quinta-feira, 24 de maio de 2012

Histórias da Casa Branca: jogar ao ataque para a reeleição


Há quatro anos, Barack Obama assumiu a pele do candidato conciliador, que não respondia aos ataques. Desta vez, tem uma herança a defender e já começou a desmontar a ideia de ser menos qualificado do que Romney nas questões económicas



Jogar ao ataque para a reeleição

Por Germano Almeida



Que Barack Obama vamos ver no caminho da reeleição: o candidato conciliador e que recusava ataques directos a Hillary (nas primárias) e a McCain (na eleição geral), ou um incumbente com toques de superioridade em relação ao "challenger" Mitt Romney?

A cinco meses e meio das presidenciais norte-americanas de Novembro de 2012, a resposta ainda não é clara. Mas, a avaliar pela forma como o duelo Obama-Romney se iniciou, parece mais provável vermos um Barack mais agressivo, a apostar forte nas fraquezas do adversário.

Há quatro anos, as palavras chave eram «reconciliação» e «mudança». Barack Obama surgia como o candidato certo para corporizar esses sentimentos do eleitorado - alguém que se apresentava com um discurso «limpo» dos vícios de Washington e exibia uma legitimidade moral.

Para estas eleições, Obama tem uma herança para defender: quatro anos de governação num período incrivelmente difícil, com alguns falhanços indisfarçáveis, mas resultados importantes nas questões essenciais (o desemprego está a descer; a economia a recuperar; não aconteceu a 'double dip' temido por quem, depois da depressão de 2009, acreditava que o pior ainda estava para vir; a 'guerra ao terrorismo' deixou de dominar os medos dos americanos e 22 dos 30 principais líderes da Al Qaeda foram eliminados, entre os quais Bin Laden).

Mitt Romney, que nas sondagens surge com alguma vantagem sobre Obama nas questões económicas, vai apostar tudo na narrativa de que esta administração falhou na recuperação económica e que isso sucedeu, em parte, pela falta de qualificações de Barack nessa área.

Obama -- mais forte que Romney em todos os indicadores excepto na parte económica (o eleitorado vê Barack como 'mais preparado', 'mais confiável', 'mais apto a ser 'commander-in-chief', quando comparado com Mitt) -- começou a sua campanha para a reeleição atacando o adversário republicano precisamente na parte em que este se revela mais forte.

Bin Laden e a Bain. Mitt Romney já o repetia durante as primárias, mesmo quando Santorum, Gingrich e Paul o atacavam.  Agora, que é mais do que claro de que será o ex-governador do Massachussets o nomeado republicano, Mitt sublinha ainda mais o argumento que escolheu para ideia forte da sua corrida à Casa Branca: Romney considera que o seu currículo de gestão empresarial e conhecimento económico o torna mais qualificado para ser Presidente dos EUA numa altura como esta, lembrando que o percurso de
Barack Obama em nada o distingue na parte económica e tem um cunho político excessivo.
  
Mitt reforçou esse argumento em recente entrevista concedida a Mark Halperin (co-autor, com John Heilemann, do livro «Game Change»), na Time.

Em contraponto, a campanha de Obama mostrou, nas últimas duas semanas, que está disposta a subir o nível dos ataques: lembrou, em anúncios televisivos, declarações de Romney em que o nomeado republicano desvalorizava a importância de eliminar Bin Laden (facto que poderá fazer imaginar que Mitt não teria dado a ordem que Barack deu em Maio do ano passado e que redundou na Operação Geronimo); e lembrou, também, o passado de Romney na Bain Capital, empresa do Massachussets da qual Mitt foi CEO.

Esta estratégia do campo de Obama contrasta, claramente, com a opção cautelosa escolhida por Barack quando, por exemplo, a então vice do 'ticket' de John McCain, Sarah Palin, o atacava com especial violência na campanha de 2008.

A «contenção» de Barack Obama'08 deve, por isso, ser sucedida por «Barack ao ataque» em 2012. As sondagens prometem um duelo equilibrado -- e o Presidente está disposto a lançar todos os seus trunfos para um jogo que está longe de estar ganho à partida.

Sem comentários: