segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Histórias da Casa Branca: o fim do «soft power»?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 8 DE SETEMBRO DE 2014:


Como travar o ISIS sem «regressar» ao Iraque? 

Terá a ameaça jihadista sunita retirado as últimas esperanças de consumar a tendência de «retirada» americana?

Obama tem tentado, nas últimas semanas, preparar a opinião pública internacional, e sobretudo norte-americana, para algo que, neste momento, parece inevitável: vai haver um novo envolvimento em grande escala dos meios militares dos EUA e dos seus aliados no Iraque e na Síria. 

Falta saber (e não é um pormenor técnico) se essa ação se limitará a bombardeamentos cirúrgicos (ainda que em grande número) ou se vai mesmo obrigar ao envio de tropas de no terreno. 

Em entrevista recente à NBC, o Presidente Obama garantiu: «Estou a preparar o país para lidarmos com a ameaça. Na quarta-feira vou fazer um discurso e descrever qual será o nosso plano daqui para a frente. Mas isto não vai ser anúncio sobre tropas terrestres norte-americanas. 
Isto não é o equivalente à guerra do Iraque. É semelhante às campanhas de combate ao terrorismo que temos vindo a desenvolver de forma consistente ao longo dos últimos cinco, seis, sete anos». 

A preocupação do presidente norte-americano em garantir que não será «uma nova guerra do Iraque» já tinha sido dominante há cerca de um ano, quando esteve na iminência de fazer um ataque à Síria de Assad. 

Obama marcou a primeira fase da sua presidência por uma estratégia de «contenção» e «retirada». Os EUA lideravam «na retaguarda» (Líbia) e pelo «soft power», já não usando a força (retiradas do Afeganistão e do Iraque). 

A ameaça galopante do ISIS voltou a baralhar tudo isto. «Se mais não tivesse mostrado, os actos de horror e violência bárbara do ISIS criaram um rápido consenso político e acrescentaram pressão no Presidente Obama: a cautela perante o horror, simplesmente, não chega», observa John King, correspondente sénior da CNN na Casa Branca. 

Será o fim do «soft power» enquanto instrumento dominante para resolução das grandes questões externas para a atual administração americana? 

Obama, que voltou a não querer precipitar-se perante as pressões, não teve pruridos em assumir, na semana passada, que «ainda não tinha estratégia» para combater o ISIS. Preferiu ir primeiro à Cimeira da NATO, convocou as obrigações dos seus principais aliados internacionais (o Reino Unido e a França disseram imediatamente que sim) e em Tallin notou, à margem da questão ucraniana, que dominava a conversa com o homólogo estónio: «O nosso objetivo é claro: degradar e destruir o ISIS, a ponto de deixar de ser uma ameaça. Vai demorar tempo e vai exigir um grande esforço». 

O Presidente americano, mesmo insistindo na ideia de que não estaremos perante uma «nova guerra do Iraque» (continua a vontade zero em voltar a enviar «boots on the ground»), avisou: «Vamos precisar de usar todos os instrumentos que temos à disposição para travar o ISIS, para pôr termo à ameaça que eles representam à nossa segurança nacional». 

A vida dá muitas voltas e a política internacional, então, dá ainda mais. 

Há um ano, a Síria levava os norte-americanos a apoiar os rebeldes sunitas, que combatiam o regime de Assad, da dinastia alauíta, ramo xiita do Islão.

Mas a intervenção americana em Damasco «borregou» à última hora, perante a entrada em jogo de Putin e da mediação que levou à entrega das armas químicas, sob supervisão da ONU.

Consequência: a guerra civil na Síria e o degradar da situação no Iraque (governo xiita de Al Maliki, apoiados pelos americanos, sem capacidade de dominar cidades importantes e zonas crucais) foram campo fértil ao recrudescimento do ISIS.

Inimigos recentes (Irão, a Síria de Assad) tornam-se, agora, aliados estratégicos dos EUA para travar os jihadistas sunitas.

Nunca digas «desta água não beberei». No Médio Oriente, isso é mesmo uma impossibilidade.

Histórias da Casa Branca: estratégias de contenção

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 29 DE AGOSTO DE 2014

«Não quero pôr o carro à frente dos bois. Não temos ainda uma estratégia para combater o ISIS. Acho que o que vimos nas últimas notícias e nos últimos relatórios sugere que alguns tipos estão a chegar um pouco mais à frente donde estamos¿ E temos que ter a certeza que temos planos claros e é isso que estamos a desenvolver. Vou consultar o Congresso, para ter a certeza de que as suas vozes dos congressistas são ouvidas. Mas não faz sentido que exija ação ao Congreso antes de saber exatamente o que é preciso fazer para que o trabalho saia bem feito»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 

Para republicanos como John McCain, «não ter uma estratégia para combater o ISIS» é uma das razões para o fracasso americano no Iraque e na Síria. 

Mas para o Presidente trata-se de mera precaução.

O excerto com que esta crónica começa mostra, ao limite, a estratégia de contenção de Obama para a situação mais explosiva do tabuleiro internacional.

Por parte dos congressistas republicanos, a pressão não podia ser maior. Mitch McConnel, líder da minoria republicana no Senado, voltou a encostar o Presidente à parede: «É urgente que a administração desenvolva uma estratégia regional, trabalhe com os nossos aliados, derrote o ISIS e use em pleno a sua autoridade para atacar a força do inimigo».

Na Ucrânia, já se percebeu que nem os receios dos serviços de inteligência americanos sobre invasão que esteja a ser preparada pela Rússia (que nem as conversações de Minsk entre Poroshenko e Putin, aparentemente com sinais positivos quanto a um futuro cessar-fogo, dissiparam), fará a América de Obama avançar para uma situação de confronto bélico com Moscovo.

