sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Histórias da Casa Branca: missão impossível, Barack?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 6 DE SETEMBRO DE 2013:


O Senado dos EUA já aprovou o plano da Casa Branca para atacar a Síria.

Com uma ligeira maioria democrata na câmara alta do Congresso, esse «sim» era triunfo obrigatório para a rota de Obama no espinhoso plano de ter apoios para avançar para Damasco.

Na próxima segunda-feira, a Câmara dos Representantes, com forte maioria republicana, votará a proposta e aí as coisas mostram-se bem mais difíceis para o Presidente.

Obama tem tido alguns aliados republicanos de peso nesta questão. O principal deles é John McCain, profundo conhecedor da realidade política e militar da Síria, que até tem defendido uma ação em escala mais alargada. Outro senador sénior republicano que tem tentado convencer o seu partido a apoiar o Presidente democrata é Lindsay Graham, da Carolina do Sul.

Nos últimos dias, Obama tem feito um «final push» junto dos aliados dos EUA, para que possa ter uma coligação forte.
O «não» do Parlamento britânico e a posição clara de Merkel referindo que não tem o mínimo interesse em envolver militarmente a Alemanha nesta operação mostraram que a América de Obama está longe de ter a Europa na mão.

A França de Hollande é o principal interessado europeu nesta operação, mas mesmo em Paris há quem, na oposição, exija um mandato da ONU para avançar.

Uma análise pelos principais «players» deste tabuleiro mostra-nos que esse mandato não é realista. Com a Rússia e a China com poder de veto no Conselho de Segurança, a Administração Obama nunca terá uma resolução das Nações Unidas a legitimar o seu plano.

A verdade é que todos os estudos apontam para que a opinião pública americana está, em larga maioria, contra esta intervenção. Sondagem da Reuters-Ipsos aponta apenas 20% de americanos favoráveis ao plano de Obama, enquanto pesquisa idêntica do Pew identifica apenas 29%.

Peggy Noonan, antiga «speechwriter» de Ronald Reagan e importante analista conservadora, vê razões de sobre para os EUA intervirem, em função do que já se passou na Síria. Mas expõe a sua visão sobre porque é «a América está a dizer não»: «Poderá o Presidente mudar esta perceção? Sim e vai tentar. Mas até agora não resultou. O que é que os americanos estão neste momento a pensar? Provavelmente algo como: tempo errado, local errado, plano errado, homem errado. Doze anos de guerra. Uma ideia de que o que fizemos no Médio Oriente, no Afeganistão, no Iraque, não correu bem. Que a Líbia está sem lei. Que no Egito deitámos fora um amigo de 30 anos e que agora temos que lidar com a Irmandade Muçulmana, com perturbação e com um golpe militar. Os americanos estão agora mais exigentes e mais realistas», escreve Peggy, em artigo no «Wall Street Journal».

Outra importante voz conservadora, esta bem mais crítica de Obama, é o analista Charles Krauthammer. Em artigo na National Review Online, acusa Obama de estar a sério «pouco sério» nesta questão: «Estamos com um problema. O Presidente propõe atacar a Síria e o seu principal conselheiro militar não consegue dizer-nos qual é o objetivo».

A definição clara da operação (da sua dimensão, dos seus alvos e objetivos) é, de facto, a prioridade das prioridades nos próximos dias para a Administração Obama.

O plano de ataque para a Síria não é, para o conceito de Obama, uma nova guerra com contornos comparáveis com o Iraque e o Afeganistão. Os dados objetivos dão razão ao Presidente. Mas antes da intervenção militar, Obama tem uma missão a vencer: convencer os americanos e os seus principais aliados que esta é mesmo a jogada certa.
Missão quase impossível?

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Histórias da Casa Branca: construir consenso para a intervenção

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 4 DE SETEMBRO DE 2013:


Os próximos dias serão decisivos para que Barack Obama consiga sair-se bem do argumento para a guerra na Síria.

Damasco, Moscovo e Teerão estão a tentar a inverter o ónus, de modo a aproveitar a hesitação da comunidade internacional em apoiar claramente a ação americana e isolar a pretensão de Obama.

Depois do chumbo do parlamento britânico, um eventual «não» do Congresso americano colocaria Obama e Cameron numa posição especialmente delicada. Mas a posição de vários destacados senadores e congressistas republicanos parece ajudar o intuito da Administração Obama.

«Um não do Congresso sobre uma intervenção na Síria seria desastroso», nota o senador John McCain, republicano do Arizona, um dos membros do Capitólio mais especializados no tema. 

McCain não só apoia a decisão do Presidente em querer avançar, como defende uma ação em maior escala.

Ari Fleischer, antigo porta-voz de George W. Bush, felicitou o Presidente: «Saúdo-o por estar a tomar uma atitude corajosa e certa nesta questão».

Até John Boehner, speaker da Câmara de Representantes de maioria republicana, que por tantas vezes cortou as vazas a Obama, apoia a visão do Presidente sobre uma intervenção miitar na Síria. 

A Casa Branca tem feito, nos últimos dias, uma operação de propaganda junto de Congresso, explicando os motivos e as 
balizas da intervenção.

O problema desta situação é que, apesar das evidências na Síria serem muito superiores às que havia há dez anos no Iraque, a noção de desastre continua muito presente. Bush não ouviu os apelos de quem o queria travar e quis decidir unilateralmente. 

Obama anunciou a sua visão e tem-se preocupado em defender o argumento na opinião pública e no Congresso. «Ao procurar autorização do Congresso para usar a força militar contra o regime de Assad, Obama não está a enfraquecer o poder presidencial, nem está a tentar evitar uma guerra que não deseja. Está a fazer o que é absolutamente necessário numa república democrática. Está a construir consenso em torno de um passo grave e muito delicado e para aquilo que será sempre uma decisão controversa», aponta ED Dionne, no «Washington Post». 

As parecenças, que muitos apontam e dizer assustar-se com elas, entre o Iraque-2003 e o que pode vir a ser a Síria-2013, são, por isso, mais aparentes do que reais. 
A questão não estará tanto nos motivos e na legitimidade (ambos existem), mas no propósito: se a Administração Obama não assume o objectivo claro de derrubar Assad, para quê fazer isto?

