, mas a guerra do Iraque foi uma trágica consequência do oportunismo dos ‘neocons’ que passaram a dominar ideologicamente o ex-Presidente Bush.

O resto da história é conhecido: anos e anos a acumular faraónicos gastos de guerra (mais de 4 biliões de dólares) e baixas civis (perto de 130 mil no somatório das frentes afegã e iraquiana).

O desgaste político das guerras terá, aliás, sido o princípio do fim para George W. Bush e os republicanos, abrindo caminho a uma mudança inesperada.

Barack Obama foi eleito como o «herói anti-guerra», mas ainda antes de tomar a Casa Branca avisara: «A guerra do Iraque foi estúpida, a guerra no Afeganistão é necessária».

Bin Laden, entretanto ultrapassado como ícone do terrorismo perante a pulverização da Al Qaeda em ramificações pouco ortodoxas, foi mesmo eliminado: não por Bush, mas por Obama.

Como bem notou o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, David Miliband, «Bin Laden foi notícia, mas não fez história».

Obama, que no Cairo fez discurso inspirador em sinal de clara aproximação ao mundo muçulmano, assistiu à Primavera Árabe e concluiu: «Uma nova geração está a mostrar que o futuro pertence àqueles que querem construir e não destruir».


A reconstrução

«Deixar o Ground Zero em ruínas teria sido impossível neste país. Ruínas não é connosco»
ERIKA DOSS, historiadora de arte, autora do livro «Memorial Mania»

A América, que no plano político continua profundamente dividida, continua a ser um caso à parte em momentos como este.

A forma absolutamente extraordinária como os nova-iorquinos conseguiram recuperar do trauma só se explica pela noção de orgulho que sentem pela «cidade que nunca dorme», para muitos aquela que é mesmo «the best city in the world», a ‘melhor cidade do Mundo’.

Rudy Giuliani -- que estava de saída da presidência da Câmara de Nova Iorque quando, subitamente, se deu no centro do momento mais crítico da História recente americana -- costumava dizer, quando ainda era mayor de NYC que tinha «o melhor emprego do Mundo» porque trabalhava para a cidade que amava e ainda lhe pagavam para isso.

Nas memórias, ainda muito dolorosas, dos dez anos do 11 de Setembro, falou-se de coragem, inquietação e medo. E sobreveio, acima de tudo, a resiliência dos norte-americanos. Nos momentos de extrema dificuldade, lá estão eles a provar que continuam a ser um grande povo.

Talvez seja essa a maior lição do dia infame que aconteceu há uma década.

sábado, 10 de setembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Obama levanta a voz ao Congresso


Afinal, Obama não desistiu da sua faceta de lutador e desafiou o Congresso a aprovar o seu plano de criação de emprego e de relançamento da Economia. A apresentação do American Jobs Act marcou uma intervenção muito incisiva de Obama, que não se cansou de repetir: «You should pass this bill. Right away»


Obama levanta a voz ao Congresso

Por Germano Almeida



«O propósito do American Jobs Act é simples: pôr mais pessoas a trabalhar e mais dinheiro no bolso de quem já tem trabalho. Criará mais empregos para os operários de construção civil, mais empregos para os professores, mais empregos para os veteranos e mais empregos para os desempregados de longa duração. Permitirá uma redução fiscal para as companhias que dêem empregos a quem estava desempregado e cortará impostos da classe média e dos pequenos empresários. Dará confiança a quem investe na economia. Devem aprovar este plano de empregos imediatamente»

BARACK OBAMA, excerto do discurso de apresentação do American Jobs Act, na sessão conjunta do Congresso


Quem, depois das cedências feitas pelo Presidente ao Tea Party no acordo para o aumento do tecto da dívida, considerou que Barack Obama tinha desistido de ser um lutador político nas questões essenciais, tem mesmo que que assistir ao brilhante discurso feito na noite de 8 de Setembro, na sessão conjunta do Congresso, na apresentação do American Jobs Act.

É verdade que Obama demorou semanas (demasiadas?) a reagir à frustração justificada de vários sectores que o apoiam, depois do desastroso acordo que, à última hora, salvou a América do ‘default’.

Mas também é verdade que o Presidente já tinha prometido encontrar vias de compensar a impossibilidade de incluir aumentos de receita por via do agravamento impostos para os mais ricos.

O artigo de Warren Buffet, que acabou por gerar uma discussão internacional sobre a necessidade de os mais ricos participarem na solução da crise das dívidas dos países ocidentais, foi o primeiro sinal de reacção de quem se recusava a aceitar a chantagem do Tea Party.

O American Jobs Act -- plano de criação de empregos e relançamento da Economia que Barack Obama apresentou em sessão conjunta do Congresso (membros da Administração Obama, senadores e deputados da House) – é uma resposta clara e eloquente a quem achava que este Presidente já tinha «capitulado» na sua agenda política para o primeiro mandato.

Barack volta a calçar as luvas
Dirigindo-se ao Congresso de forma directa e incisiva, com uma retórica ao nível dos seus melhores discursos, mas num estilo mais agressivo do que é habitual no Presidente dos EUA, Barack Obama repetiu, por várias vezes, uma frase que retira qualquer interpretação que aponte para «indecisão» ou «fraqueza»: «You should pass this bill. Right away…» (‘devem aprovar este plano. Imediatamente’)

Obama pôde defender o seu plano com esta agressividade, porque sustentou este American Jobs Act em pressupostos que muito dificilmente podem ser contestados por democratas ou republicanos, num 'mix' de cortes fiscais às pequenas empresas (redução em 50% dos 'pay roll taxes', equivalente à Taxa Social Única) com forte investimento público.

Num gigantesco plano de incentivo ao emprego, no valor de 447 mil milhões de dólares (mais de 300 mil milhões de euros), Obama lança soluções para criar, num prazo curto, empregos através da reparação de pontes, estradas e grandes obras públicas, num recurso a uma via ‘keynesiana’ que reforça a ideia de comparação com o tempo de Roosevelt.

Num enfoque no seu principal campo social de apoio (a classe média), Barack prevê, neste American Jobs Act, a criação de milhares de empregos para professores e cortes de impostos para pequenos empresários, como incentivo à reanimação da Economia.

A chave para se perceber a razão de que será difícil para os republicanos vetarem tem a ver a sustentação deste megaplano. «Tudo o que está aqui previsto se paga sem implicar qualquer aumento do défice. Não deve haver controvérsia em torno deste plano», reforçou o Presidente, recordando que as reduções fiscais nele contidas são as mesmas que haviam sido defendidas por 50 congressistas republicanos.

Afinal, ainda há Obama

«O Presidente Kennedy disse uma vez que ‘os nossos problemas são feitos pelo Homem – e por isso podem ser resolvidos pelo Homem'. E o Homem pode ser tão grande como ele quiser. Estes são anos difíceis para o nosso país. Mas nós somos Americanos. Somos mais duros do que os tempos em que vivemos e somos maiores do que os nossos políticos têm sido. Então, abracemos este momento. Vamos ao trabalho e mostremos ao Mundo, mais uma vez, porque é que os Estados Unidos da América continuam a ser a maior Nação à face da Terra»

BARACK OBAMA, excerto do discurso de apresentação do American Jobs Act, na sessão conjunta do Congresso


Se há um plano que possa representar o paradigma do que é a acção política de Obama é este American Jobs Act: nele, Barack aponta o caminho para a recuperação económica, focando-se naquilo que sempre considerou ser o «motor da América» (a classe média, quem trabalha e quem gera emprego), mas sempre com uma preocupação bipartidária, na forma como recupera ideias de democratas e republicanos.

«Este plano está feito para poder ser apoiado por um republicano do Texas e por um democrata do Massachussets», sublinhou Obama, no seu estilo agregador, ao citar os opostos (o Texas é dos estados mais conservadores, o Massuchussets talvez o mais liberal).

A juntar a tudo isto, Obama também olha, neste plano, para os veteranos de guerra, mostrando o seu lado de Presidente que percebe as questões profundas da América, com uma frase poderosa: «Quem combateu pelos EUA não merece ter que combater por um emprego quando regressa a casa. Isso não é a América».

Insistindo num discurso muito crítico sobre «as tácticas políticas de Washington», Obama reforçou que «quem está a sofrer com a crise económica não quer saber dessas tácticas. O que espera de nós são soluções».

E recuperou um certo discurso proteccionista, que chegou a adoptar em fases cruciais da campanha presidencial, ao referir que «não há razões para a América não fazer melhor que a China». «Do mesmo modo que importamos Kias e Hyundais, quero ver tipos na Coreia do Sul a comprar Fords e Chevys e Chryslers»., apontou o Presidente.

O lado que Obama mostra, e que tantas vezes gera desconforto na sua base natural de apoio, de perceber o outro campo voltou a ser utilizado quando Barack falou da necessidade de «reformar o Medicare e o Medicaid para tornar estes programas viáveis, mesmo que isso não agrade a muitos congressistas democratas».

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Histórias da Casa Branca: A marca de Obama na frente externa


Os tempos não estão para sorrisos para Barack Obama, mas na frente externa o Presidente tem tomado as decisões certas: resolver as guerras e focar a atenção para a Economia


A marca de Obama na frente externa

Por Germano Almeida


«Se olharmos só para o plano interno, na melhor das hipóteses, Obama será um Presidente que conseguiu uma lenta e demorada recuperação económica, num período de incrível dificuldade. Mas a política externa pode ser uma história completamente diferente. Nessa frente, Obama não só poderá ser um bom Presidente, mas poderá mesmo ser recordado como um grande Presidente»

Michael Tomasky, colunista no New York Review of Books e na American Prospect


Cada Presidente americano tem, no seu legado, uma dupla realidade para avaliar: a política interna e a frente externa.

