TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 19 DE MAIO DE 2014:
A questão demográfica foi fundamental para a reeleição de Barack Obama, há precisamente um ano e meio.
O radicalismo do Tea Party puxou a agulha ideológica dos republicanos demasiado para a direita e isso comprometeu a abordagem de Mitt Romney no momento decisivo.
Com mais de 70% do voto latino e do voto asiático, e mais de 90% do voto negro, Barack Obama arrebatou fatia esmagadora dos 28% de «não brancos», compensando assim perda ligeira nos 72% de brancos (52/48 para Romney).
A «batalha demográfica» deu a Obama o segundo mandato porque uma demografia de 1992, por exemplo, quando da fácil reeleição de Bill Clinton, com muito menos peso das minorias no mapa eleitoral americano, talvez não fosse suficiente para dar nova maioria ao 44.º Presidente dos EUA.
Se as convicções políticas e ideológicas do Presidente não fossem suficientes, este facto ajudaria bastante: até por motivos de gratidão eleitoral, a reforma da Imigração estaria sempre no topo da agenda presidencial, neste segundo mandato.
Obama deu provas, nos últimos anos, de ter sido dos primeiros políticos de topo na América a perceber claramente que os EUA estão a mudar.
E que o axioma de que «os americanos são maioritariamente brancos, protestantes e conservadores» não é imutável, tem vindo a sofrer transformações.
Os meses que se seguiram à reeleição pareciam proporcionar um ambiente político mais propício à aprovação de uma reforma que permitisse um enquadramento legal mais realista e compreensivo para os cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais na América.
À direita, o GOP dava sinais de querer moderar-se, depois da derrota com dimensões inesperadas nas presidenciais de 2012.
Marco Rubio, uma espécie de «candidato presidencial feito à medida» (é jovem, representa minoria em ascensão, os latinos, é senador num estado eleitoralmente crucial, a Florida), tentou tomar as rédeas da discussão no seu partido, com vontade de fazer algumas pontes com o Presidente.
Mas os últimos meses retiraram quase todo o tipo de ilusões. A palavra de ordem nos republicanos no Congresso em toda a era Obama é mesmo «bloquear».
Uma atitude que não deixa de causar perplexidade, a partir do momento em que se percebe que o próprio eleitorado republicano apoia, com larga maioria, uma reforma da Imigração (64% dos republicanos estão a favor da aprovação, um pouco menos que os 78% de democratas e 71% de independentes).
O mesmo estudo, publicado pelo «Politico.com», mostra que 41% dos hispânicos «apoiam fortemente» a ideia, bem mais que os 28% de brancos e 17% de afro-americanos. Se alargarmos a análise ao mero «apoio», a tese da aprovação da reforma passa folgadamente.
Junto do eleitorado, o clima de consenso em relação ao tema parece atingido. Mas o sistema político de Washington obedece a dinâmicas com razões que a Razão desconhece.
Perante a perspetiva da eleição de 2016 ser disputada entre Hillary Clinton e um republicano como Jeb Bush, Marco Rubio ou Chris Christie, é de admitir que a imigração se mantenha como um tema forte de campanha.
O blogue que, desde novembro de 2008, lhe conta tudo o que acontece na política americana, com os olhos postos nos últimos dois anos da era Obama e na corrida às eleições presidenciais de 2016
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Histórias da Casa Branca: Hillary, trunfos e fantasmas
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 13 DE MAIO DE 2014:
No campo democrata, quase todos já se dizem «prontos para Hillary Clinton».
As sondagens mostram que a vantagem da ex-secretária de Estado para a corrida à nomeação democrata para 2016 é demasiado grande para poder ser revertida (faltam dois anos e meio para a eleição geral, pelo que a decisão das nomeações partidárias já começa a mexer).
É claro que nisto de eleições presidenciais na América, nunca se sabe o que pode acontecer.
Muitos analistas têm recordado, nos últimos meses, que para a nomeação democrata de 2008, Hillary chegou a ter avanço considerável sobre Obama e Edwards, mas acabaria por ser Barack o nomeado.
Sendo essa uma constatação dos factos, a verdade porém é que a diferença agora é de mais do dobro: Hillary nunca teve vantagem superior a 25/30 pontos em 2007/2008. Para 2016, parte com avanço entre 50 a 70 pontos percentuais.
Nem sequer se vislumbra uma ameaça séria ao «consenso Hillary» junto das bases democratas (que parecem dispostas a dar a Hillary a hipótese que só não deram já em 2008 porque entretanto apareceu o fenómeno Obama) e nas elites do partido (basta atentar a inúmeras declarações, nos últimos meses, por parte de governadores democratas, membros do Congresso e até antigos candidato presidenciais e/ou membros das Administrações Clinton e Obama.
Hillary parte com o favoritismo, os apoios, a máquina (a que usou na campanha Hillary 2008 e uma boa parte da máquina eleitoral de Obama 2008 e 2012) e o dinheiro: há Super PACS bem financiadas que já estão no terreno a organizar eventos de angariação de fundos, com nomes fortes dos democratas como cabeças de cartaz.
O que pode correr mal, então, ao projeto «Hillary for President 2016»?
Em primeiro lugar, não é certo que Hillary Clinton tenha saúde para enfrentar uma coisa violenta como uma campanha presidencial americana. São quase dois anos a dormir muito pouco, a viajar de estado para estado, num país enorme.
Hillary, que no final do mandato como secretária de Estado acusou alguns problemas de saúde preocupantes, não tem dado mostras de esse vir a ser um ponto inibidor de uma candidatura. Mas terá 69 anos em novembro de 2016 e, caso seja eleita, arranca para possivelmente oito anos que só terminarão quando Hillary já estará a caminhar para a casa dos 80.
Será um problema para ela, depois de dois mandatos do quarto mais jovem Presidente da história americana?
Se for, não é certamente o único. Uma parte da direita americana, catalisada pelo fervor hostil da FOX News, tem recordado ao limite o «caso Bengasi», ocorrido em setembro de 2012, e que redundou no assassinato do então embaixador norte-americano na Líbia e doutros três funcionários diplomáticos americanos.
A então secretária de Estado Hillary Clinton é acusada por parte da direita de não ter feito tudo para proteger os diplomatas americanos no terreno e de não ter sido conclusiva no inquérito ocorrido posteriormente no Congresso.
Nos últimos dias, de forma um pouco descontextualizada, «ressuscitou»... Monica Lewinsky, que nos anos 90 quase levou Bill Clinton ao «impeachment». Mera coincidência? Difícil de acreditar.
O reaparecimento mediático de Monica Lewinsky pode ter segundas intenções políticas, possivelmente para recordar aos mais esquecidos e contar ao eleitorado mais jovem esse episódio tortuoso para a história política e pessoal do casal Clinton. Mas Hillary já deu provas mais do que suficientes que está preparada para isso e para muito mais.
Ganhe ou perca em novembro de 2016, ela parece ter tudo para vir a ser a primeira mulher a liderar o mais poderoso país do Mundo.
A piada do Presidente Obama no jantar anual com os correspondentes da Casa Branca é reveladora: «Quando me for embora, talvez a Fox News tenha dificuldade em garantir que Hillary Clinton nasceu no Quénia...»
No campo democrata, quase todos já se dizem «prontos para Hillary Clinton».
As sondagens mostram que a vantagem da ex-secretária de Estado para a corrida à nomeação democrata para 2016 é demasiado grande para poder ser revertida (faltam dois anos e meio para a eleição geral, pelo que a decisão das nomeações partidárias já começa a mexer).
É claro que nisto de eleições presidenciais na América, nunca se sabe o que pode acontecer.
Muitos analistas têm recordado, nos últimos meses, que para a nomeação democrata de 2008, Hillary chegou a ter avanço considerável sobre Obama e Edwards, mas acabaria por ser Barack o nomeado.
Sendo essa uma constatação dos factos, a verdade porém é que a diferença agora é de mais do dobro: Hillary nunca teve vantagem superior a 25/30 pontos em 2007/2008. Para 2016, parte com avanço entre 50 a 70 pontos percentuais.
Nem sequer se vislumbra uma ameaça séria ao «consenso Hillary» junto das bases democratas (que parecem dispostas a dar a Hillary a hipótese que só não deram já em 2008 porque entretanto apareceu o fenómeno Obama) e nas elites do partido (basta atentar a inúmeras declarações, nos últimos meses, por parte de governadores democratas, membros do Congresso e até antigos candidato presidenciais e/ou membros das Administrações Clinton e Obama.
Hillary parte com o favoritismo, os apoios, a máquina (a que usou na campanha Hillary 2008 e uma boa parte da máquina eleitoral de Obama 2008 e 2012) e o dinheiro: há Super PACS bem financiadas que já estão no terreno a organizar eventos de angariação de fundos, com nomes fortes dos democratas como cabeças de cartaz.
O que pode correr mal, então, ao projeto «Hillary for President 2016»?
Em primeiro lugar, não é certo que Hillary Clinton tenha saúde para enfrentar uma coisa violenta como uma campanha presidencial americana. São quase dois anos a dormir muito pouco, a viajar de estado para estado, num país enorme.
Hillary, que no final do mandato como secretária de Estado acusou alguns problemas de saúde preocupantes, não tem dado mostras de esse vir a ser um ponto inibidor de uma candidatura. Mas terá 69 anos em novembro de 2016 e, caso seja eleita, arranca para possivelmente oito anos que só terminarão quando Hillary já estará a caminhar para a casa dos 80.
Será um problema para ela, depois de dois mandatos do quarto mais jovem Presidente da história americana?
Se for, não é certamente o único. Uma parte da direita americana, catalisada pelo fervor hostil da FOX News, tem recordado ao limite o «caso Bengasi», ocorrido em setembro de 2012, e que redundou no assassinato do então embaixador norte-americano na Líbia e doutros três funcionários diplomáticos americanos.