Primeiro, haverá o argumento da punição: havendo «provas irrefutáveis» de que foi Assad a cometer o ato criminoso de 21 de agosto, a Administração Obama propõe-se assumir as despesas do exemplo para evitar repetições. Depois, há a questão de diminuição de risco de novos ataques químicos. 
Mas falta, neste momento, explicar o que os americanos pretendem para o pós-intervenção. O receio de uma Síria sem Assam é fundado: quem viria a seguir? 

Por outro lado, um ataque militar em escala de grande destruição poderia colocar o Irão e mesmo a Rússia em posição de terem que se envolver diretamente numa ação militar. E aí as consequências de uma escalada na região ficariam mesmo fora de controlo.

Nem a Rússia nem o Irão têm o mínimo interesse nesse cenário. E também por isso têm mostrado que querem forçar os EUA a uma solução política e diplomática. Não estão presos ao argumento moral da «red line» que Obama impusera e que, agora, lhe está a empurrar para assumir uma guerra que não queria.

A França, que tem mostrado ainda mais vontade na intervenção, já assumiu que tem que esperar pelos americanos para admitir avançar. 

Tudo em política tem solução. E esta situação de «pré-guerra» também poderá ter?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Histórias da Casa Branca: entre as evidências e a retórica

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 2 DE SETEMBRO DE 2013:


«Este ataque é um assalto à dignidade humana. Apresenta também uma séria ameaça à nossa segurança nacional. Os seus riscos constituem uma afronta à proibição global ao uso de armas químicas. Colocam em perigo os nossos amigos e aliados ao longo das fronteiras da Síria, incluindo Israel, a Jordânia, a Turquia, o Líbano e o Iraque. Pode levar a uma escalada de uso de armas químicas, ou à sua proliferação a grupos terroristas que as poderiam usar para fazer mal às populações. (...)

Não será uma ação indefinida no tempo. Não poremos tropas no terreno. A nossa ação será limitada no tempo e no espaço. Mas estou confiante de que poderemos responsabilizar o regime de Assad pelo uso de armas químicas, impedir a repetição destes atos e diminuir a sua capacidade para os levar a cabo. (...)

Não equacionamos colocar tropas nossas no meio de uma guerra que é de outros. Mas somos os Estados Unidos e não podemos e não devemos fechar os olhos ao que aconteceu em Damasco». 


BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, declaração sobre a Síria, 31 de agosto de 2013

Obama já terá chegado a um «no turning back» em relação à Síria. 

Com a declaração de sábado, cujos excertos principais abrem esta crónica, o Presidente expôs a sua visão sobre o que o leva a exigir uma intervenção militar «limitada no tempo», que não implicará «boots on the ground». 

Mas esta não é uma inversão de «doutrina Obama», que nos primeiros anos passou pela retirada do Iraque e do Afeganistão.

O Presidente traçara a «red line» para uma intervenção com um eventual uso de armas químicas. Perante as provas que chegaram à Administração Obama, e que nos últimos dias tiveram sinais reforçados de uso de gás sarin, essa tese saiu duplamente reforçada. 

Mesmo que a ação que tem vindo a ser anunciada pela Casa Branca seja «de curta duração» e sem uso de tropas no terreno, manda a tradição do sistema americano que o Presidente a vá legitimar ao Congresso. É certo que a decisão real de ir para a guerra foi passando do Congresso para a o Presidente. Mas essa aprovação continua a ser fundamental. 

A data chave para a «operação Síria» passou a ser 9 de setembro, dia em que o US Congress vai discutir o plano da Administração Obama. 

No fim-de-semana, o secretário de Estado John Kerry deixou clara a sua convicção de que «o Presidente Obama terá o apoio do Congresso» e nem admitiu espaço para outro resultado que não fosse um «sim». 

Na mesma linha, William Kristol, editor do «Weekly Standard» e um dos principais analistas conservadores, prevê um «apoio republicano a Obama» nesta questão: «Penso que o Partido Republicano«Penso que o Partido Republicano dará o passo certo e apoiará o Presidente contra um ditador apoiado pelo Irão, que patrocina o terrorismo e usou armas químicas», comentou, na NBC.

Mas a decisão de Obama está longe de ter apoio consensual nos meios políticos e nos «think tanks» americanos. Victor Davis Hanson, em artigo na National Review Online, questiona: «Qual é o ponto de uma intervenção na Síria? Se o objectivo é enfraquecer Assad sem apoiar islamistas pró-Al Qaeda, então a não iteria efeitos mais concretos. Se o objectivo é destruir depósitos de armas químicas e enviar uma lição ao Mundo, onde estão elas e como poderemos eliminá-las?»

Outro analista fortemente crítico da posição de Obama sobre a Síria é Fareed Zakaria: «A equipa de Obama falhou a abordagem à Síria. Estamos perante um exemplo de como não se deve atuar em política externa. Em março, o Presidente Obama disse que o uso de armas químicas seria um «gamechanger» na questão síria. Foi mesmo, mas não no sentido que ele que queria apontar.» 

Longe de ter na mão a opinião pública e a maioria dos analistas em relação à Síria, o Presidente parece ter tomado a decisão e espera apenas o «sim» do Congresso. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Histórias da Casa Branca: a Síria não é o Iraque

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 29 DE AGOSTO DE 2013:


A decisão de fundo está tomada e só falta mesmo a ordem do Presidente para avançar. 

Os Estados Unidos já têm planos preparados e estão a libertar informação que aponta para uma ação «limitada no tempo» (previsivelmente, entre dois a cinco dias) e que não prevê o envio de tropas no terreno, mas uma utilização da tecnologia a fim de atingir alvos cirúrgicos.

No Pentágono, já se entra em modo laranja: «Estamos preparados para agir e esperamos apenas a luz verde do Presidente», garantiu, em viagem ao Bahrein, o secretário da Defesa, Chuck Hagel.

