TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 21 MAIO DE 2015:
Se nos democratas a corrida à nomeação para 2016 pode ser um pouco aborrecida (Hillary, tudo indica, já ganhou), no campo republicano a coisa está a animar.
Mesmo sem ter ainda sequer oficializado a sua candidatura, Jeb Bush começa a ser o ponto comum das discussões da direita americana.
E isso, para o irmão do 43.º Presidente dos EUA e filho do 41.º inquilino da Casa Branca, é bom – até nas situações em que está a ser criticado. Porque quer dizer que a opinião geral aponta para que Jebseja o candidato mais forte para desafiar Hillary na eleição geral.
Enquanto as sondagens vão confundindo mais do que esclarecendo (ora aparece Bush à frente, ora surge Rubio, Walker ou até Ben Carson e Mike Huckabee), as movimentações das diferentes candidaturas indicam o antigo governador da Florida como o alvo a abater.
É claro que alguns candidatos mais à direita (sobretudo Ted Cruz e Mike Huckabee) vão acelerando nos seus argumentos radicais que colocam a religião e uma leitura literal da Constituição americana como prioritárias na agenda das respetivas candidaturas, mas só terão estes meses de arranque para o fazer.
Quando se aproximarem as primeiras votações (Iowa e New Hampshire, daqui a oito meses), a irracionalidade política tende a diminuir.
Chegará a hora da «economia, estúpido», mas desta vez é provável que também apareça o… «foi o Iraque, estúpido».
Marco Rubio, animado pela subida pós-anúncio formal da sua candidatura, lançou o isco ao declarar: «Se soubesse que não havia armas de destruição maciça e fosse na altura presidente, não teria ordenado a invasão do Iraque».
Conseguida a descolagem com o pior do legado Bush, Rubio teve o cuidado de reduzir danos: «E acredito que o então presidente George W. Bush também não o teria feito».
A intenção do jovem senador da Florida foi clara: encostar Jeb ao constrangimento de ter que se posicionar em relação à decisão mais polémica e desastrada do irmão.
Jeb Bush, ainda não muito refeito do deslize linguístico («quando for candidato…»), tem hesitado na sua avaliação sobre o Iraque.
Perante a acusação de uma estudante universitária, durante uma sessão pública, de que o irmão «criara o ISIS», ao «ter enviado jovens soldados para a morte em nome do excecionalismo americano», Jeb Bush replicou: «Discordo respeitosamente disso. Quando saímos do Iraque, foi mantida segurança, a Al Qaeda foi afastada. E tínhamos um acordo que o atual presidente podia ter assinado que teria mantido dez mil soldados lá, menos dos que os que temos na Coreia. Esse acordo podia ter mantido a estabilidade que levaria ao progresso no Iraque. O resultado foi o oposto. Imediatamente, esse vazio foi preenchido».
O desvio de responsabilidades para os anos Obama é evidente: «Podemos reescreve a história do modo que quisermos. Mas a grande verdade é que estamos numa posição de muito maior risco agora, desde que os americanos saíram do Iraque».
O blogue que, desde novembro de 2008, lhe conta tudo o que acontece na política americana, com os olhos postos nos últimos dois anos da era Obama e na corrida às eleições presidenciais de 2016
sexta-feira, 22 de maio de 2015
sábado, 16 de maio de 2015
Histórias da Casa Branca: o fantasma de Bin Laden
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 16 DE MAIO DE 2015:
«O que é verdade nesta história não é novo e o que é novo não é verdade»
Reação oficial da Casa Branca ao artigo de Seymour Hersh na London Review of Books
«Sou repórter há muitos anos, tenho a noção das consequências do que escrevo. Acreditar que Bin Laden estava escondido tão perto do poder paquistanês é acreditar num conto de Lewis Carrol»
Seymour Hersh, à CNN
A «Operação Geronimo», que em maio de 2011 concretizou a eliminação de Osama Bin Laden, inimigo número 1 dos EUA desde o 11 de Setembro de 2001, foi apresentada como um dos melhores momentos do primeiro mandato presidencial de Barack Obama e jogada como trunfo para a reeleição em 2012.
Visto durante muito tempo como líder «fraco e hesitante» em política externa, Obama teve na eliminação de Bin Laden a jogada ideal para demonstrar força, decisão e liderança no momento mais arriscado.
A noção de que, com os republicanos, a América estaria mais segura deixou de ser um argumento claro e isso contou muito na forma como Obama bateu Romney, em novembro de 2012.
Mas… será que tudo o que foi revelado na altura corresponde à verdade?
Osama Bin Laden foi apanhado e morto numa vivenda que se situava muito perto de um complexo militar paquistanês em Abbotabad, algo que desde logo gerou desconforto entre Washington e as lideranças políticas e militares de Islamabade.
Seria mesmo verdade que o homem mais procurado do Mundo estava escondido sem o conhecimento dos paquistaneses? E que eles não tiveram intervenção direta na operação tão bem sucedida dos Navy Seal em noite escura?
Seymour Hersh, prémio Pulitzer, jornalista de investigação que publicou histórias muito incómodas para as versões oficiais em casos como os crimes de Abu Ghraib, publicou longo artigo no jornal «London Review of Books», no qual acusa a Administração Obama de criar uma «história alternativa na guerra ao terrorismo».
A narrativa de Hersh baseia-se essencialmente em duas fontes (ambas não reveladas) e num pressuposto de base: a Administração Obama mentiu em quase tudo no que nos contou sobre a eliminação de Bin Laden.
«O que é verdade? Que o Presidente Obama ordenou a operação, que os Navy Seals a concretizaram e mataram Bin Laden. Tudo o resto é mentira», atirou Seymour Hersh na entrevista que deu a Chris Cuomo, na CNN, após a publicação do polémico artigo.
Com ou sem o Paquistão?
O Presidente dos EUA falou numa «operação exclusivamente americana», mas Hersh garante que esta só foi possível com o envolvimento das chefias militares paquistanesas.
O jornalista vai mais longe e garante que Bin Laden estava doente e preso pelos paquistaneses, quando foi morto pela equipa Navy Seal.
«Sou repórter há muitos anos, tenho a noção das consequências do que escrevo. Acreditar que Bin Laden estava
escondido tão perto do poder paquistanês é acreditar num conto de Lewis Carrol», acusou Hersh na CNN, em entrevista a Chris Cuomo.
Hersh cita dois generais paquistaneses em «on», um deles referindo «you got the story» e uma «major U.S. source» para garantir que a Administração Obama cooperou com os serviços de informação paquistaneses para matar Bin Laden e que o «chief of staff» do exército paquistanês e diretor geral dos serviços de inteligência do Paquistão «sabiam da operação».