Outro tipo de confronto, a nível diplomático, já decorre há uns meses e teve exemplo especialmente vincado na intervenção de Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, em Conselho de Segurança da ONU, sobre a Ucrânia: «A Rússia, em matéria de Ucrânia, tem dito tudo menos a verdade. Tem manipulado. Tem ocultado. Tem mentido descaradamente. Por isso, temos aprendido a avaliar a Rússia pelas suas ações e não pelas sua palavras. E nas últimas 48 horas, as ações dos russos na Ucrânia têm falado de forma mesmo muito sonora».

A embaixadora Power referia-se à entrada ilegal de tropas russas em espaço ucraniano, agravada nos últimos dias, enquanto, na Bielorrússia, Poroshenko e Putin até pareciam começar a entender-se. Tremenda ambiguidade. 

No plano ucraniano, a estratégia da Administração Obama tem sido, por isso, dual: quase nada em termos bélicos, quase tudo na agressividade diplomática e nas sanções económicas (já a um nível significativo para a elite de Moscovo, com consequências internas no apoio político de Putin).

O ISIS é a urgência do momento. A decapitação de James Foley mudou radicalmente a posição de Washington? Nem por isso. É certo que, nos últimos dias, o «exército islâmico do Levante» foi alvo de bombardeamentos cirúrgicos, mas a ameaça continua iminente. E ninguém é capaz de dizer que está controlada. 

Também no plano interno, o Presidente está em recuo, para que daqui a algum tempo possa atacar. Em dois temas, sobretudo: imigração e alterações climáticas. 

Longe de ter condições para uma Reforma de Imigração nos moldes que a sua agenda política exige, Obama e os democratas tentaram, nos últimos meses, aprovar leis parcelares no Congresso, que permitissem que crianças não fossem deportadas. Mas nem isso passou. 

E no plano das alterações climáticas, a Administração Obama está a estudar uma forma de contornar o Congresso, de modo a poder assinar próximo acordo internacional, previsto para 2015, para que não se repita o chumbo americano a Quioto, em 1997.

Na política americana, saber esperar é uma arte. Será que Barack Obama leva isso demasiado a sério?

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Histórias da Casa Branca: Hillary Clinton marca território

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 26 DE AGOSTO DE 2014:

Hillary Clinton vai ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos da América?

É possível, mas está longe de ser uma certeza.

A 27 meses das eleições presidenciais, os dados são idênticos ao que tem acontecido desde o início do ano: Hillary tem vantagem tão gigantesca no lado democrata (50 a 60 pontos de diferença sobre qualquer eventual adversário nas primárias do seu partido) que nos «media americanos» já é apresentada como «presumível nomeada presidencial» para 2016.

Do lado republicano, cenário oposto: vários candidatos, nenhum deles a conseguir assumir condição de «frontrunner». 

Perante este quadro, Hillary, mesmo sem ter que responder «sim» à pergunta que já lhe fizeram mil vezes («vai ser candidata à presidência em 2016?»), já começou o seu périplo mediático para lançar a candidatura. 

No tal estatuto não muito definido, mas repetido vezes suficiente para ter vida própria, de «presumível candidata democrata», Hillary toma posições sobre os temas que dominam a agenda da alta política americana. Lança críticas. Dá sugestões. Provoca reações de adversários e apoiantes. Sim, isso mesmo: como se já fosse a nomeada presidencial com legitimidade do seu partido para batalhar pela sucessão de Obama. 

Como antigo elemento de uma Administração Obama, Hillary tem tido, em termos gerais, o cuidado de mostrar concordância com o rumo que tem sido tomado pelo Presidente. 

Mas essa atitude teve uma mudança notada por todos, na entrevista dada à «The Atlantic», já aqui abordada no «Histórias da Casa Branca».

Enquanto no Iraque e na Síria o ISIS escalava perigosamente a violência das suas ações, e antes ainda da divulgação do vídeo da decapitação do jornalista americano James Foley, Hillary lançou uma espécie de «bomba» política, ao demarcar-se do «don¿t do stupid stuff» (não façam coisas estúpidas), frase aparentemente redutora quando se fala de tema tão complexo, e que chegou a ser apontado por Obama como princípio orientador em política externa. 

«Grandes nações precisam de princípios organizadores. 'Não fazer coisas estúpidas' não é um princípio organizador», comentou Hillary, nessa entrevista. Os analistas, desde aí, têm reforçado esse distanciamento. 

Será que a futura-candidata-presidencial Hillary já sente a necessidade de escolher a herança dos anos Obama (separando o que não concorda e querendo ficar apenas com o que considera positivo?).

Chris Cillizza, no Washington Post, observa: «Hillary Clinton fez uma jogada estratégica para começar a distanciar-se da política externa do Presidente Obama. Falhou.» 

A equipa de Hillary, preocupada com as reações do «Mundo Obama» das críticas dela ao «não façam coisas estúpidas», libertou uma declaração para acalmar tensões. «A secretária Clinton ligou ao Presidente para assegurar que ele saiba que nada do que ela disse tinha como intenção atacá-lo a ele, a alguma coisa que tenha feito, ou às suas políticas, ou à sua liderança», garantiu o porta-voz de Hillary Clinton, Nick Merril. 

Um dos mais proeminentes membros do tal «Mundo Obama» é David Axelrod, talvez a pessoa mais próxima do Presidente, antigo conselheiro sénior da Casa Branca e principal estratega das duas eleições presidenciais de Obama. 

Em pleno rescaldo do «episódio Hillary/entrevista à Atlantic», «Ax», como lhe chama Obama, fez twitt para esclarecer: «Apenas para clarificar: «Don¿t do stupid stuff» significa coisas como Iraque na primeira intervenção, o que foi uma coisa trágica». A observação não é ingénua: Axelrod, que conhece ao pormenor todas as possíveis fragilidades do percurso político de Hillary (foi ele que estudou a forma de ataca-la nas primárias de 2007/2008), tentou lembrar, de forma indireta, que a então senadora Clinton não se opôs, na votação no Capitólio, à intervenção de Bush no Iraque, em 2003.» 