A então secretária de Estado Hillary Clinton é acusada por parte da direita de não ter feito tudo para proteger os diplomatas americanos no terreno e de não ter sido conclusiva no inquérito ocorrido posteriormente no Congresso.
Nos últimos dias, de forma um pouco descontextualizada, «ressuscitou»... Monica Lewinsky, que nos anos 90 quase levou Bill Clinton ao «impeachment». Mera coincidência? Difícil de acreditar.
O reaparecimento mediático de Monica Lewinsky pode ter segundas intenções políticas, possivelmente para recordar aos mais esquecidos e contar ao eleitorado mais jovem esse episódio tortuoso para a história política e pessoal do casal Clinton. Mas Hillary já deu provas mais do que suficientes que está preparada para isso e para muito mais.
Ganhe ou perca em novembro de 2016, ela parece ter tudo para vir a ser a primeira mulher a liderar o mais poderoso país do Mundo.
A piada do Presidente Obama no jantar anual com os correspondentes da Casa Branca é reveladora: «Quando me for embora, talvez a Fox News tenha dificuldade em garantir que Hillary Clinton nasceu no Quénia...»
terça-feira, 13 de maio de 2014
Histórias da Casa Branca: dois anos e meio para definir o pós-Obama
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 9 DE MAIO DE 2014:
A exatamente dois anos e meio da eleição que definirá o sucessor de Obama na Casa Branca, a tendência mantém-se bem distinta nos dois campos partidários.
Do lado democrata, não se vislumbra como poderá Hillary perder a nomeação.
Sondagem Fox News aponta quase 70% de preferências à secretária de Estado no primeiro mandato presidencial de Obama (69%), o que confere a Hillary uma vantagem que não é enorme: é gigantesca.
Clinton tem mais 55 por cento que o segundo colocado do campo democrata, Joe Biden (14%), sendo que o terceiro nome a aparecer, Elizabeth Warren, já declarou várias vezes que não pretende concorrer, pela simples razão de que encontra alternativa melhor: «A minha candidata é Hillary Clinton», aponta a senadora do Massachussets.
Politicamente, Hillary tem a nomeação democrata controlada. Até pode ir alimentando a dúvida sobre o momento em que irá avançar, desde que queira mesmo tentar ser a 45.ª Presidente dos Estados Unidos da América.
A base de apoio político e eleitoral de Barack Obama está claramente com Hillary.
Rahm Emanuel, «mayor» de Chicago, foi conselheiro muito próximo de Bill Clinton durante as administrações de 1993 a 2001 e apoiou Hillary nas primárias de 2008.
Mesmo tendo preferido Hillary a Obama, viria a ser a primeira nomeação política de Barack, logo após a vitória eleitoral de novembro de 2008. Rahm foi «chief of staff» da Casa Branca, uma espécie de primeiro-ministro num sistema de governo presidencialista.
Já fora da Administração Obama, Rahm parece ter voltado em força ao «universo Clinton»: em junho, vai falar em dois grandes eventos de angariação de fundos de Super PAC de apoio à candidatura de Hillary. E aponta, claramente, ao «Politico.com»: «Hillary é inteligente, determinada e, mais importante do que tudo, é a campeão da defesa dos interesses dos americanos. Quando trabalhei com ela na Casa Branca, vi a líder forte que era, como por exemplo quando falou de Direitos Humanos em Pequim, ou da forma como defendeu o Children¿s Health Insurance Program».
Por tudo isto, Rahm Emanuel, um dos democratas com mais capacidade para mexer os cordelinhos nas bases do partido, sentencia: «Se ela avançar, estou atrás dela a apoiar. Acho que ela vai avançar, mas isso só ela saberá dizer. Se Hillary concorrer, estou com ela».
Bem diferente é a situação no campo republicano. Continua a não haver um claro «frontrunner».
Chris Christie tinha alguns trunfos para despertar atenções, mas primeiro o «BridgeGate» e, mais recentemente, problemas sérios nas contas do governo estadual estão a transformar o carismático governador da Nova Jérsia de sério pretendente a potencial «trouble maker» da corrida republicana.
As últimas semanas proporcionaram a Jeb Bush, antigo governador da Flórida, uma espécie de «momento de provar que será uma alternativa a Christie como potencial candidato da ala moderada do GOP».
Mas Jeb terá exagerado na dose: o irmão e filho dos últimos dois presidentes republicanos (GW e GH Bush) falou demasiado em «compaixão» perante os imigrantes ilegais, definido mesmo como «act of love» e não como violação à lei a tentativa de passar a fronteira ilegalmente, em nome do «sonho americano».
A ideia pode agradar ao centro e aos democratas, mas provoca aversão na base que Jeb terá que convencer, se quiser ser o adversário de Hillary para 2016: os ultraconservadores, uma parte do Tea Party e a América profunda.
Rand Paul, senador do Kentucky, mantém-se bem posicionado para agarrar os setores mais à direita, mas nesse campo há outros pretendentes: Mike Huckabee, Ted Cruz ou até Rick Santorum, que em 2012 foi o segundo republicano mais votado.
Pelo meio, Paul Ryan e Marco Rubio podem vir a assumir um papel intermédio, captando apoios de diferentes segmentos do universo republicano.
A exatamente dois anos e meio da eleição que definirá o sucessor de Obama na Casa Branca, a tendência mantém-se bem distinta nos dois campos partidários.
Do lado democrata, não se vislumbra como poderá Hillary perder a nomeação.
Sondagem Fox News aponta quase 70% de preferências à secretária de Estado no primeiro mandato presidencial de Obama (69%), o que confere a Hillary uma vantagem que não é enorme: é gigantesca.
Clinton tem mais 55 por cento que o segundo colocado do campo democrata, Joe Biden (14%), sendo que o terceiro nome a aparecer, Elizabeth Warren, já declarou várias vezes que não pretende concorrer, pela simples razão de que encontra alternativa melhor: «A minha candidata é Hillary Clinton», aponta a senadora do Massachussets.
Politicamente, Hillary tem a nomeação democrata controlada. Até pode ir alimentando a dúvida sobre o momento em que irá avançar, desde que queira mesmo tentar ser a 45.ª Presidente dos Estados Unidos da América.
A base de apoio político e eleitoral de Barack Obama está claramente com Hillary.
Rahm Emanuel, «mayor» de Chicago, foi conselheiro muito próximo de Bill Clinton durante as administrações de 1993 a 2001 e apoiou Hillary nas primárias de 2008.
Mesmo tendo preferido Hillary a Obama, viria a ser a primeira nomeação política de Barack, logo após a vitória eleitoral de novembro de 2008. Rahm foi «chief of staff» da Casa Branca, uma espécie de primeiro-ministro num sistema de governo presidencialista.
Já fora da Administração Obama, Rahm parece ter voltado em força ao «universo Clinton»: em junho, vai falar em dois grandes eventos de angariação de fundos de Super PAC de apoio à candidatura de Hillary. E aponta, claramente, ao «Politico.com»: «Hillary é inteligente, determinada e, mais importante do que tudo, é a campeão da defesa dos interesses dos americanos. Quando trabalhei com ela na Casa Branca, vi a líder forte que era, como por exemplo quando falou de Direitos Humanos em Pequim, ou da forma como defendeu o Children¿s Health Insurance Program».
Por tudo isto, Rahm Emanuel, um dos democratas com mais capacidade para mexer os cordelinhos nas bases do partido, sentencia: «Se ela avançar, estou atrás dela a apoiar. Acho que ela vai avançar, mas isso só ela saberá dizer. Se Hillary concorrer, estou com ela».
Bem diferente é a situação no campo republicano. Continua a não haver um claro «frontrunner».
Chris Christie tinha alguns trunfos para despertar atenções, mas primeiro o «BridgeGate» e, mais recentemente, problemas sérios nas contas do governo estadual estão a transformar o carismático governador da Nova Jérsia de sério pretendente a potencial «trouble maker» da corrida republicana.
As últimas semanas proporcionaram a Jeb Bush, antigo governador da Flórida, uma espécie de «momento de provar que será uma alternativa a Christie como potencial candidato da ala moderada do GOP».
Mas Jeb terá exagerado na dose: o irmão e filho dos últimos dois presidentes republicanos (GW e GH Bush) falou demasiado em «compaixão» perante os imigrantes ilegais, definido mesmo como «act of love» e não como violação à lei a tentativa de passar a fronteira ilegalmente, em nome do «sonho americano».
A ideia pode agradar ao centro e aos democratas, mas provoca aversão na base que Jeb terá que convencer, se quiser ser o adversário de Hillary para 2016: os ultraconservadores, uma parte do Tea Party e a América profunda.
Rand Paul, senador do Kentucky, mantém-se bem posicionado para agarrar os setores mais à direita, mas nesse campo há outros pretendentes: Mike Huckabee, Ted Cruz ou até Rick Santorum, que em 2012 foi o segundo republicano mais votado.
Pelo meio, Paul Ryan e Marco Rubio podem vir a assumir um papel intermédio, captando apoios de diferentes segmentos do universo republicano.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Histórias da Casa Branca: o «declínio» e poderes que regressam
«Enquanto o Presidente Obama viaja pela Ásia, a crise da Ucrânia domina as atenções. Mas também estão questões, que se arrastar há vários anos, sobre se a América começa a ser, de alguma maneira, um poder em declínio que cederá o seu espaço de influência à China, nos próximos anos. O número de revistas e de capas de livros com alguma variante da tese de ¿Estarão os melhores anos da América atrás de nós?¿ poderia encher uma biblioteca. E é, por isso, importante que americanos e asiáticos percebam, de forma clara, que os Estados Unidos não estão em declínio. Os Estados Unidos, na verdade, estão num caminho de grandes oportunidades e a América do Norte está talhada a liderar o Mundo nas próximas décadas. As provas estão à volta de nós: a Economia dos EUA está a voltar a carburar, fortalecida pela nova energia e pelas revoluções tecnológicas. Tudo isso deve providenciar um renovado sentimento de confiança numa parte do Mundo que supostamente estaria a sofrer um declínio»
Michael O'Hanlon, investigador do Council on Foreign Relations, e David Petraeus, general, antigo comandante das tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, co-chairman do Council on Foreign Relations Task Force on North America
A narrativa de que a América está a perder o seu papel dominante nas relações mundiais até poderia ser poderosa. Mas sempre que olhamos para os factos, percebemos que há um grande problema com essa tese: é que ela, simplesmente, não é verdadeira.