O jornalista está, ainda, convicto de que o «plano A» da Administração Obama seria anunciar alguns dias depois da morte de Bin Laden que um drone lançado para zonas de talibãs «algures no Waziristão, numa «no man land» entre o Paquistão e o Afeganistão, tivesse matado um tipo alto que, após análise de fotografias tiradas, se comprovasse ser Bin Laden».
«Esse era o plano A», insistiu Hersh. Mas o Presidente decidiu mudá-lo, anunciando nessa noite ao público que o tínhamos apanhado e morto. Talvez por interesses políticos, não sei».
«Demasiadas imprecisões»
Numa primeira reação, o porta-voz adjunto do Conselho de Segurança da Casa Branca, Ned Price, assegurou em comunicado que a história tem «demasiadas imprecisões e afirmações sem fundamento».
«A noção de que a operação que acabou com a vida de Osama bin Laden foi outra coisa que não uma missão unilateral dos EUA é evidentemente falsa», insistiu o porta-voz.
«Temos sido parceiros do Paquistão na luta contra a Al Qaeda e o terrorismo, mas esta operação foi exclusivamente americana», insistiu Price.
Mais tarde, num briefing, Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, foi ainda mais claro: «O que é verdade nesta história não é novo e o que é novo não é verdade».
Na verdade, não foi só a Casa Branca e a estrutura oficial da liderança política em Washington que desmontaram a versão de Seymour Hersh.
Peter Bergen, especialista em segurança nacional da CNN, ele próprio autor de investigação sobre a operação que eliminou Bin Laden, comentou: «A versão de Hersh tem muitas inconsistências. Baseia-se em duas fontes anónimas. Visitei a casa onde Bin Laden estava escondido e vi que estava cravejada de bolas. Houve tiroteio. A posição do Paquistão é também difícil de acreditar e cai pelo senso comum».
A versão de Hillary
No livro «Escolhas difíceis», recentemente publicado em versão portuguesa, a agora candidata presidencial e então secretária de Estado, Hillary Clinton, contou a sua versão.
E não regateou elogios à coragem e capacidade de liderança de Barack Obama no momento mais delicado da sua presidência até agora.
«Manter a América segura, forte e próspera implica um vasto conjunto de escolhas, muitas delas vêm com informações incompletas e interesses em conflito. Talvez o exemplo mais conhecido dos meus quatro anos como secretária de Estado foi a ordem do Presidente Obama de enviar uma equipa da Navy Seal numa noite sem luar, para trazer Osama Bin Laden à justiça. Os principais conselheiros do Presidente estavam divididos. Os dados dos serviços de inteligência eram fortes, mas longe de serem definitivos. Os riscos de falhanço eram significativos. Muito estava em jogo na segurança nacional americana, a nossa batalha contra a Al Qaeda e a nossa relação com o Paquistão. Acima de tudo, as vidas daqueles bravos Navy Seal e pilotos de helicópteros faziam equilibrar a balança. Foi a mais corajosa demonstração de liderança que alguma vez vi».
Podemos não ter ficado a saber toda a verdade sobre a operação que eliminou Osama bin Laden. Mas que se tratou de um dos momentos mais importantes do primeiro mandato presidencial de Obama, disso não ficarão grandes dúvidas.
sábado, 9 de maio de 2015
Histórias da Casa Branca: um ano e meio para a grande eleição
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 8 DE MAIO DE 2015:
Um ano e meio é, num cenário normal, um tempo imenso, tendo em conta a intensidade com que, nos dias de hoje, as coisas acontecem.
Mas a corrida presidencial norte-americana não se enquadra num «cenário normal». Para muitos, trata-se mesmo da «mais louca corrida do Mundo».
Ora, falta hoje (8 de maio de 2015) exatamente um ano e meio para as eleições que, a 8 de novembro de 2016, vão definir quem será o sucessor (ou sucessora…) de Barack Obama na Casa Branca.
O último mês foram particularmente animados nessa corrida tão especial.
Do lado democrata, confirmaram Hillary Clinton com um estatuto muito especial: nunca um candidato não incumbente (presidente em funções) gozou de avanço tão gigantesco nesta fase.
Perante vantagens de 40, 50 ou até 60 pontos nas sondagens para as primárias democratas, a ex-secretária de Estado decidiu assumir essa condição de «presumível nomeada» e avançou, como primeira e destacada candidata pelo Partido Democrata, a 13 de abril, com um vídeo muito elogiado, de dois minutos e 18 segundos, com o título «Getting started».
As sondagens posteriores ao anúncio reforçaram cenário de nomeação fácil para Hillary e nem as sombras que a candidata carrega do passado («mailgate», Bengasi, financiamentos das fundações dos Clinton) parecem pôr em risco essa vantagem.
Os democratas para lá de Hillary
Possíveis candidatos «do establishment democrata», como Joe Biden, vice-presidente dos EUA, ou Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque, só avançariam no caso de algo falhar com Hillary – e aí teriam hipóteses de nomeação.
No atual quadro, o essencial do legado de Obama e agenda «core» dos democratas (reforma fiscal, minorias, recuperação económica) está a ser completamente absorvida pela campanha Hillary 2016, que até está a tentar somar bandeiras como os direitos das mulheres e das crianças.
Resta, do lado democrata, uma tentativa de captar os descontentes da esquerda que considera que Obama devia ter ido mais longe na «guerra ideológica» com os republicanos e até nos procedimentos no Congresso.
Uma parte dessa sensibilidade poderá apoiar o senador independente Bernie Sanders, do Vermont, um socialista que vota com a bancada democrata mas exige mais músculo na área da regulação financeira e do sistema bancário.
Sanders surge com 5/8 pontos nas sondagens. Mas se Elizabeth Warren, senadora do Massachussets muito apreciada pela forma frontal e direta como fala de temas como a desigualdade e o poder das grandes corporações.
Jeb ameaçado por Walker e Rubio
No campo republicano, Jeb Bush surgiu, nos últimos meses, como o pretendente mais viável, sobretudo numa perspetiva de disputar com Hillary Clinton a eleição geral.
Mas a corrida está muito aberta na direita americana: Marco Rubio, senador júnior da Florida, ganhou um «boost» depois do anúncio na Freedom Tower, em Miami, e lidera, neste momento, as sondagens (embora por pequena margem).
Mas Scott Walker, governador do Wisconsin, está a apostar bem nos estados de arranque (Iowa e New Hampshire), e dá mostras de poder disputar a nomeação até ao fim. Se ganhar vantagem até à Florida, e sobreviver ao duelo Bush/Rubio no «sunshine state», pode criar grande surpresa e terminar coroado pelos delegados republicanos na convenção.