Histórias da Casa Branca: a Síria, o ISIS e o «novo Iraque» de Obama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 22 DE AGOSTO DE 2014:

«Os jihadistas sunitas, que tomaram grandes partes de território iraquiano e sírio, podem ser controlados»
General Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior das forças armadas americanas

«Quanto mais Obama retardar a ofensiva, mais o ISIS ajusta as suas posições e mais difícil será reagir. Uma das decisões que ele tem que fazer é atacar o ISIS na Síria porque eles estão a avançar o equipamento capturado para lá e estão a batalhar lá e têm enclaves lá»
Senador John McCain, do Arizona


O «novo Iraque» de Obama promete ser bem mais difícil e sangrento do que a retirada das tropas, êxito aparente na primeira fase desta presidência, decorrência de promessa eleitoral que ajudou o atual inquilino da Casa Branca a ser eleito pela primeira vez, em 2008.

Se a «contenção» anunciada pós-Bush estava ao favor da corrente da opinião pública, o novo quadro na região anuncia-se bem mais complexo, com riscos enormes de redundar em novo banho de sangue.

Podia até ser tudo o que não era preciso agora, com as crises na Ucrânia e em Israel/Gaza ainda em fases de especial tensão. 

Mas o que se passou nas últimas semanas, com o avanço do ISIS capaz de dar aos fundamentalistas sunitas o controlo de cerca de um terço do Iraque e de partes da Síria, exige resposta rápida.

Obama autorizou bombardeamentos cirúrgicos em zonas controladas pelo ISIS e isso, de acordo com as últimas informações, terá enfraquecido seriamente as posições do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, no acrónimo anglófono).

Mas a ação americana surgiu tarde. O aumento brutal no número de vítimas mortais, com especial incidência na população cristã do Iraque e nos «yazidis», foi tornando o avanço do ISIS insuportável aos olhos dos ocidentais. 

A decapitação do jornalista americano James Foley, amplamente difundida em vídeo de uma violência chocante, pode ser um «turning point» neste enorme problema. Uma espécie de «abate do avião da Malásia» para as posições russas na Ucrânia, versão ISIS no Iraque e na Síria. 

Se parte da opinião pública americana se revia numa visão de «containment» da administração Obama, a urgência do «regresso», não com tropas no terreno mas ações militares cada vez mais agressivas, passou a ser dominante. 

John McCain, adversário de Obama nas eleições de 2008, não se tem cansado, nos últimos dias, em pressionar o Presidente a agir de forma mais dura contra o ISIS e a alargar o seu raio de ação à Síria. 

As chefias militares têm, de forma mais matizada, mostrado sinais de estarem prontas para isso. A leitura do general Martin Dempsey aponta para vantagens identificadas em travar o ISIS pela via dos bombardeamentos. 

Ed Rogers, no Washington Post, postula: «Em política, a regra é 'quando estás em apuros, cria alguma agitação'. Embora o presidente tenha sido hesitante em usar a força, ação determinada no Médio Oriente, depois da execução nojenta do jornalista James Foley é um grande motivo para mostrar uma posição firme. O presidente pode ¿ e deve ¿ aproveitar o momento; mas este momento, como todos os momentos nos dias que correm, é perigoso e incerto».

Os EUA estão, pois, de regresso, e em força, à arena iraquiana. E serão obrigados a entrar, cada vez mais, com armas e até homens, no atoleiro sírio. 

A vontade política desta administração será pouco mais do que zero, mas há momentos em que o «soft power» (por muito melhor que seja em situações de aparente normalidade) não chega.

Nunca é prudente desvalorizar o lado imprevisível das relações internacionais. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Histórias da Casa Branca: não é a «Guerra Fria II», mas às vezes parece

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 1 DE AGOSTO DE 2014:


A Ucrânia e Gaza, dois casos cada vez mais graves e bicudos, quase nos estão a fazer esquecer que o Iraque está em escalada de desmembramento, na iminência de ficar sob controlo do ISIS.

O mundo está perigoso: cada crise parece mais ameaçadora que a anterior. 

Israel decide avançar para ofensiva terrestre em Gaza, o balanço de vítimas civis é enorme.

O cessar-fogo «de 72 horas» em Gaza, acordado por Israel e o Hamas, durou apenas duas horas, com os dois lados a acusarem-se mutuamente de bombardeamentos que causaram 40 mortos em manhã de suposta trégua.

Muitos vêem nesta escalada uma consequência da redução do poder americano e a emergência de novos atores regionais.

Em entrevista a Charlie Rose, na Bloomberg TV, Hillary Clinton comenta: «Preferia que Israel não invadisse Gaza. Negociei o último cessar-fogo, em novembro de 2012. Rockets «choviam» sobre território israelita. Tivemos um debate interno sobre se os EUA deviam envolver-se diretamente. Reuni com Netanyahu e expliquei porque é que os EUA achavam que Israel não devia fazer a invasão. Neste caso, há grandes diferenças. A liderança do Egito mudou. O tipo de ameaças e de armas mudou. O número de mísseis aumentou. Até são usados drones. Quando se anunciou o cessar-fogo, o Egito disse imediatamente disse sim, o Hamas disse não. Não é uma resposta fácil dizer se concordo com a invasão de Israel. Preferia que não estivesse a acontecer».

Kerry não tem sido o ás de trunfo de que esta crise precisava do ponto de vista diplomático. Apesar da atual administração americana ter mantido o apoio e financiamento a Israel, os israelitas não confiam em Obama.

O agravamento do número de rockets lançados pelo Hamas sobre território israelita, e o aumento dos túneis construídos (mais de 30, três milhões de dólares cada um), criaram um cenário insuportável por Telavive. 

A desproporção desde a escalada de violência (perto de 1500, quase todas civis, nos palestinianos; pouco mais de 60, quase todas militares, no campo israelita) coloca Israel numa situação muito delicada.