As últimas semanas foram particularmente significativas nesse aspeto.
As últimas semanas têm mostrado que os EUA continuam a ser um país decisivo. Sobretudo quando «velhas ameaças» parecem querer regressar em forçaÀ medida que a crise ucraniana se foi agravando, e perante a reação ambígua da União Europeia, rapidamente se percebeu que só uma intervenção diplomática eficaz por parte de Washington poderá começar a conter a ameaça do «urso de Moscovo».
Em artigo publicado na revista «Foreign Affairs», Walter Russel Mead aponta: «Até agora, o ano de 2014 tem sido tumultuoso, à medida que as rivalidades geopolíticas regressaram à ribalta. Seja com as forças russas que tomaram conta da Crimeia, seja com a agressividade da China nas zonas costeiras, provocando resposta assertiva do Japão, ou ainda com o Irão a tentar usar as suas alianças com a Síria e o Hezbollah para dominar o Médio Oriente, várias formas de «poder antigo» estão a voltar em força nas relações internacionais».
Para aquele conhecido investigador, «os Estados Unidos e a União Europeia procuram, pelo menos, trilhos para enfrentar a nova perturbação. Tanto os EUA como a Europa preferiam pôr de parte as preocupações sobre questões geopolíticas «do passado», como o território ou o poder militar e focar-se em temas como a «global governance»: liberalização do comércio, não-proliferação nuclear, direitos humanos, estado de direito, alterações climáticas. Na verdade, desde o fim da Guerra Fria, o mais importante objetivo dos EUA e da Europa, nas suas políticas externas, tem sido o «shift» das relações internacionais, da «soma zero» para uma relação «win-win». Sermo forçados a voltar a temas «old-school» como a situação na Ucrânia não só diverge atenções, tempo e energia para os focos essenciais, como altera o caráter da política internacional. À medida que a atmosfera fica cada vez mais tensa e sombria, a tarefa de promover e manter a ordem mundial fica cada vez mais arriscada».
A escalada russa nas cidades ucranianas tem mostrado ser, nos últimos dias, um caminho demasiado perigoso para poder ter solução definitiva para breve.
Mas o que é certo, aconteça o que acontecer, é que uma saída de custos reduzidos dependerá sempre da habilidade diplomática e da força política que, nos próximos tempos, o Presidente Obama e o secretário de Estado John Kerry vierem a mostrar.
Quem disse que deixou de valer a pena prestar atenção à atualidade internacional?
Michael O'Hanlon, investigador do Council on Foreign Relations, e David Petraeus, general, antigo comandante das tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, co-chairman do Council on Foreign Relations Task Force on North America
A narrativa de que a América está a perder o seu papel dominante nas relações mundiais até poderia ser poderosa. Mas sempre que olhamos para os factos, percebemos que há um grande problema com essa tese: é que ela, simplesmente, não é verdadeira.
As últimas semanas foram particularmente significativas nesse aspeto.
As últimas semanas têm mostrado que os EUA continuam a ser um país decisivo. Sobretudo quando «velhas ameaças» parecem querer regressar em forçaÀ medida que a crise ucraniana se foi agravando, e perante a reação ambígua da União Europeia, rapidamente se percebeu que só uma intervenção diplomática eficaz por parte de Washington poderá começar a conter a ameaça do «urso de Moscovo».
Em artigo publicado na revista «Foreign Affairs», Walter Russel Mead aponta: «Até agora, o ano de 2014 tem sido tumultuoso, à medida que as rivalidades geopolíticas regressaram à ribalta. Seja com as forças russas que tomaram conta da Crimeia, seja com a agressividade da China nas zonas costeiras, provocando resposta assertiva do Japão, ou ainda com o Irão a tentar usar as suas alianças com a Síria e o Hezbollah para dominar o Médio Oriente, várias formas de «poder antigo» estão a voltar em força nas relações internacionais».
Para aquele conhecido investigador, «os Estados Unidos e a União Europeia procuram, pelo menos, trilhos para enfrentar a nova perturbação. Tanto os EUA como a Europa preferiam pôr de parte as preocupações sobre questões geopolíticas «do passado», como o território ou o poder militar e focar-se em temas como a «global governance»: liberalização do comércio, não-proliferação nuclear, direitos humanos, estado de direito, alterações climáticas. Na verdade, desde o fim da Guerra Fria, o mais importante objetivo dos EUA e da Europa, nas suas políticas externas, tem sido o «shift» das relações internacionais, da «soma zero» para uma relação «win-win». Sermo forçados a voltar a temas «old-school» como a situação na Ucrânia não só diverge atenções, tempo e energia para os focos essenciais, como altera o caráter da política internacional. À medida que a atmosfera fica cada vez mais tensa e sombria, a tarefa de promover e manter a ordem mundial fica cada vez mais arriscada».
A escalada russa nas cidades ucranianas tem mostrado ser, nos últimos dias, um caminho demasiado perigoso para poder ter solução definitiva para breve.
Mas o que é certo, aconteça o que acontecer, é que uma saída de custos reduzidos dependerá sempre da habilidade diplomática e da força política que, nos próximos tempos, o Presidente Obama e o secretário de Estado John Kerry vierem a mostrar.
Quem disse que deixou de valer a pena prestar atenção à atualidade internacional?
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Histórias da Casa Branca: Rand Paul, uma jogada arriscada
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 17 DE ABRIL DE 2014:
Em mais uma crónica dedicada à corrida presidencial republicana para 2016, e depois de ter falado sobre o «momento de Jeb Bush», falarei hoje de Rand Paul.
O senador do Kentucky, de 51 anos, oftalmologista de profissão, é filho de Ron Paul, o clássico candidato libertário, que nas últimas duas ou três décadas tem marcado a agenda política americana como representante de uma ala marginal da direita americana, com uma visão minimalista do peso do estado e uma versão a toda e qualquer intervenção fiscal, institucional e até militar.
Se os republicanos têm feito um «shift» para uma direita com laivos de crítica excessiva ao «establishment», desafiando uma abordagem clássica que, durante décadas, dominou a ação política do partido de Lincoln, Teddy Roosevelt e Reagan, a verdade é que a abordagem de Ron Paul nunca conseguiu ser maioritária.
Os republicanos gostam menos do que os democratas de um Estado a meter a mão na vida das pessoas? Certo, na globalidade.
Mas também é verdade que as últimas presidências republicanas (Bush pai e Bush filho) se marcaram pela manutenção de fortes programas sociais (com Bush filho, o Medicare e o Medicais foram alargados e concretizou-se o lançamento do «No Child Left Behind», um programa de inclusão escolar de crianças americanas desfavorecidas).
Moral da história: o «core» do Partido Republicano não é assim tão avesso à ideia de «intervencionismo estatal» para diminuir as desigualdades sociais.
O atual estado do Partido Republicano dá conta da dimensão das divergências internas. Potenciais candidatos como Chris Christie ou Jeb Bush, pelo seu registo, pelo seu percurso e pelas posições já emitidas em relação à plataforma política que pretenderão defender na corrida, bater-se-ão, em traços gerais, para que continue a vigorar uma ideia de junção entre a diminuição das desigualdades sociais e uma primazia (que em traços gerais os republicanos dão) à liberdade empresarial, em detrimento da ideia de «bem coletivo» (ideia mais cara aos democratas).
Um Partido Republicano no seu estado normal colocaria Christie ou Jeb Bush como os candidatos naturais para defrontar Hillary em 2016.
Embora com fases de discurso dúbio, a nomeação de Romney em 2012 e McCain em 2008 mostraram que essa abordagem clássica continua a prevalecer nos momentos certos do Partido Republicano.
Mas o peso excessivo do «Tea Party» nos últimos anos da direita americana está a dar uma oportunidade acrescida a outro tipo de soluções.
Em futuras crónicas, falarei de Ted Cruz, Marco Rubio, Paul Ryan, Mike Huckabee ou até de Michele Bachmann e Sarah Palin.
Mas no leque de potenciais pretendentes republicanos para 2016, Rand Paul surge como um caso especial.
Rand foi um dos líderes da «reação Tea Party» aos primeiros anos da presidência Obama, obtendo grande resultado na eleição para o Senado, em 2010.
Desde aí, agarrou momento mediático e assumiu posições particularmente críticas contra Obama, mas também contra uma certa moderação que considera existir em setores republicanos, em relação ao Presidente.
A diferença do filho Rand para o pai Ron é que o senador do Kentucky começou a sua caminhada «por dentro» do Partido Republicano, enquanto o pai (que nunca foi senador), assumiu.se sempre como um «outsider».
Ron preferiu sempre correr por fora. Chegou a ter bons resultados em primárias, captou atenção mediática, fixou eleitorado fiel e mobilizado: mas nunca descolou de 10/12 por cento, números impossíveis de viabilizar uma nomeação.
Terá Rand Paul hipóteses de ser nomeado? Não é o mais provável, mas é possível. Peter King, republicano moderado de Nova Iorque, não o poupa: «Rand Paul é um político com posições paranóicas. Tende para a histeria. Seria péssimo que o partido fosse por esse caminho».
Em mais uma crónica dedicada à corrida presidencial republicana para 2016, e depois de ter falado sobre o «momento de Jeb Bush», falarei hoje de Rand Paul.
