TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 15 DE OUTUBRO DE 2014:
A ambiguidade turca é o problema central do atual momento da «campanha de contra-terrorismo» que o Presidente Obama anunciou para «destruir o Estado Islâmico».
As atrocidades desse autodenominado Estado Islâmico (que, na verdade, nem é um «estado» nem respeita a religião «Islâmica») não assustam só os norte-americanos, os europeus, os curdos iraquianos e sírios e as minorias cristãs na região.
A Turquia, país quase cem por cento muçulmano, com uma questão fundamental a travar com a vizinha Síria, nas regiões fronteiriças povoadas por curdos (e agora ameaçadas pelo avanço do proclamado EI), também está assustada com o que está a acontecer e seria suposto que estivesse empenhada em ajudar a «coligação» a impedir que os terroristas entrassem pelo seu território.
Ancara, note-se, tem a chave para travar o avanço dos jihadistas sunitas em Kobani. Mas, até agora, ainda não a quis utilizar.
E porquê?
Porque apesar de Erdogan, presidente com poderes excessivos para uma democracia, não gostar deste Estado Islâmico, a verdade é que ele vê Assad, o ditador responsável por uma guerra civil sangrenta que já dura há dois anos e meio na Síria, como inimigo ainda maior.
A Turquia foi o principal interessado num ataque americano à Síria de Assad, há um ano, na sequência da «crise das armas químicas». O problema é que, à última hora, esse ataque não aconteceu. Obama preferiu dar prioridade à sua noção de «contenção» e aceitou a negociação proposta por Putin.
Os americanos continuam a não gostar de Assad. Mas ele passou a ser um aliado improvável perante ameaça comum para EUA e Síria: este assustador Estado Islâmico.
Ora, Erdogan avalia as coisas de modo diferente de Obama e dos seus aliados europeus: para o líder turco, Assad não pode ganhar terreno na guerra civil que prossegue na Síria, à «boleia» da luta contra os jihadistas sunitas.
É um dilema típico das guerras: por vezes, um inimigo passa a ser aliado improvável. E há decisões aparentemente injustas ou até imorais que se tomam, por motivos estratégicos.
A conselheira de segurança nacional da Administração Obama, Susan Rice, tentou passar a ideia de que a coligação liderada pelos EUA para destruir o EI está a conseguir «construir consenso» na frente síria.
Em entrevista ao «Meet the Press», na NBC, Rice, antiga embaixadora dos EUA na ONU, garantiu que os turcos e os sauditas haviam autorizado o «uso de instalações militares em em território turco por parte das forças da coligação, americanas ou de outros países, de modo a que fossem desenvolvidas ações no Iraque e na Síria».
Mas a ambiguidade turca está longe de estar clarificada. Líderes militares de 22 países envolvidos em ações contra o EI reuniram-se na terça em Washington com o Presidente Obama.
Para lá da retórica política, a «construção de consenso» tem sido mais complicada no terreno, sobretudo porque a chave para travar os radicais sunitas do EI em Kobani está no uso de infantaria.
A partir do momento em que a estratégia de Obama passou por bombardeamentos em larga escala, o avanço do Estado Islâmico no terreno só pode ser derrotado por tropas da região.
No caso de Kobani, estamos a falar dos curdos sírios, dos curdos turcos e deveríamos estar também a falar das forças militares turcas, às ordens de Erdogan, que, por enquanto, se limitam a assistir, posicionadas, ao avanço dos extremistas do «califado», para indignação e desespero da população daquela cidade fronteiriça.
Enquanto a infantaria turca (a mais bem apetrechada da Europa continental, a que não conta com o Reino Unido) não avançar, a batalha de Kobani, que já dura há mais de um mês, correrá o risco de cair para lado do Estado Islâmico.
Se Kobani cair, ninguém sabe até onde chegará a ameaça do Estado Islâmico. O melhor mesmo é nunca sabermos.
O blogue que, desde novembro de 2008, lhe conta tudo o que acontece na política americana, com os olhos postos nos últimos dois anos da era Obama e na corrida às eleições presidenciais de 2016
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Histórias da Casa Branca: tantas Américas no mesmo Congresso
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 13 DE OUTUBRO DE 2014:
«Estou nesta cidade há 50 anos e já vi o melhor e o pior de Washington. Neste momento, Washington está no seu pior. Pelo clime de paralisação quase doentia que se instalou»
LEON PANETTA, antigo diretor da CIA e secretário da Defesa em parte do primeiro mandato de Barack Obama
A três semanas das eleições intercalares para o Congresso, sobe a tensão política em Washington.
Depois de anos de «gridlock» na capital política, com divergências insanáveis entre os dois polos do sistema partidário a travarem a concretização da agenda política de Obama, duas vezes legitimada nas urnas (2008 e 2012), era de supor que estas «midterms» pudessem ser uma forma de clarificar o ambiente político em DC.
Mas esta não está a ser uma campanha «normal». Do lado democrata, os receios de se perder o controlo do Senado são reais. E isso exigiria um empenhamento direto do Presidente.
A questão é que uma boa parte dos candidatos democratas, seja à reeleição nos respetivos lugares no Congresso, seja ao desafio de posições republicanas, tem fugido autenticamente do apoio de Obama, com medo de que uma colagem às políticas do Presidente seja prejudicial junto dos respetivos eleitorados.
Jay Carney, antigo porta-voz da Casa Branca e agora comentador político da CNN, já lançou o aviso: «Os candidatos democratas têm que ter cuidado em relação à distância a que se colocam das políticas do Presidente Obama».
Essa atitude é especialmente visível em estados que, nas presidenciais, votam tradicialmente no candidato republicanos, mas onde decorrem corridas competitivas para o Senado.
No Kentucky, território conservador em presidenciais, o senador Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Capitólio, está a ter dificuldades em conseguir a sua reeleição, dispondo de vantagem curta sobre a candidata democrata, Alison Lundergan Grimes, atual secretária de Estado daquele território sulista.
Mas para Alison ter esperanças de apear o «eterno» McConnell da representação do Kentucky no Senado, a democrata optou por dizer na campanha que «não é Barack Obama».
«Discordo do presidente na questão das armas e em outros temas», exorta a candidata, que em alguns anúncios até faz gala em mostrar que pega muito melhor numa arma do que o seu opositor Mitch McConnell.
Outro caso é o da senadora Jeanne Shaheen, do New Hampshire: «O presidente deve focar-se nas crises que há neste momento no mundo, em como atacar o Estado Islâmico e outros problemas. Por isso, espero que ele fique em Washington e não esteja no terreno de campanha», comentou Jeanna, à MSNBC.
A política americana tem esse lado quase esquizofrénico: os tema que, a nível nacional, geram maiorias podem ser diferentes, por vezes até contraditórios, com os que valem no plano estadual.
Costuma até dizer-se que «um democrata no Texas é mais conservador que um republicano no Massachussets». Basta prestar alguma atenção às campanhas nos estados para se perceber que é assim mesmo: Mark Begich é democrata e tem boas hipóteses de vencer a corrida no Alaska, estado profundamente republicano, apostando, também ele, numa agenda que, numa eleição presidencial, seria digna do nomeado do GOP e não dos democratas.
Torna-se, por isso, difícil faze leituras de âmbito nacional do que vier a acontecer a 4 de novembro. Mesmo assim, é praticamente certo que na Câmara dos Representantes os republicanos vão manter vantagem larga (ainda que seja de prever que, desta vez, não sejam tão «contaminados» por membros eleitos pelo Tea Party como a «onda» de 2010).
A grande questão está no Senado. Os republicanos precisam de «roubar» seis assentos aos democrata.
De acordo com o «Real Clear Politics», neste momento os democratas têm vantagem em 46 lugares, os republicanos em 45 e há nove corridas em aberto.
«Estou nesta cidade há 50 anos e já vi o melhor e o pior de Washington. Neste momento, Washington está no seu pior. Pelo clime de paralisação quase doentia que se instalou»
LEON PANETTA, antigo diretor da CIA e secretário da Defesa em parte do primeiro mandato de Barack Obama
A três semanas das eleições intercalares para o Congresso, sobe a tensão política em Washington.
Depois de anos de «gridlock» na capital política, com divergências insanáveis entre os dois polos do sistema partidário a travarem a concretização da agenda política de Obama, duas vezes legitimada nas urnas (2008 e 2012), era de supor que estas «midterms» pudessem ser uma forma de clarificar o ambiente político em DC.
Mas esta não está a ser uma campanha «normal». Do lado democrata, os receios de se perder o controlo do Senado são reais. E isso exigiria um empenhamento direto do Presidente.
A questão é que uma boa parte dos candidatos democratas, seja à reeleição nos respetivos lugares no Congresso, seja ao desafio de posições republicanas, tem fugido autenticamente do apoio de Obama, com medo de que uma colagem às políticas do Presidente seja prejudicial junto dos respetivos eleitorados.
Jay Carney, antigo porta-voz da Casa Branca e agora comentador político da CNN, já lançou o aviso: «Os candidatos democratas têm que ter cuidado em relação à distância a que se colocam das políticas do Presidente Obama».
Essa atitude é especialmente visível em estados que, nas presidenciais, votam tradicialmente no candidato republicanos, mas onde decorrem corridas competitivas para o Senado.
No Kentucky, território conservador em presidenciais, o senador Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Capitólio, está a ter dificuldades em conseguir a sua reeleição, dispondo de vantagem curta sobre a candidata democrata, Alison Lundergan Grimes, atual secretária de Estado daquele território sulista.
Mas para Alison ter esperanças de apear o «eterno» McConnell da representação do Kentucky no Senado, a democrata optou por dizer na campanha que «não é Barack Obama».
«Discordo do presidente na questão das armas e em outros temas», exorta a candidata, que em alguns anúncios até faz gala em mostrar que pega muito melhor numa arma do que o seu opositor Mitch McConnell.