É sabido que, quase sempre, o que decide as eleições presidenciais na América tem a ver com a primeira vertente – e, sobretudo, com o estado da Economia americana no momento de cada eleição.

Assim se explica que Bush pai tenha falhado a reeleição, em 1992, meses depois de ter ganho a primeira Guerra do Golfo para um jovem governador que tinha dirigido com bons resultados económicos um pequeno estado do Sul – Bill Clinton.

Os três primeiros anos de Barack Obama na Casa Branca têm sido marcados por uma grande disparidade nessas duas frentes: se, no plano doméstico, os problemas têm sido imensos (e poderão prolongar-se por mais alguns anos, no caso de a sua reeleição ser contrabalançado por uma maioria republicana no Congresso), a verdade é que, na frente externa, a marca Obama tem sido muito mais fácil de ficar gravada.

Visto muito mais como um «candidato do Mundo para Presidente ideal da América» do que como um Presidente consensual no seu próprio país (ideia que a pareceu ser possível quando da eleição, mas que se desvaneceu em poucos meses após a sua chegada à Casa Branca), Barack Obama tem conseguido apontar o caminho certo em várias frentes da política externa.

O Nobel
Na mentalidade da ‘real America’, ser popular no resto do Mundo não significa um crédito acrescido para a política interna. Essa aparente contradição ficou bem notória em Outubro de 2009, quando a inesperada atribuição do Prémio Nobel da Paz ao então recém-Presidente Obama deixou incrédula uma boa parte da América.

Para muitos, a escolha da Academia norueguesa foi precipitada – e baseou-se mais num «wishful thinking» do que num julgamento de feitos ainda não conseguidos.

Dois anos depois, o que se percebe é que o grande problema de Obama tem sido o momento económico de quase pânico que se vive no mundo Ocidental: perante os receios de novas recessões, como olhar para as questões internacionais, se a preocupação imediata é ter ou não ter emprego?

As guerras
Historicamente, o descontentamento com a guerra do Afeganistão e do Iraque ajudou à eleição de Obama. Mas, uma vez na Casa Branca, Barack passou a ter dois enormes problemas para resolver.

Quase três anos depois, há pelo menos a noção de ‘accountability’: Obama prometeu iniciar uma retirada faseada das tropas americanas do Iraque e do Afeganistão. Pode contestar-se a actual situação no terreno, em ambos os casos, mas a verdade é que o Presidente cumpriu essas duas promessas.

E, nesses dois momentos, recordou que «é tempo de a América focar-se no essencial, que é a recuperação económica», permitindo que iraquianos e afegãos «construam o seu próprio futuro».

O nuclear
Defensor, desde o discurso de Praga, de um Mundo sem armas nucleares, Obama passou à prática essa visão com a assinatura do novo Tratado START, com a Rússia, assinado na capital checa, precisamente um ano depois desse discurso.

A ratificação, por larga margem, com o apoio de vários senadores republicanos foi uma excepção bipartidária no clima de crispação que se tem vivido em Washington.

A Primavera Árabe
O discurso do Cairo, feito numa fase inicial da sua Presidência, quando o vento soprava de feição para a ‘Obamania’, foi visto por muitos como a inspiração inicial para o que estava para acontecer, meses depois, no Mundo árabe.

Entendamo-nos: seria abusivo afirmar que a revolta de tunisinos, egípcios, sírios ou líbios teve como principal catalisador as palavras do Presidente americano na capital do Egipto.

A recente declaração do embaixador dos EUA em Portugal, Allan Katz, de que a Primavera Árabe aconteceu por ter sido exactamente uma década depois do 11 de Setembro dá conta de como é perigoso fazer esse tipo de extrapolações em área tão imprevisível.

Mas a nova etapa aberta nas relações internacionais – e sobretudo na forma como os EUA olhavam para o mundo muçulmano, em geral, e para os países árabes, em particular – alargou horizontes a populações que tinham tido, nos anos pós-11 de Setembro, durante a era Bush, uma posição de base anti-americana.

Com o poder na América a lançar-lhes um claro sinal de distensão, o foco do descontentamento no mundo árabe passou a estar nos problemas económicos e na falta de liberdade impostos por ditadores como Ben Ali, Mubarak ou Kadhafi (apesar das diferenças entre eles e de proximidades recentes de Washington com todos…)

O aventureirismo das «acções preventivas» da Doutrina Bush, fundadas na teoria do ‘neocons’, terminou na fase final da anterior administração, mas teve na eleição da Barack Obama o seu ponto de viragem.

O regresso ao realismo, em muitos pontos mais próximo com Bush pai do que com Bill Clinton, consumou-se com a sintonia do Presidente com a ‘surge’ de David Petraeus para o Afeganistão.

Findo o período do unilateralismo, os EUA de Obama marcaram o «regresso da América» como principal ponto de referência no equilíbrio geopolítico.

A Líbia
O exemplo da Líbia é paradigmático do realismo de Obama na política externa. Não caindo no erro de Bush pai na Somália, ou de Clinton na Jugoslávia, Obama retardou ao limite a luz verde da intervenção militar contra Kadhafi – e plasmou, com requinte, esse difícil equilíbrio no discurso de explicação da intervenção militar americana em Tripoli: a partir do momento em que a fúria de Kadhaffi se virou contra o seu próprio povo, passou a ser legítimo usar a força.

O terrorismo
Nem todos os indicadores de opinião são negativos para Obama. Aquele que é mais positivo tem mesmo a ver com a forma o Presidente tem lidado com a ameaça terrorista: de acordo com sondagem Gallup, 62 por cento dos americanos aprovam, só 32 por cento reprovam.

O sucesso da Operação Geronimo, que redundou na eliminação de Bin Laden, terá ajudado a melhorar uma tendência que, ao longo deste mandato presidencial, tem sido sempre positiva.

A frente externa não costuma decidir eleições presidenciais na América. Mas é a prova de que nem tudo tem sido frustrante na herança do primeiro mandato presidencial de Obama.

sábado, 3 de setembro de 2011

Histórias da Casa Branca: Consegue provar que Obama tem sido um mau Presidente?


A tese dominante é a de que a Presidência Obama está a falhar no fundamental, mas talvez não seja possível demonstrar como fazer melhor num quadro político e económico carregado de adversidades


Consegue provar que Obama
tem sido um mau Presidente?


Por Germano Almeida


«Não sei o que Deus terá ainda de fazer para chamar a atenção dos políticos. Já tivemos um tremor de terra e um furacão»

Michele Bachmann, congressista do Minnesota, candidata à nomeação presidencial republicana, num comício do Tea Party na Florida


Já toda a gente sabe que os tempos têm sido muito difíceis para a Administração Obama.

Os números do desemprego, do défice e, sobretudo, os receios crescentes de que pode estar a vir aí uma ‘double dip recession’, com contornos ainda mais graves do que a tempestade financeira de 2008/2009, fazem com que pareça existir uma conjugação de factores a apontar para uma sentença de que esta será uma Presidência falhada. Certo? Errado.

Quem ouvir a argumentação zangada dos candidatos à nomeação presidencial republicana ficará com a ideia de que Barack Obama tem sido um péssimo Presidente.

E se atentarmos a frases como a que está em destaque na abertura deste texto, proferida por Michele Bachmann (a radical congressista do Minnesota insinua que o tremor de terra na Virgínia e o furacão Irene terão sido… sinais de Deus a penalizar Obama), então percebemos que os ataques ao Presidente dos EUA há muito que já passaram a esfera da racionalidade política.


Michele Bachmann: quando o discurso político dos principais candidatos republicanos cai no domínio da irracionalidade, resta a Obama acreditar que os americanos vão continuar a preferir o seu estilo conciliador

Neste clima de gritaria republicana contra Obama, pode não ser fácil analisar os dados com clareza.

Mas é precisamente por isso que vale a pena olhar com atenção para esta pergunta: há provas que sustentem a tese de que Obama tem sido um mau Presidente? Seria possível fazer melhor neste quadro de extraordinárias dificuldades políticas e económicas?

Para lá da gritaria
Pode ser um exercício quase contranatura nestes tempos de sentenças imediatas, sobretudo quando, na América, vemos agora um batalhão de candidatos à nomeação republicana a rotular Obama dos mais diversos defeitos.

Só que, em política, muitas vezes o que parece não é. Jonathan Alter, colunista da Newsweek e autor do livro ‘The Promise - President Obama, Year One’, aponta, em artigo com o sugestivo título: ‘You Think Obama’s been a bad President? Prove it!’: «Não estou interessado em ouvir ataques ‘ad hominem’ a Obama ou nas generalizações sobre o ‘desapontamento’ que muita gente diz sentir. Quero saber, trabalhando sobre uma base substantiva, porque é que Obama merece estar empatado com Perry e Romney e só uns pontos à frente de Ron Paul e Michele Bachmann, de acordo com sondagem recente da Gallup. Será que o facto de o desemprego se manter a nove por cento faz, por si só, condenar um Presidente, seja ele quem for e faça ele o que faça?»

Alter desafia-nos, por isso, a ver as coisas para lá do que parecem à superfície. E recorda: «Como toda a gente, também eu tenho a minha lista de erros a apontar a Obama, desde ter falhado numa posição mais forte sobre os bancos em 2009 até ter recusado a revogação das Bush Tax Cuts quando os democratas ainda controlavam o Congresso. Talvez não devesse criar expectativas quando falou no «Verão da recuperação» e no discurso «Winning the Future», enquanto a economia não começasse a dar sinais de retoma. Mas será que estas falhas de cálculo são suficientes para que ele não deva ser reeleito?»

