sexta-feira, 17 de abril de 2015

Bill Schneider: «Se as eleições fossem hoje, Hillary Clinton ganharia»

ENTREVISTA COM BILL SCHNEIDER, PUBLICADA NO SITE TVI24 A 15 DE ABRIL DE 2015:

Bill Schneider, 70 anos, «senior fellow» da Third Way, importante «think tank» de Washington, professor de Public and International Affairs na George Mason University, é considerado pelos seus pares o «Aristóteles da análise política na América». 
  
Conhecido comentador da CNN (foi analista político sénior do canal de Atlanta entre 1990 e 2009, está agora na CNN Internacional), é também analista na Al Jazeera English, no Politico.com e na Reuters.com.  

O Washington Times elegeu-o o «maior especialista americano em eleições». Fez parte da equipa de Política da CNN que venceu um Emmy pela cobertura das «midterms» de 2006 e um Peabody pela cobertura das eleições de 2008. Tem outros prémios na área jornalística e académica e alguns livros publicados. 
  
Em dezembro de 2012, logo a seguir à reeleição de Obama, Bill Schneider concedeu uma entrevista ao site TVI24 em que defendia: «O sistema americano só funciona com grandes crises». 

Na entrevista que se segue, Schneider antecipa a corrida presidencial de 2016, aponta Hillary Clinton como favorita à sucessão de Barack Obama e identifica Jeb Bush como mais bem colocado para obter a nomeação republicana. 

Marco Rubio, Scott Walker e os anos Obama são outros temas analisados por um dos mais prestigiados analistas políticos dos EUA. 
  

Como comenta a forma como Hillary Clinton avançou? Foi o momento certo? 
  
Sim, acredito que foi. Os democratas estavam a começar a ficar ansiosos com o facto dos republicanos começarem a ter a atenção mediática. 
  
  
  
O vídeo «Getting started» teve o efeito desejado? Vai marcar uma mudança na comunicação política dos EUA? 

Não foi um anúncio em grande estilo, com grande aparato, tipo «shock and awe». Foi pessoal e «friendly». E não foi, de modo algum, sobre a candidata. Ela já é suficientemente conhecida. A intenção do video foi mostrar a sensibilidade de Hillary. A sua ligação ao mundo real. Um anúncio assim poderia não resultar com candidatos menos conhecidos. 
  
  
  
Hillary sobreviveu ao «mailgate», escândalo sobre a utilização de email pessoal em troca de correspondência ao serviço do Departamento de Estado?
 
 
Até agora tem sobrevivido, mas as pessoas estão consternadas com o seu comportamento em relação a esse tema. O caso reforça a crítica de que ela é demasiado opaca, secreta 
. 
  
  
Além do «mailgate», que outros problemas poderá vir a ter Hillary na sua candidatura? 
  
Os adversários dela estão a chamá-la de candidata do passado. Mas a primeira mulher Presidente não parece uma noção do passado. Depois, ela é uma figura divisiva. E tem que convencer os votantes de que poderá construir consensos. 
  

  
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«Se as eleições fossem hoje, Hillary Clinton ganharia»

«Jeb Bush é o mais provável nomeado republicano»
 

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O avanço de Hillary nas primárias democratas é irreversível? 
  
Nada em política é irreversível. Mas ela está numa posição mais forte para obter a nomeação do que qualquer não-incumbente (nota: candidato que não seja presidente em funções) de que há memória. 
  


Quem poderá desafiar esse favoritismo no lado democrata? 
  
A esquerda adoraria desafiá-la. Mas, neste momento pelo menos, não há «challenger» credível para enfrentar Hillary pela esquerda. 


  
Se as eleições fossem hoje, quem seria eleito Presidente? 
  
Hillary Clinton. 
  


  
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Marco Rubio pode ser a mudança geracional de que os republicanos necessitam? 
  
Os democratas é que precisam verdadeiramente de fazer essa mudança geracional. Rubio é um candidato de uma nova geração e um «campaigner» atrativo. Mas acredito que a sua vez virá no futuro. Talvez não seja para já. 
  
  

É possível juntar conservadorismo com minoria hispânica, como Rubio pretende fazer? 
  
A maioria dos hispânicos é democrata. Rubio poderia obter ganhos junto dos hispânicos mas não os conseguiria converter ao «conservadorismo». 

  
  
Jeb Bush é o mais provável nomeado republicano? 
  
É. Não é ainda o nomeado confirmado, mas é o mais provável neste momento. 
  