Netanyahu promete levar esta ofensiva até às últimas consequências: «Os túneis têm que ser todos destruídos», garante o PM israelita. Continua com apoio da opinião pública de Israel, que está simplesmente farta de levar com rockets e ter que fugir para os abrigos todos os dias.

Muitos israelitas lembram que, enquanto o Hamas parece usar a população como «escudo humano», Israel faz tudo para manter o número de vítimas civis quase nulo no seu território, graças aos sistemas de alerta e abrigo. 

No Leste da Ucrânia, Putin joga de forma perigosa. O agravar das sanções euro-americanas apenas levou o líder russo a mudar de estratégia, virando-se para mercados asiáticos.

Em artigo no «Público», Jorge Almeida Fernandes aponta: «Vladimir Putin está a cometer demasiados erros de avaliação, o que é perigoso. A tragédia do avião da Malásia mostrou os riscos da sua política ucraniana e da perda de controlo sobre os bandos «separatistas». A seguir, perdeu a oportunidade de contribuir para uma desescalada sem perder a face. Está agora confrontado com uma perspetiva de sanções mais duras, que poderão constituir uma séria ameaça para a economia russa».

O abate do avião mudou tudo na evolução da crise ucraniana. Os mortos do voo 17 endureceram a atitude ocidental, atenuaram as divergências entre a UE e Washington sobre as sanções a aplicar à Rússia.

A oligarquia russa, mesmo a que se situa demasiado próxima da corte de Putin, não deseja o agravar da tensão com o Ocidente. 

É uma questão de racionalidade: a elite endinheirada russa precisa dos europeus e dos americanos para avolumar riqueza.

Faz sentido que Putin prossiga o caminho do endurecimento? O debate parece já correr na sociedade russa, longe de ser democrática, mas com tensões internas que a crise ucraniana faz alastrar.

O Presidente Obama insiste em garantir que esta não é a «Cold War II». Mas às vezes parece.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Histórias da Casa Branca: como lidar com a indignação?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 29 DE JULHO 2014:

Durante décadas, habituámo-nos a um Mundo relativamente previsível.

Injusto, claro. Às vezes perigoso, também. Mas relativamente previsível.

Para uns, os EUA deviam ser censurados por quererem ser «o polícia do Mundo». Para outros, os americanos, imbuídos do poder indestrutível da sua superioridade militar, tinham a obrigação de «nos proteger». 

Os últimos anos mudaram radicalmente esse panorama. 

A crise financeira, os cortes no Pentágono e a mudança de política na Casa Branca (com a «contenção» e o «realismo» a dominarem as prioridades do Presidente Obama para a política externa) levaram a uma diminuição da influência americana. 

Rui Ramos, em artigo no «Observador», nota: «Descarregado o «fardo do homem branco», vivemos a última ilusão do imperialismo: julgámos que ainda tudo dependia de nós e que se portanto deixássemos o mundo em paz, o mundo nos deixaria em paz a nós. Na Holanda, nos últimos dias, houve quem pedisse o envio de tropas da NATO para o leste da Ucrânia. Percebe-se o desespero: depois de abaterem o avião, os separatistas russos pilharam os despojos e apoderam-se dos cadáveres, que usaram para se imporem como interlocutores internacionais. Como é óbvio, nunca houve a mínima chance de os líderes ocidentais fazerem mais do que produzir algumas citações para a comunicação social.(...)Nos últimos anos, julgámos que nos tínhamos tornado bons. Mas o mundo prepara-se para testar a nossa bondade. Mr. Kurz, no romance de Conrad, não resistiu. E a nós, que nos vai fazer o «horror»?»

Madeleine Albright, secretária de Estado no segundo mandato de Bill Clinton, comentou, em entrevista ao «Face The Nation» da CBS: «Há duas coisas verdadeiramente diferentes que estão a acontecer. E quando alguma coisa de relevante sucede no Mundo, o trabalho dos diplomatas é lidar com isso. Um dos grandes «gamechangers» foi o comportamento de Putin, perante a Crimeia e agora em toda a Ucrânia e uma atitude completamente diferente da Rússia. A outra é o que está a acontecer no Médio Oriente, em grande parte devido ao despertar árabe e também pela artificialidade pela fronteiras estabelecidas depois da I Grande Guerra Mundial». 

Para a diplomata americana, «há grandes mudanças a acontecer e muitos americanos estão ainda a tentar perceber qual a posição dos outros países em relação a isto.». «Muitos de nós sabíamos muito pouco sobre o Islão e certamente nem tínhamos uma ideia da diferença entre xiitas e sunitas», considerou Madeleine. «Então, há imensas coisas que precisam de ser compreendidas e explicadas. Para falar claro, neste momento o Mundo está uma grande confusão». 

A posição da administração americana em relação ao conflito israelo-palestiniano está longe de gerar consenso interno nos EUA. 

Uma parte da direita continua a acusar Obama e Kerry de colocarem o Hamas e Israel em plano de igualdade, deixando a segurança israelita em risco, e que isso estará na base da escalada de violência dos últimos dias. 

«Tudo isto resulta de falta de empenhamento e de abandono americano. Quando vemos o que acontece quando a América se empenha, devemos perguntar porque é que isto não está a acontecer agora. Vejam a cena em torno do envolvimento de Kerry na questão Israel/Gaza. Ele decide que tem que ir lá, os israelitas não o convidaram. Os egípcios não o quiseram lá. E ele disse que tinha um plano de paz que era uma espécie de plano construído com base no que os egípcios já tinham. Não tinha nada. Subestimaram tudo isto», acusou Charles Krauthammer, comentador conservador, em declarações à FOX News.