No artigo, Alter expõe muito bem a contradição em que tem vivido a Presidência Obama: pelas mesmas decisões, tem recebido críticas à esquerda e à direita – por motivações opostas.

Os estímulos económicos de 2009, a Reforma da Saúde, a Reforma Financeira ou os acordos estabelecidos com os republicanos para o aumento do tecto da dívida são alguns dos exemplos mais visíveis do ‘equilibrismo político’ em que tem oscilado a Presidência Obama.

O estilo conciliador, que o levou a obter uma enorme maioria presidencial a 4 de Novembro de 2008, parece agora virar-se contra Obama. O seu mantra tem sido o de ouvir os dois lados, pôr-se na pele do adversários, absorver diferenças e traçar equilíbrios políticos.

Só que o mantra dominante está mais perto do discurso populista dos republicanos.

Mais xadrez, menos poker
Na campanha de 2008 e no primeiro ano e meio de Presidência, Obama fez valer as suas qualidades de jogador de xadrez: juntou paciência, estratégia e arrojo para resolver dilemas como o ObamaCare ou a Dodd-Frank Bill.

Mas depois de perder o controlo político do Congresso, tudo se complicou. Em crises como a da negociação do aumento do tecto da dívida, o Presidente tentou jogar poker com um Congresso que lhe é incrivelmente hostil. E saiu-se mal.

Ficou célebre a revelação do congressista republicano Eric Cantor, uma das estrelas do Tea Party, ao revelar que, numa das reuniões tensas em que acabou por sair intempestivamente, Obama lançou: ‘Eric, don’t call my bluff…’

Não é um desabafo típico do Barack-que-nunca-perde-o-controlo-da-situação. Mas representa bem o clima de polarização a que se chegou na política americana.

A eleição de Obama não alterou, por si só, uma sensibilidade ideológica dominante na América e que aponta para culpar o poder federal. A quebra de consensos em Washington fez aumentar ainda mais o desagrado do americano comum pela falta de capacidade do poder central em resolver a crise económica – e isso tem reflexos tremendos na popularidade do Presidente, por muito que seja ele o que mais tem feito por evitar este clima.

É relativamente fácil elencar a montanha de dificuldades políticas que atravessa Obama. Mas já é mais difícil demonstrar que era possível fazer melhor.

O dilema justifica continuação nos próximos dois textos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: Perry sobe, Romney treme


Rick Perry: a entrada em cena do governador do Texas causou um autêntico furacão na corrida à nomeação republicana. Mas subsistem muitas dúvidas quanto à capacidade deste 'cowboy' com créditos de conservadorismo fiscal poder derrotar Obama


Perry sobe, Romney treme

Por Germano Almeida


E, subitamente, o campo republicano encheu-se de pretendentes à nomeação presidencial.

A queda na Taxa de Aprovação do Presidente Obama (em Agosto, baixou, pela primeira vez, dos 40 por cento) faz aumentar a perspectiva de eleição para quem vier a vencer a corrida no partido do elefante.

Já por aqui tínhamos avisado, bem antes da entrada em cena de Rick Perry, que a narrativa segunda a qual Mitt Romney era o nomeado natural do Partido Republicano estava a parecer simples demais.

Apesar dos trunfos com que partiu o ex-governador do Massachussets (a experiência em 2008, o dinheiro já arrecadado), a verdade é que Romney não entusiasma por aí além a base conservadora.

Essa base, que sempre teve um grande peso no ‘Grand Old Party’, está agora energizada com o contágio do Tea Party.

Até há poucas semanas, quem se aproveitou dessa estranha tendência foi Michele Bachmann. O discurso incrivelmente crítico sobre a Presidência Obama, que tem sustentado a estratégia da congressista do Minnesota, já lhe valeu o título de «rainha da raiva».

Os frutos políticos estavam a ser enormes: em período de forte contestação a Obama (por força da crise económica), a congressista surgiu como a estrela da fase de arranque das primárias, perante a falta de capacidade de mobilização de Romney, Tim Pawlenty (que até já desistiu) e Jon Huntsman, os candidatos mais moderados.

Rick já é o ‘frontrunner’
Rick Perry, quase tão extremista como Bachmann, mas com um currículo e uma consistência política infinitamente maiores, apareceu como um furacão: em poucos dias, varreu a vantagem de Romney, diminuiu o efeito Bachmann, captou preferências de quem esperava por candidatos alternativos como Chris Christie.

Tudo somado, o governador do Texas aparece agora como frontrunner da corrida republicana. Perry surge à frente de Romney por diferenças de cinco a dez pontos e ameaça reduzir Michele Bachmann a um epifenómeno (se olharmos para os números nacionais), apenas com hipóteses de disputar o Iowa (o seu estado natal) e alguns estados do Sul.

Evangélico, populista, conservador fiscal com estilo 'cowboy' a fazer lembrar George W. Bush, Rick está a conseguir juntar os apoios que tem no ‘establisment’ republicano (sobretudo junto de outros governadores) com a ala mais conservadora.

Ainda não retirou a Bachmann o título de ‘tea party darling’, mas está claramente a tirar o ‘momentum’ político à radical congressista do Minnesota.

E algumas sondagens continuam a dar bons resultados a outros dois nomes que ainda nem sequer garantiram que vão avançar: Sarah Palin e Rudy Giuliani. A ex-governadora do Alasca está no terreno e dá sinais de querer entrar em jogo (talvez em Setembro ou Outubro).

Rudy está mais afastado, mas os números dos duelos com Obama podem fazê-lo entrar em cena mais tarde – as sondagens dizem que o antigo mayor de Nova Iorque será, a par de Mitt Romney, o candidato que mais benefícios poderá tirar do descontentamento do eleitorado independente, que apoiou Obama em massa em 2008.

Paul Ryan à espreita
Com ou sem Sarah Palin e Rudy Giuliani na corrida, a questão mantém-se: será que este leque de candidatos satisfaz todas as correntes do GOP? Por estranho que possa parecer (afinal de contas, já são muitas opções), uma boa parte dos eleitores republicanos continua à espera de soluções mais estimulantes.


Paul Ryan, 41 anos, é o líder do Comité do Orçamento do Congresso e tem sido pressionado a avançar pelos sectores que consideram fraco o actual leque de candidatos

A tese de que Mitt Romney é pouco mobilizador já abriu caminho à entrada fulgurante de Rick Perry – e pode permitir que Paul Ryan, líder do Comité do Orçamento do Congresso, entre na corrida.

Aos 41 anos, o congressista republicano do Wisconsin é apontado como uma das futuras estrelas do GOP: tem um discurso claro, ideias poderosas em tempos de corte na despesa e não cai na demagogia fácil do argumentário até agora apresentado por Perry, Michele Bachmann, Ron Paul, Herman Cain ou, nalguns temas, até mesmo de Mitt Romney.

Não é muito provável que o faça, mas se Paul Ryan entrar na corrida, pode provocar uma reviravolta ainda maior do que a que provocou Perry nos últimos dias.

Nikki Haley a vice-presidente?
A cerca de um ano de sabermos quem será o nomeado presidencial do Partido Republicano, já há movimentações em relação a possíveis vice-presidentes.

Os rumores apontam para cinco nomes:

- Marco Rubio, jovem senador da Florida que muitos apontam como o candidato presidencial do GOP para 2016 em caso de reeleição de Obama;

- Chris Christie, governador da Nova Jérsia (que não vai entrar na corrida à nomeação, apesar de vários apelos que tem recebido para tal);

- o governador da Virgínia, Bob McDonell;

- Susana Martinez, governadora do Novo México;

- ou então (num cenário de ainda maior influência do Tea Party) Nikki Halley, a jovem governadora da Carolina do Sul, de ascendência indiana.

Esta quinta opção, ainda que seja a menos falada, pode ganhar força com a dinâmica da própria corrida.


Nikki Haley: a jovem governadora da Carolina do Sul pode entrar mais tarde como solução para vice-presidente, apoiada pelo Tea Party

Sendo natural que o nomeado presidencial seja um nome não directamente ligado ao Tea Party, a regra da compensação (típica na escolha dos vice-presidentes) poderá garantir à ala radical a influência no nome do número dois do ticket republicano.

Em período de polarização do discurso na política americana, não era de admirar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: Obama contra-ataca e volta ao Midwest


Depois de semanas sob intenso fogo republicano, em que tentou ao limite ser o Presidente que consegue os «compromissos impossíveis», Barack Obama voltou a calçar as luvas de boxe e partiu para o terreno, já a pensar na batalha de 2012


Obama contra-ataca e volta ao Midwest

Por Germano Almeida

A corrida às presidenciais 2012 está definitivamente lançada e, depois de um fim-de-semana intenso no campo republicano -- que ditou o abandono de Tim Pawlenty e a confirmação de Rick Perry como forte pretendente à nomeação -- foi o próprio Obama a antecipar a sua entrada em campanha.

O caso não é para menos: Barack foi alvo de um autêntico massacre político em várias frentes, nas últimas semanas.

E perante o sentimento das bases do Partido Democrata, eixo político natural de Obama, de que será preciso «mais agressividade» na resposta aos ataques do campo oposto, o Presidente parece ter assumido as vestes do «lutador de boxe» (que já utilizara em momentos-chave do seu passado político, embora essa seja a faceta que menos gosta de mostrar), esquecendo, nesta fase, a sua já lendária «contenção».

O tempo não está, de facto, para o estilo ‘No Drama Obama’. A queda do rating da dívida americana para AA+ na Standard’s & Poor teve uma carga simbólica que os republicanos aproveitaram ao limite -– e nem o facto de esse inédito «downgrade» não ter sido acompanhado pelas restantes agências de referência parece ter amenizado o impacto da perda.