Outro caso é o da senadora Jeanne Shaheen, do New Hampshire: «O presidente deve focar-se nas crises que há neste momento no mundo, em como atacar o Estado Islâmico e outros problemas. Por isso, espero que ele fique em Washington e não esteja no terreno de campanha», comentou Jeanna, à MSNBC.
A política americana tem esse lado quase esquizofrénico: os tema que, a nível nacional, geram maiorias podem ser diferentes, por vezes até contraditórios, com os que valem no plano estadual.
Costuma até dizer-se que «um democrata no Texas é mais conservador que um republicano no Massachussets». Basta prestar alguma atenção às campanhas nos estados para se perceber que é assim mesmo: Mark Begich é democrata e tem boas hipóteses de vencer a corrida no Alaska, estado profundamente republicano, apostando, também ele, numa agenda que, numa eleição presidencial, seria digna do nomeado do GOP e não dos democratas.
Torna-se, por isso, difícil faze leituras de âmbito nacional do que vier a acontecer a 4 de novembro. Mesmo assim, é praticamente certo que na Câmara dos Representantes os republicanos vão manter vantagem larga (ainda que seja de prever que, desta vez, não sejam tão «contaminados» por membros eleitos pelo Tea Party como a «onda» de 2010).
A grande questão está no Senado. Os republicanos precisam de «roubar» seis assentos aos democrata.
De acordo com o «Real Clear Politics», neste momento os democratas têm vantagem em 46 lugares, os republicanos em 45 e há nove corridas em aberto.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Histórias da Casa Branca: olhem para Kobani
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 9 DE OUTUBRO DE 2014:
A «destruição do Estado Islâmico», prometida por Obama e desejada por coligação de mais de 50 países, promete ser ainda mais difícil, arriscada e demorada do que se imaginava.
Os bombardeamentos americanos e dos aliados árabes na região não estão a ser suficientes. Tiveram alguma eficácia momentânea, mas o efeito mais claro não foi, para já, o da «eliminação», mas antes uma alteração das peças do puzzle no terreno.
O EI continua a dominar várias cidades decisivas na Síria e no Iraque e, nas últimas semanas, moveu posições para a a fronteira entre a Síria e a Turquia.
Recip Erdogan, presidente da Turquia, depois de voltar de campo de refugiados curdo em Suruc, admitiu: «Precisamos de uma intervenção terrestre. Os ataques aéreos ao Estado Islâmico não chegam nem estão a resultar. Temos de utilizar forças terrestres e proteger as populações ameaçadas.»
Mas os turcos resistem a assumirem sozinhos as despesas de tão arriscada intervenção. Mevlut Cavusoglu, ministro dos negócios estrangeiros da Turquia, avisou, com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, ao lado: «Não é realista esperar que a Turquia conduza uma operação no terreno por sua conta».
Kobani é a questão prioritária nesta luta sem quartel para travar o EI.
A batalha entre os jihadistas radicais sunitas e os curdos que tentam defender as suas posições foi quase rua a rua, casa a casa, naquela cidade do nordeste da Síria, na região de Aleppo, colada à fronteira com a Turquia.
O Pentágono e as chefias militares britânicas já vão avisando: os ataques aéreos americanos e do Reino Unido não serão suficientes para evitar que o Estado Islâmico se apodere de Kobani,
Com uma população de 45 mil pessoas, Kobani junta curdos, árabes, turcos e comunidades arménias.
A capacidade dos jihadistas se «misturarem» com a população civil é encarada por especialistas militares americanos e britânicos como a prova de que, a partir de um certo ponto, vai mesmo ter que haver tropas da coligação no terreno -- e não apenas o apoio aos rebeldes sírios, às forças iraquianas e aos «peshmargas» curdos.
«O uso de força por meio aéreo nunca foi garantia de que o conflito pudesse mudar de rumo a curto prazo, admitiu o ministro britânico das Relações Exteriores, Philip Hammond.
Jimmy Carter, que recentemente completou 90 anos, penúltimo presidente democrata antes de Obama, criticou o atual inquilino da Casa Branca por ter «demorado demais» na resposta ao Estado Islâmico.
«No que toca ao Médio Oriente, Obama mudou de políticas e foi hesitante na travagem da ameaça jihadista. «Esperou demais. Deixou que o EI se financiasse, criasse estruturas, fortalecesse as suas capacidades», criticou.
Também Leon Panetta, antigo secretário da Defesa e ex-diretor da CIA, apontou críticas algo inesperadas ao Presidente, tendo em conta que vieram de um antigo membro de topo da primeira Administração Obama: «O Presidente perdeu o rumo na política de segurança e cometeu erros que podem prolongar por 30 anos a luta contra o Estado Islâmico».
«Durante os primeiros quatro anos, e no tempo que estive lá - à frente do Pentágono - pensei que era um líder forte em assuntos de segurança ... mas nos últimos dois anos creio que perdeu, de certo modo, o rumo. Enviou mensagens ambivalentes ao abordar os temas e tentar clarificar qual o papel deste país», disse Leon Panetta, numa entrevista ao «USA Today».
Na reação, Bill Burton, antigo conselheiro do Presidente Obama, ripostou: «As críticas de Panetta são desonrosas, tristes, pequenas. Na substância, este presidente mostrou a sua liderança várias vezes. Tomou decisões muito difíceis. Defendeu os interesses americanos em várias frentes. Apanhou e eliminou Osaba Bin Laden. Tirou as nossas tropas do Afeganistão. Moveu este país na direção correta.»
A «destruição do Estado Islâmico», prometida por Obama e desejada por coligação de mais de 50 países, promete ser ainda mais difícil, arriscada e demorada do que se imaginava.
Os bombardeamentos americanos e dos aliados árabes na região não estão a ser suficientes. Tiveram alguma eficácia momentânea, mas o efeito mais claro não foi, para já, o da «eliminação», mas antes uma alteração das peças do puzzle no terreno.
O EI continua a dominar várias cidades decisivas na Síria e no Iraque e, nas últimas semanas, moveu posições para a a fronteira entre a Síria e a Turquia.
Recip Erdogan, presidente da Turquia, depois de voltar de campo de refugiados curdo em Suruc, admitiu: «Precisamos de uma intervenção terrestre. Os ataques aéreos ao Estado Islâmico não chegam nem estão a resultar. Temos de utilizar forças terrestres e proteger as populações ameaçadas.»
Mas os turcos resistem a assumirem sozinhos as despesas de tão arriscada intervenção. Mevlut Cavusoglu, ministro dos negócios estrangeiros da Turquia, avisou, com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, ao lado: «Não é realista esperar que a Turquia conduza uma operação no terreno por sua conta».
Kobani é a questão prioritária nesta luta sem quartel para travar o EI.
A batalha entre os jihadistas radicais sunitas e os curdos que tentam defender as suas posições foi quase rua a rua, casa a casa, naquela cidade do nordeste da Síria, na região de Aleppo, colada à fronteira com a Turquia.
O Pentágono e as chefias militares britânicas já vão avisando: os ataques aéreos americanos e do Reino Unido não serão suficientes para evitar que o Estado Islâmico se apodere de Kobani,
Com uma população de 45 mil pessoas, Kobani junta curdos, árabes, turcos e comunidades arménias.
A capacidade dos jihadistas se «misturarem» com a população civil é encarada por especialistas militares americanos e britânicos como a prova de que, a partir de um certo ponto, vai mesmo ter que haver tropas da coligação no terreno -- e não apenas o apoio aos rebeldes sírios, às forças iraquianas e aos «peshmargas» curdos.
«O uso de força por meio aéreo nunca foi garantia de que o conflito pudesse mudar de rumo a curto prazo, admitiu o ministro britânico das Relações Exteriores, Philip Hammond.
Jimmy Carter, que recentemente completou 90 anos, penúltimo presidente democrata antes de Obama, criticou o atual inquilino da Casa Branca por ter «demorado demais» na resposta ao Estado Islâmico.
«No que toca ao Médio Oriente, Obama mudou de políticas e foi hesitante na travagem da ameaça jihadista. «Esperou demais. Deixou que o EI se financiasse, criasse estruturas, fortalecesse as suas capacidades», criticou.
Também Leon Panetta, antigo secretário da Defesa e ex-diretor da CIA, apontou críticas algo inesperadas ao Presidente, tendo em conta que vieram de um antigo membro de topo da primeira Administração Obama: «O Presidente perdeu o rumo na política de segurança e cometeu erros que podem prolongar por 30 anos a luta contra o Estado Islâmico».
«Durante os primeiros quatro anos, e no tempo que estive lá - à frente do Pentágono - pensei que era um líder forte em assuntos de segurança ... mas nos últimos dois anos creio que perdeu, de certo modo, o rumo. Enviou mensagens ambivalentes ao abordar os temas e tentar clarificar qual o papel deste país», disse Leon Panetta, numa entrevista ao «USA Today».
Na reação, Bill Burton, antigo conselheiro do Presidente Obama, ripostou: «As críticas de Panetta são desonrosas, tristes, pequenas. Na substância, este presidente mostrou a sua liderança várias vezes. Tomou decisões muito difíceis. Defendeu os interesses americanos em várias frentes. Apanhou e eliminou Osaba Bin Laden. Tirou as nossas tropas do Afeganistão. Moveu este país na direção correta.»
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Histórias da Casa Branca: reta final para a definição do Congresso
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 3 DE OUTUBRO DE 2014:
As eleições intercalares têm lugar daqui a um mês e um dia, a 4 de novembro.
Estarão em jogo os 435 lugares da Câmara dos Representantes (distribuídos com 233 republicanos, 199 democratas e três lugares vagos) e um terço do Senado (neste momento, a câmara alta tem 53 democratas, 45 republicanos e dois independentes de tendência democrata).
Essa diferença decorre da duração de um mandato de um congressista na House of Representatives ser de dois anos, enquanto um senador tem o seu lugar garantido por um período de seis anos.
Daí que, em ano de intercalares vão sempre a votos toda a Câmara dos Representantes e 33 senadores em 100.