«Acho que houve um jornal israelita de esquerda que disse que Kerry cavou um túnel debaixo do plano de paz egípcio. O Egito queria um cessar-fogo que significasse recompensa zero caso o Hamas começasse esta guerra atacando civis, o que é um crime de guerra. E isso foi proposto antes desta ofensiva terrestre, o que diminuiria em muito o número de vítimas. Israel aceitou, o Hamas não», apontou Krauthammer.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Histórias da Casa Branca: o que esconderão os separatistas russos?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 21 DE JULHO DE 2014:

Na guerra, a primeira vítima é a verdade
Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga 

Putin diz que apoia as investigações, mas essas palavras devem ser correspondidas com atos

O fardo está agora do lado da Rússia: são eles que têm que travar os separatistas de esconderem provas

Ainda acredito numa solução negociada para o problema ucraniano, mas se a Rússia não mudar a sua estratégia, as sanções terão que continuar e podem ser aprofundadas
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA


No mínimo, a tragédia do abate do voo MH17 da Malaysian Airlines vai mudar o tom da crise ucraniana. No máximo, a data de 17 de julho de 2014 será mais recordada do que, por esta altura, temos ideia. 

Vamos por partes. 

Quatro dias depois da queda do Boeing 777 da Malaysian Airlines em solo ucraniano, mantêm-se as dúvidas sobre o essencial: quem e porquê realizou tão inacreditável atentado?

Mas as suspeitas de que terá sido um erro (e que quem disparou foram forças separatistas russos) são tão grandes que as ondas de choque políticas, diplomáticas e militares já se fizeram sentir.

O desaparecimento dos corpos do local da queda (colocado nu «comboio da morte») está documentado em fotos e foi confirmado no terreno por observadores da OSCE.

A máxima de Ésquilo, acima citada, tem sido particularmente poderosa nesta crise. As «rasantes» à verdade têm sido tantas que, quatro dias depois da tragédia, começa a ser difícil acreditar que a «verdade toda» seja mesmo apurada, um dia. 

Vladimir Putin tem tentado minimizar danos políticos e de imagem. 

Numa altura em que a Austrália, fortemente afetada com a tragédia, até já equaciona tentar banir a presença do presidente russo na próxima cimeira do G20, Putin tem rejeitado sempre qualquer responsabilidade do Kremlin e, num vídeo libertado para os media internacionais, até fez questão de mostrar que iniciou reunião com os seus conselheiros com «um minuto de silêncio em memória das vítimas», precedido de declaração em que se solidariza com as famílias das vítimas e com os governos dos países afetados diretamente pela tragédia. 

Mas o «contorno» russo não se fica por aqui. O ministro da Defesa de Moscovo lançou, nas últimas horas, nova «pista»: a de que um avião de guerra ucraniano esteve perto da rota do MH17, nessa fatídica tarde de 17 de julho, ao mesmo tempo que garantia que os radares russos não deteraram «qualquer míssil terra-ar».

A «contra-informação» parece clara, depois das autoridades norte-americanas terem já sido perentórias na acusação de que o avião foi mesmo abatido «por um míssil terra-ar».

Todo o argumentário usado pelos líderes políticos americanos nos últimos dias (Obama, Kerry, até a ex-secretátia de Estado e provável candidata presidencial, Hillary Clinton) assenta na firme convicção de que só os separatistas russos podem ter cometido aquele erro trágico, uma vez que o míssil que provavelmente abateu o avião, um «Buk» é fabrico russo. 

Em declaração prestada na Casa Branca, esta segunda-feira, Obama foi mais longe e questionou: «O que esconderão os separatistas russos». O Presidente norte-americano coloca do lado russo o «fardo de travar a ocultação de provas», reforçando que «as famílias das vítimas merecem conhecer a verdade». 

Perante posições tão diferentes, entre Washington e Moscovo, o mais provável é que, nos próximos dias, a crise ucraniana seja agravada depois depois da tragédia da queda do MH17. 

Por coincidência, horas antes da queda do avião, a via das sanções económicas contra a Rússia havia sido agravada por Washington. Só a Gazprom tinha sido, por enquanto, poupada. 

Mas a Administração Obama já lançou o «conselho» aos «amigos» europeus: convém começar a encontrar alternativas ao gás russo. 

O sinal não poderia ser mais esclarecedor. 

Histórias da Casa Branca: ponto de não retorno com a Rússia?

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 18 DE JULHO DE 2014: 

«É uma terrível tragédia»
Barack Obama, Presidente dos EUA

«Todos os indicadores apontam para que tenham sido os separatistas russos a abater o avião. Depois deste caso, os países europeus devem sentir-se encorajados a endurecer sanções contra a Rússia»
Hillary Clinton, ex-secretária de Estado norte-americana

«O que aconteceu é absolutamente chocante. Os responsáveis têm que pagar por isto»
David Cameron, PM britânico

«Esta tragédia não teria acontecido se houvesse paz naquela região ou se os combates no terreno não tivessem reatado. A responsabilidade, sem qualquer dúvida, é do governo do território onde aconteceu tragédia assustadora. Isto é absolutamente inaceitável»
Vladimir Putin, presidente russo


Uma tragédia inimaginável. Um caso gravíssimo que afeta relações entre estados, cumplicidades entre líderes.

Um recuo brutal num caminho que teria que ser feito de reaproximação entre Washington e Moscovo, depois do clima de divergências nos últimos meses, por causa da Crimeia e do agravar da tensão no Leste da Ucrânia.

Um avião comercial ser abatido nos céus da Europa por um míssil que, tudo indica, será de fabrico russo poderá ser algo de muito próximo de um «ponto de não retorno».

A queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines, em solo ucraniano, numa zona próxima da fronteira leste com a Rússia, em pleno cenário de conflito entre as forças armadas ucranianas e separatistas russos que proclamaram a «República Popular de Donetsk», gerou a maior tragédia da aviação civil dos últimos 18 anos, com a morte de 298 pessoas (283 passageiros e 15 tripulantes). 