O senador do Kentucky, de 51 anos, oftalmologista de profissão, é filho de Ron Paul, o clássico candidato libertário, que nas últimas duas ou três décadas tem marcado a agenda política americana como representante de uma ala marginal da direita americana, com uma visão minimalista do peso do estado e uma versão a toda e qualquer intervenção fiscal, institucional e até militar.
Se os republicanos têm feito um «shift» para uma direita com laivos de crítica excessiva ao «establishment», desafiando uma abordagem clássica que, durante décadas, dominou a ação política do partido de Lincoln, Teddy Roosevelt e Reagan, a verdade é que a abordagem de Ron Paul nunca conseguiu ser maioritária.
Os republicanos gostam menos do que os democratas de um Estado a meter a mão na vida das pessoas? Certo, na globalidade.
Mas também é verdade que as últimas presidências republicanas (Bush pai e Bush filho) se marcaram pela manutenção de fortes programas sociais (com Bush filho, o Medicare e o Medicais foram alargados e concretizou-se o lançamento do «No Child Left Behind», um programa de inclusão escolar de crianças americanas desfavorecidas).
Moral da história: o «core» do Partido Republicano não é assim tão avesso à ideia de «intervencionismo estatal» para diminuir as desigualdades sociais.
O atual estado do Partido Republicano dá conta da dimensão das divergências internas. Potenciais candidatos como Chris Christie ou Jeb Bush, pelo seu registo, pelo seu percurso e pelas posições já emitidas em relação à plataforma política que pretenderão defender na corrida, bater-se-ão, em traços gerais, para que continue a vigorar uma ideia de junção entre a diminuição das desigualdades sociais e uma primazia (que em traços gerais os republicanos dão) à liberdade empresarial, em detrimento da ideia de «bem coletivo» (ideia mais cara aos democratas).
Um Partido Republicano no seu estado normal colocaria Christie ou Jeb Bush como os candidatos naturais para defrontar Hillary em 2016.
Embora com fases de discurso dúbio, a nomeação de Romney em 2012 e McCain em 2008 mostraram que essa abordagem clássica continua a prevalecer nos momentos certos do Partido Republicano.
Mas o peso excessivo do «Tea Party» nos últimos anos da direita americana está a dar uma oportunidade acrescida a outro tipo de soluções.
Em futuras crónicas, falarei de Ted Cruz, Marco Rubio, Paul Ryan, Mike Huckabee ou até de Michele Bachmann e Sarah Palin.
Mas no leque de potenciais pretendentes republicanos para 2016, Rand Paul surge como um caso especial.
Rand foi um dos líderes da «reação Tea Party» aos primeiros anos da presidência Obama, obtendo grande resultado na eleição para o Senado, em 2010.
Desde aí, agarrou momento mediático e assumiu posições particularmente críticas contra Obama, mas também contra uma certa moderação que considera existir em setores republicanos, em relação ao Presidente.
A diferença do filho Rand para o pai Ron é que o senador do Kentucky começou a sua caminhada «por dentro» do Partido Republicano, enquanto o pai (que nunca foi senador), assumiu.se sempre como um «outsider».
Ron preferiu sempre correr por fora. Chegou a ter bons resultados em primárias, captou atenção mediática, fixou eleitorado fiel e mobilizado: mas nunca descolou de 10/12 por cento, números impossíveis de viabilizar uma nomeação.
Terá Rand Paul hipóteses de ser nomeado? Não é o mais provável, mas é possível. Peter King, republicano moderado de Nova Iorque, não o poupa: «Rand Paul é um político com posições paranóicas. Tende para a histeria. Seria péssimo que o partido fosse por esse caminho».
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Histórias da Casa Branca: um reprovação embaraçosa no Senado
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 14 DE ABRIL DE 2014:
«Nem consigo acreditar que em 2014 ainda estejamos a discutir a igualdade de pagamento para trabalho igual entre homens e mulheres»
Elizabeth Warren, senadora democrata do Massachussets
«É embaraçoso que os Estados Unidos ainda não tenham conseguido atingir o objetivo de «equal pay for equal work»
Barack Obama, Presidente dos EUA
A imposição de que homens e mulheres sejam pagos da mesma forma perante trabalhos de igual responsabilidade e diferenciação é uma ideia que, embora nem sempre praticada, parece pacífica no quadro europeu.
Mas parece ainda não ser assim na América. Desde o primeiro mandato, o Presidente Obama tem-se batido por avanços significativos nesta área e, não por acaso, teve no «Lilly Ledbetter Fair Pay Act», aprovado em 2009, uma das primeiras vitórias ideológicas da sua governação.
Assinado 29 de janeiro de 2009, apenas nove dias depois de ter tomado posse pela primeria vez como 44.º Presidente dos EUA, o «Lilly Ledbetter Fair Pay Act» atualiza o «civil rights act» de 1964, reforçando os instrumentos legais das mulheres trabalhadoras, no sentido de não serem discriminadas no seu local de trabalho.
Mas o caminho legislativo de «equal pay for equal work» é longo. Basta lembrar que, apenas dois anos antes dessa assinatura presidencial, as duas câmaras do congresso recusaram emenda semelhante, perante oposição republicana.
Nos últimos anos, perante as dificuldades políticas da Casa Branca de aprovar o essencial da sua legislação junto do congresso, Obama retraiu esta questão nas suas prioridades, tendo o tema sido liderado, do lado democrata, pela senadora Elizabeth Warren.
A senadora Warren é uma das líderes ideológicas do Partido Democrata, por estes dias.
Figura próxima de Obama (ajudou o Presidente em temas quentes do primeiro mandato, como a regulação de Wall Street), Elizabeth foi crucial para uma certa recuperação política de Obama no último ano do primeiro mandato, ao recuperar para os democratas o lugar que havia sido perdido no Senado, em representação do Massachussets, após a morte de Ted Kennedy.
Ora, uma das prioridades políticas de Elizabeth Warren desde que chegou ao Capitólio é, precisamente, esta ideia de «equal pay for equal work».
O Presidente também tem nesta tema um dos seus objetivos para o segundo mandato. Para Obama, uma «economia durável», meta que insiste em reforçar para os EUA, «só é possível quando o trabalho duro recompense, independentemente do género do trabalhador».
A realidade laboral americana aponta para que as mulheres ganhem cerca de 77% dos homens, perante trabalhos semelhantes.
Obama criou uma «Equal Pay Task Force» e apoia o Paycheck Fairness Act, que daria às mulheres ainda mais instrumentos para atingir a tal igualdade laboral.
Só que a proposta legislativa, que tinha em Warren uma das principais promotoras, chumbou no Senado.
Os senadores republicanos (incluindo algumas mulheres) travaram a ideia, gerando reação indignada de Elizabeth Warren: «Estou chocada com a reprovação de muitas colegas minhas do Partido Republicano no Senado».
«Hoje em dia, em 99.6% dos locais de trabalho nos EUA, os homens ganham mais que as mulheres. Isso não é um acidente. É discriminação», acusa a senadora Warren.
Obama foi ainda mais longe: «É embaraçoso que em 2014 ainda estejamos a discutir isto».
O que leva os republicanos a estar contra esta ideia de igualdade? A congressista Catthy McMorris Rodgers, republicana de Washington, considera que «a melhor forma de ajudar as mulheres trabalhadoras americanas é combater a política económica errada do Presidente Obama, que está a afetar as trabalhadoras, e apoiar as medidas republicanas de incentivo aos pequenos negócios e à criação de empregos».
A luta ideológica anda ao rubro na América.
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»
«Nem consigo acreditar que em 2014 ainda estejamos a discutir a igualdade de pagamento para trabalho igual entre homens e mulheres»
Elizabeth Warren, senadora democrata do Massachussets
«É embaraçoso que os Estados Unidos ainda não tenham conseguido atingir o objetivo de «equal pay for equal work»
Barack Obama, Presidente dos EUA
A imposição de que homens e mulheres sejam pagos da mesma forma perante trabalhos de igual responsabilidade e diferenciação é uma ideia que, embora nem sempre praticada, parece pacífica no quadro europeu.
Mas parece ainda não ser assim na América. Desde o primeiro mandato, o Presidente Obama tem-se batido por avanços significativos nesta área e, não por acaso, teve no «Lilly Ledbetter Fair Pay Act», aprovado em 2009, uma das primeiras vitórias ideológicas da sua governação.
Assinado 29 de janeiro de 2009, apenas nove dias depois de ter tomado posse pela primeria vez como 44.º Presidente dos EUA, o «Lilly Ledbetter Fair Pay Act» atualiza o «civil rights act» de 1964, reforçando os instrumentos legais das mulheres trabalhadoras, no sentido de não serem discriminadas no seu local de trabalho.
Mas o caminho legislativo de «equal pay for equal work» é longo. Basta lembrar que, apenas dois anos antes dessa assinatura presidencial, as duas câmaras do congresso recusaram emenda semelhante, perante oposição republicana.
Nos últimos anos, perante as dificuldades políticas da Casa Branca de aprovar o essencial da sua legislação junto do congresso, Obama retraiu esta questão nas suas prioridades, tendo o tema sido liderado, do lado democrata, pela senadora Elizabeth Warren.
A senadora Warren é uma das líderes ideológicas do Partido Democrata, por estes dias.
Figura próxima de Obama (ajudou o Presidente em temas quentes do primeiro mandato, como a regulação de Wall Street), Elizabeth foi crucial para uma certa recuperação política de Obama no último ano do primeiro mandato, ao recuperar para os democratas o lugar que havia sido perdido no Senado, em representação do Massachussets, após a morte de Ted Kennedy.
Ora, uma das prioridades políticas de Elizabeth Warren desde que chegou ao Capitólio é, precisamente, esta ideia de «equal pay for equal work».
O Presidente também tem nesta tema um dos seus objetivos para o segundo mandato. Para Obama, uma «economia durável», meta que insiste em reforçar para os EUA, «só é possível quando o trabalho duro recompense, independentemente do género do trabalhador».