Se na câmara baixa basta haver mais de 50 por cento de deputados de um só partido, no Senado as coisas são mais complexas: apesar dos democratas terem maioria simples, a verdade é que como não têm uma «supermaioria» de 60 senadores, permitem aos republicanos formarem uma «minoria de bloqueio» (bastam 40 para a formar).
Será a última grande eleição dos anos Obama, isto porque as presidenciais de 2016 já não terão o atual Presidente no «ticket». E o cenário que se desenha não é animador para a reta final do consulado Obama.
È de prever que os republicanos mantenham forte vantagem na Câmara dos Representantes e é de admitir que consigam roubar o controlo do Senado aos democratas.
O Congresso americano vive situação de «split control»: a câmara baixa, composta por 435 elementos, tem enorme vantagem dos republicanos (fruto do triunfo esmagador de novembro de 2010, na altura energizado por 90 membros do Tea Party, que «infetaram» as listas do Partido Republicano); a câmara alta, composta por cem senadores, mostra pequena vantagem dos democratas (53 para 45 republicanos, sendo que há ainda dois senadores independentes que, tendencialmente, votam com os democratas).
Este enquadramento poderia indicar equilíbrio nas inclinações políticas do Congresso. Mas não tem sido bem isso o que tem acontecido durante os anos Obama.
Nos primeiros dois anos, Obama beneficiou de grande maioria democrata no Congresso, embora mitigada pelo facto da «supermaioria» no Senado (60 senadores), ter sido cortada a 20 de janeiro de 2010, com a eleição do republicano Scott Brown para a vaga do Massachussets, decorrente da morte de Ted Kennedy.
O problema é que mesmo nessa fase foi muito difícil fazer passar temas controversos: o plano de estímulos à economia demorou meses a passar no Congresso; a Reforma da Saúde exigiu compromissos, recuos e adiamentos.
Depois de novembro de 2010, as «dificuldades» em cenário de vantagem democrata passaram a ser uma autêntica «tempestade perfeita», com o «shift» para forte maioria republicana.
De 59 senadores, os democratas passaram a ter apenas 53. Na House, os republicanos (com a tal ajuda da «onda» Tea Party de resistência a Obama) obtinham a maior vitória em várias décadas.
As consequências são conhecidas: a era Obama será lembrada, no plano interno, por uma fase de autêntica paralisação do processo legislativo.
Obama tem repetido à exaustão que os republicanos do Congresso são «o partido do não».
A reeleição de 2012 parecia ter constituído «turning point», mas em poucos meses as esperanças esfumaram-se e chegou mesmo a haver um «shutdown» decorrente de falta de acordo para aprovação do orçamento.
Há diferenças potencialmente insanáveis na redução da dívida, cortes orçamentais, política fiscal, Saúde ou até mesmo alterações climáticas, energia e imigração (três ideias fortes de Obama para o segundo mandato e que têm sido adiadas, sempre por falta de consenso político).
Era suposto que o sistema político americano funcionasse na base de «consensos alargados». Seria essa a chave para desbloquear modelo demasiado assente em contrapesos.
Perante a recusa constante de cooperação, uma eventual vitória republicana daqui a um mês será a condenação final de «lame duck» (pato coxo) para os últimos dois anos da presidência Obama.
As eleições intercalares têm lugar daqui a um mês e um dia, a 4 de novembro.
Estarão em jogo os 435 lugares da Câmara dos Representantes (distribuídos com 233 republicanos, 199 democratas e três lugares vagos) e um terço do Senado (neste momento, a câmara alta tem 53 democratas, 45 republicanos e dois independentes de tendência democrata).
Essa diferença decorre da duração de um mandato de um congressista na House of Representatives ser de dois anos, enquanto um senador tem o seu lugar garantido por um período de seis anos.
Daí que, em ano de intercalares vão sempre a votos toda a Câmara dos Representantes e 33 senadores em 100.
Se na câmara baixa basta haver mais de 50 por cento de deputados de um só partido, no Senado as coisas são mais complexas: apesar dos democratas terem maioria simples, a verdade é que como não têm uma «supermaioria» de 60 senadores, permitem aos republicanos formarem uma «minoria de bloqueio» (bastam 40 para a formar).
Será a última grande eleição dos anos Obama, isto porque as presidenciais de 2016 já não terão o atual Presidente no «ticket». E o cenário que se desenha não é animador para a reta final do consulado Obama.
È de prever que os republicanos mantenham forte vantagem na Câmara dos Representantes e é de admitir que consigam roubar o controlo do Senado aos democratas.
O Congresso americano vive situação de «split control»: a câmara baixa, composta por 435 elementos, tem enorme vantagem dos republicanos (fruto do triunfo esmagador de novembro de 2010, na altura energizado por 90 membros do Tea Party, que «infetaram» as listas do Partido Republicano); a câmara alta, composta por cem senadores, mostra pequena vantagem dos democratas (53 para 45 republicanos, sendo que há ainda dois senadores independentes que, tendencialmente, votam com os democratas).
Este enquadramento poderia indicar equilíbrio nas inclinações políticas do Congresso. Mas não tem sido bem isso o que tem acontecido durante os anos Obama.
Nos primeiros dois anos, Obama beneficiou de grande maioria democrata no Congresso, embora mitigada pelo facto da «supermaioria» no Senado (60 senadores), ter sido cortada a 20 de janeiro de 2010, com a eleição do republicano Scott Brown para a vaga do Massachussets, decorrente da morte de Ted Kennedy.
O problema é que mesmo nessa fase foi muito difícil fazer passar temas controversos: o plano de estímulos à economia demorou meses a passar no Congresso; a Reforma da Saúde exigiu compromissos, recuos e adiamentos.
Depois de novembro de 2010, as «dificuldades» em cenário de vantagem democrata passaram a ser uma autêntica «tempestade perfeita», com o «shift» para forte maioria republicana.
De 59 senadores, os democratas passaram a ter apenas 53. Na House, os republicanos (com a tal ajuda da «onda» Tea Party de resistência a Obama) obtinham a maior vitória em várias décadas.
As consequências são conhecidas: a era Obama será lembrada, no plano interno, por uma fase de autêntica paralisação do processo legislativo.
Obama tem repetido à exaustão que os republicanos do Congresso são «o partido do não».
A reeleição de 2012 parecia ter constituído «turning point», mas em poucos meses as esperanças esfumaram-se e chegou mesmo a haver um «shutdown» decorrente de falta de acordo para aprovação do orçamento.
Há diferenças potencialmente insanáveis na redução da dívida, cortes orçamentais, política fiscal, Saúde ou até mesmo alterações climáticas, energia e imigração (três ideias fortes de Obama para o segundo mandato e que têm sido adiadas, sempre por falta de consenso político).
Era suposto que o sistema político americano funcionasse na base de «consensos alargados». Seria essa a chave para desbloquear modelo demasiado assente em contrapesos.
Perante a recusa constante de cooperação, uma eventual vitória republicana daqui a um mês será a condenação final de «lame duck» (pato coxo) para os últimos dois anos da presidência Obama.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Histórias da Casa Branca: Obama, o Estado Islâmico e a avaliação de culpas
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 1 DE OUTUBRO DE 2014:
Como é que foi possível que o Estado Islâmico tenha galopado, em poucas semanas, de forma tão ameaçadora em zonas cruciais do Iraque e na Síria?
Sendo zonas com que os Estados Unidos, nos últimos anos, tanto se familiarizaram (seja a nível militar ou no plano político), o que os levou a deixarem campo aberto a uma organização tão perigosa e agressiva?
Obama, em entrevista ao «60 Minutes», elaborou sobre esses temas e deixou duas ideias fortes, ambas com um certo lado confessional: os Estados Unidos subestimaram a ameaça do EI na Síria e no Iraque; por outro lado, contavam com maior capacidade de resistência das forças iraquianas no terreno.
Ou seja, o Presidente explica o descontrolo da situação, que levou à necessidade do início dos bombardeamentos aéreos no Iraque (a 7 de agosto) e ao anunciar de um plano de grande escala de «combate e destruição do Estado Islâmico», com alargamento das ações aéreas à Síria (onde o EI tem o quartel-general, na cidade de Raqqa), com os EUA a liderarem «coligação internacional», composta já por 50 países (e que já contou com raides aéreos também da França e, nos últimos dias, do Reino Unido).
Em entrevista a Steve Kroft, Obama caucionou a opinião do diretor da National Intelligente, James Clapper, que tinha apontado esses dois pecados por parte dos EUA: a sub-avaliação da ameaça extremista e uma expetativa de maior eficácia das forças iraquianas no terreno. «Isso é verdade. Absolutamente verdade», admitiu o Presidente.
Obama traçou assim o resumo do contexto na região, para explicar o avanço do EI: «Essencialmente o que que se passou com o Estado Islâmico foi que havia a Al Qaeda no Iraque, que era um grupo perigoso, mas os nossos Marines estavam para os defrontar, com a ajuda das tribos sunitas. Eles recuaram, perderam terreno, ficaram na sombra, mas nos últimos anos, durante o caos da guerra civil na Síria, foi essencialmente que passou a haver enormes zonas do país que ficaram sem governo, sem controlo. O Estado Islâmico foi capaz de reconstituir essas zonas, tirando vantagem do caos».
Enquanto isso, a avaliação de culpas sobre o tempo que Washington demorou a identificar o grau de ameaça prossegue na arena política e comunicacional nos Estados Unidos.
John Karl, da ABC News, confrontou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest: «Foram os serviços de inteligência a sub-avaliar o EI, ou foi o Presidente que caiu nesse erro?». Earnest enquadrou: «Diria que toda a gente o fez. Toda a gente ficou surpreendida ao ver o rápido avanço deles, tanto na Síria como na fronteira com o Iraque e como conseguiram controlar zonas fundamentais do Iraque. Foi surpreendente. E foi algo que o Presidente referiu várias vezes e de que membros dos serviços de informação tinham conhecimento».
Perante a resposta circular, John Karl voltou à carga: «Como pode Obama dizer que subestimar o Estado Islâmico foi um erro de avaliação dos serviços de inteligência quando foi avisado para o perigo?»