Já na corrida, mas aparentemente sem hipóteses de nomeação, estão Rand Paul (senador do Kentucky), Carly Fiorina (ex-CEO da Hewlett Packard), Mike Huckabee (ex-governador do Arkansas, pastor batista e segundo classificado nas primárias de 2008), Ted Cruz (senador júnior do Texas) e Ben Carson (neurocirurgião negro).
A oito meses das primárias
A época de primárias começa a 1 de fevereiro de 2016, com o «caucus» democrata do Iowa, e no dia seguinte, 2 de fevereiro, para os republicanos.
Seguem-se o New Hampshire, a 9 de fevereiro (primeira por votação tradicional) e a Carolina do Sul, a 20 de fevereiro.
As primárias terminam em junho, ficando a investidura dos candidatos democrata e republicano para depois do verão.
A grande eleição, essa, será a 8 de novembro de 2016 - daqui a precisamente um ano e meio.
Um ano e meio é, num cenário normal, um tempo imenso, tendo em conta a intensidade com que, nos dias de hoje, as coisas acontecem.
Mas a corrida presidencial norte-americana não se enquadra num «cenário normal». Para muitos, trata-se mesmo da «mais louca corrida do Mundo».
Ora, falta hoje (8 de maio de 2015) exatamente um ano e meio para as eleições que, a 8 de novembro de 2016, vão definir quem será o sucessor (ou sucessora…) de Barack Obama na Casa Branca.
O último mês foram particularmente animados nessa corrida tão especial.
Do lado democrata, confirmaram Hillary Clinton com um estatuto muito especial: nunca um candidato não incumbente (presidente em funções) gozou de avanço tão gigantesco nesta fase.
Perante vantagens de 40, 50 ou até 60 pontos nas sondagens para as primárias democratas, a ex-secretária de Estado decidiu assumir essa condição de «presumível nomeada» e avançou, como primeira e destacada candidata pelo Partido Democrata, a 13 de abril, com um vídeo muito elogiado, de dois minutos e 18 segundos, com o título «Getting started».
As sondagens posteriores ao anúncio reforçaram cenário de nomeação fácil para Hillary e nem as sombras que a candidata carrega do passado («mailgate», Bengasi, financiamentos das fundações dos Clinton) parecem pôr em risco essa vantagem.
Os democratas para lá de Hillary
Possíveis candidatos «do establishment democrata», como Joe Biden, vice-presidente dos EUA, ou Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque, só avançariam no caso de algo falhar com Hillary – e aí teriam hipóteses de nomeação.
No atual quadro, o essencial do legado de Obama e agenda «core» dos democratas (reforma fiscal, minorias, recuperação económica) está a ser completamente absorvida pela campanha Hillary 2016, que até está a tentar somar bandeiras como os direitos das mulheres e das crianças.
Resta, do lado democrata, uma tentativa de captar os descontentes da esquerda que considera que Obama devia ter ido mais longe na «guerra ideológica» com os republicanos e até nos procedimentos no Congresso.
Uma parte dessa sensibilidade poderá apoiar o senador independente Bernie Sanders, do Vermont, um socialista que vota com a bancada democrata mas exige mais músculo na área da regulação financeira e do sistema bancário.
Sanders surge com 5/8 pontos nas sondagens. Mas se Elizabeth Warren, senadora do Massachussets muito apreciada pela forma frontal e direta como fala de temas como a desigualdade e o poder das grandes corporações.
Jeb ameaçado por Walker e Rubio
No campo republicano, Jeb Bush surgiu, nos últimos meses, como o pretendente mais viável, sobretudo numa perspetiva de disputar com Hillary Clinton a eleição geral.
Mas a corrida está muito aberta na direita americana: Marco Rubio, senador júnior da Florida, ganhou um «boost» depois do anúncio na Freedom Tower, em Miami, e lidera, neste momento, as sondagens (embora por pequena margem).
Mas Scott Walker, governador do Wisconsin, está a apostar bem nos estados de arranque (Iowa e New Hampshire), e dá mostras de poder disputar a nomeação até ao fim. Se ganhar vantagem até à Florida, e sobreviver ao duelo Bush/Rubio no «sunshine state», pode criar grande surpresa e terminar coroado pelos delegados republicanos na convenção.
Já na corrida, mas aparentemente sem hipóteses de nomeação, estão Rand Paul (senador do Kentucky), Carly Fiorina (ex-CEO da Hewlett Packard), Mike Huckabee (ex-governador do Arkansas, pastor batista e segundo classificado nas primárias de 2008), Ted Cruz (senador júnior do Texas) e Ben Carson (neurocirurgião negro).
A oito meses das primárias
A época de primárias começa a 1 de fevereiro de 2016, com o «caucus» democrata do Iowa, e no dia seguinte, 2 de fevereiro, para os republicanos.
Seguem-se o New Hampshire, a 9 de fevereiro (primeira por votação tradicional) e a Carolina do Sul, a 20 de fevereiro.
As primárias terminam em junho, ficando a investidura dos candidatos democrata e republicano para depois do verão.
A grande eleição, essa, será a 8 de novembro de 2016 - daqui a precisamente um ano e meio.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Histórias da Casa Branca: Mike Huckabee, o conservador sorridente
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT A 4 DE MAIO DE 2015:
Não é o favorito à nomeação republicana, mas também não é impossível que termine a corrida como o escolhido para defrontar Hillary na eleição geral.
Mike Huckabee, 59 anos, governador do Arkansas entre 1996 e 2007, pastor batista, casado há 41 anos com Janet e pai de três filhos, avança esta terça como candidato às primárias republicanas.
Conterrâneo de Bill Clinton (seu antecessor no cargo do governador do Arkansas, ambos nascidos em Hope), Huckabee é, no entanto, o oposto a nível político do marido da super favorita à nomeação democrata (ainda que ambos sejam também dois grandes apreciadores de música).
Muito conservador (é contra o aborto, contra quase todos os impostos e fala de Deus com uma obsessão assustadora), Mike Huckabee tem uma base de apoio ligada ao Tea Party.
Mas, ao contrário de outros políticos da direita americana, que nos últimos anos foram mostrando um tom demasiado agressivo e mesmo zangado, Mike tem uma imagem de marca: o seu sorriso e o seu bom humor.
Esse lado empático levou-o, até, a ter um programa com nome próprio na FOX, destacando-se como um dos faróis da opinião da da direita radical nos anos Obama.
Segundo classificado nas primárias republicanas de 2008, perdeu claramente para John McCain, mas conseguiu o feito de ter mais votos que Mitt Romney (que viria a obter a nomeação republicana quatro ano depois), pela persistência de ir até ao fim, recusando-se a dar apoio precoce ao candidato preferido pelos delegados.