«Tea Party downgrade»?
O senador John Kerry, nomeado presidencial democrata em 2004, e David Axelrod, conselheiro-chefe da campanha de reeleição de Obama, rotularam a queda da notação americana de «Tea Party downgrade», atribuindo as culpas ao radicalismo da ala direita do Congresso.

Obama, em entrevista a Wolf Blitzer na CNN, foi mais longe e culpou John Boehner, speaker do Congresso, de se «ter preocupado mais com os interesses políticos e menos com as necessidades dos americanos», por não ter aceite uma solução que evitava cortes tão profundos na despesa e permitiria a arrecadação de receitas por via do aumento de impostos dos mais ricos.

Warren Buffet: ‘I beg you to raise my taxes!»
Esta visão pode parecer a mais sensata – e até tem defensores junto de quem iria ser penalizado. Basta consultar o interessantíssimo artigo de Warren Buffet (terceiro homem mais rico do Mundo, com fortuna avaliada em 80 biliões de dólares), assinado no New York Times «I beg you to raise my taxes!» (‘imploro que aumente os meus impostos!’) «Enquanto os pobres e a classe média lutam e morrem por todos nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos lutam por se manterem à tona, nós, os milionários, continuamos a beneficiar de cortes de impostos. Parem de mimar os mega-ricos», exorta o multimilionário, que apoiou a candidatura presidencial de Obama e agora ficou desiludido com as cedências do Presidente às pressões do Tea Party.

Buffet identifica a contradição de haver, em Washington, uma maioria de congressistas que continuam a proteger os ricos, mesmo quando a economia real está na iminência de voltar a entrar em recessão.

O problema é que, nos dias que correm, as visões de Barack Obama, John Kerry ou Warren Buffet não são as que dominam nos corredores de Washington.

No estranho sistema político americano, em que o regime de «checks and balances» é levado ao extremo, o Presidente fica com muito poucos instrumentos para combater uma maioria conservadora no Congresso. Tem sido essa a sina de Obama nos últimos meses – mas Barack voltou à luta e não parece estar na disposição de assistir impávido a uma «capitulação» que muitos já decretavam na sua Presidência.

À reconquista do Midwest
Com a conversa em Washington a ser cada vez mais dominada pela hostilidade republicana, Obama decidiu contra-atacar junto da «Main Street» -- e partiu para o terreno.

O plano de resposta à ofensiva republicana começou nos últimos dias, com o ‘Obama Bus Tour’ – uma digressão de autocarro que o Presidente iniciou por três estados-chave do Midwest que venceu em 2008 e que poderão estar em perigo em 2012: Iowa, Minnesota e Illinois.

Esta escolha seguiu um roteiro criterioso: o Iowa marcou, simbolicamente, o início da ‘Obamania’, com o triunfo nas primárias de Janeiro de 2008. O Minnesota, tradicionalmente democrata, é um terreno muito afectado com a crise económica -– e pode vir a ser um dos ‘battleground states’ da eleição geral (sobretudo se o nomeado republicano for Romney).

O Illinois é o berço político de Obama. Uma derrota de Barack em Novembro de 2012 naquele estado seria simplesmente fatal.

Foi no Midwest que a ‘Obamania’ levou Barack a conquistar uma enorme vitória em Novembro de 2008 – e pode ser no Midwest que a principal batalha será travada na eleição de 2012.

«Obama fights back», titula a imprensa norte-americana, depois de semanas de autêntico massacre conservador sobre o Presidente.

Já toda a gente percebeu que o momento não é fácil para Barack Obama. Mas se olharmos ao pormenor para os factos, vemos que o cenário continua a ser razoavelmente favorável para as pretensões de reeleição do Presidente.

Mesmo depois dos 39 por cento de aprovação sinalizados pelo Gallup no passado dia 15 de Agosto, a verdade é que a média do mandato continua a centrar nos 45 por cento – valores equivalentes aos de outros Presidentes ‘first term’. E num contexto económico com dificuldades só comparáveis, nas últimas sete décadas, às que teve Franklin Roosevelt (com uma depressão económica profunda e guerras para resolver).

Debbie Schultz, congressista da Flórida, líder do Comité Nacional do Partido Democrata, coloca as coisas em perspectiva: «Ao contrário da narrativa que domina o momento, Obama não é um Presidente fragilizado. O que a tendência geral mostra é que tem um apoio muito sólido numa altura de dificuldades sem precedentes. E estou certa que esse apoio vai levá-lo à reeleição».

Nova versão: ‘it’s Obama… Cares’
No regresso ao terreno, Barack jogou alguns trunfos que sustentam um «comeback» político, depois de semanas de desgaste a negociar com quem não estava disposto a ceder um milímetro.

Para minimizar o impacto do ‘last minute deal’ que evitou o incumprimento, Obama prometeu um pacote de estímulo económico para Setembro, o mês em que se iniciará a dura batalha do Orçamento.


Iowa, Minnesota e Illinois: Obama está de regresso ao coração do Midwest, para recuperar terreno em estados que lhe deram vantagens confortáveis em 2008. E com três palavras mágicas para recentrar a mensagem: 'jobs, jobs, jobs'

É o regresso do ‘jobs, jobs, jobs’, numa altura em que, do lado republicano, a frase mágica para a nomeação republicana parece ser «eu sei criar empregos».

Outro mantra dos candidatos do GOP é prometer que, uma vez na Casa Branca, vão revogar a Reforma da Saúde aprovada por Obama. Entre o sarcasmo e a desdramatização, Barack já reagiu: «Eles prometem acabar com o ObamaCare, mas o que eles ainda não perceberam é que o termo correcto é… Obama Cares!»

Será que os americanos vão achar isso a 6 de Novembro de 2012, Barack?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: Tim Pawlenty, a primeira baixa da «guerra» Tea Party ‘vs’ GOP tradicional


A desistência de Tim Pawlenty é mais um sinal de alarme para quem defende uma solução moderada no Partido Republicano e prova que o radicalismo do Tea Party está a levar a melhor


Tim Pawlenty, a primeira baixa da «guerra» Tea Party ‘vs’ GOP tradicional


Por Germano Almeida


Já havia fortes sinais que apontavam para que as primárias do Partido Republicano para as presidenciais 2012 iriam ser marcadas por um perigoso contágio do Tea Party no discurso tradicional do GOP (‘Grand Old Party’).

Neste domingo, surgiu a primeira grande confirmação: Tim Pawlenty, governador do Minnesota durante oito anos, desistiu da sua candidatura, anunciando o abandono da corrida à nomeação presidencial republicana, após um frustrante terceiro lugar na Iowa Straw Poll (uma espécie de simulacro do ‘caucus’ que se realizará naquele estado do Midwest, em Fevereiro, e que terminou com a vitória de Michele Bachmann e com o segundo lugar de Ron Paul).

Num contexto de relativa normalidade política, Tim reunia fortes condições para ser um bom candidato à nomeação: governou com bons resultados um estado tradicionalmente democrata; tem, precisamente, a mesma idade de Barack Obama (50 anos); reúne credenciais e um percurso político que o coloca na faixa mais moderada do Partido Republicano – aquela que, numa eleição presidencial, mais hipóteses tem de disputar o eleitorado independente e mesmo os sectores democratas que possam estar descontentes com o primeiro mandato de Obama.

Há três anos, John McCain terá chegado a pensar em Pawlenty para seu vice-presidente no ‘ticket’ presidencial republicano. Tim constou de uma ‘shortlist’ que incluía outros nomes fortes do GOP, como Charlie Christ ou Mitt Romney.

Mas a escolha de John recaiu em Sarah Palin. Foi o início de uma escalada da Direita radical americana, mais tarde alimentada pela eleição de Obama para a Casa Branca e pelo agravar da crise económica.

Dois pontos para Michele Bachmann
A desistência de Pawlenty teve muito a ver com o que aconteceu nos últimos dias. Primeiro foi o debate de sexta à noite no Iowa, marcado pelo duelo de argumentos entre Michele Bachmann e Tim Pawlenty. Bachmann jogou com a cartilha do Tea Party, Tim apelou aos méritos da sua governação moderada no Minnesota.

Os resultados do Iowa Straw Poll, dois dias depois, voltaram a mostrar que os ventos sopram de feição para o discurso mais radical da congressista e não para o apelo centrista de Tim.

«Precisávamos de um novo fôlego para continuar e darmos passos em frente, mas isso não aconteceu e por isso estou a anunciar aqui que termino a minha candidatura presidencial», explicou, frustrado, Pawlenty à ABC, depois de saber que tinha ficado atrás de Michelle Bachmann e de Ron Paul no teste do Iowa.

Bachmann, uma das ‘Tea Party darlings’, tem sido a estrela surpresa destas primárias. Mas, como recordou Tim no debate do Iowa, não tem currículo para sonhar com a nomeação presidencial: nunca, na história política da América, um congressista conseguiu chegar à Casa Branca.

O facto de Michele ter conseguido fazer de Pawlenty a primeira baixa na ‘guerra’ ideológica entre o Tea Party e a linha tradicional do GOP é a maior prova de que o radicalismo está mesmo a empurrar para a extrema-direita o ‘velho’ Partido Republicano.

Duelo Romney/Perry ganha força
Com Tim Pawlenty fora de combate, e perante a total incapacidade de Jon Huntsman (ex-governador do Utah e embaixador dos EUA na China até Abril passado) descolar de insignificantes dois ou três por cento nas preferências dos republicanos, começa a ganhar força a teoria de que a nomeação presidencial do Partido Republicano para 2012 vai mesmo ser disputada entre Mitt Romney e Rick Perry.