Nos próximos dias, a Casa Branca tratará de enquadrar legal e politicamente a ação que, do ponto de vista militar, já 
estará desenhada. 

Barack Obama, que nunca foi um entusiasta de uma intervenção na Síria, terá sido convencido, nos últimos dias, com as «provas inegáveis» de uma violação da Convenção de Genebra, cometida pelo regime de Assad, no ataque de 21 de agosto passado, em bairros periféricos de Damasco.

No Congresso, a maioria republicana da Câmara dos Representantes é entuasiasta da ideia e está recetiva a um plano da Administração Obama: «Sr. Presidente, apresente-nos o seu caso para a Síria», lançou John Boehner.

Obama, Prémio Nobel da Paz em 2009, já mostrou estar mais do que confortável com ações militares. Desde que elas tenham um objetivo claro e mostrem eficácia. Por isso tem patrocinado o programa de «drones» no Afeganistão, sensível aos resultados de diminuição drástica de baixas humanas.

Por outro lado, convém não esquecer que o Presidente dos EUA foi reeleito em novembro passado com um promessas de redução significativa do orçamento militar, numa busca de racionalização de meios e objetivos.

Neste quadro, a questão que muitos colocam é: não será «off message» ir agora para a guerra? Não existirá o risco dos EUA se estarem a meter num novo Iraque ou num novo Afeganistão? 

«Estamos a dizer, de uma forma clara e decisiva, mas de modo muito limitado, que parem com isto. Isso pode ter um impacto positivo na nossa segurança nacional a longo prazo», aponta Barack Obama, em entrevista ao programa «PBS News Hour».

O Presidente deixou a garantia de que o que está a ser preparado é uma «acção limitada, com procedimentos previstos, sem que se permita que se entre num conflito longo». 

E sobre esse receio de que os EUA possam estar a iniciar uma nova aventura desastrosa no Médio Oriente, reforçou: «Deixem-me ser claro. Não é um novo Iraque. Sei que isso é uma preocupação para muita gente». 

O argumento para avançar para a Síria foi a repetida violação da «red line» a partir da qual o regime de Assad seria alvo de uma intervenção militar internacional: o uso de armas químicas.

As evidência retiradas do ataque de 21 de agosto fizeram com que a inação fosse, neste ponto, mais arriscada do que uma intervenção: «Pode perder-se uma geração completa de seres humanos», avisa o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.

A forma categórica como, há dias, John Kerry acusou a existência de «provas inegáveis e indesculpáveis» não deixa outra saída: a ação contra Assad estará por dias. 

Dez anos depois da invasão do Iraque, muitos se lembraram da mentira das «armas de destruição em massa». Interessa, por isso, fazer a comparação: quando se avançou para o Iraque, as dúvidas eram muito maiores que a certeza e o argumento principal dividiu os principais países da NATO (EUA e Grã-Bretanha a favor, Alemanha e França contra).

O atual quadro é completamente diferente. Pode questionar-se se a «red line» deve ser traçada pelo uso de armas químicas (Hitler, por exemplo, nunca as usou e cometeu atrocidades maiores que as que Assad está a infligir ao seu povo), mas não faz sentido equiparar a mais do que questionável guerra do Iraque com a intervenção que se prepara na Síria. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Histórias da Casa Branca: Síria, a guerra inesperada

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 27 DE AGOSTO DE 2013:


Era uma guerra que ninguém queria, mas, aqui chegados, parece ser já uma inevitabilidade.

Depois da «guerra estúpida» do Iraque, da «guerra necessária» do Afeganistão, a Síria deverá ser a «guerra inesperada» do segundo mandato de Obama.

A vontade política de Washington em avançar para Damasco é quase nula. Os maus exemplos dos últimos anos desaconselhariam nova aventura bélica. As reduções militares previstas passaram a ser a retórica dominante do Pentágono.

E convém lembrar que, há menos de um ano, o duelo presidencial entre Obama e Romney tinha, na área militar, uma importante «nuance»: o democrata defendia cortes nos gastos e contenção no uso do poderio militar; o republicano queria um aumento do orçamento de Defesa, para garantir a continuidade da «supremacia americana» perante a ameaça da Rússia, da China ou, é claro, das ambições nucleares iranianas. 

Todos estes dados apontariam para que Obama retirasse de todas as suas equações presidenciais a aprovação de uma intervenção militar americana numa nova frente.

Só que Barack Obama terá percebido, nos últimos dias, que não tem alternativa: enquanto Presidente dos EUA, será forçado a patrocinar uma ação militar na Síria.

A realidade, por vezes, ultrapassa qualquer cenário hipotético ou calculismo político. O novo paradigma passa pela contenção e pela prioridade ao «soft power»? Certo.

Mas o que, na Casa Branca, não se terá avaliado completamente, nos últimos meses, desde que em Damasco a situação se foi agravando, foram as consequências de uma eventual não intervenção.

É preciso lembrar que toda a retórica da Administração Obama sobre a guerra civil na Síria passou por duas grandes ideias. A primeira era a de que os EUA não interviriam diretamente, mas que estariam dispostos a estudar formas eficazes de apoiar a oposição ao regime de Assad; a segunda era a de que «red line» que Washington nunca poderia permitir ultrapassar seria uma utilização de armas químicas, ordenada por Assad, contra a população civil.

Ora, as últimas semanas mostraram à evidência que essas duas premissas estão desatualizadas. Por um lado, o «efeito dissuasor» não resultou: pelo contrário, terá feito agravar as atrocidades cometidas pelo regime de Assad contra os seus opositores; por outro, o ataque químico que vitimou, com pormenores de malvadez, cerca de 1300 civis nos subúrbios de Damasco, foi a maior de várias violações dessa tal «linha vermelha».

O tabuleiro sírio tem peças marcadas à partida: o Irão é o principal aliado do regime de Assad; a China e a Rússia têm uma conivência ambígua (por vezes crítica, mas no essencial apoiante) do ditador sírio; a Grã-Bretanha e a França defendem a deposição do regime e fizeram-no de um modo talvez ainda mais veemente do que os EUA, nas últimas semanas. 