A questão é que a Casa Branca tem mantido a ideia de que o erro foi mais generalizado, não se limitou à visão do Presidente. «Quem mandava nos serviços de inteligência disse que o que não fizemos foi prever a vontade de lugar, esse é sempre o maior problema¿», apontou Josh Earnest.
Mas, mais à frente, o porta-voz da Administração Obama garantia: «O Presidente tem completa confiança nos serviços de inteligência para lidar com estas muito dinâmica mas significativa ameaças ao nosso largo interesse nacional. Ele tem completa confiança na capacidade da nossa comunidade de informações para recolher os dados essenciais que nos ajudem a combater e diminuir esta ameaça».
«Os Estados Unidos subestimaram o crescimento do Estado Islâmico na Síria e no Iraque»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
Como é que foi possível que o Estado Islâmico tenha galopado, em poucas semanas, de forma tão ameaçadora em zonas cruciais do Iraque e na Síria?
Sendo zonas com que os Estados Unidos, nos últimos anos, tanto se familiarizaram (seja a nível militar ou no plano político), o que os levou a deixarem campo aberto a uma organização tão perigosa e agressiva?
Obama, em entrevista ao «60 Minutes», elaborou sobre esses temas e deixou duas ideias fortes, ambas com um certo lado confessional: os Estados Unidos subestimaram a ameaça do EI na Síria e no Iraque; por outro lado, contavam com maior capacidade de resistência das forças iraquianas no terreno.
Ou seja, o Presidente explica o descontrolo da situação, que levou à necessidade do início dos bombardeamentos aéreos no Iraque (a 7 de agosto) e ao anunciar de um plano de grande escala de «combate e destruição do Estado Islâmico», com alargamento das ações aéreas à Síria (onde o EI tem o quartel-general, na cidade de Raqqa), com os EUA a liderarem «coligação internacional», composta já por 50 países (e que já contou com raides aéreos também da França e, nos últimos dias, do Reino Unido).
Em entrevista a Steve Kroft, Obama caucionou a opinião do diretor da National Intelligente, James Clapper, que tinha apontado esses dois pecados por parte dos EUA: a sub-avaliação da ameaça extremista e uma expetativa de maior eficácia das forças iraquianas no terreno. «Isso é verdade. Absolutamente verdade», admitiu o Presidente.
Obama traçou assim o resumo do contexto na região, para explicar o avanço do EI: «Essencialmente o que que se passou com o Estado Islâmico foi que havia a Al Qaeda no Iraque, que era um grupo perigoso, mas os nossos Marines estavam para os defrontar, com a ajuda das tribos sunitas. Eles recuaram, perderam terreno, ficaram na sombra, mas nos últimos anos, durante o caos da guerra civil na Síria, foi essencialmente que passou a haver enormes zonas do país que ficaram sem governo, sem controlo. O Estado Islâmico foi capaz de reconstituir essas zonas, tirando vantagem do caos».
Enquanto isso, a avaliação de culpas sobre o tempo que Washington demorou a identificar o grau de ameaça prossegue na arena política e comunicacional nos Estados Unidos.
John Karl, da ABC News, confrontou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest: «Foram os serviços de inteligência a sub-avaliar o EI, ou foi o Presidente que caiu nesse erro?». Earnest enquadrou: «Diria que toda a gente o fez. Toda a gente ficou surpreendida ao ver o rápido avanço deles, tanto na Síria como na fronteira com o Iraque e como conseguiram controlar zonas fundamentais do Iraque. Foi surpreendente. E foi algo que o Presidente referiu várias vezes e de que membros dos serviços de informação tinham conhecimento».
Perante a resposta circular, John Karl voltou à carga: «Como pode Obama dizer que subestimar o Estado Islâmico foi um erro de avaliação dos serviços de inteligência quando foi avisado para o perigo?»
A questão é que a Casa Branca tem mantido a ideia de que o erro foi mais generalizado, não se limitou à visão do Presidente. «Quem mandava nos serviços de inteligência disse que o que não fizemos foi prever a vontade de lugar, esse é sempre o maior problema¿», apontou Josh Earnest.
Mas, mais à frente, o porta-voz da Administração Obama garantia: «O Presidente tem completa confiança nos serviços de inteligência para lidar com estas muito dinâmica mas significativa ameaças ao nosso largo interesse nacional. Ele tem completa confiança na capacidade da nossa comunidade de informações para recolher os dados essenciais que nos ajudem a combater e diminuir esta ameaça».
sábado, 27 de setembro de 2014
Histórias da Casa Branca: a transformação de Obama em «presidente de guerra»
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 26 DE SETEMBRO DE 2014:
«Não acho que ele tenha mudado de opinião sobre a guerra. Acho que tem sido bastante consistente. Estava perto quando, em 2002, Obama fez o agora famoso discurso (não foi assim tão famoso na altura) opondo-se à intervenção americana no Iraque. E ele disse, na altura, que temia que viessem ao de cima as forças extremistas e a violência sectária e que se tornasse um foco de extremismo. E foi exatamente isso que aconteceu. E ainda estamos a lidar com os estilhaços desse erro. Ao mesmo tempo, ele apoiou a noção de que temos que ir atrás dos terroristas que atacaram os EUA no 11 de Setembro e sentiu que o Iraque iria ser uma distração a esse foco»
DAVID AXELROD, principal conselheiro de Barack Obama há uma década, entrevista a Jay Reed na MSNBC
Obama alarga o seu apoio junto da opinião pública e até nos seus aliados. A «destruição» do Estado Islâmico passou a ser a prioridade do atual momento da administração norte-americana.
Herói anti-guerra na eleição de 2008 (já não tanto na reeleição de 2012), Prémio Nobel da Paz em 2009, será que o 44.º Presidente dos Estados Unidos teve que fazer mudança de 360 grau na sua visão sobre a guerra?
Talvez nem tanto.
Chris Matthews, analista na MSNBC, comentou no «Hardball»: «Assumir-se como um Presidente de Guerra é uma transformação notável para um Prémio Nobel da Paz. Faz lembrar, de certo modo, a transformação bem famosa de Franklin Roosevelt, que nos anos 30 liderou em tempos de paz e nos anos 40 liderou a resposta na II Grande Guerra».
Matthews nota ainda: «Roosevelt assumiu essa mudança dizendo à imprensa e ao público que passou de Dr. New Deal nos anos 30 para Dr. Win The War, nos anos 40. E o que ele teve que mudar para fazer isso! A grande questão é: conseguirá Obama assumir de tal modo essa transformação? E será que o país o acompanha nessa necessidade?»
As sondagens parecem mostrar que sim. Sete em cada vez americanos exigia ao Presidente uma resposta mais dura e efetiva à ameaça do Estado Islâmico ¿ e isso terá sido decisivo para que Obama se decidisse por este plano ambicioso, que já ditou sérios recuos nas posição do EI no Iraque e na Síria, sobretudo com a destruição, por ataques aéreos, de refinarias e poços de petróleo, que constituíam forte financiamento aos terroristas sunitas.
Bill Clinton, último democrata a ocupar a Casa Branca antes de Barack Obama, analisa, em entrevista à ABC News: «O que se passou com as decapitações é horrível. Simplesmente horrível. O povo americano tende a julgar o presidente sobre se estamos mais fortes, mais protegidos e mais seguros. Por isso, acho que os americanos apoiam o que está a ser feito».
Visão bem mais crítica tem o senador Ted Cruz, do Texas. Um dos líderes do Tea Party, campeão do radicalismo de direita no Capitólio, Cruz acusa Obama de ter «demorado demais na resposta e de ter insistido, sem sentido, na noção de «nation building» no Iraque».
Em entrevista a Dan Balz, no Washington Post, Ted Cruz apontou: «Não creio que seja missão da América assegurar a construição de outra nação. Esta administração tem repetido erros na resposta sobre conseguir distinguir os tipos bons dos tipos maus. Na Síria isso já tinha acontecido há um ano».
Certo é que, no terreno, a coligação liderada pelos EUA conseguiu importantes avanços nos últimos dias. De tal modo que os jihadistas do Estado Islâmico têm sido forçados a oscilar para a fronteira turca, o que provoca novos problemas, com a fuga de milhares de sírios turcos.
Paralelamente, os receios de atentados de células do EI em grandes cidades europeias (assumido pelo primeiro-ministro iraquiano), reforçam a necessidade de se apostar na inteligência e nos serviços secretos. A escalada securitária em Washington, Nova Iorque, Londres e Paris pode estar a caminho.
«Não acho que ele tenha mudado de opinião sobre a guerra. Acho que tem sido bastante consistente. Estava perto quando, em 2002, Obama fez o agora famoso discurso (não foi assim tão famoso na altura) opondo-se à intervenção americana no Iraque. E ele disse, na altura, que temia que viessem ao de cima as forças extremistas e a violência sectária e que se tornasse um foco de extremismo. E foi exatamente isso que aconteceu. E ainda estamos a lidar com os estilhaços desse erro. Ao mesmo tempo, ele apoiou a noção de que temos que ir atrás dos terroristas que atacaram os EUA no 11 de Setembro e sentiu que o Iraque iria ser uma distração a esse foco»
DAVID AXELROD, principal conselheiro de Barack Obama há uma década, entrevista a Jay Reed na MSNBC
Obama alarga o seu apoio junto da opinião pública e até nos seus aliados. A «destruição» do Estado Islâmico passou a ser a prioridade do atual momento da administração norte-americana.
Herói anti-guerra na eleição de 2008 (já não tanto na reeleição de 2012), Prémio Nobel da Paz em 2009, será que o 44.º Presidente dos Estados Unidos teve que fazer mudança de 360 grau na sua visão sobre a guerra?
Talvez nem tanto.
Chris Matthews, analista na MSNBC, comentou no «Hardball»: «Assumir-se como um Presidente de Guerra é uma transformação notável para um Prémio Nobel da Paz. Faz lembrar, de certo modo, a transformação bem famosa de Franklin Roosevelt, que nos anos 30 liderou em tempos de paz e nos anos 40 liderou a resposta na II Grande Guerra».