Mitt Romney e Rick Perry: com a queda de Tim Pawlenty e as insignificantes percentagens de Jon Huntsman e Newt Gingrich, é cada vez mais claro que o adversário de Obama para 2012 sairá deste duelo


Depois de dois meses a preparar na sombra o arranque da sua campanha, Rick entrou oficialmente na corrida e parece reunir bons trunfos para fazer a ponte entre o GOP tradicional (onde tem fortes apoios, sobretudo junto dos governadores republicanos) e os movimentos ligados ao Tea Party – com quem tem alguns pontos de contacto, apesar de o governador do Texas não ter um discurso tão extremista como Bachmann, Palin ou Ron Paul.

Rick Perry não vai jogar muitas cartas no ‘caucus’ do Iowa. Michele Bachmann, que é natural do Iowa, passou a ser a principal favorita no estado de arranque, mas a força de Romney e Perry nos estados com mais delegados deverá prevalecer. A menos que o furacão do Tea Party se mostre ainda mais devorador nos próximos meses...

sábado, 13 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: O paradoxo republicano


Mitt Romney e Michelle Bachmann no debate do Iowa: o ex-governador do Massachussets foi o vencedor «por exclusão» de um despique demasiado centrado nos ataques da congressista do Minnesota a Tim Pawlenty


O paradoxo republicano

Por Germano Almeida


Quando a popularidade de Barack Obama começou a descer para níveis inferiores a 50 por cento, mesmo depois de sucessos como a conquista do Nobel da Paz ou a aprovação da Reforma da Saúde, começou a falar-se no «paradoxo Obama».

Mas a um ano e três meses das eleições presidenciais de Novembro de 2012, forma-se, agora, um fenómeno em sentido inverso: uma espécie de «paradoxo republicano», que se poderá definir pela falta de capacidade que o GOP está a revelar para conseguir lançar um candidato presidencial que consiga aproveitar a falta de popularidade do actual Presidente.

O debate de sexta à noite no Iowa, o segundo da corrida à nomeação republicana, voltou a demonstrar essa estranha realidade.

Mitt Romney, ex-governador do Massachussets, voltou a afirmar-se como o candidato menos colado ao discurso radical do Tea Party. À frente nas sondagens, optou por uma estratégia de contenção e parece ter-se saído bem com isso: «Foi uma noite boa para nós», admitiu Stuart Stevens, conselheiro da campanha de Romney.

O maior despique foi entre os dois candidatos que vêm do Minnesota: a congressista Michelle Bachmann atacou o ex-governador Tim Pawlenty, acusando-o de «se parecer com Barack Obama» nas opções que fez quando liderou o maior estado do Midwest.

Uma comparação com o Presidente, em pleno debate de um Partido Republicano cada vez mais hostil a Obama, era, como se imagina, o ataque mais feroz que Bachmann poderia fazer a Pawlenty.

Enquanto os rivais do Minnesota se digladiavam, Romney assistia de forma ponderada e Jon Huntsman, que definitivamente não consegue descolar nas sondagens, perdia mais uma oportunidade para se assumir como a alternativa mais sólida para uma escolha menos comprometida com a Direita radical.

Perry salta para segundo
Especialmente atento ao debate do Iowa esteve, certamente, Rick Perry. O governador do Texas confirmou este sábado, na Carolina do Sul, o que há algumas semanas parecia um dado praticamente adquirido: vai mesmo avançar com a sua candidatura presidencial.

Ainda antes do anúncio oficial, Perry já saltava directamente para o segundo lugar nas sondagens pela corrida republicana. Um pouco atrás de Romney, mas já claramente à frente de Michelle Bachmann, Sarah Palin, Herman Cain, Jon Huntsman, Ron Paul, Tim Pawlenty, Newt Gingrich e Rick Santorum.


Rick Perry: o governador do Texas confirmou, na Carolina do Sul, que é candidato à nomeação republicana. Saltou, de imediato, para o segundo lugar da corrida, assumindo-se como principal ameaça ao favoritismo de Mitt Romney

Um estudo CNN/ORC dava mesmo Rick Perry a apenas dois pontos de Romney (17/15), embora na sondagem da FOX News a distância fosse bem maior: 21 por cento para o antigo governador do Massachussets, 13 para o ainda governador do Texas.

«Falcão fiscal», acérrimo defensor do porte de armas e da pena de morte, veste a pele do «republicano clássico». Muito do que tem defendido na última década, como governador do Texas, tem forte acolhimento eleitoral em tempos de corte na depesa. Não tem as ligações de Bachmann ou Palin ao Tea Party: a sua base de apoio provém do ‘establishment’ do Partido Republicano.

Mas não deixa de ser curioso que, num cenário demasiado virado à direita no actual quadro de candidatos do GOP, esta ‘carta escondida’ apareça de alguém com as credenciais de Rick Perry.

Parece ser, pois, a prova definitiva de que não há mais espaço, no campo republicano, para candidaturas moderadas. «Os republicanos cederam a sua base ideológica à direita radical. O Tea Party tem o total controlo do jogo político do GOP», acusa o senador John Kerry, nomeado presidencial democrata em 2004 e forte apoiante da recandidatura de Barack Obama.

Sarah ainda na jogada
Com Romney a aguentar a liderança e Rick Perry a assumir-se como a principal ameaça ao favoritismo de Mitt, falta saber se haverá condições reais para que uma candidatura promovida pelo Tea Party entre a sério na disputa pela investidura republicana.
Seria, aí sim, o sinal definitivo de uma grave crise do sistema bipartidário em que se tem baseado o jogo político de Washington.

O protagonismo de Michelle Bachmann tem valido à congressista do Minnesota números inesperados nas sondagens. Mas não chega para que se equacione, com realismo, a nomeação de uma candidata tão mal preparada para as funções presidenciais.

Mas o caso pode mudar de figura se Sarah Palin avançar. A vice de John McCain no ‘ticket’ presidencial republicano de 2008 continua a assistir a tudo isto de forma muito próxima: tem continuado a angariar fundos no Iowa e confessou, na sexta-feira passada, a Sean Hannity, da Fox:‘I’m still considering a run’.

Aparentemente, Michelle Bachmann e Sarah Palin disputam o mesmo eleitorado: a «América profunda», que não se revê nas características de Barack Obama como Presidente e que pretendem uma agenda presidencial mais virada para o «small government» e para os valores morais.


Sarah Palin tem adiado a entrada na corrida, mas deve mesmo avançar lá para Outubro. Disputa o mesmo espaço de Michelle Bachmann e uma possível junção das duas candidaturas poderá tornar o Tea Party um caso sério na corrida republicana para 2012

Mesmo com Palin fora dos debates, os números de ambas nas sondagens chegam, somados, aos 20 e poucos por cento. Não será de excluir que, quando Sarah estiver oficialmente na corrida, se coloque, daqui a uns meses, o cenário duma fusão das duas vias – resultando, dessa junção, uma candidatura com dinheiro e apoios políticos muito consideráveis.

Colagem ao Tea Party
O aquecer da corrida republicana não parece assustar excessivamente o campo democrata.

David Axelrod, chefe da equipa de estratégia da campanha de reeleição de Obama, foi ao Iowa assistir ao debate e declarou, em entrevista à MSNBC: «Continuo a achar que Mitt Romney é o favorito natural à nomeação republicana. Mas é um ‘frontrunner’ fraco. Rick Perry pode ser um candidato formidável, mas cai no mesmo erro dos seus rivais de partido: todos os candidatos republicanos desta eleição se renderam ao dogma do Tea Party».

O argumento da colagem à direita tem fundamento e talvez explique esta aparente contradição que as sondagens insistem em mostrar: mesmo com uma Taxa de Aprovação a roçar os 40 por cento (entre 41 e 44 nos diferentes estudos, nos últimos dias), Barack Obama continua a liderar as preferências em todos os duelos possíveis para 2012: o Gallup publicou sondagem que dá 49 por cento ao actual Presidente e 45 por cento ao candidato republicano que vier a ser nomeado.

E, de acordo com um estudo feito esta semana pelo Opinion Research Corporation para a CNN, Obama faz o pleno nos diferentes cenários para a eleição geral: bateria Mitt Romney por 49/48, Rick Perry por 51/46, Sarah Palin por 55/41 e Michelle Bachmann por 51/45.

Estes números, em pleno «Verão do descontentamento» para a Presidência Obama, são a prova de que, a 15 meses das eleições de Novembro de 2012, a narrativa segundo a qual a reeleição de Barack Obama já está comprometida é, como se vê, uma história muito mal contada.

A forma como o eleitorado americano reagiu às negociações feitas em Washington sobre a crise do tecto da dívida, que abordaremos no próximo texto, talvez ajude a perceber como é possível que Obama consiga sobreviver a tantas adversidades – e se mantenha como o mais provável vencedor das próximas eleições presidenciais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: Rick Perry, a 'carta escondida' que pode aparecer do Texas


Rick Perry, 61 anos, governa há uma década o estado do Texas. É um «conservador fiscal», com credenciais reformistas que podem valer muito em tempos de «cortes na despesa» em Washington. Apesar do ruído das 'Tea Party darlings' (Michelle Bachmann e Sarah Palin), Mitt Romney sabe que a sua maior ameaça pode vir do Texas...


Rick Perry, a ‘carta escondida’
que pode aparecer do Texas

Por Germano Almeida


Faltam 15 meses para as eleições presidenciais de Novembro de 2012. Pode parecer muito tempo, mas, na política americana, um ano e três meses significa que está a chegar o tempo das definições.

Em ciclo de tentativa de reeleição para o Presidente em funções, isso quer dizer que só haverá primárias no campo oposto à cor política que se encontra na Casa Branca.