Perante este quadro, Barack Obama não terá outra alternativa: vai mesmo dar luz verde a um avanço de tropas americanas na Síria.

Os próximos dias e semanas definirão o quadro legal e a política de alianças com que se fará esta indesejável (mas, neste momento, inevitável) operação. 

Numa fase em que se começa, nalguns meios, a dissertar sobre o «enfraquecimento americano», os EUA não poderiam perder por falta de comparência a este jogo. Até porque sabem que continuam a ser o ás de trunfo: quando entrarem, é certo que, militarmente, vão ganhar.

Falta saber o que acontecerá nos outros planos. O pós-guerra do Iraque e a a retirada do Afeganistão não auguram nada de bom.

O Mundo está perigoso.

Histórias da Casa Branca: momento «make or break»

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 13 DE AGOSTO DE 2013:

Maldição dos segundos mandatos? A história mostra que os Presidentes dos EUA, depois da reeleição, perdem parte da sua aura e somam derrotas políticas. 

Mas daí a dizer que Barack Obama está condenado a juntar-se a esse clube indesejado vai um grande passo.

É certo que o primeiro meio ano de Obama Presidente, parte II não tem sido um mar de rosas. Mas decretar já, a três anos e meio do final, o falhanço do legado Obama é, no mínimo, uma precipitação.

Se formos ver a história dos diferentes momentos de Barack Obama enquanto fenómeno presidencial, nada de novo. Afinal de contas, já foram várias as vezes em que se decretou o falhanço definitivo do atual Presidente dos EUA. 

E a verdade é que, desafio após desafio, Obama foi ultrapassando essas sentenças e seguiu em frente, depois de ser dado como «politicamente morto». 

Com a taxa de popularidade a cair para números próximos dos que tinha em 2010 e 2011, em fases em que muitos perguntavam se Obama ainda teria algum tipo de condições para se bater pela reeleição, Obama é visto, pela ala mais dura do Partido Republicano, como «um caso perdido». 

Correntes da direita americana estão até a fazer contas a possíveis ganhos nas intercalares de 2014, sonhando com uma imensa maioria republicana que levasse, no Congresso, a um cenário de «impeachment» do Presidente, contestando a agenda de Obama em temas como as alterações climáticas ou a Reforma da Saúde. 

Olhando para o tipo de retórica que tem dominado o pré-eleições para o Congresso, o «ObamaCare» voltará a ser tema forte de campanha.

Mas uma coisa é olhar para a luta política em Washington e outra, bem diferente, é perceber a estratégia de Obama para o seu segundo mandato. 

Uma consulta pelo calendário faz-nos perceber que este é, mesmo, o momento «make or break» para a Presidência Obama. 

O legado que Obama quer deixar quando, em janeiro de 2017, for a hora de sair da Casa Branca passa por quatro grandes ideias: reforçar a imagem da América no Mundo; diminuir a dependência dos EUA do petróleo do Médio Oriente; melhorar as condições da classe média; endereçar soluções globais para as alterações climáticas.

E a contradição pode ser esta: mesmo que boa parte do «momentum» mediático esteja a deslocar-se da Casa Branca para as eleições para o Congresso de 2014 e, depois, para as presidenciais de 2016, a verdade é que o que estará em causa, nos próximos três anos, para Barack Obama, já não será a sua popularidade eleitoral (foi isso que contou em novembro de 2012 para a reeleição), mas antes o legado que deixará nos seus oito anos de Presidência.

E o que é que vemos? Vemos uma América a recuperar economicamente (de forma lenta, mas sustentada); a manter o seu peso estratégico no Mundo (veja-se o receio que muitos países têm quando ouvem falar numa possível redução militar dos americanos nas suas áreas de influência); e a tornar-se, ela própria, uma potência energética (e, com isso, a comprar menos petróleo estrangeiro e a apostar nas energias limpas). 

Será este um caminho linear? Claro que não. Os dados económicos têm evoluções contraditórias, mas a linha, nos anos Obama, é claramente positiva. 

Foi essencialmente isto que o Presidente foi dizer ao «show televisivo» de Jay Leno: enquanto nas sondagens e nos «pundits» é visto como um político em queda, os dados essenciais mostram que as bases do seu legado estão em sólida construção.

Nos tempos que correm, nem sempre o que parece à primeira vista ficará escrito nos livros de história.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Histórias da Casa Branca: clima gelado com Putin

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 9 DE AGOSTO DE 2013:

Barack Obama vai de férias até 18 de agosto e em Washington até há quem diga que este é um bom momento para parar para pensar. 

Definitivamente, os últimos meses não foram positivos para o Presidente. O revés mais recente foi o clima de tensão com Moscovo, a propósito do «caso Snowden».

Os Estados Unidos nunca terão chegado a admitir verdadeiramente a possibilidade de a Rússia conceder asilo temporário a Edward Snowden.

A 18 de julho, o antigo analista da NSA, fugido à justiça americana, pediu abrigo diplomático a Moscovo. 

Os russos hesitaram, deram até um primeiro sinal de que iriam rejeitar a pretensão (cientes dos problemas diplomáticos que tal decisão implicaria), mas acabaram por aceder ao pedido de Snowden, no passado dia 2 de agosto. 

Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, teve uma reação mais direta do que é costume nestas ocasiões: «Estamos extremamente desiludidos com a decisão do governo russo apesar dos nossos pedidos muito claros e legais, em público e em privado, para que Snowden fosse expulso para os Estados Unidos, onde deveria responder às acusações que lhe são dirigidas. O senhor Snowden não é um delator, é acusado de ter revelado informações classificadas e indiciado em três atas de acusação criminais. Deveria ser enviado para os Estados Unidos o mais depressa possível, onde lhe será movido um processo com todos os direitos de defesa». 

Nos meios políticos e diplomáticos de Washington, a reação dificilmente podia ser pior. Os líderes norte-americanos ficaram furiosos com Vladimir Putin e tomaram aquela decisão como uma afronta.

Washington está a levar as revelações de Snowden como uma séria ameaça à segurança não só dos EUA como também de outros países, entre os quais a Rússia. 

