quarta-feira, 8 de abril de 2015

«A política dos EUA em Cuba era vestígio ultrapassado da Guerra Fria»

Entrevista com David Leopold, ex-presidente da American Immigration Lawyers Association, sobre o acordo EUA/Cuba, a reabertura da embaixada americana em Havana, a cimeira das Américas que começa sexta no Panamá e a Reforma de Imigração. Exclusivo tvi24.iol.pt


David Wolfe Leopold é um dos maiores especialistas na influência dos hispânicos na sociedade norte-americana. Ex-presidente da American Immigration Lawyers Association, é forte apoiante da Reforma de Imigração que o Presidente Obama tem vindo a tentar implementar. 

É comentador em sites de referência, como «Huffington Post» e o «The Hill» e tem presença frequente na CNN, Al-Jazeera America, CCTV-America, The New York Times, Congressional Qarterly, The Los Angeles Times e The Washington Post. 

Em entrevista, este advogado de Cleveland, Ohio, explica as vantagens políticas e económicas que o acordo EUA/Cuba poderá vir a ter e vê a reabertura da embaixada americana em Havana como um dado consumado embora ainda sem data prevista, considerando improvável que se concretize o desejo anunciado por Barack Obama de que corresponda com a Cimeira das Américas, que inicia esta sexta no Panamá (onde se espera encontro entre Barack Obama e Raul Castro). 

«Obama fez acordo geracional e a normalização de relações com Cuba será uma realidade incontornável, mesmo para quem, agora, a critica, por interesses políticos de curto prazo», apontou, em alusão às oposições de republicanos como Marco Rubio ou Jeb Bush. 

David Leopold elogia ainda as medidas de Barack Obama sobre Imigração e relativiza a importância do voto latino na decisão das primárias republicanas («talvez com a exceção da Florida»), embora recorde que, «na eleição geral, ele já terá um grande peso».  E isso «pode ser um problema» na dinâmica da escolha do nomeado republicano, avisa. 

Exclusivo site TVI24


O acordo com Cuba ficará para a história como um dos maiores feitos dos anos Obama?
 

Sem dúvida. A política norte-americana em Cuba era, antes deste acordo, um vestígio ultrapassado da Guerra Fria. O Presidente Obama está em certo em querer mudar essa político arcaica que já não serve os interesses dos Estados Unidos, na região e no Mundo. 
  

O Presidente Obama revelou o desejo de ver reaberta a embaixada em Cuba por altura da «Cimeira das Américas», no Panamá (dias 10 e 11 de abril). Acha possível? 

Já não há dúvidas de que os Estados Unidos vão abrir uma embaixada em Havana e que irão restabelecer as relações diplomáticas com Cuba. Mas já será duvidoso que isso aconteça tão rapidamente e não é prudente estar a prever datas, neste momento. 
  

Pode tentar antecipar que efeitos este acordo EUA/Cuba poderá produzir, não só em termos económicos mas também no ambiente político da região? Será este um «acordo geracional», como o definiu o Presidente Obama? 

Terá um grande impacto. Sem qualquer dúvida que será um acordo generacional. A maioria dos americanos, incluindo o Presidente Obama, não têm memória do tempo em que os EUA tinham uma relação normal com Cuba. Americanos e cubanos vão beneficiar, de forma mútua, com esta normalização de relações entre dois países vizinhos. As trocas económicas, sociais, culturais vão acrescentar fabrico social e levarão a vantagens para as duas sociedades. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. 
  

«A liderança cubana não pode continuar isolada para sempre» 


A queda significativa dos preços de petróleo no último ano pode ajudar a explicar a urgência de Cuba em aproximar-se dos EUA, sobretudo porque a ajuda venezuelana a Havana está em risco?   

Poderá ser um fator, mas penso que é tudo mais complicado do que isso. A comunicação em massa – incluindo a internet e os social media – tornaram o mundo um lugar bem mais pequeno. A liderança cubana tem que encarar a realidade de que não pode continuar isolada do mundo, e em particular, dos EUA, para sempre. O desenvolvimento social e a abertura não é uma escolha para Cuba, é uma realidade. A liderança cubana reconhece que a normalização de relações com os Estados Unidos é inevitável, com ou sem a sua intervenção.    
  

Será politicamente sensato que políticos republicanos como Marco Rubio ou Jeb Bush se oponham a este acordo? 