Mesmo com o desconforto manifestado pelos «liberais» em relação aos «compromissos» que Obama tem tido que fazer com os republicanos, em tempo de «mixed Congress» (larga maioria republicana na Câmara dos Representantes, curta maioria democrata no Senado), não é de admitir outro cenário que não seja a nomeação, sem luta real, de Barack Obama pelo Partido Democrata.

Como nota hoje Jay Cost, no ‘Weekly Standard’, «a esquerda nunca abandonará Obama». «O Presidente vai contar com o apoio total e inequívoco de todo o espectro político dos democratas na eleição presidencial de 2012», reforça o analista.

Do lado republicano, uma consulta mais imediata pelas sondagens faria atribuir, com uma larga antecipação, a nomeação a Mitt Romney.

É certo que o ex-governador do Massachussets tem mantido uma constante e sólida liderança nos estudos de opinião nos últimos meses.

Além do primeiro lugar nas preferências dos republicanos, Mitt (que nas primárias de 2008 foi terceiro classificado e se revelou muito forte em estados importantes para a eleição geral, como o Michigan, Flórida e New Hampshire) é também, de longe, o candidato republicano que angariou mais dinheiro -- perto de 20 milhões de dólares, mais do que todos os seus adversários juntos (Bachmann e Paul angariaram perto de quatro milhões; Cain, Pawlenty, Gingrich e Huntsman cerca de dois milhões, Rick Santorum ainda não atingiu um milhão de dólares).

Poderiam parecer razões mais do que suficientes para considerar que -- apesar de um certo folclore garantido por candidatos como Michelle Bachmann, Ron Paul, Herman Cain ou mesmo Sarah Palin (se a ex-vice de McCain acabar por avançar) – as coisas poderiam estar destinadas a terminar, no lado republicano, com a investidura de Romney como o candidato que terá a missão de enfrentar a eleição geral com Barack Obama.

Mas uma corrida à nomeação presidencial nos EUA é um longo caminho – e raramente termina com o cenário que era mais plausível no início. Basta recordar o que aconteceu em 2008: do lado democrata, a favorita era Hillary Clinton, enquanto, nos republicanos, liderava… Rudy Giuliani. A eleição geral acabou por ser disputada por dois ‘underdogs’: Barack Obama e John McCain.

Vazio na zona clássica do GOP
As sondagens mostram que Romney tem boas hipóteses de discutir com Obama a vitória nos ‘swing states’ – aqueles que, geralmente, decidem a eleição.

Aos olhos do eleitorado, Mitt aparece como o mais «elegível», quando comparado com um maior radicalismo de Bachmann, Palin, Cain ou Gingrich e com o cinzentismo de Tim Pawlenty e Jon Huntsman – dois candidatos que poderiam disputar a zona centrista com Romney, mas que não estão a conseguir vencer os problemas de falta de notoriedade pública que têm – e sem a qual não terão condições de sonhar com a nomeação.

O problema é que, para as bases do Partido Republicano, é importante apoiar um candidato que se identifique com o essencial dos valores que, nas últimas décadas, têm dominado a doutrina do GOP. Ronald Reagan continua a ser, nesse capítulo, a referência maior.

John McCain teve sempre esse problema, mesmo quando, há quatro anos, obteve a nomeação: as suas credenciais de ‘maverick’ eram vistas com reservas.

Ora, Mitt Romney não é apontado, propriamente, como um republicano clássico: governou um dos estados mais liberais da América, o Massachussets.

Já oscilou as suas opiniões em temas sociais, é mórmon (religião minoritária e olhada com desconfiança por uma boa parte do eleitorado americano) e, problema principal, fez aprovar, enquanto governador do Massachussets, um programa estadual para a Saúde em tudo idêntico ao ObamaCare aprovado em Março de 2010 – e tão criticado pelo eleitorado que Romney quer agora convencer.

É desta, Rick?
Neste quadro, o espaço para poder aparecer pelo menos mais uma candidatura nas primárias republicanas tem vindo a ser reclamado por vários sectores do ‘establishment’ do GOP (‘Grand Old Party').

Com as auto-exclusões do governador do Indiana, Mitch Daniels, e do governador da Nova Jérsia, Chris Christie, a ‘carta escondida’ que tem vindo a ser falada nas últimas semanas é o governador do Texas, Rick Perry.

Sucessor de George W. Bush na Mansão de Austin, quando o 43.º Presidente dos EUA resignou ao cargo para tomar posse na Casa Branca, em Janeiro de 2001, venceu três eleições seguidas, tornando-se o governador do Texas há mais tempo no cargo e um dos governadores de estado mais bem-sucedidos da história da América.

Curiosamente, começou a carreira política no Partido Democrata, tendo apoiado a (falhada) candidatura presidencial de Al Gore, em 1988.

É costume dizer-se que «um democrata no Texas é mais conservador que um republicano no Maine». O percurso de Rick Perry prova isso. Com o passar dos anos, foi-se aproximando do Partido Republicano, sem ter mudado de posição nas questões essenciais: foi sempre um «conservador fiscal», colocando como prioritário o equilíbrio orçamental na sua governação de um dos maiores estados dos EUA.

Nos temas de sociedade, situa-se na ala tradicional do GOP: na questão do aborto, é ‘pro life’ e opõe-se ao casamento dos homossexuais. Seja como for, o seu discurso político não o coloca muito à direita entre os republicanos. As credenciais reformistas e pragmáticas na área fiscal serão, se avançar, o seu maior trunfo, em tempos de «corte na despesa» em Washington.

Mesmo sem ter confirmado ainda a sua candidatura presidencial para 2012, Rick Perry já aparece em segundo lugar nas sondagens das primárias republicanas. Alguns pontos atrás de Romney, mas claramente à frente das eventuais preferidas do Tea Party – Michelle Bachmann e Sarah Palin.

Se alguém conseguir tirar o favoritismo a Mitt Romney, tudo aponta que venha do Texas – e seja o actual líder dos governadores republicanos. Estejam atentos a Rick Perry.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: Criar um legado em tempos difíceis


No dia em que faz 50 anos, Barack Obama sabe que tem poucas razões para festejar. A 15 meses de tentar a reeleição, terá que saber agarrar as soluções para o que mais preocupa os norte-americanos, de modo a reconstruir a sua maioria presidencial


Criar um legado em tempos difíceis

Por Germano Almeida


Ultrapassado o fantasma do ‘default’, à custa de uma batalha que durou três meses e que colocou o clima político em Washington em níveis muito pouco recomendáveis, as próximas semanas na Casa Branca, no Capitólio e na ‘House’ serão de relativa acalmia.

Depois das férias da família Obama em Martha's Vineyard, Setembro ditará o regresso da ‘hard politics’, com o início das negociações para o Orçamento. Será a primeira prova de fogo para Obama, após o acordo que permitiu o aumento do tecto da dívida.

O Presidente terá que conseguir mostrar, na preparação do próximo Orçamento, que o acordo aprovado no Congresso não foi uma «capitulação» da sua agenda política e económica, ao contrário dos receios apontados pela ala esquerda do Partido Democrata.

Nos dias anteriores ao acordo que evitou o ‘Armagedão’ financeiro, Barack Obama conheceu o valor mais baixo da sua Taxa de Aprovação, desde que é Presidente: 40 por cento.

A solução de última hora já lhe permitiu uma ligeira recuperação (42 a 46 por cento de popularidade, dependendo dos diferentes barómetros), mas muito longe dos 55/57 dos dias que sucederam à eliminação de Bin Laden e, é claro, a milhas dos 67/70 por cento de aprovação das semanas posteriores à sua tomada de posse, a 20 de Janeiro de 2009.

Barack Obama -- que em 2008 era o candidato da esperança criada num regresso aos dias da América como «the last best hope of earth» -- parece, por isso, destinado a ser (pelo menos neste primeiro mandato), um Presidente a governar em «tempos difíceis».

Se a palavra chave para definir Obama-candidato era «mudança», o conceito que tem dominado a acção do Obama-Presidente é (se formos optimistas) «compromisso». Uma visão mais crítica, que começa a dominar entre os liberais, aponta para a palavra «cedência», que tem uma conotação mais negativa.

Certo, certo é que o pragmatismo que sempre caracterizou as escolhas de Barack Obama já o levou a assumir, sem rodeios, decisões muito pouco estimulantes para o «orgulho americano», como o fim do programa espacial.

Melhor candidato do que Presidente?
Na América, a ‘accountability’ dos políticos que exercem cargos públicos de topo é algo que se leva muito a sério. A Taxa de Aprovação do Presidente é medida diariamente por barómetros fiáveis, como o do Gallup.

E a verdade é que os primeiros dois anos e sete meses da Presidência Obama têm sido marcados por uma popularidade baixa, que oscila, em média, entre os 44 e os 48 por cento.

Depois do estado de graça dos primeiros dois meses (valor máximo de 69 por cento), já houve períodos com níveis acima dos 50 e até próximos dos 60 (discurso de aceitação do Nobel da Paz; reacção conciliadora após a derrota dos democratas nas ‘midterms’ para o Congresso; eliminação de Bin Laden).

E também já houve fases em que a Taxa de Aprovação ameaçou baixar dos 40 (auge da batalha pela Reforma da Saúde; crise da dívida).

‘Opinion makers’ de diversas correntes lançaram, nos últimos meses, uma ideia comum: Barack Obama foi um melhor candidato do que tem sido como Presidente.

Descontando as diferenças que, na política contemporânea, temos que dar entre o momento de uma campanha e o momento da governação, a tese merece reflexão.