No momento em que esta crónica é escrita, tinham sido apuradas as nacionalidades de 189 holandeses, 44 malaios, 27 australianos, 12 indonésios, nove britânicos, quatro alemães, quatro belgas, três filipinos, um canadiano, um neo-zelandês, um chinês (Hong Kong) e um israelita. 

Para lá da enorme tragédia humana, o caso implica fortes repercussões políticas e mexe com várias sensibilidades diplomáticas. 

Nos minutos que se seguiram à tragédia, começou o «passa culpas» entre Kiev e Moscovo. O governo ucraniano, primeiro através do seu ministro do Interior, mais tarde pelo primeiro-ministro da Ucrânia, foi claro em apontar responsabilidades aos rebeldes russos, a quem acusaram de terem cometido «um ato terrorista». 

Putin, que ao longo de todo o conflito no Leste da Ucrânia manteve a posição de demarcação com os separatistas que combatem as autoridades ucranianas (apesar dos rebeldes serem, grande parte deles, antigos elementos das forças armadas russas), responsabilizou o governo de Kiev por esta «tragédia assustadora». 

Washington reagiu de forma crítica para com Moscovo. Obama, no Delaware, preferiu não apontar claramente o dedo a Putin, mas lembrou tratar-se de «uma grande tragédia». Enquanto isso, os serviços secretos norte-americanos libertavam a indicação de que haveria mesmo dados a apontar para que um míssil terra-ar tivesse sido a causa da queda do voo MH17.

O dado reforçava a acusação de que pudesse ter sido um míssil de fabrico russo, material que supostamente estará na posse dos rebeldes russos. De Moscovo, para lá da recusa dessa acusação, vinham também indicações de chefes militares, apontando para que as forças armadas ucranianas também possuam mísseis «Buk». 

Nas redes sociais, mensagens postadas minutos depois da tragédia por elementos separatistas, nomeadamente por Igor Girkin (ou Igor Strelkov), auto-proclamado ministro da Defesa da República Popular de Donetsk, festejava o abate de um avião. 

Terá sido um engano? Terão os separatistas pensado ter abatido um «Antonov» ucraniano?

Os próximos dias serão decisivos para percebermos se ainda há caminho para trás na relação com a Rússia. Mas nada ficará como antes.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Histórias da Casa Branca: o novo atoleiro iraquiano

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 10 DE JULHO DE 2014


Há um novo atoleiro a ser formado no Iraque.

E o pior é que representa uma ameaça real bem superior à que, em 2003, levou a Administração Bush a avançar Bagdade para derrubar Saddam.

Há mais de um década, George W. Bush quis terminar o trabalho que o pai, no início dos anos 90, optou por deixar a meio, quando já tinha os marines à porta da capital iraquiana. 

Onze anos depois, Barack Obama pode ver-se obrigado a fazer regressar os olhos da América para a antiga Babilónia, já sem qualquer ilusão de «espalhar a democracia», mas pela necessidade premete de conter um «novo califado». 

Peter Mansoor, adjunto do general David Petraeus, elemento importante na estratégia de estabilização do Iraque em 2007/08, é muito claro: «É preciso refazer a aliança anti-Al Qaeda». 

Em entrevista ao Expresso, a 21 de junho passado, o coronel Mansoor já lançava o aviso: «Devemos orientar o nosso esforço para a diplomacia, discutindo com as elites políticas iraquianas e com os atores regionais, sejam estes o Irão, a Arábia Saudita, a Turquia ou a Jordânia. O caminho é político e não militar e um governo de unidade nacional no Iraque é prioritário». 

Uma visão que, por isso, caucionava a primeira leitura do Presidente Obama: «Um ataque militar sem enquadramento político não faz sentido e só serve para matar gente». 

A grande questão, no entanto, fica por resolver: como travar a ameaça do ISIS (EIIL, se quisermos usar o acrónimo), o Estado Islâmico do Iraque e do Levante? 

O poder militar do exército radical de Abu Bakr Al-Baghdadi não implicaria, de início, ameaça assim tão significativa: «O ISIS nunca poderá conquistar Bagadade. Além das forças armadas iraquianas, que defenderam a capital com muito mais energia do que o norte do país, o ISIS teria de lidar com dezenas de milhares de homens armados das milícias xiitas. Estamos a falar de uma cidade com sete milhões de habitantes, maior do que Estalinegrado, durante a II Guerra Mundial. Seria uma fortaleza. Em 2003/04 comandei uma brigada durante a invasão, ou seja, 3500 homens bem treinados, armados até aos dentes e, mesmo assim, tivemos dificuldade em controlar dois distritos de Bagdade. Imaginar militantes montados em «pick-ups» a tomar conta da cidade é fantasia», insiste o coronel Mansoor nessa entrevista. 

Perante esta visão das cúpulas militares americanas, fica mais fácil perceber a via escolhida por Obama para endereçar aquela que será, neste momento, a maior ameaça no quadro internacional (com a situação na Ucrânia e a tensão crescente Israel/Palestina em forte concorrência). 

Os Estados Unidos não irão voltar a enviar «boots on the ground» para o Iraque. Ponto. Mas intervêm de forma cada vez mais evidente: reforçando a oposição síria, interessada direta no combate aos «jihadistas» no Iraque.

Obama já pediu autorização ao Congresso para armas as forças moderadas de oposição a Assad, numa espécie de «jogada dois em um»: esse reforço posiciona os EUA como opositores ao regime de Damasco e aumenta os trunfos na travagem ao ISIS no Iraque. 

A América cometeu vários erros na gestão do Iraque na última década. O principal terá sido o desmantelamento das unidades de força e segurança iraquianas, que hoje teria papel fundamental na nova ameaça «jihadista». Fartos do governo de Al Maliki (xiita, com patrocínio indireto dos EUA e do Irão), muitos iraquianos são terreno fértil para recolha de apoios dos «jihadistas» sunitas. 