  

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Scott Walker pode desafiar Bush? 
  
Pode. Walker será, provavelmente, o «challenger» de Bush pela direita. 
  
  
  
Quem poderá aproveitar o não avanço de Mitt Romney? 
  
Jeb Bush, porque ambos são «favoritos» do «establishment» republicano. Sem Romney, Bush pode assim ficar como único candidato desse «establishment». 


Que temas poderão decidir a eleição presidencial de 2016? Imigração, Saúde, Economia, impostos, Estado Islâmico e Irão? 
  
É impossível de prever. O mais provável talvez seja a política externa – Irão e ISIS (Estado Islâmico). 
  


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Hillary poderá tentar aproveitar a herança de Obama? E em que áreas? 
  
Recuperação económica, reforma da saúde, alterações climáticas. A isso juntará o seu registo em «diversidade» e «inclusão». 
  

  


“Hillary Clinton é a super favorita” - entrevista ao site «Panorama»


O Panorama falou com Germano Almeida, autor da rubrica “Histórias da Casa Branca” no site da TVI24, para perceber quais as condicionantes que se adivinham na corrida de Hillary Clinton à Casa Branca.
Com que trunfos conta hoje Hillary Clinton que não tinha em 2008, quando perdeu as primárias para Obama?
Diria que o essencial tem a ver com não ter, desta vez, adversário directo. É certo que em 2007, quando se partiu para as primárias de 2008, Hillary tinha um bom avanço. Parecia, na altura, a nomeada quase inevitável. Mas 2008 teve um fenómeno – Barack Obama – que aparece muito raramente, pela forma meteórica como apareceu e ascendeu. Desta vez, jáhillaryObama não há tempo para que surja um outro candidato capaz de retirar a vitória à favorita. E com esta diferença: em 2008, Hillary partiu com 20/30 pontos de avanço para as primárias. Agora tem avanço de 40/50. Ora, uma diferença dessas não é reversível no espaço de um ano e pouco (o nomeado democrata definir-se-á no verão de 2016). Hillary não foi nomeada em 2008 mas obteve 18 milhões de votos. O problema dela foi apenas um: Barack Obama. Num cenário de normalidade, ela já tinha ganho em 2008. Parte para 2016 com vantagem nunca vista nesta fase (quase 50 pontos de avanço para as primárias e cerca de 10 pontos de vantagem contra todos os republicanos para a eleição geral). A menos que tenha um problema de saúde ou algo de absolutamente imprevisto, é a super favorita.
O facto de ser mulher pode ser uma mais valia para Hillary Clinton?
Ajuda a diferenciá-la. Não creio que seja o ponto decisivo na sua candidatura, mas pode ter efeitos benéficos, se ela os souber usar (em 2008 não soube completamente). Se em 2008 a história das eleições foi Barack Obama, por ter conseguido provar que era possível eleger um negro para a Casa Branca, Hillary vai querer fazer de 2016 a primeira eleição de uma mulher para a Casa Branca. Ela já tinha tentado fazer isso em 2008, mas o fenómeno Obama acabou por se sobrepor. Poderá ajudar Hillary o facto de ser mulher? Diria que sim, por duas razões: por esse efeito «novidade» (as eleições na América adoram novidades e detestam coisas previsíveis) e pelos problemas que isso coloca aos republicanos: sendo as mulheres maioria do eleitorado americano (cerca de 52 em cada 100 americanos que votam nas presidenciais são mulheres), atacar Hillary é, em última instância, atacar a única representante do leque de candidatos do género feminino…
Quais serão as maiores dificuldades que a candidata vai encontrar?