Tem a ver com a base política de apoio deles, muito relacionada com a comunidade cubana exilada nos EUA. Pode até ser vantajoso em termos políticos no curto prazo, mas a longo prazo eles terão que aceitar a normalização de relações com Cuba. 
  

«Que interessa nacional tinha o embargo para os EUA?» 


Como vê a posição de Rand Paul, que disse que «o embargo é estúpido» e apoia a intenção do Presidente de pôr um fim a esse bloqueio económico a Cuba? 

Acho que Rand Paul está correto. Qual é o propósito do embargo? Que interesse nacional nos serve a nós, EUA? Bem pelo contrário, cria-nos problemas. Quanto mais forte Cuba se tornar economicamente, mais provável será que a sua liderança política se modere. 



David Leopold: «Acordo com Cuba vai desafiar os republicanos no Senado»



Pela primeira vez nos anos Obama, o Senado é dominado pelos republicanos. Será o acordo com Cuba o primeiro grande desafio que mostrará quem realmente manda na política externa americana (os republicanos ou o Presidente Obama)? 

Essa é uma pergunta de resposta difícil. Os republicanos têm um propósito de se opor a tudo o que Obama faça, seja em questões domésticas, como o Health Care ou a Imigração, ou nos objetivos de política externa, como o acordo nuclear com o Irão ou ainda a normalização de relações com Cuba. Acho que Cuba vai desafiar os republicanos em cair nos seus dogmas partidários ou então de ficarem, desta vez, de forma corajosa ao lado de Obama no apoio a uma normalização com Cuba. 


Ted Cruz, filho de um cubano, foi o primeiro candidato declarado às presidenciais de 2016. Marco Rubio, que deverá avançar em breve, também é descendente de cubanos. Jeb Bush, um dos «frontrunners», é casado com uma mexicana. Será o fator latino decisivo nas primárias republicanas? 

Não me parece que vá decidir, com a exceção da Florida. No entanto, Ted Cruz, armado com a marca arrogante da direita extremista, pode forçar os outros candidatos (incluindo Rubio e Bush) a virarem-se para a direita, especialmente na imigração. Isso será um problema para o Partido Republicano e para quem vier a ser nomeado, porque o voto latino será muito importante na eleição geral. Em 2012, o nomeado republicano, Mitt Romney, recebeu apenas 23% do voto latino depois de concorrer com uma plataforma que incluía o conceito de «auto-deportação» para imigrantes sem documentos. Desde aí, o GOP (Grand Old Party) mostrou poucos avanços na inclusão das comunidades hispânicas. Essa versão esquisita de «chegar» e «fazer pontes» com os votantes hispânicos passa por coisas como deportar «dreamers» ( nota: beneficiários de lei aprovada durante os anos Obama, de inclusão de imigrantes que pretendessem continuar nos EUA) e passa também por tentar bloquear as medidas executivas do Presidente pela imigração. 


David Leopold: «Só o Congresso pode resolver o problema da Imigração»


Os hispânicos foram muito importantes para a reeleição de Obama (votação muito superior em relação a Romney, acima dos 70 por cento). Acredita que Hillary Clinton nos latinos, frente ao nomeado repubicano, seja idêntica, especialmente se esse nomeado for Bush ou Rubio? 

Sim, acredito que se mantenha. A menos que os republicanos se moderem no seu extremismo anti-imigração, anti-latinos, Hillary Clinton poderá passar dos 70% nesse segmento, tal como conseguiu o Presidente Obama em 2012. 


Que candidato presidencial poderá obter, em 2016, mais apoio dos latinos? 

Acredito que a posição republicano de desvalorizar os latinos (incluindo em questões como a Reforma da Saúde e a Imigração) poderá custar-lhes a Casa Branca em 2016 e mesmo para a frente. 


As medidas executivas unilaterais tomadas pelo Presidente Obama em novembro, sobre Imigração, foram efetivas? O risco de cerca de cinco milhões de pessoas serem deportadas dos EUA está controlado? E o grande problema tem agora um caminho para ser resolvido? 