Será o sexto nome a confirmar-se do lado republicano, depois de Ted Cruz (senador do Texas), Rand Paul (senador do Kentucky) e Marco Rubio (senador da Florida), que já avançaram nas últimas semanas, e ainda do neurocirurgião negro Ben Carson e da antiga CEO da Hewlett Packard, Carly Fiorina, que anunciaram esta segunda as respetivas candidaturas, embora não tenham hipóteses reais de obter a nomeação, por quase não terem experiência política de relevo.
Ben será o primeiro afro-americano a entrar na corrida republicana, Carly a primeira (e provavelmente única) mulher, perante as ausências esperadas de Michele Bachmann e Sarah Palin.
Já há dois cubano-americanos (Ted Cruz e Marco Rubio) e é possível que surja ainda um indiano-americano (Bobby Jindal, governador da Luisiana.
«A diversidade é positiva para o campo republicano», nota o estretaga Matt Mackowiak, citado pelo «The Hill», blogue político alojado ao Washington Post. «Mostra que é um partido mais vasto do que muitos dizem ser».
Do lado democrata estão já oficializadas as candidaturas de Hillary Clinton (super favorita à nomeação) e Bernie Sanders (senador independente do Vermont).
A corrida à sucessão de Barack Obama acelera, assim, a sua cadência: confirma-se cenário animado e imprevisível do lado republicano, com seis candidatos já no terreno, embora, curiosamente, três dos que têm mais esperanças de nomeação (Jeb Bush, Scott Walker e Chris Christie) não constem dessa lista.
A explicação pode estar na pura estratégia: no caso de Bush e Walker, porque têm os dados mais animadores nas sondagens, ainda nem sequer precisaram de declarar o que todos já perceberam ser garantido.
Enquanto isso, Scott vai marcando terreno perante Marco Rubio (para muitos, o seu grande rival no posicionamento final de principal «challenger» ao favoritismo de Bush) e Jeb já conseguiu perder 13 quilos nos últimos meses (e, sim, a imagem conta muito em eleições presidenciais nos EUA).
Já quanto a Chris Christie, os últimos meses foram tão conturbados, enquanto governador da Nova Jérsia, que Chris está à espera que o mau tempo passe – mas tudo indica que, algures em maio, o mais tardar em junho, também possa avançar.
E ainda é preciso ponderar as possíveis candidaturas de Rick Santorum (antigo senador da Pensilvânia, segundo classificado das primárias de 2012), Rick Perry (ex-governador do Texas) e o já referido Bobby Jindal (governador da Luisiana).
terça-feira, 28 de abril de 2015
Histórias da Casa Branca: o «sprint» final de Barack Obama
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 28 DE ABRIL DE 2015:
Enquanto a corrida presidencial para a sua sucessão vai aquecendo, Barack Obama está longe de ter vontade de desacelerar no cumprimento da agenda política do seu segundo mandato na Casa Branca.
A nomeação (recentemente confirmada no Senado com o voto dos 46 senadores democratas e ainda de dez republicanos) de Loretta Lynch para «attorney general» (primeira mulher negra a liderar o Departamento de Justiça) foi mais uma marca deixada pelo Presidente.
Quase desde o início do seu segundo mandato que se diz que «a era Obama está perto de acabar».
Essa ideia parecia ter tido, de resto, a sua estocada final quando, em novembro de 2014, os democratas levaram grande derrota, perdendo o controlo do Senado nas intercalares.
Mas uma análise do quadro geral mostra que Barack Obama tem já, nos seus seis anos e quatro meses de presidência, «achievements» que definirão o registo do seu legado: a recuperação económica sustentada (desemprego acima dos 10% no início da sua presidência, agora apenas nos 5.5%, depois de mais 60 meses seguidos de criação de postos de trabalho nos EUA); criação de sistema tendencialmente universal de cuidados de saúde (em lei ainda com implementação progressiva e que já permitiu o apoio de vários milhões de americanos); desanuviamento de tensões de longo prazo dos EUA com Cuba e Irão (acordos históricos com Castro e Rohani).
A estes dados, já consolidados, podemos ainda juntar a questão da Imigração, outro tema já assumido pelo Presidente (ao avançar para as medidas executivas unilaterais que impediram, ou pelo menos adiaram, a deportação de mais cinco milhões de ilegais).
No entanto, o problema da Imigração é de tal modo complexo e diverso nos EUA que será difícil, em contexto de forte maioria republicano no Congresso, que Obama consiga fazer muito mais para permitir melhores condições de enquadramento legal, que impeçam um cenário de deportação em massa.
O último quarto de oito anos no poder
A 19 meses de deixar a Casa Branca (as eleições serão a 8 de novembro de 2016, mas a tomada de posse do 45.º Presidente será só a 20 de janeiro de 2017), Obama vê ainda tempo suficiente para terminar o trabalho noutros temas que considera cruciais para a «plataforma» social e política que lhe deu duas grandes maiorias presidenciais.
Indicaria quatro grandes objetivos definidos pelo Presidente, a conseguir até 20 de janeiro de 2017: consolidar a Reforma Fiscal por que se bateu na reeleição; travar o Estado Islâmico; assinar acordos comerciais em grande escala (Pacific Trade Deal e TTIP EUA/Europa); impor visão sobre alterações climáticas.
A Reforma Fiscal será talvez (a par da Reforma da Saúde) a principal ideia de Barack Obama: dar melhores condições à classe média para prosperar e apoiar os mais desfavorecidos, baseando a arrecadação da receita na taxação dos «super ricos» (na expressão feliz de Warren Buffet).
O Estado Islâmico, não sendo apenas uma ameaça para os EUA, representa desafio novo na luta contra o terrorismo islâmico e deverá exigir, nos próximos meses, uma das decisões mais difíceis da presidência Obama (talvez só equiparável à decisão de aprovar a Operação Gerónimo, que redundaria na morte de Osama Bin Laden): enviar ou não tropas americanas para o terreno? Até agora, a promessa de não voltar a envolver soldados americanos em conflitos no estrangeiro tem prevalecido e é visto como visão correta, uma vez que um cenário de muitos americanos mortos pelos Estado Islâmico no Iraque e na Síria seria politicamente insustentável, neste momento.
Os acordos comerciais que estão a ser negociados com o Pacífico e com a Europa integram-se na visão de Obama de que a liderança americana é reforçada (e não diminuída) quando se abre ao exterior. Especialmente no caso do Pacific Trade Deal, as reservas da ala esquerda dos democratas, representada por Elizabeth Warren, podem complicar.