Uma eleição presidencial americana é um monte de dificuldades, que se prolonga ao longo de quase dois anos. Esta campanha parte a 20 meses da data da eleição, a de 2008 partiu ainda antes (Obama e Hillary apresentaram-se às primárias desse ano em… Janeiro de 2007). Portanto, diria que a primeira dificuldade é o tempo imensamente longo desta batalha, algo que só se consegue gerir com auto-controlo, resistência física e muito ânimo. Depois há três «sombras» no seu passado: Bengazhi, a maior mancha em percurso público de quatro décadas (quando era secretária de Estado, um embaixador americano foi morto na Líbia); mailgate (uso indevido do e-mail pessoal em exercício de funções); financiamento das fundações dos Clinton. Os republicanos vão tratar, nos próximos meses, de falar muito destas três coisas. Há ainda o factor idade: em 2008, os americanos preferiram um candidato extremamente jovem e inexperiente (Barack Obama) sobre um velho leão da política americana (John McCain). Se elegerem Hillary vão escolher uma candidata com quase 70 anos e que tem uma vida pública de mais de quatro décadas. Isso pode ser um problema.
O contexto político actual nos EUA é favorável a esta candidatura?
Hillary tem muito mais trunfos que problemas no actual contexto. Diria que o principal problema tem a ver com o princípio da alternância: depois de oito anos de presidente democrata, talvez fosse provável que para a Casa Branca, em 2016, fosse um republicano. Mas isso não é obrigatório: por exemplo, depois dos dois mandatos de Reagan, republicano, houve outro republicano, George Bush pai. E depois dos dois mandatos de Clinton, Gore esteve pertíssimo de ser eleito. No resto, Hillary quase só tem trunfos. Destacava quatro principais:
1- A “Maioria democrática é real”: A evolução demográfica favorece o nomeado presidencial democrata, pelo menos enquanto os republicanos continuarem a ter tantas dificuldades como os segmentos «negros» e «hispânicos». Os democratas venceram no voto popular em cinco das últimas seis eleições presidenciais (Gore teve mais 500 mil votos que W. Bush em 2000, mas perdeu no Colégio Eleitoral, Obama e Bill Clinton ganharam duas vezes o voto popular). Desde 1992, só George W. Bush em 2004 conseguiu ter mais votos, como nomeado republicano, que o nomeado democrata (John Kerry).
2 – O voto jovem: Barack Obama arrasou nesse segmento em 2008 e, embora tenha baixado um pouco, voltou a ganhar por larga margem em 2012. Nenhum republicano parece ter, para já, condições de conquistar o voto jovem.
3 – Notoriedade quase total: Hillary Clinton é conhecida de quase 100% dos americanos. Qualquer adversário (seja nas primárias democratas ou na eleição geral com o nomeado republicano) terá que fazer um caminho muito duro para chegar sequer perto. Mesmo com uma taxa de rejeição considerável (há milhões de americanos que não gostam dela), Hillary é muito popular. E isso, na hora do voto, conta incrivelmente.
4 – A herança económica: A presidência Obama colocou os EUA na mais baixa taxa de desemprego dos últimos sete anos e no maior crescimento económico da última década. Hillary poderá vir a colher os créditos desse desempenho. E ainda há, é claro, a «herança económica» do marido da candidata, o presidente Bill Clinton, que dirigiu a América nos prósperos anos 90 e deixou o país com um superavite significativo.
Quem poderá vir a ser o seu grande adversário?
Nas primárias democratas, acredito que dois ou três dos seguintes nomes serão candidatos: o vice-presidente Joe Biden (que poderá tentar ficar com parte da herança Obama); Martin O’Malley, governador do Maryland; Elizabeth Warren, senadora do Massachussets; Jim Webb, ex-senador da Virgínia; Bernie Sanders, senador do Vermont. Para a eleição geral, creio que o nomeado republicano será um destes três nomes: Jeb Bush, ex-governador da Florida e irmão e filho de ex-presidentes da República; Scott Walker, governador do Wisconsin; Marco Rubio, senador da Florida. Em condições normais, o duelo final será Hillary/Jeb, numa improvável repetição dum duelo Clinton/Bush (em 1992, foi esse o duelo, entre Bill Clinton e George Bush pai). Mas Scott Walker e Marco Rubio podem ter uma palavra a dizer e tirar a nomeação a Bush.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: Marco Rubio, latino e conservador