A decisão (radical) de anular a cimeira Obama-Putin terá partido do próprio Presidente dos EUA e é o sinal mais visível do «congelamento» das relações Washington-Moscovo.

«Guerra Fria» de volta? Para Barack Obama, isso já estava a acontecer, mas só na mentalidade russa: «Putin dá mostras de ter uma mentalidade que ficou encravada nos tempos da Guerra Fria», acusou o Presidente, num tom pouco habitual na sua retórica diplomática, no show de Jay Leno. 

O caso não é para menos. Obama tem sido pressionado, nos últimos dias, por democratas e republicanos, a endurecer a conversa com Moscovo. 

Uma das figuras que mais tem pressionado o Presidente a virar, em defintivo, as costas a Putin é o senador John McCain, adversário direto de Obama nas eleições de 2008 e uma das principais referências da política americana em questões externas. 

Do lado democrata, a visão também aponta para um divórcio com Moscovo: «Se Putin estivesse a cooperar connosco, levaríamos mais em conta as suas especificidades e sensibilidades. Assim, o que ele pensa não tem assim tanta importância», explica, pragmático, Elliot Engel, congressista democrata de Noba Iorque, membro do Comité de Relações Externas.

Mas a tensão com a Rússia não é o único foco de preocupações de Obama.

Em véspera de ir de férias, o Presidente até marcou uma conferência de Imprensa (algo que não fazia há três meses), sentindo-se na necessidade de reforçar a posição da Casa Branca em temas como o risco do «government shutdown» (a 30 de setembro há novo «deadline» no Congresso e, na verdade, ninguém parece ter a solução para o impasse) ou o atraso na Reforma da Imigração (depois da aprovação fácil no Senado, a lei demora na Câmara dos Representantes). 

Só sinais negativos para o Presidente? Nem por isso. A entrevista televisiva a Jay Leno voltou a mostrar que Barack Obama continua a ser uma «estrela pop»: teve uma grande audiência junto do público mais jovem e as suas ideias recolher impressões positivas.

Será suficiente?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

20 anos

22 de agosto de 1993. Faz hoje 20 anos. Estava a voltar de duas semanas de férias com os meus pais e as minhas irmãs em Lagos, no Algarve, enquanto o António de Sousa, que ainda não conhecia pessoalmente, fazia a Volta a Portugal para «A Bola». 

Um mês antes, no final de julho de 1993, um golpe de sorte, misturado com uma certa ousadia inconsciente de quem tinha acabado de fazer 15 anos, proporcionou-me a oportunidade profissional que sonhava na altura: começar no jornalismo na área do futebol. Ainda por cima, em «A Bola».

Nos dois anos anteriores, em 1991 e 1992, começara a construir um desejo profundo de ser jornalista ligado ao futebol, na sequência de dezenas de intervenções que fiz, numa base semanal, na Antena 1, no mítico programa «Livre e Direto».

Dava às sextas à noite, primeiro entre as 22.30 e a meia-noite, depois passou para o horário 21-23h. Coordenado pelo Costa Martins e pelo António Pedro, era o único espaço da rádio portuguesa que permitia a participação dos ouvintes. Os fóruns e as antenas abertas só apareceriam uns anos depois.

No «Livre e Direto» participavam outros jornalistas que vim a conhecer e que mal sabia que, tempos mais tarde, se tornariam meus amigos: o Carlos Daniel, o Fernando Eurico, o Rui Almeida, o Óscar Coelho, o Rui Cerqueira, o Sérgio Teixeira, o Fernando Maciel, o Eduardo Gonçalves. 

Uma visita aos antigos estúdios da RDP, na Cândido dos Reis, em setembro de 1992, guiada pelo Carlos Daniel, tinha-me feito decidir: «Quero mesmo ser jornalista». 

No verão seguinte, o destino deu-me o empurrão que precisava.

No final de uma semana na Escola de Futebol Humberto Coelho, para onde ia com frequência durante as férias escolares, uma equipa de treinadores/monitores da escola (composta por antigas glórias como Bastos Lopes, Seninho, Nené, «Zé Gato» e o próprio Humberto Coelho) defrontava, num dos campos de treino do Estádio Nacional, no Jamor, a equipa de futebol da redação de «A Bola» em Lisboa.

E o tal golpe de sorte, doseado com uma ousadia inconsciente, foi ter ido ter, no final da partida entre amigos, com o Afonso de Melo, já na altura uma referência, cujas crónicas devorava nas páginas do jornal. «Adoro os seus textos sobre Águeda e a forma como consegue juntar futebol com o gosto pela escrita e pela literatura. Gostava, um dia, de conseguir escrever assim».

Ainda suado do encontro que os antigos futebolistas venceram facilmente (4-1, creio), o «ponta-de-lança» da equipa de «A Bola» achou piada ao miúdo e, vendo o Joaquim Rita, então chefe de redacção do jornal e capitão da equipa que acabara de ser derrotada pelos antigos craques a sério, chamou: «Ó chefe, chegue aqui, por favor. Apresento-lhe um futuro jornalista que acabei de conhecer…»

Parece uma cena de filme, mas foi exatamente assim que começou a minha história no jornalismo, que hoje completa 20 anos.

Nos cinco minutos que demora percorrer a distância entre aquele campo de treinos do Jamor e os balneários do Estádio Nacional tracei o início de um percurso que, até hoje, marcou todas as escolhas da minha vida profissional.

O meu arranque de carreira ficou para sempre ligado ao futebol: não só nas palavras, na escrita, mas também na vivência. Todo o meu imaginário infantil e de adolescência teve a ver com o mundo do futebol e poder ter começado a minha carreira profissional desta forma foi um privilégio. Uma sorte.

Ainda hoje, duas décadas depois, não consigo dizer o que passou exatamente pela cabeça do Afonso para afirmar naquele momento, com tanta certeza, que eu iria ser jornalista.