As medidas de novembro estão temporariamente suspensas, em função de uma ação judicial tomada no Texas pelos republicanos. Espero que o tribunal de apelo reverta a ação judicial de suspender as medidas do Presidente. Mas é importante lembrar que as ações executivas do Presidente Obama são, no máximo, uma medida temporária. Não criam um caminho duradouro na questão da imigração, um «green card» ou a cidadania. Apenas o Congresso pode fazer isso. Infelizmente, o Congresso recusa-se a resolver o problema de um sistema de imigração que não funcionam. E, enquanto isso não for feito, um sistema disfuncional vai continuar a infetar a América, vai continuar a prejudicar os negócios, vai continuar a adiar separar famílias. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: nova página na contenção nuclear

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 6 DE ABRIL DE 2015:


«Graças aos nossos esforços diplomáticos, o Mundo manteve-se connosco e juntaram-se a nós nesta negociação a principais potências internacionais: o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Rússia, a China e a União Europeia. Há cerca de um ano, tomámos o primeiro passo rumo ao que atingimos hoje, com vista a um acordo que trave o crecimento do programa nuclear iraniano e o adapte a áreas chave» 
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 


«Se a outra parte honrar as suas promessas, nós honraremos as nossas promessas» 
HASSAN ROHANI, Presidente do Irão 


«Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo» 
BENJAMIN NETANYAHU, primeiro-ministro de Israel 


O Irão nuclear pode ter deixado de ser uma das principais ameaças da realidade internacional. 

O acordo de Lausanne, obtido na passada sexta depois de uma longa negociação (especialmente intensa nas últimas semanas, com empenhamento direto do secretário de Estado norte-americano John Kerry e do seu homólogo iraniano, Javad Zarif), deverá ficar como um dos grandes marcos dos «achievements» em política externa dos EUA. 

A obtenção de um acordo nuclear global, que garantisse que o Irão suspendesse o seu programa de enriquecimento de urânio, a troco do alívio das sanções impostas a Teerão, era uma das grandes prioridades da reta final da presidência Obama. 

Ainda não está tudo garantido (até 30 de junho, terá que ser redigido um texto final do acordo Irão/potências internacionais), mas essa conjunção (suspensão da escalada do programa nuclear iraniano a troco do alívio de sanções) parece estar já garantida, tendo em conta as reações globalmente positivas das partes que se sentaram à mesa na Suíça, nas últimas semanas.  

Vitória política e diplomática indiscutível para Barack Obama (que nos últimos meses somou Cuba e Irão em acordos de dimensão histórica só possíveis pela sua liderança), sendo que, desta vez, não se tratou de mero entendimento bilateral entre os Estados Unidos e outro país. 

O problema do Irão tem extensões mais vastas e envolveu todos os grandes poderes do Mundo atual. De tal modo a ameaça era abrangente que colocou Rússia e China, principais rivais dos EUA em muitos outros temas, envolvidas de forma progressivamente mais clara, quando a perspetiva de acordo se foi desenvolvendo, nos dias finais da negociação. 

Até 30 de junho há arestas a limar, para que se chegue a um acordo final sublimado em texto escrito, assinado por todas as partes. 

Israel e mundo árabe olham de lado 

O acordo é histórico mas está longe de ser consensual. 

Em Telavive, o governo israelita, com relação muito tensa com a Administração Obama, não gostou do que saiu de Lausanne: «Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo», apontou Netanyahu, agora reforçado internamente. 

Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, reagiu, em defesa do que a diplomacia americana obteve: «O primeiro-ministro israelita disse o que tinha que dizer e, sinceramente, acho que isso pode virar-se contra ele.  

Uma parte do mundo árabe, com os sauditas (aliados principais dos EUA na região) na linha da frente, temem que o acordo de Lausanne abra uma nova etapa na relação EUA/Irão, terminado em definitivo com as tensões dos últimos 35 anos. 

Perante o inimigo comum (o «Estado Islâmico» feito de jiadistas sunitas), EUA e Irão, agora aproximados pelo acordo de Lausanne, são um «gamechanger» inquietante para sauditas e israelitas, sobretudo. 

O aviso de Obama ao Congresso: não estraguem isto 

Tem sido frequente nos anos Obama, mas desta vez foi feito com particular veemência: o Presidente dos EUA fez aviso sério ao Congresso de maioria republicana: não estraguem isto. 

«Se o Congresso matar este acordo, de forma não baseada na análise e sem oferecer qualquer alterantiva razoável, então serão os Estados Unidos a serem culpados pelo falhanço da sua diplomacia. A comunidade internacional vai colapsar e o caminho será muito estreito. O povo americano sabe disso e é por isso que dou suporte sólido a uma resolução diplomática para a questão nuclear iraniana». 