Um dado curioso, e que reforça a ideia de que as qualidades do Obama-candidato podem não estar em perigo mesmo que o Obama-Presidente continue em apuros, tem a ver com as perspectivas de angariação-recorde de fundos para a reeleição: tudo aponta para que a campanha Obama-2012 entre para a história como a primeira de um candidato político na América a arrecadar mais de mil milhões de dólares.

Um registo notável e que retira dúvidas quanto ao entusiasmo que Barack Obama será capaz de criar no caminho para Novembro de 2012 -- e que teve ontem à noite, no jantar de angariação de fundos em Chicago, que contou com as 'performances' de Jennifer Hudson e Herbie Hancock, mais uma clara demonstração.

Escolhas difíceis
O caminho das «hard choices» começou a ser apontado por Obama no início do segundo ano de mandato, quando do discurso do Estado da União de 27 de Janeiro de 2010, em que apontou a necessidade do ‘spending freeze’ (cortes orçamentais profundos que, na altura, poupavam áreas como a Saúde, a Segurança Social e a Defesa).

Dias depois de ter perdido a Supermaioria no Senado, a bola tinha deixado de estar do lado dos democratas – e a Reforma da Saúde parecia estar comprometida.

O «recentramento político» então gizado por Obama implicava um maior enfoque nos «consensos bipartidários» -- mesmo que, do outro lado, o Presidente continuasse a sentir hostilidade e muito pouca vontade para o compromisso.

Mas «compromisso» parece mesmo ser o nome do meio de Obama (e não Hussein…): apesar dos anticorpos, o registo bipartidário da sua Presidência tem credenciais como um enorme apoio na renovação do Tratado START; a Reforma Financeira; o clima de consenso na escolha de Leon Panetta para o Pentágono e David Petraues para a CIA; ou em momentos como a eliminação de Bin Laden ou o atentado de Tucson (com o peso simbólico de a congressista democrata do Arizona, Gabrielle Giffords, ter participado na votação final do acordo que aprovou o aumento do tecto da dívida).

Se o lado «federador» e «conciliador» do Presidente confirma a sua promessa de tentar «reconciliar a América», o que está a falhar para que essa reconciliação seja efectiva tem muito a ver com a radicalização do campo político oposto – um tema que irei explorar em próximos textos, que serão dedicados às primárias do Partido Republicano.

O legado
No auge da batalha pelo aumento do tecto da dívida, Obama lamentava-se (detectando a quase bizarria de uma auto-limitação de quem nem sequer tem dificuldade em aceder ao financiamento), que «a classe política não acompanhe o nível AAA da dívida americana…»

Obrigado a fazer cortes profundos em todas as áreas, nos próximos anos, Barack terá que cumprir uma nova missão aparentemente impossível: desafiar o tal ‘momento Sputnik desta geração’ de que falava no State of The Union de 2011, inspirando a América a continuar a ser líder na inovação e na investigação científica – mesmo que competindo com novas potências como a Índia e a China, que crescem desmesuradamente e não têm as restrições orçamentais auto-impostas pelo Congresso americano.

Criar um legado mesmo em tempos tão difíceis como este – eis o grande desafio de um Presidente com características inspiradoras, mas, por enquanto, condenado a gerir danos económicos e a afastar fantasmas de incumprimento.

O ‘yes we can’ precisa, cada vez mais, do aditamento criado pelo próprio Obama, em resposta a Jon Stewart no ‘Daily Show’: ‘…but we need more time’.

A 15 meses das presidenciais de Novembro de 2012, pedir «mais tempo» talvez implique um segundo mandato para que se possa fazer um julgamento real sobre se valeu a pena, ou não, acreditar na «mudança».

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: O sexto Presidente a festejar os 50


Barack Obama faz, esta quinta-feira, 50 anos. Um acontecimento raro para um Presidente americano em funções. Quando tomou posse, aos 47, ainda mantinha a aparência de «jovem senador». Dois anos e sete meses depois, já tem muitos cabelos brancos...


O sexto Presidente a festejar os 50

Por Germano Almeida


A 4 de Agosto de 1961, nascia no Hospital Ginecológico Kapiolani de Honolulu, no Havai, Barack Obama Hussein Obama II, filho de Ann Dunham, antropóloga branca do Kansas, e de Barack Hussein Obama I, economista queniano natural de Kogelo, da tribo Luo, que ganhou uma bolsa para estudar na América.

O Presidente dos EUA completa, por isso, 50 anos de idade, nesta quinta-feira. O momento político e económico não o fará ter grandes motivos para festejos, mas, trata-se, mesmo assim, de uma data digna de realce, até pela raridade do acontecimento.

Em mais de 220 anos de História -- desde a tomada de posse de George Washington, em 1789 -- apenas cinco Presidentes americanos completaram 50 anos em pleno exercício de funções na Casa Branca: James Polk, Ulysses Grant, Grover Cleveland, Theodore Roosevelt e Bill Clinton.

Barack Obama será, a partir desta quinta-feira, o sexto a entrar num restrito lote que se desvia, em termos estatísticos, de uma média de idades dos Presidentes americanos que aponta mais para os ‘mid fifties’ (25 dos 44 Presidentes americanos tinham entre 50 e 59 anos de idade quando exerceram o cargo).

Para quem gosta destas curiosidades de almanaque, diga-se que a média de idade de um Presidente americano, na sua tomada de posse, é, neste momento, de 54 anos e 11 meses.

Quatro bons exemplos de Presidentes nessa média são Herbert Hoover, Lyndon Johnson, Rutherford Hayes e George W. Bush (os últimos dois tomaram posse, precisamente, com 54 anos).

James Garfield (tomou posse aos 49, em Março de 1881) e John F. Kennedy (Presidente aos 43 anos, investidura em 1961) teriam também entrado para o grupo dos que festejaram os 50 ‘in office’, se não tivessem sido, respectivamente, o segundo e o quarto Presidentes da história americana a serem assassinados -- Abraham Lincoln foi o primeiro, William McKinley o terceiro (Garfield estava a poucos meses de completar 50 quando foi morto; no caso de JFK, teria, ainda, que obter a reeleição em 1964, se não tivesse ocorrido o atentado em Dallas).

O quarto mais novo a ser eleito
Dois nomes podem ser apontados como o «Presidente mais jovem da História da América»: Theodore Roosevelt e John Kennedy. Depende do critério que quisermos usar. Kennedy foi o Presidente eleito mais novo: tinha apenas 43 anos e 246 dias quando tomou posse.

Mas Theodore Roosevelt mantém o título de Presidente mais jovem de sempre em funções: tomou posse a 14 de Setembro de 1901, com 42 anos e 322 dias, não por ter sido eleito, mas na sequência do assassinato de William McKinley.

Quando deixou a Casa Branca, a 4 de Março de 1909, tinha completado 50 anos apenas cinco meses antes, a 27 de Outubro de 1908.


Theodore Roosevelt foi, aos 42 anos, o mais jovem Presidente da história americana, mas só foi eleito quatro anos mais tarde

Investido como 44.º Presidente dos EUA aos 47 anos, Barack Obama foi o quarto Presidente eleito mais jovem da história da América. Só JFK (43 anos), Bill Clinton (46) e Ulysses Grant (46) eram mais novos no momento da primeira eleição.

No pólo oposto do bilhete de identidade, Ronald Reagan mantém o título de Presidente mais velho em funções: foi eleito pela primeira vez a duas semanas de completar 70 anos e reeleito quase com 74 anos. John McCain tentou bater esse recorde na eleição de 2008: ainda obteve a nomeação presidencial republicana, mas perdeu a eleição geral para Barack Obama.

Presente envenenado?
Há poucos dias, no auge da batalha em Washington pelo aumento do tecto da dívida norte-americana, Barack desabafou que apenas queria como prenda de aniversário para os seus 50 anos «que até lá fosse afastado o fantasma do ‘default’».

O perigo do incumprimento não voltará, de facto, a existir no primeiro mandato de Obama – mas a solução encontrada pode bem ter sido um presente envenenado para o Presidente.

Para poder aumentar o tecto da dívida (algo que aconteceu 39 vezes desde 1980 e que vários dos seus antecessores praticaram por diversas vezes), Barack foi forçado a abdicar da sua agenda económica, que passava pelo aumento de impostos para as classes com maiores rendimentos e para as grandes empresas.

A maioria republicana da Câmara dos Representantes impôs a palavra de ordem («cortes nas despesas») e o Presidente não foi capaz de travar o radicalismo da ala Tea Party.

Com um quadro muito hostil no Congresso, nem a maioria democrata no Senado parece esbater o ambiente malsão que se vive em Washington.

Os próximos meses são decisivos para se perceber a rota de reeleição de Barack Obama. Com as primárias republicanas a entrarem numa fase de maior definição, é fundamental perceber como pretende o Presidente montar a sua estratégia para Novembro de 2012.

Trunfos e problemas
Há trunfos importantes que Barack sabe que pode lançar: o cumprimento dos prazos de retirada no Iraque e no Afeganistão; a operação que eliminou Osama Bin Laden e a redução clara da ameaça terrorista da Al Qaeda; a capacidade de estabelecer pontes políticas em temas como a Reforma da Saúde, no prolongamento do subsídio de desemprego que garantiu junto da maioria republicana no Congresso (a troco da renovação das ‘Bush Tax Cuts’); a resposta dada em 2009, nos primeiros meses da Presidência Obama, à crise financeira com a aprovação de um forte Plano de Recuperação e Reinvestimento; uma certa condição de pêndulo de um quadro político muito polarizado entre o radicalismo da ala Direita e as exigências das bases do Partido Democrata; o novo Tratado START e outros temas da frente externa.