Muito menos saberei explicar a resposta do Joaquim Rita, que, tal como o Afonso, não me conhecia de lado nenhum: «E vai ser mesmo! Moras no Porto, não é? Então, quando saíres daqui da Escola Humberto Coelho e voltares a casa, ligas-me lá para o jornal e eu indico-te a pessoa com quem terás que falar para começares a fazer umas coisitas para «A Bola». Mas atenção que os estudos estão em primeiro lugar!»

Estávamos a chegar aos balneários, despedimo-nos com essa indicação que, para mim, parecia demasiado boa para ser verdadeira: o então chefe de redação de «A Bola» tinha-me dito, a mim, um puto de 15 anos que não conhecia de lado nenhum, que iria começar a escrever para o jornal desportivo que marcou gerações de portugueses.

Tentei refrear expetativas, afinal de contas podia ter sido só uma gentileza sem futura consequência. Mas mal voltei ao Porto fiz o telefonema e, do outro lado da linha, ouvi a confirmação: «Ah, Germano, lembro-me claro! Aponta o número da redação do Porto. Vais falar com o António de Sousa e o João Freitas, que são os responsáveis pela redação, mostras o que já escreveste e começas a fazer umas coisitas».

O sonho, afinal, parecia que não terminava ali. Dias depois fui à redação do Porto de «A Bola», na altura na Rua Pinto Bessa, a dois passos da estação de Campanhã, com uns textos para mostrar, escritos em casa sobre jogos de futebol transmitidos na TV. «O António de Sousa está na Volta a Portugal, mas eu fico com isso e vou dando uma olhadela. Pode fazer aos domingos uns jogos da Divisão de Honra, damos cada vez mais espaço. Na segunda quinzena de agosto, volte cá e resolvemos isso», apontou-me o João Freitas.

Era mais um passo em frente. Sentia que o sonho ia mesmo transformar-se em realidade. Fui para o Algarve com mil ideias na cabeça e uma ansiedade enorme de que tudo se confirmasse quando regressasse ao Porto.

Nunca numas férias tive tanta vontade que o tempo passasse mais rápido.

E o calendário chegava, finalmente, a 22 de agosto de 1993. Faz hoje duas décadas, entrei pela segunda vez na sala em Pinto Bessa, mas desta vez já para começar a trabalhar. Foi o meu primeiro dia no jornalismo.

O António de Sousa, regressado da Volta, já tinha recebido informações sobre mim do Joaquim Rita e do João Freitas. E já tinha lido uns textos que eu lá tinha deixado, antes de ir para o Algarve. «Gostei do que li, mas tem que ter a noção que ainda não mostrou nada. É um grande jornal, temos que ser cautelosos, tem que ir com calma. Vai começando a fazer uns joguitos, umas notícias, a colaborar nos dias em que as aulas lhe permitirem. O mais importante são os estudos. Pode começar já hoje, se quiser».

Queria, é claro.

Estávamos em 1993. «A Bola», na altura, era a «Bíblia». O que lá se escrevia parecia ter o dom de transformar-se em letra de lei e o jornal ainda reunia uma aura especial, fruto de décadas de liderança e de uma influência impressionante na formação de gerações de portugueses.

Ainda hoje se diz isso, mas à época dizia-se com muito mais propriedade e frequência: «Aprendi a ler com A Bola».

O jornal saía quatro vezes por semana (às segundas, quintas, sábados e domingos) e era publicado em formato «broadsheet» (assim em tamanho grande, como os grandes jornais americanos e ingleses ainda o fazem).

Durante alguns anos, muito depois da passagem a tablóide, sonhava com alguma regularidade que «A Bola» tinha voltado a ser publicada nesse formato.

O «Record» também saía quatro vezes por semana. A «Gazeta dos Desportos», vejam lá, ainda existia (e até haveria de testar, uns meses depois, um regresso ao «broadsheet» que, infelizmente, acabaria por ser apenas a última etapa antes do fecho).

O «Norte Desportivo» estava em fase de regresso, depois de uns anos sem ir para as bancas. O «Primeiro de Janeiro» ainda estava aí para as curvas. 

As televisões davam um ou dois jogos de futebol por semana, quando davam. Não havia SportTV. A SIC iniciara emissões dez meses antes, a TVI estava ainda em fase experimental e só haveria de começar a emitir regularmente em outubro desse ano de 1993.

Ah! E, claro, talvez mais relevante do que isto tudo, para percebermos como há 20 anos as coisas eram diferentes: não havia internet e muito pouca gente (quase ninguém) tinha telemóvel.

Numa frase, era outro mundo. Era mesmo.

Neste planeta distante em que vivíamos em 1993, o tempo corria mais devagar. O tempo jornalístico. O tempo de leitura. E, sobretudo, o tempo de produção. 

Uma notícia podia preparar-se e guardar-se ao longo de, pelo menos, um dia. A reação só chegaria no dia seguinte ou até mais tarde (convém explicar que, durante ano e meio, entre agosto de 1993 e fevereiro de 1995, trabalhei num’ «A Bola» quadrissemanária e não diária).

Recordo, no verão de 1994, uma Volta Aérea a Portugal com uma máquina de escrever pesada, com a qual escrevia as peças que enviava, por faxe, para a redação.

Um jornalista, naquela realidade, tinha mais importância do que tem hoje. Havia menos oferta. Menos contraditório da parte de quem lia. Muito raramente, lá chegava uma carta de um leitor a elogiar ou a criticar, com uma eventual correção ou sugestão do que havia sido publicado dias ou semanas antes.

Sem o imediatismo da net, dos comentários online, das publicações de Facebook, a distância entre o emissor e o recetor era enorme. Parecia que o que se escrevia era sagrado. 

Hoje não é assim e ainda bem que não é assim. Há mais proximidade. Na relação com quem nos lê, há maior possibilidade de correção, de enriquecimento do que já se tem.

Mas é também verdade que o jornalismo perdeu uma certa aura, um mistério que a distância e o segredo lhe conferiam. A magia que, em miúdo, sentia pela rádio foi-se perdendo com as versões na net dos programas. As vozes que ouvia, afinal, têm uma cara que dá para ver à distância de um clique.