As alterações climáticas são outro grande ponto na visão Obama do que pretende fazer enquanto Presidente dos EUA.
Foi um dado inesperadamente relevante na reeleição (enquanto Romney cedia a quem, na direita, queria acabar com o FEMA, a violência inusitada do «Sandy» levou a resposta pronta e efetiva das autoridades federais, no apoio a quem tinha perdido tudo em estados como Nova Jérsia, Nova Iorque ou Connecticut) e mantém-se como tema chave nas intervenções de Obama.
Este vídeo, muito visto e comentado nos últimos dias, com o «anger translator» a dizer alto e bom som, no jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, o que Obama sentirá, mostra com humor refinado e inteligente, como o «negacionismo» de vários republicanos no Congresso pode levar o Presidente a reações entre o paternalismo e o desespero…
Desafios para o 45.º Presidente
Para lá destes quatro enormes objetivos, há muitos outros desafios que, certamente, não estarão acabados por janeiro de 2017, quando Obama ceder o lugar na Sala Oval a Hillary Clinton ou a umrepublicano: a ameaça russa (Putin estará à espera de ver como será o sucessor de Obama para voltar a criar instabilidade no Leste da Europa), a ascensão da China, a questão israelo-palestiniana (que não avançou como se chegou a acreditar durante os anos Obama), a consolidação da recuperação económica.
A atenção mediática estará cada vez mais virada, nos próximos meses, para a excitante corrida presidencial de 2016. Mas ainda é cedo para deixar de contar com a capacidade de criar surpresas do 44.º Presidente dos EUA.
Enquanto a corrida presidencial para a sua sucessão vai aquecendo, Barack Obama está longe de ter vontade de desacelerar no cumprimento da agenda política do seu segundo mandato na Casa Branca.
A nomeação (recentemente confirmada no Senado com o voto dos 46 senadores democratas e ainda de dez republicanos) de Loretta Lynch para «attorney general» (primeira mulher negra a liderar o Departamento de Justiça) foi mais uma marca deixada pelo Presidente.
Quase desde o início do seu segundo mandato que se diz que «a era Obama está perto de acabar».
Essa ideia parecia ter tido, de resto, a sua estocada final quando, em novembro de 2014, os democratas levaram grande derrota, perdendo o controlo do Senado nas intercalares.
Mas uma análise do quadro geral mostra que Barack Obama tem já, nos seus seis anos e quatro meses de presidência, «achievements» que definirão o registo do seu legado: a recuperação económica sustentada (desemprego acima dos 10% no início da sua presidência, agora apenas nos 5.5%, depois de mais 60 meses seguidos de criação de postos de trabalho nos EUA); criação de sistema tendencialmente universal de cuidados de saúde (em lei ainda com implementação progressiva e que já permitiu o apoio de vários milhões de americanos); desanuviamento de tensões de longo prazo dos EUA com Cuba e Irão (acordos históricos com Castro e Rohani).
A estes dados, já consolidados, podemos ainda juntar a questão da Imigração, outro tema já assumido pelo Presidente (ao avançar para as medidas executivas unilaterais que impediram, ou pelo menos adiaram, a deportação de mais cinco milhões de ilegais).
No entanto, o problema da Imigração é de tal modo complexo e diverso nos EUA que será difícil, em contexto de forte maioria republicano no Congresso, que Obama consiga fazer muito mais para permitir melhores condições de enquadramento legal, que impeçam um cenário de deportação em massa.
O último quarto de oito anos no poder
A 19 meses de deixar a Casa Branca (as eleições serão a 8 de novembro de 2016, mas a tomada de posse do 45.º Presidente será só a 20 de janeiro de 2017), Obama vê ainda tempo suficiente para terminar o trabalho noutros temas que considera cruciais para a «plataforma» social e política que lhe deu duas grandes maiorias presidenciais.
Indicaria quatro grandes objetivos definidos pelo Presidente, a conseguir até 20 de janeiro de 2017: consolidar a Reforma Fiscal por que se bateu na reeleição; travar o Estado Islâmico; assinar acordos comerciais em grande escala (Pacific Trade Deal e TTIP EUA/Europa); impor visão sobre alterações climáticas.
A Reforma Fiscal será talvez (a par da Reforma da Saúde) a principal ideia de Barack Obama: dar melhores condições à classe média para prosperar e apoiar os mais desfavorecidos, baseando a arrecadação da receita na taxação dos «super ricos» (na expressão feliz de Warren Buffet).
O Estado Islâmico, não sendo apenas uma ameaça para os EUA, representa desafio novo na luta contra o terrorismo islâmico e deverá exigir, nos próximos meses, uma das decisões mais difíceis da presidência Obama (talvez só equiparável à decisão de aprovar a Operação Gerónimo, que redundaria na morte de Osama Bin Laden): enviar ou não tropas americanas para o terreno? Até agora, a promessa de não voltar a envolver soldados americanos em conflitos no estrangeiro tem prevalecido e é visto como visão correta, uma vez que um cenário de muitos americanos mortos pelos Estado Islâmico no Iraque e na Síria seria politicamente insustentável, neste momento.
Os acordos comerciais que estão a ser negociados com o Pacífico e com a Europa integram-se na visão de Obama de que a liderança americana é reforçada (e não diminuída) quando se abre ao exterior. Especialmente no caso do Pacific Trade Deal, as reservas da ala esquerda dos democratas, representada por Elizabeth Warren, podem complicar.
As alterações climáticas são outro grande ponto na visão Obama do que pretende fazer enquanto Presidente dos EUA.
Foi um dado inesperadamente relevante na reeleição (enquanto Romney cedia a quem, na direita, queria acabar com o FEMA, a violência inusitada do «Sandy» levou a resposta pronta e efetiva das autoridades federais, no apoio a quem tinha perdido tudo em estados como Nova Jérsia, Nova Iorque ou Connecticut) e mantém-se como tema chave nas intervenções de Obama.
Este vídeo, muito visto e comentado nos últimos dias, com o «anger translator» a dizer alto e bom som, no jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, o que Obama sentirá, mostra com humor refinado e inteligente, como o «negacionismo» de vários republicanos no Congresso pode levar o Presidente a reações entre o paternalismo e o desespero…
Desafios para o 45.º Presidente
Para lá destes quatro enormes objetivos, há muitos outros desafios que, certamente, não estarão acabados por janeiro de 2017, quando Obama ceder o lugar na Sala Oval a Hillary Clinton ou a umrepublicano: a ameaça russa (Putin estará à espera de ver como será o sucessor de Obama para voltar a criar instabilidade no Leste da Europa), a ascensão da China, a questão israelo-palestiniana (que não avançou como se chegou a acreditar durante os anos Obama), a consolidação da recuperação económica.