A realidade laboral americana aponta para que as mulheres ganhem cerca de 77% dos homens, perante trabalhos semelhantes.
Obama criou uma «Equal Pay Task Force» e apoia o Paycheck Fairness Act, que daria às mulheres ainda mais instrumentos para atingir a tal igualdade laboral.
Só que a proposta legislativa, que tinha em Warren uma das principais promotoras, chumbou no Senado.
Os senadores republicanos (incluindo algumas mulheres) travaram a ideia, gerando reação indignada de Elizabeth Warren: «Estou chocada com a reprovação de muitas colegas minhas do Partido Republicano no Senado».
«Hoje em dia, em 99.6% dos locais de trabalho nos EUA, os homens ganham mais que as mulheres. Isso não é um acidente. É discriminação», acusa a senadora Warren.
Obama foi ainda mais longe: «É embaraçoso que em 2014 ainda estejamos a discutir isto».
O que leva os republicanos a estar contra esta ideia de igualdade? A congressista Catthy McMorris Rodgers, republicana de Washington, considera que «a melhor forma de ajudar as mulheres trabalhadoras americanas é combater a política económica errada do Presidente Obama, que está a afetar as trabalhadoras, e apoiar as medidas republicanas de incentivo aos pequenos negócios e à criação de empregos».
A luta ideológica anda ao rubro na América.
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»
sábado, 12 de abril de 2014
Histórias da Casa Branca: Jeb Bush lança o isco
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 10 DE ABRIL DE 2014:
Na continuação da avaliação da corrida republicana para 2016, vamos hoje a olhar para Jeb Bush, o ex-governador da Flórida.
Nascido em Midland, Texas, há 61 anos, é filho e irmão de antigos presidentes.
O seu pai, George Herbert Walker Bush, foi o 41.º Presidente dos EUA e só cumpriu um mandato, perdendo a reeleição para Bill Clinton, que em 1992 era um jovem governador de um pequeno estado do Sul, o Arkansas.
O irmão, George «Dabia» Bush, foi o 43.º Presidente dos EUA, deixando, nos dois mandatos, tremenda herança de 11 de Setembro, duas guerras desastrosas (Iraque e Afeganistão) e, para fechar «em beleza», o auge da maior crise financeira e económica desde os anos 30.
Os antecedentes familiares não seriam, por isso, à partida, grande credencial para as aspirações de Jeb Bush. Mas na política americana há um conjunto muito variado de fatores a analisar.
O «pedigree» político está marcado em Jeb no seu nome e na sua história familiar. Vantagem ou problema? As duas coisas, na verdade. Tudo depende da forma como o candidato encarar a questão.
E Jeb pode, de facto, apresentar-se como uma das soluções mais viáveis que os republicanos têm para fazer face a Hillary Clinton em 2016: tem nome, um bom percurso político (foi governador popular entre democratas e republicanos num dos estados mais relevantes para as contas presidenciais, a Flórida) e tem-se conseguido afastar da ala mais radical e assustadora que, nos últimos anos, «infetou» o discurso mais tradicional da Direita americana.
Olhando a coisa mais em perspetiva, o interesse mediático, jornalístico e até histórico de um eventual duelo presidencial Clinton (Hillary) «vs» Bush (Jeb) em 2016 seria enorme e provocaria uma das mais apetecíveis corridas presidenciais de que há memória na América.
É possível? É. Embora não seja o mais provável, neste momento, esse cenário de uma repetição Clinton «vs» Bush, 24 anos depois do jovem Bill ter batido o então Presidente George HW, em 1992.
Está tudo em aberto no campo republicano. As fações nos conservadores são tantas que a corrida mostra um leque de seis ou sete candidatos com uma base inicial de apoio idêntica, na ordem dos 10/12 pontos. E Jeb Bush está nessa «shortlist».
O que o faz, então, merecer atenções especiais de quem tenta antecipar o que vai acontecer em 2016? Além do nome e do registo familiar, também as características que apresenta como político e como potencial candidato.
«Nesta fase da corrida, Jeb é uma espécie de Chris Christie sem o escândalo da ponte de Nova Jérsia», nota Jason Riley na Fox. «Jeb apresenta-se como republicano moderado, capaz de chegar ao outro lado, com hipóteses de alargar a sua base e com capacidade de angariação de bom dinheiro. Pode ter o seu momento».
Outro relevante comentador da Fox, Charles Lane, vai mais longe: «Jeb Bush tem condições de mostrar o lado mais viável do Partido Republicano. Mas tem que conseguir convencer o seu próprio partido disso».
Ao contrário do irmão George W., que na Casa Branca se deixou influenciar pela ala mais à direita do partido, depois de ter sido governador do Texas capaz de «chegar ao outro lado», Jeb parece querer manter-se como republicano moderado.
Em recente entrevista a Shannon Bream, Jeb Bush quis reforçar essa sua abordagem, falando dos imigrantes ilegais com especial moderação: «Não os vejo como criminosos. Sinto que fizeram algo por compaixão, para tentar melhorar a vida dos seus filhos».
Essa declaração pode ser popular ao centro e à esquerda, mas frisa Charles Krauthammer, comentador conservador, «pode ser fatal para as aspirações de Jeb de agarrar a base do partido».
Outro problema de Jeb é o facto de estar afastado dos centros de decisão política há oito anos, desde que deixou de ser governador.
Estará a tempo de regressar em grande?
Na continuação da avaliação da corrida republicana para 2016, vamos hoje a olhar para Jeb Bush, o ex-governador da Flórida.
Nascido em Midland, Texas, há 61 anos, é filho e irmão de antigos presidentes.
O seu pai, George Herbert Walker Bush, foi o 41.º Presidente dos EUA e só cumpriu um mandato, perdendo a reeleição para Bill Clinton, que em 1992 era um jovem governador de um pequeno estado do Sul, o Arkansas.
O irmão, George «Dabia» Bush, foi o 43.º Presidente dos EUA, deixando, nos dois mandatos, tremenda herança de 11 de Setembro, duas guerras desastrosas (Iraque e Afeganistão) e, para fechar «em beleza», o auge da maior crise financeira e económica desde os anos 30.
Os antecedentes familiares não seriam, por isso, à partida, grande credencial para as aspirações de Jeb Bush. Mas na política americana há um conjunto muito variado de fatores a analisar.
O «pedigree» político está marcado em Jeb no seu nome e na sua história familiar. Vantagem ou problema? As duas coisas, na verdade. Tudo depende da forma como o candidato encarar a questão.
E Jeb pode, de facto, apresentar-se como uma das soluções mais viáveis que os republicanos têm para fazer face a Hillary Clinton em 2016: tem nome, um bom percurso político (foi governador popular entre democratas e republicanos num dos estados mais relevantes para as contas presidenciais, a Flórida) e tem-se conseguido afastar da ala mais radical e assustadora que, nos últimos anos, «infetou» o discurso mais tradicional da Direita americana.
Olhando a coisa mais em perspetiva, o interesse mediático, jornalístico e até histórico de um eventual duelo presidencial Clinton (Hillary) «vs» Bush (Jeb) em 2016 seria enorme e provocaria uma das mais apetecíveis corridas presidenciais de que há memória na América.
É possível? É. Embora não seja o mais provável, neste momento, esse cenário de uma repetição Clinton «vs» Bush, 24 anos depois do jovem Bill ter batido o então Presidente George HW, em 1992.
Está tudo em aberto no campo republicano. As fações nos conservadores são tantas que a corrida mostra um leque de seis ou sete candidatos com uma base inicial de apoio idêntica, na ordem dos 10/12 pontos. E Jeb Bush está nessa «shortlist».
O que o faz, então, merecer atenções especiais de quem tenta antecipar o que vai acontecer em 2016? Além do nome e do registo familiar, também as características que apresenta como político e como potencial candidato.
«Nesta fase da corrida, Jeb é uma espécie de Chris Christie sem o escândalo da ponte de Nova Jérsia», nota Jason Riley na Fox. «Jeb apresenta-se como republicano moderado, capaz de chegar ao outro lado, com hipóteses de alargar a sua base e com capacidade de angariação de bom dinheiro. Pode ter o seu momento».
Outro relevante comentador da Fox, Charles Lane, vai mais longe: «Jeb Bush tem condições de mostrar o lado mais viável do Partido Republicano. Mas tem que conseguir convencer o seu próprio partido disso».
Ao contrário do irmão George W., que na Casa Branca se deixou influenciar pela ala mais à direita do partido, depois de ter sido governador do Texas capaz de «chegar ao outro lado», Jeb parece querer manter-se como republicano moderado.
Em recente entrevista a Shannon Bream, Jeb Bush quis reforçar essa sua abordagem, falando dos imigrantes ilegais com especial moderação: «Não os vejo como criminosos. Sinto que fizeram algo por compaixão, para tentar melhorar a vida dos seus filhos».
Essa declaração pode ser popular ao centro e à esquerda, mas frisa Charles Krauthammer, comentador conservador, «pode ser fatal para as aspirações de Jeb de agarrar a base do partido».
Outro problema de Jeb é o facto de estar afastado dos centros de decisão política há oito anos, desde que deixou de ser governador.
Estará a tempo de regressar em grande?
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Histórias da Casa Branca: o labirinto republicano
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 7 DE ABRIL DE 2014:
A um ano e sete meses de arrancar oficialmente a época de primárias nos EUA (na prática, ela já está em movimento), a evolução das sondagens mostra duas coisas: do lado democrata, Hillary exibe vantagem politicamente impossível de reverter; no campo republicano, não há «frontrunner» declarado e a corrida está aberta a um leque vasto e variado de pretendentes.
Nisto de falar de possíveis nomeados presidenciais a tanto tempo de distância, há quase sempre a tentação de se apontar favoritos.