Matthews nota ainda: «Roosevelt assumiu essa mudança dizendo à imprensa e ao público que passou de Dr. New Deal nos anos 30 para Dr. Win The War, nos anos 40. E o que ele teve que mudar para fazer isso! A grande questão é: conseguirá Obama assumir de tal modo essa transformação? E será que o país o acompanha nessa necessidade?»
As sondagens parecem mostrar que sim. Sete em cada vez americanos exigia ao Presidente uma resposta mais dura e efetiva à ameaça do Estado Islâmico ¿ e isso terá sido decisivo para que Obama se decidisse por este plano ambicioso, que já ditou sérios recuos nas posição do EI no Iraque e na Síria, sobretudo com a destruição, por ataques aéreos, de refinarias e poços de petróleo, que constituíam forte financiamento aos terroristas sunitas.
Bill Clinton, último democrata a ocupar a Casa Branca antes de Barack Obama, analisa, em entrevista à ABC News: «O que se passou com as decapitações é horrível. Simplesmente horrível. O povo americano tende a julgar o presidente sobre se estamos mais fortes, mais protegidos e mais seguros. Por isso, acho que os americanos apoiam o que está a ser feito».
Visão bem mais crítica tem o senador Ted Cruz, do Texas. Um dos líderes do Tea Party, campeão do radicalismo de direita no Capitólio, Cruz acusa Obama de ter «demorado demais na resposta e de ter insistido, sem sentido, na noção de «nation building» no Iraque».
Em entrevista a Dan Balz, no Washington Post, Ted Cruz apontou: «Não creio que seja missão da América assegurar a construição de outra nação. Esta administração tem repetido erros na resposta sobre conseguir distinguir os tipos bons dos tipos maus. Na Síria isso já tinha acontecido há um ano».
Certo é que, no terreno, a coligação liderada pelos EUA conseguiu importantes avanços nos últimos dias. De tal modo que os jihadistas do Estado Islâmico têm sido forçados a oscilar para a fronteira turca, o que provoca novos problemas, com a fuga de milhares de sírios turcos.
Paralelamente, os receios de atentados de células do EI em grandes cidades europeias (assumido pelo primeiro-ministro iraquiano), reforçam a necessidade de se apostar na inteligência e nos serviços secretos. A escalada securitária em Washington, Nova Iorque, Londres e Paris pode estar a caminho.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Histórias da Casa Branca: Estado Islâmico, o monstro precisa de amigos
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 24 DE SETEMBRO DE 2014:
«Os que cometem o erro de ferir os americanos vão aprender que esses atos não serão esquecidos, que a justiça será feita»
«Não seremos intimidados»
«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço»
«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço»
«Não agimos sozinhos [na guerra ao EI]. Em vez disso, vamos apoiar os iraquianos e os sírios a resgatar as suas comunidades. (...) Já temos 40 nações a quererem juntar-se à coligação. Hoje, peço ao mundo para se juntar a este esforço. Os que se juntaram ao EI devem abandonar o campo de batalha o quanto antes. Os que continuarem a lutar por esta causa odiosa vão perceber que estão sozinhos. Não cederemos a ameaças, vamos demonstrar que o futuro pertence aos que aos que constroem ¿ não aos que destroem»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
A ofensiva internacional, que já atinge quatro dezenas de países, aumenta de escala e já entrou em reduto da Síria. Aos numerosos bombardeamentos já feitos em zonas iraquianas, juntaram-se os ataques aéreos sobre solo sírio.
O esforço americano, como o Presidente Obama tinha exortado, foi concertado com a presença de aviões da Jordânia, Qatar e Arábia Saudita, além de apoio militar do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos.
A operação conjunta confirma, assim, a ideia de que «os EUA não estão sozinhos neste combate aos jihadistas» e contam, cada vez mais, com os aliados árabes na região, talvez as vítimas mais imediatas das ameças dos radicais sunitas.
Raqqa, cidade síria que a cúpula do Estado Islâmico autoproclamou «capital do Califado», foi alvo preferencial e as forças da coligação internacional reivindicou já várias baixas importantes na estrutura do Estado Islâmico.
Enquanto isso, caças franceses «Rafale» fizeram os primeiros raides aéreos, só no Iraque, destruindo um armazém usado por guerrilheiros do EI.
Em sinal de retaliação, o Jund Al-Khilafa, grupo ligado ao Estado Islâmico, decapitou um turista francês raptado na Argélia, Herve Gourdel, de 55 anos. François Hollande já prometeu: «Os autores serão castigados».
Parece estar a inaugurar-se uma nova etapa na estratégia de comunicação do EI.
O foco deixa de estar somente nos norte-americanos e britânicos e passa a estar na noção de que «todos os que se oponham à construção do Califado devem ser punidos».
A extrema violência das ações do EI já custou perdas relevantes para os radicais sunitas. Inicialmente, o Estado Islâmico teve apoio implícito da Arábia Saudita e Qatar, por interesse sunita em região que teve, nos últimos anos, avanço xiita importante (no Iraque pós-Saddam, no Irão e na Síria do alauíta Assad).
Com o «turning point» da coligação liderada pelos EUA, que engloba Arábia Saudita e Qatar, o «monstro» do Estado Islâmico precisa de amigos, para utilizar expressão imortalizada no álbum da banda portuguesa «Ornatos Violeta».
A continuação das decapitações poderá isolar ainda mais o grupo liderado por Al-Baghdadi. Mas depois da decapitação do britânico David Haines, os vídeos que se seguiram mostraram mensagens com um teor mais persuasivo e menos gráfico, na violência exibida.
Num desses vídeos, o EI tenta até ridicularizar Obama, afirmando que o atual Presidente dos EUA é «mais tolo que George W. Bush» «Confiem em Allah, e matem-nos de qualquer maneira».
Os apelos do EI a uma «jihad» global não deixa dúvidas: «Matem o descrente, seja ele civil ou militar, pois tomam as mesmas decisões».
«Os que cometem o erro de ferir os americanos vão aprender que esses atos não serão esquecidos, que a justiça será feita»
«Não seremos intimidados»
«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço»
«Vamos conseguir neutralizar o Estado Islâmico. Vamos consegui-lo. Vai demorar algum tempo e vai exigir algum esforço»
«Não agimos sozinhos [na guerra ao EI]. Em vez disso, vamos apoiar os iraquianos e os sírios a resgatar as suas comunidades. (...) Já temos 40 nações a quererem juntar-se à coligação. Hoje, peço ao mundo para se juntar a este esforço. Os que se juntaram ao EI devem abandonar o campo de batalha o quanto antes. Os que continuarem a lutar por esta causa odiosa vão perceber que estão sozinhos. Não cederemos a ameaças, vamos demonstrar que o futuro pertence aos que aos que constroem ¿ não aos que destroem»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos
A ofensiva internacional, que já atinge quatro dezenas de países, aumenta de escala e já entrou em reduto da Síria. Aos numerosos bombardeamentos já feitos em zonas iraquianas, juntaram-se os ataques aéreos sobre solo sírio.
O esforço americano, como o Presidente Obama tinha exortado, foi concertado com a presença de aviões da Jordânia, Qatar e Arábia Saudita, além de apoio militar do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos.
A operação conjunta confirma, assim, a ideia de que «os EUA não estão sozinhos neste combate aos jihadistas» e contam, cada vez mais, com os aliados árabes na região, talvez as vítimas mais imediatas das ameças dos radicais sunitas.
Raqqa, cidade síria que a cúpula do Estado Islâmico autoproclamou «capital do Califado», foi alvo preferencial e as forças da coligação internacional reivindicou já várias baixas importantes na estrutura do Estado Islâmico.
Enquanto isso, caças franceses «Rafale» fizeram os primeiros raides aéreos, só no Iraque, destruindo um armazém usado por guerrilheiros do EI.
Em sinal de retaliação, o Jund Al-Khilafa, grupo ligado ao Estado Islâmico, decapitou um turista francês raptado na Argélia, Herve Gourdel, de 55 anos. François Hollande já prometeu: «Os autores serão castigados».
Parece estar a inaugurar-se uma nova etapa na estratégia de comunicação do EI.
O foco deixa de estar somente nos norte-americanos e britânicos e passa a estar na noção de que «todos os que se oponham à construção do Califado devem ser punidos».
A extrema violência das ações do EI já custou perdas relevantes para os radicais sunitas. Inicialmente, o Estado Islâmico teve apoio implícito da Arábia Saudita e Qatar, por interesse sunita em região que teve, nos últimos anos, avanço xiita importante (no Iraque pós-Saddam, no Irão e na Síria do alauíta Assad).
Com o «turning point» da coligação liderada pelos EUA, que engloba Arábia Saudita e Qatar, o «monstro» do Estado Islâmico precisa de amigos, para utilizar expressão imortalizada no álbum da banda portuguesa «Ornatos Violeta».
A continuação das decapitações poderá isolar ainda mais o grupo liderado por Al-Baghdadi. Mas depois da decapitação do britânico David Haines, os vídeos que se seguiram mostraram mensagens com um teor mais persuasivo e menos gráfico, na violência exibida.
Num desses vídeos, o EI tenta até ridicularizar Obama, afirmando que o atual Presidente dos EUA é «mais tolo que George W. Bush» «Confiem em Allah, e matem-nos de qualquer maneira».
Os apelos do EI a uma «jihad» global não deixa dúvidas: «Matem o descrente, seja ele civil ou militar, pois tomam as mesmas decisões».
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Histórias da Casa Branca: as botas já estiveram mais longe do chão
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 22 DE SETEMBRO DE 2014:
Há um cartoon de Nick Anderson, publicado no passado dia 18 no «Real Clear Politics» que mostra Obama a exortar o seu «mantra» de não colocar tropas no terreno («No boots on the ground!»), em equilíbrio instável, evitando a todo o custo pisar os pés no chão.
A analogia faz cada vez mais sentido, analisando os últimos dias da luta pela «degradação, eliminação e destruição» do Estado Islâmico.