A atenção mediática estará cada vez mais virada, nos próximos meses, para a excitante corrida presidencial de 2016. Mas ainda é cedo para deixar de contar com a capacidade de criar surpresas do 44.º Presidente dos EUA.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Hillary 2016 em 138 segundos
A comunicação política não tem idade.
Tem regras, depende do gosto, varia o seu efeito em função do segmento que pretende atingir.
E sim: faixas etárias diferentes reagem de forma diversa à mesma mensagem.
Mas a capacidade de as transmitir não tem prazo de validade: Hillary Clinton que o diga.
Super favorita à nomeação presidencial democrata (tem 50 pontos de avanço nas primárias do seu partido), a ex-secretária de Estado norte-americana é, a ano e meio das eleições que vão definir o sucessor de Barack Obama na Casa Branca, a pessoa mais bem colocada para vencer a eleição.
Mesmo nos possíveis duelos com os eventuais candidatos republicanos, as sondagens dão vantagem considerável (sempre com dois dígitos) a Hillary, seja o nome do possível opositor Jeb Bush, Scott Walker, Marco Rubio ou qualquer outro dos vários pretendentes. Com 69 anos à data da eleição (vai completá-los em outubro de 2016), Hillary Clinton teria na idade avançada (77 no final dos dois mandatos que pretenderá liderar na Casa Branca) o seu maior problema.
Ora, a forma como escolheu marcar o arranque da sua segunda candidatura presidencial praticamente resolveu essa questão.
O vídeo «Getting started», com apenas dois minutos e 18 segundos, juntou quase tudo o que a candidata pretende desenvolver, nos próximos 19 meses.
Nesses 138 segundos, estão lá os focos da agenda política e social de Hillary Clinton:
- dar força e condições à «working middle class america»;
- as minorias étnicas (negros, hispânicos, asiáticos);
- as minorias sexuais (casal gay de dois homens; casal gay de duas mulheres);
- as mulheres jovens, que pretendam juntar carreira e família;
- até uma recém-reformada com vontade de continuar ativa.
A dar consistência a tudo isto, uma ideia geral de otimismo e «cal to action» (mobilização para a ação), muito americana e que se insere numa espécie de «fase II» da versão democrata de recuperação pós-crise. Tudo num ambiente de «mudança para melhor», também ele muito americano.
Hillary quis, no vídeo, lembrar que os piores anos já passaram, mas deu como ideia forte: «Há muito ainda a fazer. E está na altura de dar às pessoas as vantagens da recuperação».
Ela quer, por isso, ser a «campeã que os americanos precisam», porque «o sistema ainda está construído para favorecer quem está no topo».
Entre a confirmação do «core» democrata que foi apoiando Barack Obama (minorias étnicas, sexuais, classe média trabalhadora, mulheres e jovens), há aqui uma «nuance» importante: ela deixa a entender que o Presidente Obama não foi suficientemente longe no ataque ao «business as usual» e aos «alçapões de Wall Street».
Sendo Hillary, há décadas, uma pessoa «do sistema» (Primeira Dama com agenda própria durante oito anos; senadora nos oito seguintes; quase nomeada presidencial democrata em 2008; secretária de Estado no primeiro mandato de Obama), ela poderia ter dificuldades em assumir-se como a candidata que vai conseguir mudar esse «status quo».
E este vídeo ajuda a posicioná-la onde quer: nesses 138 segundos, a candidata só aparece perto do centésimo e depois de ouvirmos e vermos as histórias de «real people» que ela pretende apoiar e «patrocinar», uma vez na Casa Branca.
Em entrevista que me concedeu para o site TVI24, Bill Schneider, comentador político da CNN, observou: «Não foi um anúncio em grande estilo, com grande aparato, tipo «shock and awe». Foi pessoal e «friendly». E não foi, de modo algum, sobre a candidata. Ela já é suficientemente conhecida. A intenção do video foi mostrar a sensibilidade de Hillary. A sua ligação ao mundo real.
Um anúncio assim poderia não resultar com candidatos menos conhecidos.»
Correu tudo bem no lançamento de Hillary16’?
Não. Contrastando com o excelente «Getting started», o «logo» da campanha não está à altura do vídeo: tem linhas antiquadas, uma ideia demasiado simples (aproveita o H de Hillary e faz uma seta a apontar para a frente, com um jogo de cores azul e vermelho, «obrigatório» na América dominada pela dicotomia blue/red).
Hillary quis, no vídeo, lembrar que os piores anos já passaram, mas deu como ideia forte: «Há muito ainda a fazer. E está na altura de dar às pessoas as vantagens da recuperação».
Ela quer, por isso, ser a «campeã que os americanos precisam», porque «o sistema ainda está construído para favorecer quem está no topo».
Entre a confirmação do «core» democrata que foi apoiando Barack Obama (minorias étnicas, sexuais, classe média trabalhadora, mulheres e jovens), há aqui uma «nuance» importante: ela deixa a entender que o Presidente Obama não foi suficientemente longe no ataque ao «business as usual» e aos «alçapões de Wall Street».
Sendo Hillary, há décadas, uma pessoa «do sistema» (Primeira Dama com agenda própria durante oito anos; senadora nos oito seguintes; quase nomeada presidencial democrata em 2008; secretária de Estado no primeiro mandato de Obama), ela poderia ter dificuldades em assumir-se como a candidata que vai conseguir mudar esse «status quo».
E este vídeo ajuda a posicioná-la onde quer: nesses 138 segundos, a candidata só aparece perto do centésimo e depois de ouvirmos e vermos as histórias de «real people» que ela pretende apoiar e «patrocinar», uma vez na Casa Branca.
Em entrevista que me concedeu para o site TVI24, Bill Schneider, comentador político da CNN, observou: «Não foi um anúncio em grande estilo, com grande aparato, tipo «shock and awe». Foi pessoal e «friendly». E não foi, de modo algum, sobre a candidata. Ela já é suficientemente conhecida. A intenção do video foi mostrar a sensibilidade de Hillary. A sua ligação ao mundo real.
Um anúncio assim poderia não resultar com candidatos menos conhecidos.»
Correu tudo bem no lançamento de Hillary16’?
Não. Contrastando com o excelente «Getting started», o «logo» da campanha não está à altura do vídeo: tem linhas antiquadas, uma ideia demasiado simples (aproveita o H de Hillary e faz uma seta a apontar para a frente, com um jogo de cores azul e vermelho, «obrigatório» na América dominada pela dicotomia blue/red).