E seria difícil encontrar um quadro mais discrepante entre os dois campos partidários. Hillary só não será a nomeada democrata se não quiser. Em grande contraste, não dá para indicar quem está, nesta altura, em melhor posição no lado republicano.
Muito decorrerá do caminho que a direita americana percorreu nos últimos anos.
A forma de encarar o «fenómeno Obama» mudou o conservadorismo americano. E deixou a corrida à nomeação presidencial republicana para 2016 num autêntico labirinto.
O eixo da direita política nos EUA afastou-se do centro nos últimos seis anos. Basta dizer que, na corrida de 2007/2008, Mitt Romney ocupava o segmento «à direita» as primárias republicanas que viriam a ser ganhas por John McCain.
Quatro anos depois, em 2011/2012, Mitt Romney representou a solução mais moderada de um lote de candidatos um bocadinho assustador, que continha o ultraconservador religioso Rick Santorum, o «cowboy» texano Rick Perry, ou a «tea party darling» Michele Bachmann.
A derrota a toda a linha de Romney para Obama, em novembro de 2012, fez levantar várias inquietações nas diferentes correntes republicanas: faria sentido continuar a permitir que uma linha tão radical dominasse o discurso do Partido Republicano?
A forma como o próprio Romney foi levado a descolar o seu discurso para a direita, de modo a conseguir agarrar a nomeação de 2012, não teria sido contraproducente para as aspirações dos republicanos de evitar a reeleição de Obama?
Passou um ano e meio desde esse momento. E, por estranho que isso parecer, não houve ainda sinais claros de que uma via moderada passe a prevalecer na escolha republicana de 2016.
Sobram nomes e pretendentes, mas falta ainda uma definição clara do caminho que o Partido Republicano vai pretende seguir, na tentativa de recuperar o controlo da Casa Branca, que em 2008 perdeu para o Partido Democrata.
Poderão os oito anos de Obama ser prolongados por mais quatro ou mesmo oito de Hillary Clinton?
As sondagens mostram que esse é o cenário mais provável (Hillary bate com relativa facilidade qualquer contendor republicano), mas convém lembrar que estamos ainda muito distantes no calendário da fase que irá decidir verdadeiramente a sucessão de Obama.
E é preciso, sobretudo, recordar que os sucessos eleitorais de Barack Obama em 2008 e 2012 terminaram com uma tendência, que parecia consistente, de vantagem republicana nas eleições presidenciais (no meio século que mediou Kennedy de Obama, só três democratas conseguiram chegar à Casa Branca: Johnson, Carter e Clinton).
O opositor de Hillary Clinton será um dado crucial para percebermos a dinâmica da corrida presidencial de 2016.
Em traços gerais, parece claro que qualquer escolha mais radical do campo republicano (Sarah Palin, Michelle Bachmann, Rick Perry, Rick Santorum, Ted Cruz, Rand Paul) significará um passeio para Hillary na eleição geral.
Se em 2012 a base republicana soube escolher com a razão e não com o coração (Romney não era o mais mobilizador, mas era de longe quem mais hipóteses tinha de evitar o triunfo de Obama), essa necessidade reforça-se para 2016.
Espaço para Jeb Bush, Paul Ryan ou mesmo Marco Rubio? Talvez.
Voltaremos a este tema muito em breve. Uma eleição presidencial americana é mesmo a mais louca corrida do Mundo.
A um ano e sete meses de arrancar oficialmente a época de primárias nos EUA (na prática, ela já está em movimento), a evolução das sondagens mostra duas coisas: do lado democrata, Hillary exibe vantagem politicamente impossível de reverter; no campo republicano, não há «frontrunner» declarado e a corrida está aberta a um leque vasto e variado de pretendentes.
Nisto de falar de possíveis nomeados presidenciais a tanto tempo de distância, há quase sempre a tentação de se apontar favoritos.
E seria difícil encontrar um quadro mais discrepante entre os dois campos partidários. Hillary só não será a nomeada democrata se não quiser. Em grande contraste, não dá para indicar quem está, nesta altura, em melhor posição no lado republicano.
Muito decorrerá do caminho que a direita americana percorreu nos últimos anos.
A forma de encarar o «fenómeno Obama» mudou o conservadorismo americano. E deixou a corrida à nomeação presidencial republicana para 2016 num autêntico labirinto.
O eixo da direita política nos EUA afastou-se do centro nos últimos seis anos. Basta dizer que, na corrida de 2007/2008, Mitt Romney ocupava o segmento «à direita» as primárias republicanas que viriam a ser ganhas por John McCain.
Quatro anos depois, em 2011/2012, Mitt Romney representou a solução mais moderada de um lote de candidatos um bocadinho assustador, que continha o ultraconservador religioso Rick Santorum, o «cowboy» texano Rick Perry, ou a «tea party darling» Michele Bachmann.
A derrota a toda a linha de Romney para Obama, em novembro de 2012, fez levantar várias inquietações nas diferentes correntes republicanas: faria sentido continuar a permitir que uma linha tão radical dominasse o discurso do Partido Republicano?
A forma como o próprio Romney foi levado a descolar o seu discurso para a direita, de modo a conseguir agarrar a nomeação de 2012, não teria sido contraproducente para as aspirações dos republicanos de evitar a reeleição de Obama?
Passou um ano e meio desde esse momento. E, por estranho que isso parecer, não houve ainda sinais claros de que uma via moderada passe a prevalecer na escolha republicana de 2016.
Sobram nomes e pretendentes, mas falta ainda uma definição clara do caminho que o Partido Republicano vai pretende seguir, na tentativa de recuperar o controlo da Casa Branca, que em 2008 perdeu para o Partido Democrata.
Poderão os oito anos de Obama ser prolongados por mais quatro ou mesmo oito de Hillary Clinton?
As sondagens mostram que esse é o cenário mais provável (Hillary bate com relativa facilidade qualquer contendor republicano), mas convém lembrar que estamos ainda muito distantes no calendário da fase que irá decidir verdadeiramente a sucessão de Obama.
E é preciso, sobretudo, recordar que os sucessos eleitorais de Barack Obama em 2008 e 2012 terminaram com uma tendência, que parecia consistente, de vantagem republicana nas eleições presidenciais (no meio século que mediou Kennedy de Obama, só três democratas conseguiram chegar à Casa Branca: Johnson, Carter e Clinton).
O opositor de Hillary Clinton será um dado crucial para percebermos a dinâmica da corrida presidencial de 2016.
Em traços gerais, parece claro que qualquer escolha mais radical do campo republicano (Sarah Palin, Michelle Bachmann, Rick Perry, Rick Santorum, Ted Cruz, Rand Paul) significará um passeio para Hillary na eleição geral.
Se em 2012 a base republicana soube escolher com a razão e não com o coração (Romney não era o mais mobilizador, mas era de longe quem mais hipóteses tinha de evitar o triunfo de Obama), essa necessidade reforça-se para 2016.
Espaço para Jeb Bush, Paul Ryan ou mesmo Marco Rubio? Talvez.
Voltaremos a este tema muito em breve. Uma eleição presidencial americana é mesmo a mais louca corrida do Mundo.
sábado, 5 de abril de 2014
Histórias da Casa Branca: ObamaCare, sucesso sofrido mas real
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 4 DE ABRIL DE 2014:
«Mais de sete milhões de americanos já aderiram ao Affordable Care Act. O debate sobre repelir a lei está terminado. A Reforma da Saúde é uma realidade nos Estados Unidos da América»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
A Reforma da Saúde é a maior história política dos anos Obama.
Se o inquilino da Casa Branca ficará para sempre nos livros de registo dos presidentes da América como o primeiro negro, a verdade é que, do ponto de vista da sua agenda política e ideológica, a aprovação e implementação de um sistema de saúde tendencialmente universal, num país que até ao seu mandato deixava perto de 50 milhões de americanos sem qualquer tipo de cobertura, será a marca mais duradoura.
E também a mais polémica e fraturante, convenhamos. Se há tema que «parte» o eleitorado e a elite política americana ao meio, é o popularmente designado de «ObamaCare».
A questão permanece, quente, na discussão política e mediática norte-americana há quase uma década.
Dominou a agenda da eleição presidencial de 2008 (Obama e Hillary, os dois principais candidatos nas primárias democratas desse ano, tinha em comum a Reforma da Saúde como prioridade, embora com divergências de pormenor nos respetivos planos).
Colocou Obama na berlinda, nos primeiros anos de primeiro mandato presidencial, tamanha era a aversão da direita americana à ideia de aprovar um plano federal de enorme dimensão.
O «ObamaCare», dito assim de forma perjorativa pelos conservadores e pela ala radical Tea Party, deu jeito à direita americana para rotular o atual presidente de «esquerdista», «despesista», «dar excessivo peso ao governo e violar os direitos individuais dos americanos» e mesmo coisas piores no imaginário político americanos, como... «socialista» ou «comunista».
Em política, o tempo é um fator relevante. Os mandatos têm durações limitadas ¿ e há que estabelecer prioridades.
Numa análise aos cinco anos e meio de Presidência Obama, vemos que o tema que se manteve sempre à tona foi este: nunca o Presidente deixou cair a Reforma da Saúde.
Com grande contradição: as sondagens sempre mostraram uma maioria de 50 e poucos por cento de americanos contra a ideia; mas o historial legislativo conferiu progressiva legitimidade ao plano de saúde do Presidente.
O «Affordable Health Care Act» foi aprovado no Congresso a 21 de março de 2010 (numa altura em que havia forte maioria democrata nas duas câmaras), confirmado pelo Supremo Tribunal dos EUA em junho de 2012 e relegitimado, no plano político, pela clara reeleição de Obama, em novembro de 2012.
Já está em prática, mas os primeiros meses aplicação foram desastrosos (muito por culpa da inabilidade executiva e mesmo comunicacional da Administração Obama, que cometeu muitos erros no modelo de aplicação).