Não é essa a visão de muitos setores conservadores, aqui representados pelo comentário de Charles Krauthammer na FOX: «Basta ver as reações de contentamento do ministro dos negócios estrangeiros do Irão no momento do acordo. Eles foram muito pouco claros sobre os pressupostos. É possível que quando assinarem em junho, já beneficiem de uma enorme quantidade de sanções aliviadas. E quando Obama fala de levantar as sanções, seos iranianos estiverem a fazer batota, não voltará a a haver a hipótese de russos, chineses e europeus voltaram a impor sanções outra vez. Vamo agir sozinhos, estaremos completamente isolados». 

terça-feira, 31 de março de 2015

Communication Advisory: Mitos e medos que não resistem à realidade

ARTIGO PUBLICADO NO BLOGUE «COMMUNICATION ADVISORY», A 31 DE MARÇO DE 2015:

A política é uma caixinha de surpresas e isso nem sempre é mau. O que se passou em França no passado domingo ajuda-nos a perceber um pouco melhor essa ideia pouco divulgada, mas tantas vezes verificada.

Nos últimos anos, sobretudo a partir do acentuar da austeridade na Europa, temos ouvido falar no perigo iminente de Marine Le Pen poder chegar à Presidência da República francesa.
Os resultados das «departamentais» de domingo passado, porém, mostraram que esse receio é manifestamente exagerado.
Marine está a subir, cavalgando o descontentamento em relação a quem costuma estar no poder e teve, nestes anos, que esquecer os valores partidários e carregar nos cortes? Certo.
Isso já valeu à Frente Nacional uma surpreendente vitória nas Europeias e bons resultados em legislativas e eleições locais? Verdade.
Mas uma coisa é ter 25/30% dos votos à primeira volta (e com isso talvez ser a mais votada nessa primeira volta). Outra, completamente diferente, é obter 50% mais um à segunda, em presidenciais.
Lembremo-nos do que aconteceu ao pai de Marine, Jean Marie Le Pen.
Em 2002, e depois de muito tentar nos anos 80 e 90, escandalizou o «mainstream» da política francesa e europeia ao chegar à segunda volta, sendo mais votado que o então candidato socialista Lionel Jospin.
O sistema, assustado, protegeu-se, unindo-se em torno do candidato da direita tradicional, Jacques Chirac.
As consequências foram aparentemente tranquilizadoras: Chirac esmagou Le Pen por 82-18. Toda a esquerda votou no «adversário», para travar o «inimigo». Jean-Marie teve, em percentagem, um resultado mais baixo que na primeira volta.
Passou mais de uma década. Marine não é igual ao pai. Tendo herdado a estrutura partidária, as bases, um certo estilo agressivo, arrogante e autoritário, mostra-se, no entanto, mais sofisticada.
Não cai nos disparates de Le Pen pai nas tiradas racistas ou relacionadas com o holocausto. Mas uma análise pormenorizada identifica que o essencial está lá: o nacionalismo extremado, a defesa do regresso às fronteiras, a França para os franceses, «nada contra os estrangeiros, mas na terra deles, a França tem desempregados a mais».
Mistura explosiva, em cenário de crise económica e desgaste (cansaço, mesmo) em relação aos partidos de poder.
François Hollande está desacreditado (foi eleito para o Eliseu prometendo trocar a austeridade pelo «investimento» e em poucos meses tornou-se uma espécie de porta-voz de Merkel com sotaque francês).
Manuel Valls, o primeiro-ministro que o Presidente nomeou para evitar a humilhação em pleno mandato, é um líder de governo supostamente «socialista» que, qual paradoxo, se mostra feroz crítico da «esquerda» em quase tudo. Nem mesmo «Terceira Via». Coisa ainda mais original, até.
Sarkozy, enredado em confusões e processos judiciais depois da perda do Eliseu, tenta voltar à ribalta e, em mais uma ironia de que a alta política é fértil, pode ser o beneficiário da crise aguda do PSF.
O cenário parece ser ideal para o «assalto» de Marine ao Eliseu em 2017.
Mas, por vezes, basta uma análise fria da realidade para afastar medos que são repetidos à exaustão, mesmo por supostamente credível.
As eleições «departamentais» de domingo mostraram que Nicolas Sarkozy tem tudo para regressar ao Eliseu em 2017 (e sem grande dificuldade, dado o estado moribundo do PSF, pelo desastre político da presidência Hollande).
Não sendo o regresso de Sarko uma grande notícias, é mais do que tudo um grande alívio.
A derrocada (da República francesa e do projeto europeu, num cenário de Marine no Eliseu) pode esperar.
Marine é para levar a sério. Passou a ser uma «player» indisfarçável do jogo político francês. Pode, até, dizer-se que a bipolarização socialistas/direita tradicional terminou (a Frente Nacional é, neste momento, força quase tão abrangente nas câmaras e nas legislativas que o PSF e a UMP).
Mas a filha de Le Pen nunca será presidente da França. Vai uma aposta?

