sexta-feira, 28 de março de 2014

Histórias da Casa Branca: regresso forçado ao palco europeu

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 24 DE MARÇO DE 2014:


Como reagir à anexação da Crimeia pela Rússia? 

Tomar como facto consumado de «realpolitik» musculada de Moscovo? Reforçar sanções da «comunidade internacional» contra Putin, chegando ao ponto de expulsar a Rússia do G8 (só «G7», agora, outra vez)?

Barack Obama tem sido muito atacado pela ala dura dos republicanos pela «estratégia de contenção». Obama quer ser recordado como um Presidente que retirou tropas em dois cenários de guerra e fará tudo para evitar dar ordem de novos envios de americanos para teatros de guerra «overseas». 

O discurso dúbio de Putin (primeiro garantiu que iria «respeitar a integridade territorial da Ucrânia», depois mostrou que considera a Crimeia território administrável pela Rússia) dá fortes razões para inquietação noutras regiões da Ucrânia.

Ao recordar que «Kiev é a mãe de todas as cidades russas», Putin mostrou que quer mesmo manter essa ambiguidade, no mínimo para sinalizar a fragilidade do novo poder saído de Maidan. 

Como lembrou, com muita piada, o embaixador José Cutileiro, em comentário no programa no «Visão Global» da Antena 1, a propósito dos resultados... «norte-coreanos» do referendo na Crimeia, «Estaline dizia que, nisto das eleições a votação não é importante. O que é importante é a contagem...» 

E o facto é que os quase 97% (!) de «sins» à anexação da Crimeia à Rússia, ainda que indiquem uma certa visão «estalinista» de dar prioridade «à contagem e não à votação», também não deixam grandes dúvidas quanto a uma maioria clara de habitantes da Crimeia a quererem juntar-se a Moscovo e não a Kiev. 

O que fica? Um grande problema para a Ucrânia, antes do mais, com um crescente fantasma russo a perturbar as suas fronteiras. Mas também um problema para a Europa e para os Estados Unidos.

O Presidente Obama, que passará os próximos em solo europeu, teve que alterar a agenda da visita já programa desde o início do ano para dar ainda mais prioridade à questão da Crimeia/Ucrânia/Rússia.

Merkel, Cameron e Hollande têm falado grosso contra Putin: prometem sanções e, pelo menos nas palavras, dão mostras de não quereram sobrepor os (muitos) interesses económicos de Berlim, Londres e Paris com Moscovo.

Mas toda a Europa sabe que, sem um poder militar real, continua a ser preciso o aval americano para que o «bloco NATO» dê forte sinal de proteção à Ucrânia perante a ameaça russa. 

O próximo passo é estancar a ferida da «cisão». A Crimeia terá mesmo que ser uma exceção, caso contrário há muitos esqueletos que podem sair do armário. 

Houve quem se tenha lembrado, nos últimos dias, da coincidência temporal, um pouco assustadora: também foi no ano 14 do século passado que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajavo tornou-se rastilho que gerou a I Guerra Mundial.

Exatamente um século depois, queremos todos acreditar que há, agora, maior racionalidade política e diplomática. Os interesses económicos interligados (a Rússia precisa UE, a UE precisa da Rússia) também pode ajudar.

Esta é mesmo a guerra que ninguém quer. Mas nos últimos dias tem-se brincado com o fogo. Quem conhece bem os russos sabe que eles não iriam recuar, depois de terem avançado para a Crimeia. 

Putin sabe que terá muito mais a perder do que a ganhar se subir a parada das movimentações militares. Mesmo assim, Washington dá mostras de apreensão, com o agravar das sanções económicas e diplomáticas. 

O interesse de Obama em voltar-se outra vez para a Europa Central e do Leste era pouco maior que zero. 

A recente visita de Michelle, Sacha e Malia Obama a Pequim (com direito a receção pelo presidente Xi Jinping) mostrou que a América continua a ter supremacia em relação à Rússia em qualquer cenário: até com a China e talvez até com o Irão, perante o novo clima de cooperação sinalizada por Rohani. 

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