A coligação internacional que os Estados Unidos se dispuseram a liderar tem cada vez mais apoios e o mais enérgico de todos eles foi o da França, que ensaiou ataques aéreos a zonas controladas pelo EI.
Mas à medida que as ações no terreno aumentam de intensidade, parece também ganhar força a ideia de que haverá um ponto em que será mesmo necessário abdicar do tal princípio de Obama de «no boots on the ground».
O general Martin Dempsey, «joint chiefs of staff» do exército americano, é da opinião que só se conseguirá vencer a batalha contra os radicais sunitas com o envio de tropas americanas para o terreno.
O próprio David Cameron, PM britânico, deu sinais de equacionar uma solução que exija a colocação de homens no terreno.
Mas esta primeira fase tem, para já, um plano de agravamento dos bombardeamentos aéreos que travem e degradem o território dominado pelo Estado Islâmico (que entre zonas do Iraque e da Síria, terá já uma área equivalente à do Reino Unido), enquanto a tal «coligação internacional» vai ganhando consistência e alargando aliados na região.
Bombardeamentos americanos (e pontualmente franceses e britânicos), com a ajuda de combates no terreno dos iraquianos, dos curdos e dos sunitas moderados sírios anti-Assad?
Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, explica, em entrevista a Chuck Todd no «Meet the Press» na NBC: «Não temos tido problemas em envolver outros países nesta coligação. A nossa estratégia assenta no esforço dos combatentes curdos e iraquianos no terreno, com os iraquianos a liderar. São eles que saberão como recuperar o território perdido para o Estado Islâmico. E o mesmo sucederá na Síria. Como é sabido, a nossa posição é a de apoiar a oposição moderada, profissionalizando essas forças. É essa a estratégia: usarmos as nossas capacidades únicas, aliadas às capacidades específicas de quem está no terreno».
Para o terreno, por enquanto, a América de Obama só permite o envio de «especialistas militares» que instruam os combatentes locais. A embaixadora Power, que destacou o «apoio maciço» que o plano do Presidente teve nas duas câmaras do Congresso, desenvolve: «É do interesse da segurança americana travar e destruir o EI. No caso da oposição moderada síria, é preciso ver que estamos a instruir quem tem estado a combater o regime de Assad. E é preciso dizer que o Free Syrian Army e outras forças rebeldes moderadas sírias têm estado a combater o Estado Islâmico desde dezembro passado».
Mas chegará esta junção para «destruir o Estado Islâmico», mesmo que num período de tempo de dois ou três anos? James Carville, estratega democrata, é mais pragmático: «Alguém acredita que daqui a 13 anos já não estaremos a combater fundamentalistas islâmicos»?
A ambiguidade da Turquia (que apesar de ser interessada direta no travar do Estado Islâmico, que domina zonas próximas das suas fronteiras), é outra prova da dificuldade desta empreitada. Mesmo tendo enorme base militar americana no seu território, os turcos recusam-se a aderir à coligação, temendo represálias diretas do EI em zonas fronteiriças.
George Will, na Fox News, acusa: «Há um toque de irrealismo na forma como se fala dos rebeles sírios. Creio que o general Dempsey quis dizer que, se for preciso, enviamos tropas para o terreno. O que não faremos é a Doutrina Powell. Colin Powell defendia que se vamos para algum lado, devemos usar a força toda».
Há um cartoon de Nick Anderson, publicado no passado dia 18 no «Real Clear Politics» que mostra Obama a exortar o seu «mantra» de não colocar tropas no terreno («No boots on the ground!»), em equilíbrio instável, evitando a todo o custo pisar os pés no chão.
A analogia faz cada vez mais sentido, analisando os últimos dias da luta pela «degradação, eliminação e destruição» do Estado Islâmico.
A coligação internacional que os Estados Unidos se dispuseram a liderar tem cada vez mais apoios e o mais enérgico de todos eles foi o da França, que ensaiou ataques aéreos a zonas controladas pelo EI.
Mas à medida que as ações no terreno aumentam de intensidade, parece também ganhar força a ideia de que haverá um ponto em que será mesmo necessário abdicar do tal princípio de Obama de «no boots on the ground».
O general Martin Dempsey, «joint chiefs of staff» do exército americano, é da opinião que só se conseguirá vencer a batalha contra os radicais sunitas com o envio de tropas americanas para o terreno.
O próprio David Cameron, PM britânico, deu sinais de equacionar uma solução que exija a colocação de homens no terreno.
Mas esta primeira fase tem, para já, um plano de agravamento dos bombardeamentos aéreos que travem e degradem o território dominado pelo Estado Islâmico (que entre zonas do Iraque e da Síria, terá já uma área equivalente à do Reino Unido), enquanto a tal «coligação internacional» vai ganhando consistência e alargando aliados na região.
Bombardeamentos americanos (e pontualmente franceses e britânicos), com a ajuda de combates no terreno dos iraquianos, dos curdos e dos sunitas moderados sírios anti-Assad?
Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, explica, em entrevista a Chuck Todd no «Meet the Press» na NBC: «Não temos tido problemas em envolver outros países nesta coligação. A nossa estratégia assenta no esforço dos combatentes curdos e iraquianos no terreno, com os iraquianos a liderar. São eles que saberão como recuperar o território perdido para o Estado Islâmico. E o mesmo sucederá na Síria. Como é sabido, a nossa posição é a de apoiar a oposição moderada, profissionalizando essas forças. É essa a estratégia: usarmos as nossas capacidades únicas, aliadas às capacidades específicas de quem está no terreno».
Para o terreno, por enquanto, a América de Obama só permite o envio de «especialistas militares» que instruam os combatentes locais. A embaixadora Power, que destacou o «apoio maciço» que o plano do Presidente teve nas duas câmaras do Congresso, desenvolve: «É do interesse da segurança americana travar e destruir o EI. No caso da oposição moderada síria, é preciso ver que estamos a instruir quem tem estado a combater o regime de Assad. E é preciso dizer que o Free Syrian Army e outras forças rebeldes moderadas sírias têm estado a combater o Estado Islâmico desde dezembro passado».
Mas chegará esta junção para «destruir o Estado Islâmico», mesmo que num período de tempo de dois ou três anos? James Carville, estratega democrata, é mais pragmático: «Alguém acredita que daqui a 13 anos já não estaremos a combater fundamentalistas islâmicos»?
A ambiguidade da Turquia (que apesar de ser interessada direta no travar do Estado Islâmico, que domina zonas próximas das suas fronteiras), é outra prova da dificuldade desta empreitada. Mesmo tendo enorme base militar americana no seu território, os turcos recusam-se a aderir à coligação, temendo represálias diretas do EI em zonas fronteiriças.
George Will, na Fox News, acusa: «Há um toque de irrealismo na forma como se fala dos rebeles sírios. Creio que o general Dempsey quis dizer que, se for preciso, enviamos tropas para o terreno. O que não faremos é a Doutrina Powell. Colin Powell defendia que se vamos para algum lado, devemos usar a força toda».
Histórias da Casa Branca: o plano que Obama não queria traçar
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 12 DE SETEMBRO DE 2014:
O «plano Obama» para travar o Estado Islâmico foi anunciado em «ambiente de 11 de Setembro», 13 anos depois do ataque às Torres Gémeas, mas implicará estratégia completamente diferente da que levou George W. Bush a declarar o ataque ao «Eixo do Mal» que apontava Iraque, Irão e Coreia do Norte.
Os EUA têm que voltar a liderar um «combate ao terrorismo» na região do Médio Oriente porque falharam redondamente as campanhas do Afeganistão e no Iraque.
O plano de Obama, que o Presidente garantiu não ser «uma nova guerra», mas antes uma «campanha de contra-terrorismo», que não implicará «boots on the ground» e será operação longa e complexa.
Por muito que o Presidente dos EUA reforce a ideia que «será diferente das guerra do Iraque e do Afeganistão», este não deixa de ser o plano que Obama não queria traçar.
Prémio Nobel da Paz nove meses depois ser eleito pela primeira vez, Obama tentou sempre demarcar-se do rótulo de «presidente de guerra», de que o seu sucessor tanto gostava.
Usou até ao limite os trunfos das retiradas e da tese da «contenção», numa visão quase «declinista» do que deve ser poder americano, mas, uma vez mais, viu a força dos acontecimentos sobrepor-se à sua condição genética como líder de uma grande potência que pretendia deixar legado «realista».
Contraditório? Talvez nem tanto. Basta reler as reflexões que deixou sobre essa dualidade «guerra vs paz», que marca todos os titulares da Casa Branca, e tem influenciado especialmente os seus dois mandatos, naquele que foi talvez o seu discurso mais brilhante e profundo: a aceitação do Nobel, a 10 de dezembro de 2009, em Oslo.
A poucos meses de completar a retirada das tropas do Afeganistão, e já depois da saída total do Iraque, os EUA são forçados a «regressar» a lógica que vai contra a rota que terá garantido duas eleições presidenciais a Obama.
Mudança de estratégia, em todo o caso. Mas com óbvias diferenças que podem mesmo fazer toda a diferença.
Em primeiro lugar, no apoio da opinião pública americana. Sete em cada vez americanos sentia-se inseguro perante possível ataque do Estado Islâmico a solo dos EUA. Se até há poucos meses não existiria qualquer condição política para esta operação, ela passou a ser a ideia dominante.
Depois, pelas razões que levaram à decisão. Se as «armas de destruição maciça» se mostraram argumento mentiroso para W. Bush depor Saddam, o horror das atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico confere um valor moral e civilizacional ao plano apresentado por Obama.
Os EUA, que nos anos Obama foram sofrendo críticas crescentes de perda de poder e influência na cena mundial, têm uma oportunidade decisiva de provarem que continuam a ser o «ás de trunfo» quando chega a hora da verdade.
Para Obama, era «make or break». Contestado a nível interno, com popularidade fraca, o Presidente viu-se na necessidade de tomar as rédeas. O sucesso ou insucesso da operação que agora começa poderá determinar a sentença final do seu segundo mandato presidencial.