Em janeiro de 2007, quando anunciou a sua primeira tentativa presidencial, Hillary também o fez por um vídeo, para confirmar: «I’m in… and I’m in to win!»
Quase tudo diferente, há oito anos e quatro meses: estilo clássico de comunicar, mera mensagem da candidata, em ambiente a misturar carga institucional com noção familiar.
Hillary16’ arrancou com muito mais força e modo mais inovador e mobilizador.
A candidata, mesmo perto dos 70, está hoje muito mais tecnológica.
Em versão «3.0», pondo para trás os fantasmas do passado e cheia de vontade de agarrar o futuro.
Hillary16’ arrancou com muito mais força e modo mais inovador e mobilizador.
A candidata, mesmo perto dos 70, está hoje muito mais tecnológica.
Em versão «3.0», pondo para trás os fantasmas do passado e cheia de vontade de agarrar o futuro.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Histórias da Casa Branca: Hillary versão 3.0
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 20 DE ABRIL DE 2015:
Hillary 08’ foi a crónica de uma derrota inesperada que tinha tudo para ter sido uma vitória anunciada (não fora ter aparecido um tal de Barack Obama).
Hillary 16’ arranca com um rótulo de favoritismo ainda mais expressivo que há oito anos (agora a vantagem no campo democrata é de 40/50 pontos e não de 20/30…), mas a candidata, escaldada com o que lhe aconteceu na primeira tentativa, fará tudo para não ser surpreendida.
O anúncio da candidatura foi amplamente elogiado: o vídeo «Getting started» (4,27 milhões de visualizações no momento da escrita desta crónica) apanha, em dois minutos e 18 segundos, o essencial do «universo Hillary» e da base de apoio dos democratas e das maiorias presidenciais Obama 2008 e 2012: os latinos, os negros, os asiáticos, as minorias, as mulheres, as jovens mães com vontade de singrar na vida, os casais gay (duas mulheres e dois homens), gente com capacidade de trabalho e com vontade de «mudar» para poder melhorar as condições de vida.
A estes segmentos, Hillary somou também uma recém-reformada. Se nos jovens e nos negros Obama foi mais forte que a agora favorita para 2016, Hillary pode melhorar o desempenho do seu antecessor na nomeação presidencial democrata nas mulheres com idades acima dos 60.
Para lá destas «nuances» típicas da comunicação política nos EUA, há uma mensagem dominante que Hillary quis passar: desta vez, o foco vai estar nas pessoas, «real people», não tanto no seu próprio percurso político, por muito rico e inspirador que ele possa ser (e é).
E há, sobretudo, um otimismo e uma «call to action» (mobilização para a ação) notáveis para uma mulher com quase 68 anos (só aquele logótipo é que não passou muito bem...).
A derrota de 2008 deu-lhe mais trunfos que desvantagens: ela sabe o que quer e quer ser a «campeã de que os americanos precisam» para que, passada a grande crise que marcou os primeiros anos de Obama, os benefícios da recuperação económica possam ser aproveitados pela «middle class working America» (a classe média trabalhadora).
Hillary 08’ foi muito sobre o passado e sobre «ela». Hillary 16’ será virado para o futuro: mais «tecnológico» (as campanhas Obama foram um «turning point» e mais focado nos eleitores e não na candidata).
Enquanto as sondagens continuam a mostrar-se muito simpáticas para a super favorita (não se vê quem possa tirar-lhe a nomeação na corrida democrata, com Elizabeth Warren e Joe Biden pelos 10/14%; Bernie Sanders, Jim Webb e Martin O’Malley sem chegar aos 5% e Hillary a passear nos 55/65…), a presumível nomeada arrancou com esse vídeo e vai gerindo, para já tranquilamente, o início da campanha.
Dias depois do «Getting started», fez uma incursão no Iowa (o estado de arranque onde, em 2008, não passou do terceiro posto, com 29%, menos um que John Edwards e menos nove que Barack Obama), e teve contatos «one to one» com os eleitores que decidirão os «caucuses» que marcam a abertura das primárias presidenciais.
Hillary quer uma campanha tipo «small is beautiful»: desta vez, o que decide serão os pormenores, por muito que tudo o resto jogue a favor dela (o dinheiro arrecadado, os apoios, as sondagens, a logística).
A gestão do tempo (ainda faltam sete meses e meio para o Iowa e quase 19 meses para eleição) será um fator chave para quem tem avanço tão impressionante.
O que une os republicanos? Travar Hillary
Do lado republicano, o «fator Hillary» está a mostrar-se ponto de união entre pretendentes tão diversos.
No terreno, como candidatos declarados, há já três nomes: Ted Cruz, senador do Texas favorito do «Tea Party»; Rand Paul, senador do Kentucky, de credenciais libertárias e contra a vigilância governamental da NSA; Marco Rubio, filho de cubanos, senador da Florida, apenas 43 anos e a tentar fazer pontes entre latinos, conservadores clássicos e a direita radical.
Mas vai haver mais: Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e segundo classificado nas primárias de 2008, outro «Tea Party darling», que nos últimos anos incendiou argumentos da direita radical nos comentários na FOX, deve avançar a 5 de maio.
Mais tarde, devem apresentar-se os três nomes mais viáveis: Scott Walker, governador do Wisconsin, à frente em muitas sondagens mas que recentemente teve grande desilusão ao ver que perde no seu próprio estado para Hillary Clinton por 52/40 (sondagem Marquette University, já depois do avanço da democrata); Jeb Bush, ex-governador da Florida, talvez o nomeado mais provável, que até se quis antecipar ao «Getting started» de Hillary com vídeo a garantir que fará melhor do que a «política externa Obama/Clinton»; e ainda Chris Christie, governador da Nova Jérsia, que chegou a estar à frente nas sondagens republicanas, mas tem tido meses complicados.
Ainda podem aparecer, à direita de Bush, Walker e Christie, as candidaturas de Ben Carson, Rick Santorum, Lindsay Graham e Rick Perry (nenhum tem hipóteses reais de ganhar).
Talvez com mais hipóteses de obter a nomeação, mas não mostrando para já garantias de avançar, estão o congressista Paul Ryan, do Wisconsin (candidato a vice no ticket de Mitt Romney em 2012), e Carly Fiorina (ex-CEO da Hewlett Packard).
No fim de semana, no New Hampshire (o estado que se seguirá ao Iowa), os republicanos reuniram-se para tentar perceber quem preferem.
A resposta sobre quem será o nomeado presidencial da direita americana está longe de ser clara. Mas uma coisa é certa: todos querem travar Hillary. É isso que, para já, os une.