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 13 DE ABRIL DE 2015:


Na corrida presidencial americana, o «timing» é fundamental.

Marco Rubio avisou demasiado cedo que iria lançar a candidatura a 13 de abril: sim, hoje mesmo.

Hillary Clinton antecipou-se e teve o fim de semana de total cobertura mediática, entrando na corrida com o vídeo («Getting started») tremendamente eficaz.

O senador republicano da Florida vai tentar, ainda assim, ter o seu momento, quando anunciar, esta tarde, um «novo século americano», na Miami Freedom Tower

Marco Antonio Rubio, 44 anos, senador júnior da Florida desde janeiro de 2011, nascido em Miami a 28 de maio de 1971, formado em Direito, casado e pai de quatro filhos, é um dos produtos da direita americana da «era Obama».

Depois da derrota de McCain em 2008, e sobretudo depois da derrota de Romney em 2012, o Partido Republicano olhou para jovens valores que pudessem estar a despontar.

Os seus pais, cubanos, emigraram para os EUA nos anos 50, tendo adquirido a nacionalidade norte-americana só duas décadas depois. Marco personifica, assim, o «sonho americano», agarrado à custa de sofrimento dos pais, mas também de muitas oportunidades.

A história repete-se em muitas narrativas políticas na América: o resto depende da interpretação. Ora, se para a visão de Barack Obama, por exemplo, o sonho americano depende também dum poder federal que o torne possível, para Marco Rubio esse sonho funda-se na ideia de Liberdade em todos os níveis, o que implica um estado que não se meta muito nos negócios e nos impostos.

O «novo século americano»

Latino e conservador, Marco Rubio funda o seu discurso no livre negócio, em gerar emprego pela via dos incentivos por baixos impostos, mas consegue ter a «nuance» (e aí é um pouco mais moderado que outros «tea party darlings») de falar de soluções fiscais para a classe média e de não rejeitar os programas sociais.

Rubio foi-se destacando como o elemento mais promissor da «nova geração republicana», desde que, em novembro de 2010, obteve quase 50% dos votos na eleição para o Senado, para a vaga de Mel Martinez, como nomeado republicano (ganhou a nomeação a Charlie Christ, então governador, e que acabaria por concorrer como independente).

Pela juventude (chegou a senador antes dos 40 anos), pelo «background» familiar (é filho de cubanos, sendo uma espécie de campeão da comunidade hispânica da Florida, conservadora e católica), por ser ao mesmo tempo um «Tea Party darling» e alguém com propostas na área económica que se enquadram num republicanismo mais clássico.

Nas sondagens, aparece bem atrás de Jeb Bush e Scott Walker (neste momento os dois pré-candidatos mais viáveis), mas mostra credenciais mais sólidas do que Ted Cruz, Rand Paul ou Mike Huckabee (e muito acima de outros possíveis candidatos de direita, como Rick Santorum, Rick Perry ou Ben Carson). E está também à frente de Chris Christie, o governador da Nova Jérsia (que parece estar com problemas para arrancar).

O fator Romney e a luta com Jeb na Florida

Marco Rubio não é o favorito à nomeação, mas tem legitimidade para sonhar com ela.

Tem «media appeal» (muito mais que os dois republicanos já oficialmente declarados, Paul e Cruz), tem uma base de financiadores apetrechada e pode ser o principal, beneficiários da não comparência de Mitt Romney, o nomeado republicano de 2012.

A relação pessoal de Rubio com Romney foi intensificada nos últimos anos. Marco pode vir a herdar boa parte da equipa de assessores, conselheiros e (mais importante ainda...) financiadores de Romney 2012.

Não é coisa pouca: perante a máquina Jeb Bush, e perante um Scott Walker que começou a correr por fora mas está forte nos estados de arranque, Marco Rubio precisa de uma estrutura forte para se lançar, a sério, na discussão da nomeação.

A Florida pode, assim, ser o terreno decisivo da batalha republicana: Marco ou Jeb, quem dominará o «sunshine state»?

Até lá, os «early states» (Iowa, New Hampshire, Carolina do Sul), mostram um Scott Walker promissor, mas Rubio, mesmo não vencendo qualquer dos três, poderá ter três «vitórias» se ficar claramente à frente dos restantes candidatos mais à direita (Paul, Cruz, Huckabee, Santorum, Perry).

Marco Rubio quer personificar o «novo século americano». Quando o enunciar, ainda esta segunda, na Miami Freedom Tower, estará ainda bem atrás das possibilidades de Hillary Clinton ou Jeb Bush. Mas não é de excluir que seja ele a suceder a Obama, a 20 de janeiro de 2017.

Afinal de contas, há já quem garanta que «o primeiro Presidente latino» já nasceu.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»

Histórias da Casa Branca: Hillary Clinton a correr para a História


TEXTO PUBLICADO A 11 DE ABRIL DE 2015, NO SITE TVI24.IOL.PT:


A super favorita à nomeação democrata avança este domingo. Parte com vantagem nunca vista nesta fase. Mas não é a candidata perfeita: tem fantasmas no passado e sombras para o futuro

Por: Germano Almeida  Germano Almeida    |   11 de Abril às 16:08
Hillary Clinton avança amanhã, domingo, possivelmente pelo twitter, para uma segunda candidatura à presidência dos Estados Unidos da América.