Os jornais, então, passaram por muito nestes 20 anos. Cortes, reduções de meios, menos gente, menos independência, uma concorrência difícil de combater com o imediatismo da net.  

No «flashback» de 20 anos de carreira, guardo muitas recordações boas e uma ou outra má. O mais importante é que as coisas positivas são, de longe, muito superiores em número, em significado e em intensidade. De longe. 

Nestas duas décadas, assisti por dentro à passagem para diário e à mudança de formato para tablóide do jornal «A Bola» (em fevereiro de 1995). À criação do primeiro jornal desportivo online, o Maisfutebol (em junho de 2000). Ao aparecimento em força dos sites dos media tradicionais (1999, 2000, 2001, 2002), ao surgimento dos blogues (2003), dos vídeos na net (2003, 2004), do YouTube (2005), das versões dos jornais para tablet/ipad/smartphone (2010 até agora).

Em 1993, havia três canais generalistas e estava a aparecer um quarto. A TV por cabo só apareceu em força, com a sua multiplicidade de canais e escolhas, nos anos seguintes.

Nestes 20 anos, tive várias oportunidades de carreira. A umas disse «sim» e soube agarrar; a outras, por algum motivo, tive que dizer «não».

Assim de repente, e correndo o risco de estar a ser injusto para alguém que me esteja a escapar (e, se assim for, peço desde já desculpa), agradeço sobretudo ao Joaquim Rita, ao Afonso de Melo, ao António de Sousa e ao João Freitas (responsáveis pela minha entrada em «A Bola» em agosto de 1993); ao Luís Sobral, por me ter convidado a ser um dos fundadores do Maisfutebol, em junho de 2000; ao João Bonzinho, por me ter desafiado a voltar a «A Bola» em maio de 2003; ao Tiago Craveiro, pelo convite para ser diretor de comunicação da Liga, em novembro de 2010; ao Vítor Serpa, pela terceira incursão em «A Bola», em junho de 2012; e de novo ao Luís Sobral, pelo regresso ao Maisfutebol, em novembro de 2012.

Nestes 20 anos, passei sete na primeira vez em A Bola (1993-2000); três na primeira vez no Maisfutebol (2000-2003); outros sete na segunda vez em A Bola (2003-2010); um ano e meio na Liga (novembro 2010-maio 2012), com o prazer de ter trabalhado com enormes profissionais, com o dr. Fernando Gomes à cabeça; cinco meses na terceira vez em A Bola (maio-outubro 2012); e tenho o privilégio de estar há oito meses na segunda passagem pelo Maisfutebol, agora também com uma rubrica no site da TVI24.

Nestas voltas que a vida dá em duas décadas, fiz o que, de outro modo, certamente, nunca faria: estive num Mundial (Alemanha-2006), na primeira fase de um Europeu (Suíça em 2008), numa final da Intercontinental (Japão-2004), numa Confederações (Alemanha-2005) e em inúmeros jogos europeus e estágios de clubes, alguns deles no estrangeiro (recordo sobretudo Clairefontaine, 2001, da primeira vez no Maisfutebol, e Marienfeld, 2008, da segunda vez em A Bola).

Pude escrever dois livros sobre aquele que é, a par do futebol, o meu tema preferido, a política americana («Histórias da Casa Branca», maio 2010, e «Por Dentro da Reeleição», abril 2013, ambos publicados na Prime Books, pelo Jaime Cancella de Abreu).

Com os livros, fui incluindo na minha profissão a minha outra grande paixão. E guardo entre os melhores momentos destes 20 anos as apresentações na companhia de referências de sempre: General Loureiro dos Santos, Ricardo Alexandre, Francisco Sena Santos, Carlos Daniel, Álvaro Costa.

Pude acompanhar, nos EUA, a fase decisiva da reeleição de Barack Obama e tenho, hoje, redobradas certezas que fiz a escolha certa.

Este é essencialmente um texto sobre o passado, mas a experiência nos Estados Unidos e a análise de muitos anos acumulados sobre a realidade americana fizeram-me olhar cada vez mais para o futuro e menos para o passado.

Nada melhor, por isso, do que comemorar estes 20 anos de carreira em dia de plena transição para um novo site do Maisfutebol, numa versão mais profunda e interativa.

Ser jornalista é, nos tempos que correm, uma profissão de risco. O risco de perder o emprego. O risco de não voltar a ter emprego. O risco de ser pressionado. O risco de estar numa atividade em vias de extinção enquanto forma de ganhar a vida. Tantos outros riscos.

Essa é uma visão possível das coisas. A outra é sentir, como sempre senti, que mais do que uma profissão, ser jornalista é uma condição. Um modo de estar na vida, uma forma especial de olhar para o que nos rodeia. De analisar, de procurar. Custa muito. É cansativo. Dá cabo da paciência, às vezes. Mas para quem, como eu, continua a encará-la como um privilégio continua a ser a mais bela profissão do Mundo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Histórias da Casa Branca: do «show» político à agenda presidencial

TEXTO PUBLICADO NO TVI24.PT, A 2 DE AGOSTO DE 2013:

O segundo mandato de Barack Obama passa por um momento difícil do ponto de vista comunicacional.

Com as prioridades políticas assumidas pelo Presidente em claro impasse (reforma da Imigração, «gun control», redução da dívida), as atenções têm estado mais viradas para o «caso Snowden» e para as consequências do pedido de falência da Detroit.

Convém pôr tudo isto em perspetiva. Antes de se decretar a «maldição dos segundos mandatos» (houve quem se lembrasse do que passaram Presidentes como Clinton ou Bush filho depois de terem sido reeleitos), será prudente perceber que Obama assumiu um horizonte temporal que só termina mesmo em janeiro de 2017.

Que o primeiro meio ano de segundo mandato não correu como o Presidente desejaria, isso é fácil de concluir: a prioridade dada à aprovação de restrição no acesso às armas mostrou as fragilidades da Casa Branca conseguir impor ao Congresso uma necessidade que a própria opinião pública estava a exigir.

Mas sejamos claros: o «gun control», sendo um ponto importante na visão do Mundo de Barack Obama, não é um dado fundamental da equação para o segundo mandato.