Mariano Aguirre, diretor do Norwegian Peacebuilding Resource Center, avisa, em entrevista ao DN: «O ISIS vai ser um terramoto na região do Médio Oriente. Nos últimos dez anos, estabeleceu uma série de alianças. O fenómeno é perigoso, pode levar à desintegração do Iraque, ter impacto forte no Líbano e na Jordânia».

Voltaremos em breve ao tema. Infelizmente.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Histórias da Casa Branca: Obama não é «o pior Presidente» mas pode ficar com a fama

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 3 DE JULHO DE 2014:

Será Barack Obama «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial»? Claro que não. 

Um levantamento pelos triunfos do Presidente, desde que tomou posse a 20 de janeiro 2009, desmonta essa ideia: aprovação da Reforma da Saúde, o maior programa federal desde o «New Deal» de Roosevelt e maior investimento numa área social desde a «Grande Sociedade» de Johnson; eliminação de Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda; redução drástica da noção de «risco de terrorismo» em solo americano; aposta em novas energias e crescimento dos EUA como potência energética.

Acima de tudo isto, como condição necessária para todas as outras conquistas, Obama ficará para a História como o Presidente que evitou que a América caísse numa Grande Depressão económica equivalente ou pior à dos anos 30, graças a fortes estímulos federais, e foi preparando a Economia americana para um crescimento lento, mas sustentado, e que se traduz, nos últimos cinco anos, na criação de nove milhões de empregos. 

Recuperar o que se perdeu é sempre mais custoso do que gozar os louros de algo que foi conquistado. Como em tudo na vida, também em política demora muito mais construir do que destruir. 

Obama beneficiou do desastre da parte final de Bush (2008) e da colagem artificial de Romney à ala direita dos republicanos (2012). 

Mas, chegado aos últimos dois anos e meio do seu segundo mandato, ainda não conseguiu resolver este dilema: como candidato presidencial, foi eficaz e brilhante, em dois momentos políticos bem diferentes (venceu claramente as corridas de 2008 e 2012), muito devido a uma máquina eleitoral especialmente bem montada; como Presidente, nunca conseguiu passar no teste da popularidade, sendo quase sempre visto pelos americanos como um líder impopular. 

Sondagem recente da Universidade de Quinnipiac aponta para que um terço dos inquiridos considerem Obama «o pior Presidente desde 1945». O atual inquilino da Casa Branca aparece mesmo em primeiro lugar nesse top indesejado, seguido do seu antecessor, George W. Bush, com 28%, e de Richard Nixon, o único Presidente destituído do cargo, com 13%.

É sempre preciso olhar para este tipo de sondagem com alguma perspetiva. 

Por um lado, é normal que as pessoas se lembrem mais de quem está a exercer o poder. E atendendo ao elevado grau de contestação de vários setores conservadores e ultraconservadores a este Presidente, esse tais 33% que apontam Obama como «o pior» nem será um valor assim tão elevado. De resto, a soma de Bush filho com Nixon, ambos republicanos, até é superior ao valor indicado para Obama. 

Seja como for, há alguns aspetos a apontar: Obama estará a pagar, essencialmente, por duas questões que possivelmente já não vai conseguir resolver, no seu «legado» como 44.º Presidente dos EUA. 

A primeira tem a ver com o modo exerce o poder de «líder do país mais poderoso do Mundo». A forma como tem lidado com assuntos como a Síria, a Ucrânia e agora também a nova ameaça iraquiana, optando por uma política de «contenção» e «dissuasão», deixando de longe as «boots on the ground», numa via de apoio a outros países e atores diretamente envolvidos nos focos de conflito, integra-se na sua visão do Mundo, mas colide com quem, na América, o acusa de estar a «diminuir a força dos EUA». 

A segunda é o «gridlock» com o Congresso. A paralisia legislativa que tem marcado os anos Obama está a adiar, ou mesmo anular, ideias fundamentais deste Presidente, como o «gun control» ou o apoio à classe média e aos mais desfavorecidos. 

O problema será mais do sistema da «contrapesos» da política americana, não tanto de uma visão errada do Presidente. Mas em política o que conta são as perceções. 

Não. Barack Obama está longe de ser «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial». Mas corre o risco de ficar com essa fama

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Histórias da Casa Branca: depois do choque, a reação republicana

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 20 DE JUNHO DE 2014:


Depois do choque, uma reação rápida. Veremos se as consequências políticas serão suficientes para travar males maiores. 

Primeiro, o choque: Eric Cantor, influente congressista da Virgínia, um dos líderes ideológicos da «resistência conservadora» aos anos Obama, entrou para a história política da América com um constrangedor «recorde negativo» de ter sido o primeiro líder de uma maioria partidária no Congresso que não conseguiu manter o seu próprio assento na Câmara dos Representantes. 

E nem sequer foi numa luta eleitoral com o «outro lado da barricada». 

Na verdade, Eric, peça importante na negociação no verão de 2011, com o Presidente, por um acordo que travasse ao último minuto o «default» das contas americanas, nem sequer chegou, desta vez, à eleição geral de novembro, para as midterms: caiu a meio do caminho, perdendo as primárias do seu próprio partido para David Brat, um representante da fação extremista, muito pouco identificado com as «regras de negociações» de Washington. 

Do ponto de vista político, a derrota de Eric Cantor foi vista, no Capitólio, assim como uma espécie de... «tsunami». Entre as cúpulas partidárias, seja do lado republicano mas mesmo do lado democrata, ninguém sequer imaginou que tal coisa podia acontecer: um líder de uma maioria perante a humilhação de não ser legitimado pelos seus próprios companheiros de partido no estado que representa em Washington.

Sentido o choque, as ondas do impacto ainda se fazem sentir, duas semanas depois de tão inesperado evento. Até os congressistas republicanos, que nestes anos Obama deram tantas provas de autismo político, perceberam que tinha aparecido aqui uma espécie de... cartão vermelho.