Depois de dois anos e meio de rumores, sinais e fortes tendências (basicamente, desde a reeleição de Obama que se aponta a probabilidade de Hillary Clinton vir a ser candidata às primárias democratas, tornando-se, de imediato, a principal favorita à nomeação), a ex-secretária de Estado fez saber, por via de dois assessores, que escolheu o dia 12 de abril (talvez para se antecipar a Marco Rubio, senador republicano da Florida, que se apresenta na segunda) para tornar oficial o que, na prática, já quase todos sabiam.

Em 2008, Hillary falhou, por muito pouco, o comboio da História. Esteve pertíssimo de se tornar a primeira mulher a obter nomeação presidencial dum grande partido do sistema.
 
Fez quase tudo por isso: partiu muito à frente, fez campanha dura e exigente, somou 18 milhões de votos no total das primárias democratas. Só não conseguiu travar definitivamente o maior e mais bem organizado movimento social em torno de um candidato político alguma vez visto: Barack Obama 08’.
 
Mesmo assim, talvez já pensando em segunda tentativa presidencial, aceitou fazer parte do governo do rival que a derrotara («Team of Rivals») e foi, no State Department, uma chefe da diplomacia que se integrou quase em pleno na estratégia do primeiro mandato de Obama (as «nuances» de posições entre os dois, sobretudo sobre a Síria e Israel, só viriam depois de Hillary sair).

No final do seu mandato no Departamento de Estado, teve no episódio de Bengazhi (atentado que vitimou o então embaixador americano na Líbia) a maior mancha em percurso político, cívico e público de mais de quatro décadas.
 
Foi mulher de governador de estado, Primeira Dama dos EUA, senadora por Nova Iorque, segunda classificada nas primárias democratas de 2008 e secretária de Estado.
 
Formada em Wellesley, em Ciências Políticas, e em Yale, em Direito, foi sempre aluna exemplar e mereceu a distinção, muito importante no imaginário académico norte-americano, de fazer o «commencement speach» em Wellesley.

De jovem republicana a democrata de referência
 
Nascida a 26 de outubro de 1947 no Edgewater Hospital, em Chicago, Illinois, filha de Dorothy Howell, dona de casa, e Hugh Rodham, pequeno empresário da área têxtil, Hillary Diane Rodham terá dois irmãos mais novos: Hugh e Tony.
 
Longe de saber, é claro, que viria a tornar-se a primeira mulher de Presidente dos EUA nascida após a II Guerra Mundial e terceira mulher a chefiar a diplomacia norte-americana.
 
Cresceu em ambiente republicano, por influência do pai. Hillary escreve no seu primeiro livro de memórias, «Living History»: «Não nasci democrata».
 
Depois de infância tranquila, em família conservadora, desde cedo se destaca como aluna aplicada e brilhante na Maine East High School, quase sempre no quadro de honra. Gostava também de desporto, especialmente natação e beisebol. Nas férias escolares, costumava fazer «babysitting» com filhos de mexicanos que trabalhavam na zona de Chicago.

Aos 13 anos, escreveu carta à NASA, mostrando interesse em coloborar para a agência espacial americana e recebeu como resposta: «We don’t take girls» (Não aceitamos raparigas).

O seu primeiro grande envolvimento na política, ainda do lado republicano, foi com a campanha pelo candidato republicano Barry Goldwater, por influência do professor de história do nono ano, também ele ativo republicano, que a levou à leitura da obra de Goldwater, «Conscience of a Conservative» (Consciência de um Conservador), livro que inspirou Hillary para a escrita de ensaio sobre o movimento conservador americano, tornando-se numa «Goldwater Girl».
 
A viragem de republicana a democrata não foi imediata: teve a ver com uma consciência progressiva que foi ganhando, relacionada com uma leitura sobre como cada partido olhava para os direitos civis.
 
Em 1968, ainda vai à Convenção Republicana de Miami, Florida, que viria a confirmar a nomeação presidencial de Richard Nixon, envolvida na campanha do então governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller (que foi o segundo mais votado, atrás de Nixon e à frente de Ronald Reagan e tinha George Romney, pai de Mitt Romney, como candidato a vice-presidente).

O Arkansas, a Casa Branca, o Senado e o Departamento de Estado
 
Em 1975, já democrata, casa-se com Bill Clinton. Cinco anos depois, em 1980, terá a sua única filha, Chelsea.
 
O casamento com Bill é registo decisivo para perceber a evolução da vida pública e política de Hillary: foi mulher de um dos mais jovens governadores de estado e também um dos mais jovens presidentes da história da América.