segunda-feira, 30 de março de 2015

Histórias da Casa Branca: o paradoxo do Iémen


TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 30 DE MARÇO DE 2015:


A «Tempestade Decisiva», operação liderada pela Arábia Saudita, é tentativa final para evitar a desagregação do país. E mostra, ao limite, que a grande divisão do mundo muçulmano está entre xiitas e sunitas Que o Médio Oriente é, há décadas, uma grande confusão, já todos sabíamos.
 
Mas o momento atual da relação de forças na região desperta perplexidades capazes de inquietar os maiores especialistas.

A situação no Iémen está para lá da preocupação: é um caso de guerra iminente e de risco enorme de desintegração de fronteiras. 
 
A «Tempestade Decisiva», operação liderada pela Arábia Saudita e que contém ainda o envolvimento de países como o Egito, a Jordânia, o Paquistão, o Qatar, Marrocos, Sudão o Bahrain e os Emiratos Árabes Unidos, será a última tentativa para evitar a desagregação do Iémen, algo que agravaria ainda mais o cenário de caos na região.

E mostra, ao limite, que a grande divisão do mundo muçulmano (muito mais do que a questão de suposta hostilidade com o «Ocidente» e a «América») tem a ver com a antinomia xiitas «vs» sunitas.

A ascensão do Estado Islâmico no último ano (primeiro no Iraque e nos últimos meses também na Síria) foi um primeiro sinal claro duma reação sunita contra o poder xiita decorrente do pós-Saddam no Iraque e do regime de Assad na Síria.

O Iémen, foco de tensão e possível acolhedor de terroristas nos últimos anos, não tem o impacto mediático e político do Iraque ou da Síria (a explicação é fácil: é mais pequeno e quase não tem petróleo, embora tenha importância no acesso ao golfo de Aden). Mas tem provocado, sobretudo desde a Primavera Árabe, alguns dos momentos mais problemáticos para as chancelarias ocidentais.

As conturbações sociais e políticas da Primavera Árabe geraram quedas de ditadores na Tunísia (Ben Ali), no Egito (Mubarak), na Líbia (Kadhafi) e no Iémen (Ali Abdullah Saleh).

Sucede que, tal como acontecia no Egito e na Tunísia (e durante algumas fase também na Líbia...), o ditador de Sana era aliado estratégico dos EUA na região. 

Com a queda de Saleh, o Iémen passou a ser um ponto de interrogação ainda maior. A Al-Qaeda, que perdeu força no Afeganistão e no Paquistão após uma década de presença de tropas americanas no «AfPak», foi criando zonas de influência no Iémen, o que chegou a obrigar a bombardeamentos aéreos pontuais.

Desta vez, a ameaça é outra.

O Presidente Hadi fugiu do país em janeiro, após ataque dos Huthis ao palácio presidencial.

Nos últimos dias, a coligação liderada por Riade tem feito incursões aéreas contra posições do movimento iemenita dos Huthis, de modo a retirá-los do controlo de Sana, a capital do Iémen.

As milícias houthis que conquistaram posições importantes no Iémen são mais um passo nas movimentações do Irão (bastião dos xiitas no universo muçulmano) em países que têm sido dominados pelos sunitas. 

O Iémen está, assim, no centro de mais um jogo de forças entre Riade e Teerão. Entre a Arábia Saudita, sunita, e o Irão, xiita.

Pelo meio, a Al Qaeda e o Estado Islâmico (organizações jiadistas sunitas com atuações e interesses diferentes), são atores importantes no terreno, aumentando a complexidade do conflito e o risco de desintegração do país.