A questão é: será que o «plano Obama» para travar o Estado Islâmico não se prolongará para um período de tempo que já vai abranger a próxima presidência?
Tendo em conta as primeiras análises do completo militar norte-americano, é uma hipótese que tem que ser considerada.
A definição de Obama de que esta «não é uma guerra religiosa, mas uma guerra contra os terroristas» tem facilitado a construção da tal «grande coligação internacional».
Nas horas que se sucederam à comunicação do Presidente, o secretário de Estado, John Kerry somou apoios em dez países árabes, pelo que a «campanha de contra-terrorismo» terá já perto de meia centena aliados.
O alargamento dos ataques aéreos a zonas controladas pelo Estado Islâmico na Síria é o ponto mais crítico. O regime de Assad, beneficiário indireto da «destruição do Estado Islâmico», já avisou que isso seria «violação inaceitável» do espaço de soberania sírio, visão que Moscovo partilhará.
O «plano Obama» para travar o Estado Islâmico foi anunciado em «ambiente de 11 de Setembro», 13 anos depois do ataque às Torres Gémeas, mas implicará estratégia completamente diferente da que levou George W. Bush a declarar o ataque ao «Eixo do Mal» que apontava Iraque, Irão e Coreia do Norte.
Os EUA têm que voltar a liderar um «combate ao terrorismo» na região do Médio Oriente porque falharam redondamente as campanhas do Afeganistão e no Iraque.
O plano de Obama, que o Presidente garantiu não ser «uma nova guerra», mas antes uma «campanha de contra-terrorismo», que não implicará «boots on the ground» e será operação longa e complexa.
Por muito que o Presidente dos EUA reforce a ideia que «será diferente das guerra do Iraque e do Afeganistão», este não deixa de ser o plano que Obama não queria traçar.
Prémio Nobel da Paz nove meses depois ser eleito pela primeira vez, Obama tentou sempre demarcar-se do rótulo de «presidente de guerra», de que o seu sucessor tanto gostava.
Usou até ao limite os trunfos das retiradas e da tese da «contenção», numa visão quase «declinista» do que deve ser poder americano, mas, uma vez mais, viu a força dos acontecimentos sobrepor-se à sua condição genética como líder de uma grande potência que pretendia deixar legado «realista».
Contraditório? Talvez nem tanto. Basta reler as reflexões que deixou sobre essa dualidade «guerra vs paz», que marca todos os titulares da Casa Branca, e tem influenciado especialmente os seus dois mandatos, naquele que foi talvez o seu discurso mais brilhante e profundo: a aceitação do Nobel, a 10 de dezembro de 2009, em Oslo.
A poucos meses de completar a retirada das tropas do Afeganistão, e já depois da saída total do Iraque, os EUA são forçados a «regressar» a lógica que vai contra a rota que terá garantido duas eleições presidenciais a Obama.
Mudança de estratégia, em todo o caso. Mas com óbvias diferenças que podem mesmo fazer toda a diferença.
Em primeiro lugar, no apoio da opinião pública americana. Sete em cada vez americanos sentia-se inseguro perante possível ataque do Estado Islâmico a solo dos EUA. Se até há poucos meses não existiria qualquer condição política para esta operação, ela passou a ser a ideia dominante.
Depois, pelas razões que levaram à decisão. Se as «armas de destruição maciça» se mostraram argumento mentiroso para W. Bush depor Saddam, o horror das atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico confere um valor moral e civilizacional ao plano apresentado por Obama.
Os EUA, que nos anos Obama foram sofrendo críticas crescentes de perda de poder e influência na cena mundial, têm uma oportunidade decisiva de provarem que continuam a ser o «ás de trunfo» quando chega a hora da verdade.
Para Obama, era «make or break». Contestado a nível interno, com popularidade fraca, o Presidente viu-se na necessidade de tomar as rédeas. O sucesso ou insucesso da operação que agora começa poderá determinar a sentença final do seu segundo mandato presidencial.
A questão é: será que o «plano Obama» para travar o Estado Islâmico não se prolongará para um período de tempo que já vai abranger a próxima presidência?
Tendo em conta as primeiras análises do completo militar norte-americano, é uma hipótese que tem que ser considerada.
A definição de Obama de que esta «não é uma guerra religiosa, mas uma guerra contra os terroristas» tem facilitado a construção da tal «grande coligação internacional».
Nas horas que se sucederam à comunicação do Presidente, o secretário de Estado, John Kerry somou apoios em dez países árabes, pelo que a «campanha de contra-terrorismo» terá já perto de meia centena aliados.
O alargamento dos ataques aéreos a zonas controladas pelo Estado Islâmico na Síria é o ponto mais crítico. O regime de Assad, beneficiário indireto da «destruição do Estado Islâmico», já avisou que isso seria «violação inaceitável» do espaço de soberania sírio, visão que Moscovo partilhará.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Histórias da Casa Branca: a última oportunidade de Barack Obama
TEXTO PUBLICADO A 10 DE SETEMBRO DE 2014 NO SITE TVI24.IOL.PT:
Barack Obama vai apresentar, esta noite (madrugada em Lisboa) o seu plano de combate à ameaça do ISIS (Islamic State of Irak and Syria), agora mais conhecido por Estado Islâmico.
Não é apenas mais um discurso de um Presidente que chegou ao cargo, em grande parte, suportado por uma capacidade oratório invulgar. Será o ponto mais decisivo do segundo mandato presidencial de Obama.
E, possivelmente, será a última oportunidade que o Presidente dos EUA tem de evitar que o seu segundo mandato termine com a sombra do falhanço.
A ameaça do ISIS conseguiu mexer de tal forma com os espíritos dos americanos que colocou, em poucas semanas, sérios problemas à Administração Obama.
As pesquisas apontam para dados preocupantes para a posição do Presidente: sete em cada dez americanos considera «possível» que o ISIS ataque solo dos EUA se nada for feito; percentagem idêntica considera que Obama tem sido «demasiado cauteloso» na abordagem deste problema.
Sondagem do Wall Street Journal e NBC coloca a taxa de aprovação de Obama em mínimos de 40%. O sinal foi claramente dado: o tempo de «pensar a estratégia» passou. Há que agir e rápido, isto porque uma boa parte do sistema político (democratas incluídos) e a maioria da opinião pública aponta o dedo ao Presidente por ter demorado na resposta, dando espaço ao recrudescimento do horror do ISIS.
A vontade política do Presidente em avançar para novo plano em larga escala para o Médio Oriente seria muito pouco superior a zero. Só que, a este nível, há momentos em que a realidade ultrapassa agendas políticas ou princípios orientadores.
A visão de Obama para a política externa, nos últimos anos, tem sido a de «não fazer coisas estúpidas», numa perspetiva minimalista de quem foi o principal herdeiro político dos erros de George W. Bush.
Se esta nova crise no Iraque e na Síria é, em parte, consequência do falhanço americano na guerra de 2003, é verdade também que Obama, como sucessor de Bush, não foi capaz de gerir da melhor forma a retirada, permitindo que, no Iraque, se prolongasse um governo fraco, do xiita Nouri Al Maliki, que se mostrou impotente para travar a ameaça extremista sunita.
O momento, porém, não é de apontar culpas. É de agir.
E tendo em conta as informações que assessores da Casa Branca têm libertado nas últimas horas, há duas grandes ideias que irão dominar a intervenção do Presidente: Obama entende que não necessita da luz verde do Congresso (embora tenha marcado reuniões com os líderes das duas câmaras nas horas que antecedem a comunicação) e enquadra o seu plano numa «vasta coligação internacional», que obviamente abarca os países da NATO mas também aliados estratégicos e/ou pontuais na região.
Deverá envolver o agravamento dos bombardeamentos já iniciados nas últimas semanas. E a ação será definida e liderada pelos Estados Unidos, mas os EUA não vão sozinhos. Terão o apoio do Reino Unido, também da França e de outros países no quadro da NATO.
Não haverá, para já, «boots on the ground» (e daí não obrigar o Presidente a pedir autorização ao Congresso a «ir para a guerra»).
Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Senado, discorda: «Obama devia procurar apoio para a sua ação militar. Seria do interesse dele e do interesse da nação que os representantes deste país soubessem ao pormenor o que vai ser feito».
E fora dos EUA e do arco atlântico? A Turquia será fundamental. E, claro, veremos nos próximos tempos essa ironia da história que é ver o Irão e a Síria da Assad, regimes xiitas (no caso de Assad, alauíta, ramo xiita), que têm, neste tabuleiro, em comum com os EUA o facto de estarem sob forte ameaça dos jihadistas sunitas dos ISIS.
A geoestratégia nunca é uma história com um fim previsível. Na verdade, nunca tem fim.
Barack Obama vai apresentar, esta noite (madrugada em Lisboa) o seu plano de combate à ameaça do ISIS (Islamic State of Irak and Syria), agora mais conhecido por Estado Islâmico.
Não é apenas mais um discurso de um Presidente que chegou ao cargo, em grande parte, suportado por uma capacidade oratório invulgar. Será o ponto mais decisivo do segundo mandato presidencial de Obama.
E, possivelmente, será a última oportunidade que o Presidente dos EUA tem de evitar que o seu segundo mandato termine com a sombra do falhanço.
A ameaça do ISIS conseguiu mexer de tal forma com os espíritos dos americanos que colocou, em poucas semanas, sérios problemas à Administração Obama.
As pesquisas apontam para dados preocupantes para a posição do Presidente: sete em cada dez americanos considera «possível» que o ISIS ataque solo dos EUA se nada for feito; percentagem idêntica considera que Obama tem sido «demasiado cauteloso» na abordagem deste problema.
Sondagem do Wall Street Journal e NBC coloca a taxa de aprovação de Obama em mínimos de 40%. O sinal foi claramente dado: o tempo de «pensar a estratégia» passou. Há que agir e rápido, isto porque uma boa parte do sistema político (democratas incluídos) e a maioria da opinião pública aponta o dedo ao Presidente por ter demorado na resposta, dando espaço ao recrudescimento do horror do ISIS.