Mas desde cedo Hillary marcou território: nunca quis «ficar em casa a fazer bolinhos» (a expressão é dela) e assumiu temas como os direitos das mulheres, das crianças, dos trabalhadores e dos utilizadores dos cuidados de saúde como combates de uma vida (no plano político e na atividade profissional, como advogada).

Os anos 80 e inícios de 90 foram passados no Arkansas; o resto da década de 90 na Casa Branca, na sua «Hillarylândia», com agenda e funcionários independentes do marido-Presidente; a primeira década dos anos 2000 no Senado e a tentar obter a nomeação democrata. Os anos mais recentes na Administração Obama e, é claro, a preparar a segunda investida à Casa Branca.
 
Um currículo potencialmente imbatível

Resiliente, determinada, ultrapassou a derrota inesperada nas primárias democratas de 2008 com inteligência, sendo capaz, em poucas semanas, de se tornar em forte apoiante de Obama, o que lhe valeu lugar de relevo como secretária de Estado.
 
Já com a campanha presidencial de 2016 no horizonte, anunciou atempadamente que não estaria disponível para segundo mandato no Departamento de Estado.
 
Sem a capacidade retórica de Barack Obama ou Bill Clinton, tem, no entanto, um tipo de discurso articulado e sempre bem fundamentado, capaz de gerar credibilidade mesmo junto dos seus opositores.
 
As sondagens até agora mostram que é fortíssima em segmentos como as mulheres, os negros e os latinos. Não tão forte nos jovens (com quem Obama foi campeão em 2008 e 2012).
 
A vantagem com que parte para a nomeação democrata (entre 40 a 55 pontos) torna-a vencedora antecipada, a menos que algo de inesperado aconteça.
 
Para a eleição geral, a história é diferente. Pode ter problemas na Florida, se o adversário for Jeb Bush ou Marco Rubio; no Midwest, se for Scott Walker; e no Sul, se a escolha dos republicanos recair num nome mais à direita, como Rand Paul (não é provável, mas não é impossível).

Não é uma candidata perfeita (o recente escândalo dos mails voltou a lembrar-nos disso). Tem um passado com alguns fantasmas (Bengazhi e Monica Lewinsky são outros) e algumas sombras no futuro (a idade avançada para quem concorre a primeiro mandato é uma delas, os problemas de saúde, com dois desmaios em pleno desempenho de funções, na parte final do mandato como secretária de Estado, é outro).

Mas o currículo pessoal e político de Hillary Rodham Clinton torna-a numa candidata potencialmente imbatível.

Aguentará 20 meses de gestão de favoritismo aparentemente tão claro?
 
Outros textos sobre Hillary Clinton já escritos em «Histórias da Casa Branca»:
 
Hillary no centro da tempestade

Hillary aguenta o embate
 
Hillary Clinton marca território
 
Hillary Clinton a adiar o inevitável
 
A «campanha sombra» de Hillary Clinton
 
Quase só trunfos para Hillary
 
Nos 67 anos de Hillary Rodham Clinton
 
A visão de Hillary

Hillary, trunfos e fantasmas

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: novas peças no xadrez do Médio Oriente

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 10 DE ABRIL DE 2015:

«Somos poderosos o suficiente para seremos capazes de testar os pressupostos deste acordo sem nos colocarmos em risco. E isso é algo que nem toda a gente parece entender. Vejamos o exemplo de Cuba. Para nós, testar a possibilidade de um entendimento leva a uma melhor situação para o povo cubano e não há assim tantos riscos para nós. É um país pequeno. Não nos ameaça no essencial dos nossos interesses, na nossa segurança. E se se verificar que não nos leva a grandes vantagens, podemos ajustar as nossas política. O mesmo acontece com o Irão, um país bem maior que Cuba, um país perigoso, que entrou em atividades que resultaram na morte de cidadãos americanos, mas a verdade é esta: o Irão tem um orçamento de defesa de 30 mil milhões de dólares. O nosso orçamento de defesa é de cerca de 600 mil milhões de dólares. O Irão sabe que não pode lutar contra nós. Sabe disso. Por isso, uma «Doutrina Obama» será: vamos procurar entendimentos, mas vamos preservar as nossas capacidades»  
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos, entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, após o acordo com o Irão 


Nos últimos anos, já perdemos a conta das vezes que ouvimos e lemos frases como: « O Médio Oriente está em polvorosa»; «Instabilidade no Médio Oriente»; « Atentados no Médio Oriente». 