Antes de abandonar a Casa Branca, o Presidente quer ter tempo para deixar a sua marca em três aspectos fundamentais: melhorar as condições de vida da classe média (desde sempre, o foco central da sua ação política); impor a América como o principal «player» de um mundo em profundas e imprevisíveis mutações nos próximos anos; lançar os EUA na liderança em áreas cruciais para as próximas décadas, como a independência energética e as energias «limpas».

É certo que Obama já não tem muito tempo do ponto de vista do calendário político: as eleições intercalares são daqui a pouco mais de um ano; as eleições presidenciais de 2016, que definirão o seu sucessor na Casa Branca, já começam a sobressaltar os dois campos partidários, em torno dos possíveis pretendentes às respectivas nomeações.

Mas já todos sabemos que, na política americana, as coisas são assim. «The show must go on», mas enquanto o relógio mediativo corre furiosamente, um Presidente tem que saber definir uma rota para conseguir criar o legado com que pretende ser recordado.

No caso de Obama, a marca principal foi deixada no principal argumento para a reeleição: a defesa da classe média, nas suas componentes mais concretas (redução do peso fiscal, aumento do acesso ao emprego, transparência de regras com as «big corporations»).

A visão que o Presidente tem construído para o segundo mandato reforça o foco na política interna em detrimento da preocupação com o multilateralismo.

Em casos como os da Síria, ou do Egito, isso até nos remete para uma mudança demasiado vincada na perspetiva americana do (não) uso do seu poder bélico.

O retomar do processo de paz israelo-palestiniano, três anos depois de um ciclo que, visto dos dias de hoje, está completamente desatualizado (em 2010, ainda Mubarak e Assad estavam na fotografia em Washington, imaginem só), ajuda-nos a perceber que os EUA continuam a ser o ator indispensável nas grandes questões mundiais.

É a primeira prova de fogo do secretário de Estado John Kerry e é a demonstração mais clara da política realista da Administração Obama: a América continuar a querer liderar, mas só nas situações que considera fundamentais e estratégicas.

Nestes tempos de realismo, a América de Obama quer ser, acima de tudo, o ás de trunfo que desbloqueie um Mundo em processo de mutação e que mostra mais contradições do que certezas. Menos «europeu» e «atlântico», mais «asiático» e «pacífico», mas com os EUA a manterem-se como atores indispensáveis.

Quem não perceber isto e pensar que a Administração Obama está paralisada com o «gridlock» crónico de Congresso, está a falhar o essencial.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Histórias da Casa Branca: a Emenda Amash e o sistema bipartidário

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 27 DE JULHO DE 2013:


«A Casa Branca está a fazer tudo para evitar que o Congresso aprove uma proposta de emenda que tenciona limitar os poderes da National Security Agency (NSA).

A proposta, que não deverá passar na Câmara dos Representantes, surge na sequência das revelações surpreendentes de Edward Snowden, o antigo funcionário da CIA e NSA, que denunciou um suposto «Big Brother» promovido pela administração americana, através do programa PRISM.

Justin Amash, de apenas 33 anos, é um advogado republicano, da ala libertária (que nos últimos anos foi personificada em Ron Paul).

Com um forte historial de propostas relacionadas com as liberdades individuais e os direitos dos cidadãos contra o poder excessivo do Estado, Amash, congressista republicano eleito pelo terceiro distrito do Michigan nas intercalares de novembro de 2010, tem sido um dos representantes mais incómodos para a Casa Branca.

Justin sabe que o mais provável é que a sua intenção não seja aprovada. Mas tem também a noção de que o momento é propício a lançar o tema para a discussão política e mediática: «Quando foi a última vez que um Presidente emitiu um comunicado urgente contra uma emenda? As elites de Washington têm medo da liberdade. Têm medo de vós», escreveu na sua conta no Twitter, em reação a um comunicado da Administração Obama, que apelava aos membros da Câmara dos Representantes a «rejeitar a Emenda Amash» por considerá-la uma «abordagem radical» que «não resulta de uma discussão aberta e informada».

Enquanto a Casa Branca exortava, por escrito, os representantes a votarem «não», o general Keith Alexander, diretor da NSA, fazia «lobby» junto dos congressistas, para os convencer a travarem a pretensão de Amash.

Mesmo que, por algum imprevisto, a Câmara dos Representantes deixasse passar esta proposta, o Senado não o deixaria certamente fazer, tendo em conta a já assumida oposição da comissão dos serviços secretos, de liderança bipartidária (com a democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, e o republicano Saxby Chambliss, da Geórgia).

Em causa está um dos principais focos de tensão do sistema americano. Esta questão do poder da NSA está a reforçar a ideia de que, mesmo num clima de tamanha hostilidade política da oposição republicana à administração democrata que, há dois mandatos, controla a Casa Branca, a verdade é que num tema destes o «establishment» bipartidário em Washington põe-se do mesmo lado.

A explicação é clara: o complexo de poder nos EUA precisa de um sistema de autoproteção. E isso implica um certo segredo. O tema, em situações normais, não se colocaria no centro da discussão partidária

A questão é que o «caso Snowden» ajudou a levantar a ponta do véu e poderá ter alterado os dados deste jogo de sombras. Congressistas como Justin Amash têm como combustível da sua ação política mostrar aos cidadãos que o Estado lhes «esconde» e «engana».

Líder do «Liberty Caucus», Justin Amash, de religão grega ortodoxa, é um dos mais jovens congressistas em Washington. Pelo seu registo de votações, nunca se posicionará como membro do «mainstream» republicano.

Mas talvez, nos próximos anos, o até agora confortável sistema bipartidário em Washington venha a ser sacudido por mais «Emendas Amash». Mesmo que sem sustentação para serem aprovadas, elas mostram sinais de óbvio desconforto sobre um sistema que, mês após mês, ano após ano, legislatura após legislatura, acusa problemas de funcionamento e auto-regulação e ameaça caminhar para a disfunção crónica.

O Presidente Obama e a sua agenda política bloqueada que o digam.»