A gestão dos danos foi difícil e demorou o seu tempo. Mas na passada terça-feira, a passagem dos 7,1 milhões de americanos a aderir ao plano foi aproveitada pelo Presidente para concluir: «Os benefícios deste plano nas pessoas reais são indiscutíveis. A discussão sobre o tema está terminada. Não há caminho para trás. O Affordable Health Care Act é uma realidade e já ajudou milhões de americanos», apontou Obama, em discurso no Rose Garden, com o seu vice-presidente, Joe Biden, ligeiramente atrás, a concordar.
Obama relembrou a importância, nestes anos de luta legislativa e política pela aprovação, de democratas como Harry Reid (líder da maioria no Senado) ou Nancy Pelosi (líder da agora minoria democrata na House e «speaker» do Câmara dos Representantes na altura da aprovação, em 2010).
Mesmo no Partido Democrata, o tema está longe de ser consensual. Em 2010, muitos congressistas democratas perderam o lugar à custa de apoiarem o ObamaCare. Não querendo repetir o sacrifício, alguns até pedem ao Presidente para que não faça campanha nos seus distritos, com medo de que a impopularidade desse programa volte a «contagiar» negativamente os resultados dos democratas.
«Mais de sete milhões de americanos já aderiram ao Affordable Care Act. O debate sobre repelir a lei está terminado. A Reforma da Saúde é uma realidade nos Estados Unidos da América»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
A Reforma da Saúde é a maior história política dos anos Obama.
Se o inquilino da Casa Branca ficará para sempre nos livros de registo dos presidentes da América como o primeiro negro, a verdade é que, do ponto de vista da sua agenda política e ideológica, a aprovação e implementação de um sistema de saúde tendencialmente universal, num país que até ao seu mandato deixava perto de 50 milhões de americanos sem qualquer tipo de cobertura, será a marca mais duradoura.
E também a mais polémica e fraturante, convenhamos. Se há tema que «parte» o eleitorado e a elite política americana ao meio, é o popularmente designado de «ObamaCare».
A questão permanece, quente, na discussão política e mediática norte-americana há quase uma década.
Dominou a agenda da eleição presidencial de 2008 (Obama e Hillary, os dois principais candidatos nas primárias democratas desse ano, tinha em comum a Reforma da Saúde como prioridade, embora com divergências de pormenor nos respetivos planos).
Colocou Obama na berlinda, nos primeiros anos de primeiro mandato presidencial, tamanha era a aversão da direita americana à ideia de aprovar um plano federal de enorme dimensão.
O «ObamaCare», dito assim de forma perjorativa pelos conservadores e pela ala radical Tea Party, deu jeito à direita americana para rotular o atual presidente de «esquerdista», «despesista», «dar excessivo peso ao governo e violar os direitos individuais dos americanos» e mesmo coisas piores no imaginário político americanos, como... «socialista» ou «comunista».
Em política, o tempo é um fator relevante. Os mandatos têm durações limitadas ¿ e há que estabelecer prioridades.
Numa análise aos cinco anos e meio de Presidência Obama, vemos que o tema que se manteve sempre à tona foi este: nunca o Presidente deixou cair a Reforma da Saúde.
Com grande contradição: as sondagens sempre mostraram uma maioria de 50 e poucos por cento de americanos contra a ideia; mas o historial legislativo conferiu progressiva legitimidade ao plano de saúde do Presidente.
O «Affordable Health Care Act» foi aprovado no Congresso a 21 de março de 2010 (numa altura em que havia forte maioria democrata nas duas câmaras), confirmado pelo Supremo Tribunal dos EUA em junho de 2012 e relegitimado, no plano político, pela clara reeleição de Obama, em novembro de 2012.
Já está em prática, mas os primeiros meses aplicação foram desastrosos (muito por culpa da inabilidade executiva e mesmo comunicacional da Administração Obama, que cometeu muitos erros no modelo de aplicação).
A gestão dos danos foi difícil e demorou o seu tempo. Mas na passada terça-feira, a passagem dos 7,1 milhões de americanos a aderir ao plano foi aproveitada pelo Presidente para concluir: «Os benefícios deste plano nas pessoas reais são indiscutíveis. A discussão sobre o tema está terminada. Não há caminho para trás. O Affordable Health Care Act é uma realidade e já ajudou milhões de americanos», apontou Obama, em discurso no Rose Garden, com o seu vice-presidente, Joe Biden, ligeiramente atrás, a concordar.
Obama relembrou a importância, nestes anos de luta legislativa e política pela aprovação, de democratas como Harry Reid (líder da maioria no Senado) ou Nancy Pelosi (líder da agora minoria democrata na House e «speaker» do Câmara dos Representantes na altura da aprovação, em 2010).
Mesmo no Partido Democrata, o tema está longe de ser consensual. Em 2010, muitos congressistas democratas perderam o lugar à custa de apoiarem o ObamaCare. Não querendo repetir o sacrifício, alguns até pedem ao Presidente para que não faça campanha nos seus distritos, com medo de que a impopularidade desse programa volte a «contagiar» negativamente os resultados dos democratas.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Histórias da Casa Branca: a UE, Putin e o «guarda-chuva» americano
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 31 DE MARÇO DE 2014:
«Putin revela mágoa profunda pelo fim da URSS»
«A Rússia tem que retirar as tropas da zonas de fronteira com a Ucrânia, para aliviar tensões. Aumentar o número de tropas na fronteira da Ucrânia não é o que a Rússia deve fazer»
«Há um forte sentimento de nacionalismo na Rússia e que, de certa maneira, há a ideia de que o ocidente ganhou vantagem sobre a Rússia no passado. O que tenho dito é que têm interpretado mal as intenções do ocidente. E, garantidamente, não têm compreendido as intenções da diplomacia americana».
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, entrevista à CBS
O que se passou na Crimeia foi um sério teste à capacidade do exército russo. Eles demonstraram as novas capacidades das nossas forças armadas em termos de qualidade e do elevado moral dos militares
VLADIMIR PUTIN, Presidente da Rússia, citado pela BBC
A visita de Obama à Europa e o aparente recuo de Putin na intenção de «alargamento do território» após a ação militar na Crimeia ajudam-nos a obter alguma lógica racional neste «traumatismo ucraniano».
Se, num primeiro momento, Putin ganhou pelo efeito surpresa, os últimos dias terão sido claros a mostrar que a Rússia corre o risco de ficar isolada na sua «jogada de antecipação», que levou à anexação da Crimeia (ilegal para a comunidade internacional, legitimada ao olhos de Moscovo pelo referendo).
Putin foi magistral no lance militar, percebendo que, após Maidan, o sentimento dominante na Crimeia seria de apelar à proteção de Moscovo, perante a fragilidade da nova ordem político em Kiev.
Mas o presidente russo está a perder a segunda parte desta eliminatória. Putin esperaria uma reação da União Europeia mais titubeante, perante a enorme ligação comercial entre Berlim e Moscovo e até com as influências financeiras entre as praças de Londres e Frankfurt com os magnatas russos.
A juntar a isto, o líder russo terá antecipado um certo esfriamento das relações transatlânticas, em função das revelações constrangedoras do «caso Snowden», com as escutas da NSA a conversas privadas de altos dirigentes políticos e diplomáticos europeus, entre os quais a chanceler Merkel.
Tudo isso terá o seu peso. Mas o que se assistiu,nos últimos dias, foi a um claro reforço da aliança euro-americana, sublimado na cimeira EUA/UE, realizada na semana passada em Bruxelas.
Obama, que no passado recente mostrara pouco entusiasmo perante o «complexo burocrático» das instituições europeias, deu claríssimo sinal de que a aliança entre os Estados Unidos e a União Europeia continua a ser a «pedra angular» das relações externas americanas.
Mesmo uma Europa ainda a tentar salvar-se da crise do euro e das dívidas soberanas de vários dos seus países se mostra, em momentos definidores como é este da questão ucraniana, o aliado mais sólido e consistente dos EUA.
Acresce que os últimos meses têm revelado um claro arrefecimento das economias dos BRIC (Brasil, Rússia, Índica, China e a agora também África do Sul e mesmo a Turquia).
Até ao ano passado, a narrativa dominante na política internacional era de que esses países iriam apresentar taxas de crescimento espetaculares, promovendo uma progressiva perda de influência da economia americana.
Ora, não é isso que está a suceder em 2014: a América, em clara recuperação económica, já tem taxas de crescimento superiores a muitos desses países.
Em contraponto, a Rússia tem debilidades na sua estrutura económica que Putin quererá, eventualmente, disfarçar com esta demonstração de força do seu exército, na questão ucraniana.
Com este quadro, a Europa, mesmo ressentida com as ondas de choque do caso Snowden, nem sequer hesita: sente-se muito mais «americana» do que «russa».
Os momentos de tensão têm esta vantagem: ajudam a escolher caminhos.
«Putin revela mágoa profunda pelo fim da URSS»
«A Rússia tem que retirar as tropas da zonas de fronteira com a Ucrânia, para aliviar tensões. Aumentar o número de tropas na fronteira da Ucrânia não é o que a Rússia deve fazer»
«Há um forte sentimento de nacionalismo na Rússia e que, de certa maneira, há a ideia de que o ocidente ganhou vantagem sobre a Rússia no passado. O que tenho dito é que têm interpretado mal as intenções do ocidente. E, garantidamente, não têm compreendido as intenções da diplomacia americana».
BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, entrevista à CBS
O que se passou na Crimeia foi um sério teste à capacidade do exército russo. Eles demonstraram as novas capacidades das nossas forças armadas em termos de qualidade e do elevado moral dos militares
VLADIMIR PUTIN, Presidente da Rússia, citado pela BBC
A visita de Obama à Europa e o aparente recuo de Putin na intenção de «alargamento do território» após a ação militar na Crimeia ajudam-nos a obter alguma lógica racional neste «traumatismo ucraniano».