O estado de «guerra permanente» passou a ser uma espécie de «novo normal». 

Mas a evolução dos acontecimentos nos meses mais recentes, sobretudo depois do verão de 2014, com a ascensão galopante do Estado Islâmico, agravou essa perceção. O prolongar da guerra na Síria, a desfragmentação do Iraque e, eventualmente, também do Iémen são novas ameaças que somam a noção de caos. 

O Médio Oriente, poço de conflitos crónicos (e um deles tendencialmente insolúvel, o israelo-palestiniano) -- mesmo sendo tema recorrente da agenda mediática internacional -- passou de ameaça relativa, algo «lá longe», para um caldeirão de problemas, numa escalada de instabilidade, mortos e violência. 

O Estado Islâmico 

O emergir do Estado Islâmico, com as suas práticas assustadoras na estratégia e bárbaras na concretização (decapitações, piloto jordano queimado vivo, ataques informáticos em larga escala, recrutamento de jovens combatentes via internet), foram o ponto de viragem. 

Levaram os EUA a liderar coligação internacional, com mais de 40 países, para travar a escalada da ameaça e fizeram com que as peças do complicado xadrez da região se movessem em direções aparentemente improváveis.  

Os americanos, que desde 2008 revelaram vontade eleitoral de sair militarmente do Iraque e do Afeganistão, haviam deixado a administração do Iraque pós-Saddam a um governo eleito democraticamente, liderado pelo xiita Nouri Al-Maliki, mas frágil na capacidade de fortalecer as instituições locais. 

De raiz sunita, o Estado Islâmico terá tido apoio inicial da Arábia Saudita e do Qatar, monarquias árabes que entretanto passaram a recear o crescimento inesperado e ameaçador do movimento liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi. 

Nasceu de dissidência com o «modus operandi» da Al Qaeda (progressivamente ultrapassada nos métodos e na liderança, na última década, pela eficácia do combate americano pós 9/11 na eliminação das principais figuras da organização terrorista que perpetrou o ataque às Torres Gémeas) e cresceu, com rapidez inusitada, conjugado pelo sentimento de vingança dos sunitas no Iraque (humilhados pela maioria xiita pós-Saddam) e pela noção de «ausência de poder» em vastas áreas do Iraque e da Síria. 

Xiitas «vs» Sunitas; Irão e Síria «vs» Arábia Saudita 

A grande divisão passou a ser, muito por culpa dos desastres do pós-guerra do Iraque 2003, entre o mundo xiita e o mundo sunita. 

Ora, duas das grandes potências regionais xiitas são a Síria de Assad (ainda que devassada por quatro anos de guerra civil destruidora) e o Irão. 

Um ano e meio depois de ter estado a um passo de bombardear a Síria, na sequência das suspeitas de ataque com armas químicas nos arredores de Damasco no final de agosto de 2013, os EUA veem-se não propriamente ao lado de Assad (a prioridade tem sido ajudar a oposição considerada «moderada»), mas com um inimigo comum: o Daesh (o «Estado Islâmico») sunita. 

E os EUA, que há mais de três décadas têm tido no Irão um dos seus principais focos de receio na região, passaram também a ter no regime de Teerão (desde junho de 2013 com um presidente mais moderado que era Ahmadinejad, Hassan Rohani) um aliado improvável.  

Chamar «aliado» ao Irão será talvez excessivo, mas olhando para o atual enquadramento da região, percebe-se que os pontos de contato entre Washington e Teerão são mais do que se poderia imaginar.

A recente recuperação de Tikrit, cidade iraquiana onde nasceu Saddam Hussein, ao Estado Islâmico, tendo sido obtida por combatentes xiitas, teve apoio direto do Irão e foi momento chave na estratégia dos EUA para travar o avanço do ISIS na região.  

Ao mesmo tempo, e numa daquelas ironias em que o Médio Oriente é fértil, e no caos atual está a chegar ao extremo, os EUA dão apoio indireto à coligação liderada pela Arábia Saudita (com outros países árabes sunitas) no Iémen, que combatem as milícias «houthi», xiitas e apoiadas pelo Irão, pelo controlo da capital, Sana. 

Isso mesmo: EUA e Irão de um lado e em campos opostos, no Iraque/Síria e no Iémen. Confusos? Bem-vindos ao Médio Oriente.

O nervosismo de Israel 

Os dados mudaram, pois, e muito,  no xadrez complexo da região. 