A vontade política do Presidente em avançar para novo plano em larga escala para o Médio Oriente seria muito pouco superior a zero. Só que, a este nível, há momentos em que a realidade ultrapassa agendas políticas ou princípios orientadores.
A visão de Obama para a política externa, nos últimos anos, tem sido a de «não fazer coisas estúpidas», numa perspetiva minimalista de quem foi o principal herdeiro político dos erros de George W. Bush.
Se esta nova crise no Iraque e na Síria é, em parte, consequência do falhanço americano na guerra de 2003, é verdade também que Obama, como sucessor de Bush, não foi capaz de gerir da melhor forma a retirada, permitindo que, no Iraque, se prolongasse um governo fraco, do xiita Nouri Al Maliki, que se mostrou impotente para travar a ameaça extremista sunita.
O momento, porém, não é de apontar culpas. É de agir.
E tendo em conta as informações que assessores da Casa Branca têm libertado nas últimas horas, há duas grandes ideias que irão dominar a intervenção do Presidente: Obama entende que não necessita da luz verde do Congresso (embora tenha marcado reuniões com os líderes das duas câmaras nas horas que antecedem a comunicação) e enquadra o seu plano numa «vasta coligação internacional», que obviamente abarca os países da NATO mas também aliados estratégicos e/ou pontuais na região.
Deverá envolver o agravamento dos bombardeamentos já iniciados nas últimas semanas. E a ação será definida e liderada pelos Estados Unidos, mas os EUA não vão sozinhos. Terão o apoio do Reino Unido, também da França e de outros países no quadro da NATO.
Não haverá, para já, «boots on the ground» (e daí não obrigar o Presidente a pedir autorização ao Congresso a «ir para a guerra»).
Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Senado, discorda: «Obama devia procurar apoio para a sua ação militar. Seria do interesse dele e do interesse da nação que os representantes deste país soubessem ao pormenor o que vai ser feito».
E fora dos EUA e do arco atlântico? A Turquia será fundamental. E, claro, veremos nos próximos tempos essa ironia da história que é ver o Irão e a Síria da Assad, regimes xiitas (no caso de Assad, alauíta, ramo xiita), que têm, neste tabuleiro, em comum com os EUA o facto de estarem sob forte ameaça dos jihadistas sunitas dos ISIS.
A geoestratégia nunca é uma história com um fim previsível. Na verdade, nunca tem fim.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Histórias da Casa Branca: consenso contra a barbárie do ISIS
TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 9 DE SETEMBRO DE 2014:
Barack Obama anuncia esta quarta o seu plano para travar o ISIS.
Mas o Presidente dos EUA já começou a preparação da opinião pública e dos outros atores políticos do sistema americano para o que aí vem, através de declarações públicas nos últimos dias e da divulgação de um vídeo chocante, com imagens de ações feitas pelos jihaditas sunitas.
Durante o dia de hoje, Obama vai reunir-se com os líderes do Congresso, para explicar as linhas de força do seu plano para combater o ISIS. A estratégia ainda não foi reveladas, mas tudo indica que passará pelo agravamento dos bombardeamentos e pelo envolvimento mais ativo de parceiros dos EUA (sobretudo Reino Unido e França), que também tenham interesses diretos na região.
Tropas no terreno, para já, é cenário afastado.
Mas também é provável que o Presidente lance amanhã o aviso: a ameaça do ISIS é demasiado séria para se resolver com meia dúzia de ataques aéreos. O problema é complexo, vai demorar a resolver-se e até pode implicar um período de tempo mais largo do que o final do segundo mandato presidencial de Barack Obama.
Como foi possível que grupo tão extremista e perigoso tenha conseguido um domínio tão significativo de um território tão vasto e estratégico?
Tiago Moreira de Sá, especialista em política internacional, observou em entrevista recente à Rádio Renascença: «A retirada das tropas norte-americanas do Iraque, sem que houvesse mínima capacidade militar digna do nome e, pior ainda, nem sequer existisse na prática um governo que merecesse o nome - e a forma como al-Maliki alienou sectores fundamentais da sociedade - agravou ainda mais o cenário. Este ponto é fundamental: essa alienação já tinha começado antes, mas prosseguiu durante a governação do xiita Nouri al-Maliki. Grande parte dos sunitas, alguns deles sunitas seculares e moderados que tinham feito parte do governo de Saddam Hussein, ficaram sem saída. Muitos destes sunitas nem sequer tinham simpatia pelo ISIS, nem sequer eram particularmente radicais nesta lógica de confrontação religiosa, mas preferiram uma aliança tática com o Estado Islâmico, contra os xiitas no poder em Bagdad.»
A escalada da barbárie foi, nas últimas semanas, o maior sinal da força e da capacidade ameaçadora do ISIS. Mas, a médio prazo, poderá ser, também, a razão da queda do Estado Islâmico.
Se o paradigma dominante nas opiniões públicas ocidentais, depois das guerras no Iraque e no Afeganistão na primeira década do século XXI, era a de «retirada», a verdade é que quanto mais se conhecem as atrocidades feitas pelo ISIS (violações em massa, decapitações, perseguição a minorias), mais condições políticas há para uma «grande coligação internacional» que trave os radicais sunitas.
Obama não quer «boots on the ground» e vai reforçar a ideia de que os EUA não podem resolver isto sozinhos. Mas será que o Presidente demorou a «encontrar uma estratégia»?
Marco Rubio, pretendente a sucessor de Obama na Casa Branca, senador republicano da Florida, é duro nas palavras: «O Presidente tem cometido erro sobre erro na sua política externa. Temos ouvido mensagens contraditórias por parte da administração. Eles não têm uma estratégia: vamos conter o ISIS ou vamos derrotá-los e eliminá-los?»
Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, congratulou o Presidente «por estar finalmente na ofensiva contra o ISIS», de que é apoiante desde a primeira hora (até foi a responsável pelas cerimónias da primeira tomada de posse), mas admitiu: «Pode ter sido uma decisão demorada. A América tem assumir a liderança desta questão».
Mike Morell, antigo diretor-adjunto da CIA, avisa, em declarações à CBS: «Travar o ISIS significa retirar-lhes território e passar a liderar as zonas que eles controlam».
Será possível fazê-lo sem «sujar as botas»?
Barack Obama anuncia esta quarta o seu plano para travar o ISIS.
Mas o Presidente dos EUA já começou a preparação da opinião pública e dos outros atores políticos do sistema americano para o que aí vem, através de declarações públicas nos últimos dias e da divulgação de um vídeo chocante, com imagens de ações feitas pelos jihaditas sunitas.
Durante o dia de hoje, Obama vai reunir-se com os líderes do Congresso, para explicar as linhas de força do seu plano para combater o ISIS. A estratégia ainda não foi reveladas, mas tudo indica que passará pelo agravamento dos bombardeamentos e pelo envolvimento mais ativo de parceiros dos EUA (sobretudo Reino Unido e França), que também tenham interesses diretos na região.
Tropas no terreno, para já, é cenário afastado.
Mas também é provável que o Presidente lance amanhã o aviso: a ameaça do ISIS é demasiado séria para se resolver com meia dúzia de ataques aéreos. O problema é complexo, vai demorar a resolver-se e até pode implicar um período de tempo mais largo do que o final do segundo mandato presidencial de Barack Obama.
Como foi possível que grupo tão extremista e perigoso tenha conseguido um domínio tão significativo de um território tão vasto e estratégico?
Tiago Moreira de Sá, especialista em política internacional, observou em entrevista recente à Rádio Renascença: «A retirada das tropas norte-americanas do Iraque, sem que houvesse mínima capacidade militar digna do nome e, pior ainda, nem sequer existisse na prática um governo que merecesse o nome - e a forma como al-Maliki alienou sectores fundamentais da sociedade - agravou ainda mais o cenário. Este ponto é fundamental: essa alienação já tinha começado antes, mas prosseguiu durante a governação do xiita Nouri al-Maliki. Grande parte dos sunitas, alguns deles sunitas seculares e moderados que tinham feito parte do governo de Saddam Hussein, ficaram sem saída. Muitos destes sunitas nem sequer tinham simpatia pelo ISIS, nem sequer eram particularmente radicais nesta lógica de confrontação religiosa, mas preferiram uma aliança tática com o Estado Islâmico, contra os xiitas no poder em Bagdad.»
A escalada da barbárie foi, nas últimas semanas, o maior sinal da força e da capacidade ameaçadora do ISIS. Mas, a médio prazo, poderá ser, também, a razão da queda do Estado Islâmico.
Se o paradigma dominante nas opiniões públicas ocidentais, depois das guerras no Iraque e no Afeganistão na primeira década do século XXI, era a de «retirada», a verdade é que quanto mais se conhecem as atrocidades feitas pelo ISIS (violações em massa, decapitações, perseguição a minorias), mais condições políticas há para uma «grande coligação internacional» que trave os radicais sunitas.
Obama não quer «boots on the ground» e vai reforçar a ideia de que os EUA não podem resolver isto sozinhos. Mas será que o Presidente demorou a «encontrar uma estratégia»?
Marco Rubio, pretendente a sucessor de Obama na Casa Branca, senador republicano da Florida, é duro nas palavras: «O Presidente tem cometido erro sobre erro na sua política externa. Temos ouvido mensagens contraditórias por parte da administração. Eles não têm uma estratégia: vamos conter o ISIS ou vamos derrotá-los e eliminá-los?»
Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, congratulou o Presidente «por estar finalmente na ofensiva contra o ISIS», de que é apoiante desde a primeira hora (até foi a responsável pelas cerimónias da primeira tomada de posse), mas admitiu: «Pode ter sido uma decisão demorada. A América tem assumir a liderança desta questão».
Mike Morell, antigo diretor-adjunto da CIA, avisa, em declarações à CBS: «Travar o ISIS significa retirar-lhes território e passar a liderar as zonas que eles controlam».
Será possível fazê-lo sem «sujar as botas»?
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