Se, num primeiro momento, Putin ganhou pelo efeito surpresa, os últimos dias terão sido claros a mostrar que a Rússia corre o risco de ficar isolada na sua «jogada de antecipação», que levou à anexação da Crimeia (ilegal para a comunidade internacional, legitimada ao olhos de Moscovo pelo referendo).
Putin foi magistral no lance militar, percebendo que, após Maidan, o sentimento dominante na Crimeia seria de apelar à proteção de Moscovo, perante a fragilidade da nova ordem político em Kiev.
Mas o presidente russo está a perder a segunda parte desta eliminatória. Putin esperaria uma reação da União Europeia mais titubeante, perante a enorme ligação comercial entre Berlim e Moscovo e até com as influências financeiras entre as praças de Londres e Frankfurt com os magnatas russos.
A juntar a isto, o líder russo terá antecipado um certo esfriamento das relações transatlânticas, em função das revelações constrangedoras do «caso Snowden», com as escutas da NSA a conversas privadas de altos dirigentes políticos e diplomáticos europeus, entre os quais a chanceler Merkel.
Tudo isso terá o seu peso. Mas o que se assistiu,nos últimos dias, foi a um claro reforço da aliança euro-americana, sublimado na cimeira EUA/UE, realizada na semana passada em Bruxelas.
Obama, que no passado recente mostrara pouco entusiasmo perante o «complexo burocrático» das instituições europeias, deu claríssimo sinal de que a aliança entre os Estados Unidos e a União Europeia continua a ser a «pedra angular» das relações externas americanas.
Mesmo uma Europa ainda a tentar salvar-se da crise do euro e das dívidas soberanas de vários dos seus países se mostra, em momentos definidores como é este da questão ucraniana, o aliado mais sólido e consistente dos EUA.
Acresce que os últimos meses têm revelado um claro arrefecimento das economias dos BRIC (Brasil, Rússia, Índica, China e a agora também África do Sul e mesmo a Turquia).
Até ao ano passado, a narrativa dominante na política internacional era de que esses países iriam apresentar taxas de crescimento espetaculares, promovendo uma progressiva perda de influência da economia americana.
Ora, não é isso que está a suceder em 2014: a América, em clara recuperação económica, já tem taxas de crescimento superiores a muitos desses países.
Em contraponto, a Rússia tem debilidades na sua estrutura económica que Putin quererá, eventualmente, disfarçar com esta demonstração de força do seu exército, na questão ucraniana.
Com este quadro, a Europa, mesmo ressentida com as ondas de choque do caso Snowden, nem sequer hesita: sente-se muito mais «americana» do que «russa».
Os momentos de tensão têm esta vantagem: ajudam a escolher caminhos.
sábado, 29 de março de 2014
Histórias da Casa Branca: Putin reaproximou Obama da Europa
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.PT, A 28 DE MARÇO DE 2014:
«A Rússia é uma potência regional e não constitui ameaça real aos EUA. A forma como os russos continuam a perturbar os seus vizinhos mostra a sua fraqueza e não a sua força».
«Os nossos aliados da NATO são os nossos parceiros mais próximos no cenário internacional. A Europa é a pedra angular das relações entre os Estados Unidos e o Mundo».
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
«Muitas pessoas na Europa fizeram leitura exagerada da relação dos EUA com o Pacífico»
«O Presidente Obama disse que queria reforçar os laços com a Ásia, mas isso não significa que quisesse enfraquecer os laços com a Europa. Somos um grande país, podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo»
PETER CHASE, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa, entrevista ao Público
A crise da Crimeia pôs a nu divergência fundamental entre os europeus e americanos, por um lado, e russos, por outro, na forma de encarar as relações internacionais.
Quem vive do lado ocidental dá prioridade à estabilidade das fronteiras, ao respeito pelos tratados e à cooperação entre os Estados; a Rússia coloca em primeiro lugar a razão da força, em nome dos seus interesses nacionais.
Nos últimos dias, tem sido muita recordado o «precedente» do Kosovo para se apontar uma vulnerabilidade nesta linha de raciocínio.
Como em tudo na política internacional, o tema não é linear. Convém recordar que, no Kosovo, não houve uma anexação, nem sequer uma violação da integridade territorial por tropas de outro país. Houve, de facto, bombardeamentos da NATO sobre o que é hoje a Sérvia, mas a proclamação da independência do Kosovo decorre num contexto completamente diferente desta «anexação unilataral» por parte da Rússia, ao arrepio do direito internacional e supostamente legitimada num referendo que nem sequer colheu caução por parte da ONU.
A recente cimeira EUA/UE, que levou Barack Obama a Bruxelas pela primeira vez desde que é Presidente, reforçou esta profunda divisão de posições.
Um mérito Vladimir Putin estará a ter, com esta «crise ucraniana»: reaproximar Washington de Bruxelas.
Obama, que por 2008 era endeusado pelos líderes europeus, passou em poucos anos a «desilusão» na leitura deste lado do Atlântico. Porque prometeu no primeiro mandato ser um «Presidente do Pacífico», essencialmente preocupado em travar a ascensão da China. E, depois, pelas revelações constrangeradoras do «caso Snowden», com a perceção de a NSA escutaria conversas privadas de líderes europeus.
A Administração Obama dedicou os últimos meses a tentar sarar as feridas. Hoje mesmo, o Presidente terá recebido uma proposta de reforma da NSA, no sentido de diminuir o alcance das escutas, para que a América não volte a correr o risco de ser acusada de espiar os seus amigos e aliados. Obama defende uma NSA mais limitada, que só possa atuar com mandato judicial.
E será que as ondas de choque da «espionagem» da NSA poderá afetar a concretização da anunciada plataforma transatlântica de comércio e investimento euro-americana?
«Posso garantir que o governo americano não dá informações às nossas companhias. Mas os europeus estão a pensar em novas regras para a proteção de dados. Ora, isso não é só um problema com os EUA», recorda Peter Chase, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa.
Na visita à Europa, Obama insistiu na ilegalidade do referendo na Crimeia, recordou que a aliança euro-americana é a «pedra angular» do posicionamento dos EUA e no Mundo e mostrou que o caminho para travar a ameaça russa é insistir na via das sanções diplomáticas, militares e económicas.
A Rússia já terá perdido, nas últimas semanas, em fuga de capitais decorrentes das sanções pós-Crimeia, o equivalente a 3% do PIB (tanto como em todo o ano de 2013).
«A Rússia é uma potência regional e não constitui ameaça real aos EUA. A forma como os russos continuam a perturbar os seus vizinhos mostra a sua fraqueza e não a sua força».
«Os nossos aliados da NATO são os nossos parceiros mais próximos no cenário internacional. A Europa é a pedra angular das relações entre os Estados Unidos e o Mundo».
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
«Muitas pessoas na Europa fizeram leitura exagerada da relação dos EUA com o Pacífico»
«O Presidente Obama disse que queria reforçar os laços com a Ásia, mas isso não significa que quisesse enfraquecer os laços com a Europa. Somos um grande país, podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo»
PETER CHASE, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa, entrevista ao Público
A crise da Crimeia pôs a nu divergência fundamental entre os europeus e americanos, por um lado, e russos, por outro, na forma de encarar as relações internacionais.
Quem vive do lado ocidental dá prioridade à estabilidade das fronteiras, ao respeito pelos tratados e à cooperação entre os Estados; a Rússia coloca em primeiro lugar a razão da força, em nome dos seus interesses nacionais.
Nos últimos dias, tem sido muita recordado o «precedente» do Kosovo para se apontar uma vulnerabilidade nesta linha de raciocínio.
Como em tudo na política internacional, o tema não é linear. Convém recordar que, no Kosovo, não houve uma anexação, nem sequer uma violação da integridade territorial por tropas de outro país. Houve, de facto, bombardeamentos da NATO sobre o que é hoje a Sérvia, mas a proclamação da independência do Kosovo decorre num contexto completamente diferente desta «anexação unilataral» por parte da Rússia, ao arrepio do direito internacional e supostamente legitimada num referendo que nem sequer colheu caução por parte da ONU.
A recente cimeira EUA/UE, que levou Barack Obama a Bruxelas pela primeira vez desde que é Presidente, reforçou esta profunda divisão de posições.
Um mérito Vladimir Putin estará a ter, com esta «crise ucraniana»: reaproximar Washington de Bruxelas.
Obama, que por 2008 era endeusado pelos líderes europeus, passou em poucos anos a «desilusão» na leitura deste lado do Atlântico. Porque prometeu no primeiro mandato ser um «Presidente do Pacífico», essencialmente preocupado em travar a ascensão da China. E, depois, pelas revelações constrangeradoras do «caso Snowden», com a perceção de a NSA escutaria conversas privadas de líderes europeus.
A Administração Obama dedicou os últimos meses a tentar sarar as feridas. Hoje mesmo, o Presidente terá recebido uma proposta de reforma da NSA, no sentido de diminuir o alcance das escutas, para que a América não volte a correr o risco de ser acusada de espiar os seus amigos e aliados. Obama defende uma NSA mais limitada, que só possa atuar com mandato judicial.
E será que as ondas de choque da «espionagem» da NSA poderá afetar a concretização da anunciada plataforma transatlântica de comércio e investimento euro-americana?
«Posso garantir que o governo americano não dá informações às nossas companhias. Mas os europeus estão a pensar em novas regras para a proteção de dados. Ora, isso não é só um problema com os EUA», recorda Peter Chase, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa.
Na visita à Europa, Obama insistiu na ilegalidade do referendo na Crimeia, recordou que a aliança euro-americana é a «pedra angular» do posicionamento dos EUA e no Mundo e mostrou que o caminho para travar a ameaça russa é insistir na via das sanções diplomáticas, militares e económicas.
A Rússia já terá perdido, nas últimas semanas, em fuga de capitais decorrentes das sanções pós-Crimeia, o equivalente a 3% do PIB (tanto como em todo o ano de 2013).
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