Se até há não muito tempo os EUA tinham na Casa Real Saudita o aliado mais sólido (com profundos negócios ligados ao petróleo a fortalecer esses laços), e viam no programa nuclear iraniano e no regime de Assad em Damasco os dois perigos mais ameaçadores, num ano e pouco, as peças moveram-se.

E ainda há, pelo meio, outro dois «players» relevantes a adicionar na equação: a Turquia, país com 99% de muçulmanos, liderada por um inimigo figadal de Assad (Erdogan); e Israel (com governo presidido pelo líder político com péssima relação pessoal e política com Barack Obama, Bibi Netanyahu).

Israel não vê com bons olhos esta aproximação EUA/Irão e não é por acaso que Obama, nas entrevistas que deu a seguir ao acordo de Lausanne, tenha repetido a estranheza por «haver quem duvide» que é bem maior a sua proximidade com Televive.

O cenário, que já era complicado, tornou-se um labirinto potencialmente interminável. E quando se entra num labirinto, nunca se sabe quando é que se consegue de lá sair. 

Obama: «Entendimento não significa risco»

É neste contexto que o acordo de Lausanne ganha ainda maior significado.

Na «tempestade perfeita» do caos do Médio Oriente, a única conjugação positiva que terá acontecido nos últimos anos foi mesma a vontade das lideranças politicas em Washington (Barack Obama) e Teerão (Rohani), apesar de alguns contrapesos de relevo nos dois lados (Senado republicano, nos EUA; o aiatola Ali Khameni, líder religioso supremo do regime iraniano, que olha para os americanos com muito mais desconfiança do que o tendencialmente moderado Rohani, líder de cariz político).

Obama foi o principal impulsionador político do acordo obtido à mesa das negociações por Kerry, Javad Zarif e ainda os chefes da diplomacia de Rússia, China e os restantes membros dos «5+1».

Em entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, o Presidente dos EUA deixou claro: prefere o envolvimento e a negociação ao «isolamento». E não teme que os acordos que fez com Cuba e o Irão ponham em risco a supremacia americana, que continua a sentir como evidente.

A visão do Presidente dos EUA, em traços gerais, aponta para um bom senso raro neste nível de negociação, sobretudo no Médio Oriente: aliviar sanções é obviamente bom para o Irão (houve festejos em Teerão, após o acordo de Lausanne), mas também pode trazer vantagens para outros países da região.

Por outro, há uma noção de que as restrições ao enriquecimento de urânio (mais de dois terços de atual capacidade iraniana suspensa e monitorizada por dez anos) resolve, na prática, o risco nuclear por um período largo de tempo, sendo que algumas restrições previstas têm duração até maior do que dez anos.

Kissinger e Schultz entre o elogio e a prudência

Em artigo conjunto publicado no Wall Street Journal, com o título «O acordo com o Irão e as suas consequências», os antigos secretários de Estado norte-americanos Henry Kissinger (administrações Nixon e Ford) e George Schultz (administração Reagan) apontam: «O cenário anunciado para um acordo sobre o programa nuclear iraniano tem o potencial de gerar um grande debate nacional sobre o tema. Os seus defensores exultam em relação às restrições nucleares que se impõem sobre o Irão. Os críticos questionam a capacidade de verificação dessas restrições e o seu impacto a longo prazo na estabilidade regional e mundial. O significado histórico do acordo e, na verdade, a sua sustentabilidade depende do modo como estas emoções podem ser conciliáveis».

Kissinger e Schultz identificam a dimensão histórica do que foi alcançado por Obama e Kerry, mas preferem ser cautelosos em relação ao alcance temporal do que foi conseguido. E avisam, prudentes, com uma certa preocupação pelo longo prazo: «Se o mundo cair em ainda maior turbulência, os Estados Unidos terão que desenvolver uma doutrina estratégica para a região. A estabilidade implica um papel ativo dos americanos. Para o Irão ser um membro válido da comunidade internacional, o pré-requisito é que aceite ser restringido nas suas capacidades desestabilizar o Médio Oriente e desafiar o ordem internacional».

«Até que seja atingido um conceito político claro na estratégia americana», observam Kissinger e Schultz, «o acordo nuclear projetado vai reforçar, mas não resolver, os grandes desafios na região. Mais do que garantir um certo alívio das responsabilidades americanas no Médio Oriente, a contenção nuclear deverá necessitar de ainda maior envolvimento na região -- e novos termos complexos. A História não fará o nosso trabalho por nós. Apenas ajuda aqueles que procuram ser ajudados».