Se olharmos para a sondagem CNN/Opinion Research Corporation, a primeira grande pesquisa nacional feita depois dos anúncios de Hillary e Rubio, é fácil perceber porquê: Hillary Clinton arrasa, com 58 pontos de avanço na corrida democrata (69 por cento para 11 de Joe Biden) e bate Jeb Bush e Scott Walker por mais de 15 por cento na eleição geral. Bush aparece ligeiramente à frente nos republicanos (17%), com Walker a seguir (12%) e Rubio e Rand Paul com 11%.
Hillary 08’ foi a crónica de uma derrota inesperada que tinha tudo para ter sido uma vitória anunciada (não fora ter aparecido um tal de Barack Obama).
Hillary 16’ arranca com um rótulo de favoritismo ainda mais expressivo que há oito anos (agora a vantagem no campo democrata é de 40/50 pontos e não de 20/30…), mas a candidata, escaldada com o que lhe aconteceu na primeira tentativa, fará tudo para não ser surpreendida.
O anúncio da candidatura foi amplamente elogiado: o vídeo «Getting started» (4,27 milhões de visualizações no momento da escrita desta crónica) apanha, em dois minutos e 18 segundos, o essencial do «universo Hillary» e da base de apoio dos democratas e das maiorias presidenciais Obama 2008 e 2012: os latinos, os negros, os asiáticos, as minorias, as mulheres, as jovens mães com vontade de singrar na vida, os casais gay (duas mulheres e dois homens), gente com capacidade de trabalho e com vontade de «mudar» para poder melhorar as condições de vida.
A estes segmentos, Hillary somou também uma recém-reformada. Se nos jovens e nos negros Obama foi mais forte que a agora favorita para 2016, Hillary pode melhorar o desempenho do seu antecessor na nomeação presidencial democrata nas mulheres com idades acima dos 60.
Para lá destas «nuances» típicas da comunicação política nos EUA, há uma mensagem dominante que Hillary quis passar: desta vez, o foco vai estar nas pessoas, «real people», não tanto no seu próprio percurso político, por muito rico e inspirador que ele possa ser (e é).
E há, sobretudo, um otimismo e uma «call to action» (mobilização para a ação) notáveis para uma mulher com quase 68 anos (só aquele logótipo é que não passou muito bem...).
A derrota de 2008 deu-lhe mais trunfos que desvantagens: ela sabe o que quer e quer ser a «campeã de que os americanos precisam» para que, passada a grande crise que marcou os primeiros anos de Obama, os benefícios da recuperação económica possam ser aproveitados pela «middle class working America» (a classe média trabalhadora).
Hillary 08’ foi muito sobre o passado e sobre «ela». Hillary 16’ será virado para o futuro: mais «tecnológico» (as campanhas Obama foram um «turning point» e mais focado nos eleitores e não na candidata).
Enquanto as sondagens continuam a mostrar-se muito simpáticas para a super favorita (não se vê quem possa tirar-lhe a nomeação na corrida democrata, com Elizabeth Warren e Joe Biden pelos 10/14%; Bernie Sanders, Jim Webb e Martin O’Malley sem chegar aos 5% e Hillary a passear nos 55/65…), a presumível nomeada arrancou com esse vídeo e vai gerindo, para já tranquilamente, o início da campanha.
Dias depois do «Getting started», fez uma incursão no Iowa (o estado de arranque onde, em 2008, não passou do terceiro posto, com 29%, menos um que John Edwards e menos nove que Barack Obama), e teve contatos «one to one» com os eleitores que decidirão os «caucuses» que marcam a abertura das primárias presidenciais.
Hillary quer uma campanha tipo «small is beautiful»: desta vez, o que decide serão os pormenores, por muito que tudo o resto jogue a favor dela (o dinheiro arrecadado, os apoios, as sondagens, a logística).
A gestão do tempo (ainda faltam sete meses e meio para o Iowa e quase 19 meses para eleição) será um fator chave para quem tem avanço tão impressionante.
O que une os republicanos? Travar Hillary
Do lado republicano, o «fator Hillary» está a mostrar-se ponto de união entre pretendentes tão diversos.
No terreno, como candidatos declarados, há já três nomes: Ted Cruz, senador do Texas favorito do «Tea Party»; Rand Paul, senador do Kentucky, de credenciais libertárias e contra a vigilância governamental da NSA; Marco Rubio, filho de cubanos, senador da Florida, apenas 43 anos e a tentar fazer pontes entre latinos, conservadores clássicos e a direita radical.
Mas vai haver mais: Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e segundo classificado nas primárias de 2008, outro «Tea Party darling», que nos últimos anos incendiou argumentos da direita radical nos comentários na FOX, deve avançar a 5 de maio.
Mais tarde, devem apresentar-se os três nomes mais viáveis: Scott Walker, governador do Wisconsin, à frente em muitas sondagens mas que recentemente teve grande desilusão ao ver que perde no seu próprio estado para Hillary Clinton por 52/40 (sondagem Marquette University, já depois do avanço da democrata); Jeb Bush, ex-governador da Florida, talvez o nomeado mais provável, que até se quis antecipar ao «Getting started» de Hillary com vídeo a garantir que fará melhor do que a «política externa Obama/Clinton»; e ainda Chris Christie, governador da Nova Jérsia, que chegou a estar à frente nas sondagens republicanas, mas tem tido meses complicados.
Ainda podem aparecer, à direita de Bush, Walker e Christie, as candidaturas de Ben Carson, Rick Santorum, Lindsay Graham e Rick Perry (nenhum tem hipóteses reais de ganhar).
Talvez com mais hipóteses de obter a nomeação, mas não mostrando para já garantias de avançar, estão o congressista Paul Ryan, do Wisconsin (candidato a vice no ticket de Mitt Romney em 2012), e Carly Fiorina (ex-CEO da Hewlett Packard).
No fim de semana, no New Hampshire (o estado que se seguirá ao Iowa), os republicanos reuniram-se para tentar perceber quem preferem.
A resposta sobre quem será o nomeado presidencial da direita americana está longe de ser clara. Mas uma coisa é certa: todos querem travar Hillary. É isso que, para já, os une.
Se olharmos para a sondagem CNN/Opinion Research Corporation, a primeira grande pesquisa nacional feita depois dos anúncios de Hillary e Rubio, é fácil perceber porquê: Hillary Clinton arrasa, com 58 pontos de avanço na corrida democrata (69 por cento para 11 de Joe Biden) e bate Jeb Bush e Scott Walker por mais de 15 por cento na eleição geral. Bush aparece ligeiramente à frente nos republicanos (17%), com Walker a seguir (12%) e Rubio e Rand Paul com 11%.
Subscrever:
Mensagens (Atom)