Muitos analistas no espaço mediático americano identificaram uma espécie de... fim do Partido Republicano, na sua formulação clássica e previsível, disposta a negociar com «o outro lado», aberta a «reach across the aisle» e a conversar com um Presidente democrata, mesmo quando os pontos de contato são quase nenhuns. 

Em poucos dias, a reação: mudança rápida das lideranças republicanas no Congresso. 

Kevin McCarthy, congressista eleito pela Califórnia (estado cosmopolita e liberal), é o novo líder da maioria na Câmara dos Representantes, e Steve Scalise, congressista republicano da Luisiana, passou a liderar a «majority whip».

Há uma preocupação de renovação, não tanto geracional (Eric Cantor é um político relativamente jovem), mas de modelo de congressista. A intenção, clara, é dar a vez a republicanos que ainda não estejam demasiado conotados com os «old habits» de Washington: ambos na casa dos 40 em idade, Steve só é congressista há seis anos, tendo ficado com o lugar que era de Bobby Jindal, quando o americano-indiano foi eleito governador daquele estado sulista; Kevin, de apenas 39 anos, ganhou o lugar de congressista pelo 23.º distrito da Califórnia em 2007.

O primeiro passo de McCarthy e Scalise será conseguir um estilo de liderança mais compatível com John Boehner, o «speaker» do Congresso, também ele congressista republicano, eleito pelo Ohio, e também ele com dificuldades crónicas, durante a era Obama, de fazer a ponte entre a guerra política com os democratas e a pressão da ala extremista da direita americana, vulgarmente conhecida como «Tea Party».

Nas intercalares de há quatro anos, essa ala obteve um número impressionante de assentos, passando assim a poder influenciar, muitas vezes desvirtuar, o jogo político no Capitólio.

Esta mudança de líderes terá sido a última tentativa do GOP de se precaver para um novo «tsunami» em novembro, que lhe poderia comprometer o ataque à Casa Branca em 2016. 

Será suficiente?

sábado, 14 de junho de 2014

Histórias da Casa Branca: dureza com Moscovo, clareza com Paris

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 9 DE JUNHO DE 2014:


Barack Obama apontou fronteiras claras na questão ucraniana. E assumiu-se como o elemento mais forte entre os líderes internacionais que pretendem travar a ameaça russa. 

De forma especialmente simbólica, Obama falou em Varsóvia, ao lado do seu homólogo polaco, em frente a poderosos F16, mostrando que a América está de regresso ao palco europeu no seu lado mais bélico. 

A mensagem ia direitinha para Moscovo, perante a insistência de Putin de se manter na Crimeia e perante a instabilidade em várias cidades do Leste da Ucrânia. 

A presença de Putin nas comemorações dos 70 anos do Dia D foi dado novo no clima de alta tensão que marcou os últimos meses, desde a jogada imprevista na Crimeia. 

Putin e Obama ainda não tinham estado cara a cara desde o estalar da crise, apesar de algumas conversas telefónicas, todas elas tensas e com trocas de acusações entre os líderes políticos de Moscovo e Washington. 

Na Normandia, um «estranho encontro», como lhe chamou Julie Pace, na Associated Press, não deixou claras as conclusões da breve conversa de um quarto de hora entre Vladimir e Barack. 

Vale a pena seguir o relato de Julie Pace na AP: «Obama era todo sorrisos à medida que os líderes se reuniam nos degraus que davam acesso do grande Chateau de Benouville para a foto de grupo. Tomou o seu lugar na fila da frente, ao lado da Raínha Isabel II e acenou e apertou a mão a vários líderes. Mas o Presidente dos EUA evitou sempre qualquer tipo de contato com Putin, quando o líder russo tomou o seu lugar, bem perto. Hollande, a rainha Margarida da Dinamarca e a Rainha Isabel de Inglaterra serviram de escudo de proteção entre Putin e Obama. Feita a foto, Obama esteve um pouco com a raínha de Inglaterra, enquanto Putin foi indo com Hollande, a caminho do almoço. Mas os dois pares ficaram quase lado a lado, com Obama tão perto de Putin que facilmente poderia até tocar-lhe nos ombros. Em vez disso, Obama continuou a conversa com a rainha de 88 anos. Mais que uma vez, ele diminuiu o passo, pondo alguma distância a Putin. Não havia «media» presentes na conversa Obama-Putin dentro do castelo, que assessores descrevem como «informal». 

Quase todos os sinais dos últimos dias confirmam uma via forte do Presidente dos EUA em relação ao problema no Leste da Europa: apoio ao novo presidente da Ucrânia, com fornecimento de armamento americano para Kiev e promessas de ajuda efetiva; reforço das sanções a Moscovo, dando a Putin «um prazo de três ou quatro semanas para recuar nas ameaças para que essas sanções não permaneçam».

Obama mantém discurso claro para com Putin: o alívio das sanções económicas depende, essencialmente, do reconhecimento de Moscovo do novo presidente ucraniano, eleito a 25 de maio. 

O novo presidente ucraniano vê a Crimeia «como espaço Ucrânia», mas terá direito a ter o embaixador russo em Kiev na sua tomada de posse. Mesmo que não o admita, Putin estará a dar sinais de desgaste pelo nível de sanções a que a Rússia tem estado sujeita.

E, por falar em sanções, os últimos dias marcaram também alguma tensão entre Washington e Paris pelo facto da França ter vendido material a Moscovo que se incluiria no pacote de restrições imposto à Rússia.

No caso BNP Paribas (banco francês condenado pela justiça americana a pagar multa pesadíssima de 16 mil milhões de dólares por ter emprestado dinheiro, entre 2001 e 2009, a países como Sudão, Irão e Cuba, que estão na «lista negra» das sanções), Hollande e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lauren Fabius, foram especialmente críticos dos EUA, queixando-se da «desproporção da coima».

O tema foi falado entre Obama e Hollanda, na Normandia, mas o Presidente dos EUA foi muito claro: «Não me meto em questões judiciais. Não telefono ao Departamento de Justiça».