Mas no capítulo económico, certamente aquele que vai decidir a eleição de 2012, a contaminação do Tea Party para o acordo encontrado para o tecto da dívida coloca Obama entre a espada e a parede: o Presidente será forçado a assumir cortes dolorosos em programas sociais e não poderá recorrer aos instrumentos que sempre defendeu para concretizar a recuperação económica.

O caminho dos cortes na despesa já tinha sido iniciado por Obama desde o discurso do State of The Union de Janeiro de 2010, com o ‘spending freeze’. Só que a extensão dos cortes a sectores como a Saúde e a Segurança Social vai criar ainda mais dificuldades ao plano de recuperação.

Mas nem as nuvens negras que insistem em pairar sobre Washington são motivo suficiente para deixarmos de desejar… ‘Happy Birthday, Mr. President’!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Histórias da Casa Branca: O Armagedão pode esperar


Barack Obama e Michelle Bachmann: dois estilos opostos, dois mundos diferentes. Ambos representam faces reais da América que entram em choque em processos como a negociação do tecto da dívida. Desta vez, o radicalismo da Direita americana, vertido no Tea Party, levou a melhor


O Armagedão pode esperar

Por Germano Almeida


Ainda não foi desta que chegou o dia do «Armagedão» financeiro. Mas pode ter sido apenas o adiar de um problema gigantesco que os Estados Unidos terão que ser capazes de resolver – independentemente da cor política de quem ocupa o poder em Washington.

O acordo de última hora, aprovado na Câmara dos Representantes e confirmado pelo Senado, autoriza o Governo norte-americano a aumentar o tecto da dívida em mais 2,4 biliões de dólares (que irão juntar-se aos 14,3 biliões já atingidos pelos EUA desde 16 de Maio passado). Em compensação, a Administração norte-americana terá que proceder a cortes profundos na despesa em vários sectores, incluindo a Saúde, a Segurança Social e a Defesa.

Evitou-se o cenário de catástrofe: sem acordo, o dia de hoje (2 de Agosto de 2011) teria entrado para a história como o momento em que a maior potência do Mundo deixara de ser capaz de cumprir os seus compromissos.

No contexto de crise económica nos EUA e na Europa, e com o ambiente de nervosismo dos mercados, já havia quem apontasse o ‘default’ americano como o símbolo do declínio do eixo atlântico.

Mas a solução encontrada acaba por mostrar sérias perdas tanto nas ambições de Obama (que sempre defendeu, neste processo, o aumento de impostos às classes altas e às grandes empresas, a fim de aumentar as receitas, para reduzir o impacto dos cortes sociais), como também dos líderes republicanos no Congresso – que perderam o controlo do processo para a minoria radical do Tea Party.

A batalha pelo aumento do tecto da dívida fez subir o tom da conflitualidade política em Washington a níveis que começam a levantar questões sobre a viabilidade do sistema político norte-americano. E voltou a lançar dúvidas sobre a real capacidade de Obama conseguir cumprir a sua agenda política, num quadro de tamanha hostilidade.

Guerra Civil em Washington?
Jorge Almeida Fernandes, no P2, chamou-lhe ‘a guerra civil sem armas’: «Cento e cinquenta anos após o começo da Guerra Civil americana, eclodiu em Washington uma outra ‘guerra’ – esta sem armas – que ameaça lançar os Estados Unidos na ‘insolvência técnica’. É uma guerra dentro de outra guerra: o conflito entre republicanos e democratas é dobrado pelo confronto que começou a dilacerar os republicanos. Tão grave como desafiar o ‘default’, é a mensagem enviada aos americanos e ao mundo: a superpotência poderá tornar-se ingovernável».

Obama terá que ser apontado como um dos derrotados da peleja: não fez valer a sua bandeira de aumento de impostos para os privilegiados – e terá que aplicar, nos meses que restam do seu primeiro mandato, cortes dolorosos em programas sociais, em pleno processo de recuperação económica.


John Boehner, speaker do Congresso (na foto), e o senador Mitch McConnell têm um objectivo: evitar o segundo mandato de Barack Obama

Mas John Boehner e Mitch McConnell, speaker do Congresso e líder da minoria republicana no Senado, também não podem, propriamente, cantar vitória: ficam na fotografia como os principais responsáveis por terem colocado a América a um dia da catástrofe financeira e não foram capazes de impedir que o radicalismo dos congressistas do Tea Party contaminasse as negociações.

A perversa vitória do Tea Party
Feitas as contas a perdas e ganhos entre os dois pêndulos do sistema político norte-americano, a conclusão é tão clara como inquietante: o regime bipartidário no qual assentou o clima de «consensos alargados» nos EUA, nas últimas décadas largas, está em risco.

Por culpa, certamente, da incapacidade de democratas e republicanos em assegurar entendimentos básicos para que o sistema funcione sem perturbação. Mas, sobretudo, pela manifesta impotência do ‘establishment’ dos dois principais partidos em travar o radicalismo irresponsável do Tea Party.

O termo «Tea Party» foi-se tornando tão presente na linguagem mediática da política norte-americana que, muitas vezes, a sua definição não passa com rigor. Na verdade, não se trata de um partido autónomo, com existência independente e disseminação eleitoral por todos os estados da América.

Do que, realmente, se fala quando se fala de «Tea Party» tem a ver com os movimentos da Direita radical americana que sempre existiram, mas que foram ganhando mais espaço mediático após a eleição de Barack Obama, e sobretudo durante a campanha das intercalares de Novembro do ano passado, como reacção dos sectores ultraconservadores americanos ao que consideram ser a «Administração mais à esquerda das últimas décadas na América».

Esses argumentos colhem facilmente numa fatia significativa do eleitorado americano -- e ganharam legitimidade política após as 'midterms', com a eleição de vários congressistas apoiados pelo Tea Party, num perigoso processo de «contaminação» do Partido Republicano.

Mesmo tendo sido associados, nestes últimos dois anos, a coisas disparatadas como a polémica (toda ela baseada em mentiras e delírios) de que Obama não teria nascido na América, a verdade é que há duas ou três bandeiras dos movimentos «Tea Party» que são muito difíceis de desmontar: o respeito cego «pela Constituição»; a defesa dos «valores americanos», que os correligionários do Tea Party garantem estar em perigo com um Presidente como Obama; o ataque, à exaustão, ao «despesismo» de programas federais como a Reforma da Saúde, defendendo cortes radicais nos impostos.

O clima de crise económica, particularmente forte em estados do Midwest que apoiaram Obama em 2008, mas que se mostram hoje muito críticos com as políticas económicas desta Administração, tem servido de adubo aos argumentos do Tea Party.

«Responsável» ou «fraco»?
Depois de semanas de impasses forçados e de muita irresponsabilidade da ala direita do Partido Republicano, o ‘last minute deal’ (aprovado por 269-161 na Câmara dos Representantes e por 74-26 no Senado) salvou a face do primeiro mandato de Obama – mesmo tendo sido a poucos metros de cair na ribanceira, é já certo que Barack não entrará para a história por ser o primeiro Presidente dos EUA a entrar em incumprimento.

Mas as consequências políticas da acção do Presidente neste processo estão ainda por detalhar na sua verdadeira extensão.

A impressão final pode ter sido a de que Obama voltou a ter uma «atitude responsável», mantendo, até ao limite, as vias do diálogo, mesmo quando, do outro lado, recebia sinais de que estavam a fazer tudo para liquidar a sua Presidência -- ainda que isso levasse a América ao ‘default’.

A faceta «conciliadora» e «mediadora» do Presidente teve bons resultados em batalhas anteriores, como a Reforma da Saúde ou a Reforma Financeira. Mas, desta vez, o clima de guerrilha chegou longe demais.

Michelle Bachmann, congressista do Minnesota que deverá ter o apoio do Tea Party para as presidenciais de 2012, repetiu a ideia à exaustão, nos últimos dias: «Esta presidência é um fracasso. Obama é um falhado».

Se já não é muito de admirar que a linguagem dos líderes da Direita radical esteja a este nível, o que pode ser bem mais preocupante para as contas eleitorais de Obama são as críticas que lhe foram dirigidas pela ala esquerda do Partido Democrata.

Os «liberais» esperavam «mais firmeza» por parte do Presidente, na imposição do aumento de impostos aos ricos e às «big corporations».

Encostado à parede pela maioria republicana no Congresso, Obama não tinha alternativa: abdicou de uma boa parte da sua agenda económica, em nome do cumprimento de pagamentos dos «cheques aos idosos, aos mais pobres e aos veteranos de guerra».

Enquanto, nos corredores de Washington, os políticos vão adiando o monumental problema da dívida, a verdade é que a América conseguirá continuar a cumprir os seus mais diversos compromissos num prazo que se estende para lá de Novembro de 2012.

O dia do «Armagedão» pode até nem estar longe para os EUA – mas já não vai acontecer durante o primeiro mandato de Barack Obama.

Os profetas da desgraça vão ter que ser um pouco mais pacientes.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Observatório 2012 (XVI): Bachmann aproxima-se de Romney


Mitt Romney continua a liderar a corrida à nomeação republicana, mas a congressista Michelle Bachmann está a revelar-se a grande surpresa desta fase de arranque e destaca-se no segundo lugar.

Mesmo sem terem entrado ainda oficialmente na corrida, a ex-governadora Sarah Palin e o governador do Texas, Rick Perry, estão em terceiro e quarto lugares, respectivamente.

SONDAGEM QUINNIPIAC

Mitt Romney 25
Michelle Bachmann 14

Sarah Palin 12
Rick Perry 10
Herman Cain 6
Newt Gingrich 5
Ron Paul 5
Tim Pawlenty 3
Rick Santorum 1
Jon Huntsman 1