Nas últimas décadas, sobretudo desde a «revolução dos aiatolas» em Teerão, que ditou a queda do Xá da Pérsia, os EUA tiveram o Irão como um dos principais inimigos na região. Isso implicou uma fase de aliança de Washington com o Iraque de Saddam, mais tarde tornado inimigo. Mas implicou, acima de tudo, que a Casa Real Saudita seja aliada de longo prazo dos americanos (não só na política, sobretudo nos negócios).

Neste cenário, tornava-se compreensível o apoio de Washington ao esforço saudita nesta «Tempestade Decisiva».

Mas não deixa de ser paradoxal: ao mesmo tempo que a coligação liderada pelos EUA bombardeia posições do Estado Islâmico (movimento jiadista sunita), com interesse comum do Irão, que também está a financiar e fornecer armas aos resistentes xiitas e curdos no Iraque e na Síria, os mesmos Estados Unidos estão do lado oposto aos interesses iranianos no Iémen.

Para aumentar a confusão deste jogo de forças, Washington e Teerão tentam fechar acordo, por estes dias, em relação ao nuclear.

Joe Scarborough, em artigo no «Politico.com», tem sentença dura para com a estratégia dos últimos dois presidentes dos EUA para o Médio Oriente: «O Iémen em chamas, o ISIS em marcha, a Síria no apocalipse, o Irão a entrar pelo Iraque, a anarquia reina na Líbia, a Jordânia a oscilar, a Turquia a deslizar e a relação da América com a única democracia no Médio Oriente (Israel) a deslizar para níveis baixíssimos. Quando os historiadores e analistas olharem para trás e tentarem analisar o falhanço da política externa dos EUA no início do século XXI, muitos perguntarão como é que a superpotência sem rival em termos militares, económicos e culturais perdeu essa vantagem histórica tão depressa nessa região. A resposta? George W. Bush e Barack Obama. (...) A política externa ideológica de George W. Bush, com o desastre da invasão do Iraque, foi seguida tragicamente pela ideia errada de Obama de que a América poderia apagar os pecados da invasão Bush/Cheney abdicando simplesmente das responsabilidades dos EUA como nação indispensável».

Voltaremos em breve a este tema. Muito provavelmente, pelas piores razões, claro.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Histórias da Casa Branca: Ted Cruz, jogada de antecipação

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 26 DE MARÇO DE 2015: 

Ted Cruz, 44 anos, senador júnior do Texas, é o primeiro candidato declarado às presidenciais 2016 na América. 
  
E, sim, é preciso escrever «declarado» porque, na prática, há já vários candidatos no terreno, sobretudo do lado republicano. 
  
Filho de um cubano que chegou a combater por Fidel contra Fulgêncio Batista, mas depois se afastou quando descobriu que Cuba «tinha acabado de cair no comunismo», e de uma americana, nasceu em Calgary, no Canadá, onde os pais se encontravam a trabalhar, no ramo do petróleo.  

Apesar da Constituição americana supostamente exigir que o Presidente tenha nascido nos EUA (como os detratores de Barack Obama bem sabem...), a verdade é que a disposição é ambígua e refere o termo «natural-born citizens».  

Ora, na interpretação de Ted Cruz (e da muitos especialistas), pelo facto da mãe ser americana, Ted adquiriu nacionalidade norte-americana quando nasceu, mesmo tendo o Canadá como país natal. A «nuance» já tinha sido colocada com o nomeado republicano de 2008, John McCain, que nasceu no Canal do Panamá, em base militar norte-americana. 

Polémicas de locais de nascimento à parte (que não deixam de ter a sua ponta de ironia que afetem o primeiro candidato às primárias republicanas, depois de anos de disparate dos «birthers» que quiseram anular as eleições de Obama), a ideia forte a reter é que Ted Cruz jogou na antecipação. 

É para levar a sério, Ted? 

O senador júnior do Texas não tem, pelo menos para já, hipóteses reais de obter a nomeação republicana, muito menos de ser eleito Presidente dos EUA em novembro de 2016.  

Menos viável do que outros candidatos da ala «Tea Party», como Marco Rubio, Mike Huckabee ou Rand Paul, Ted tentou ganhar terreno cedo e baralhar o jogo. 

Num cenário altamente implausível de ganhar a nomeação, as sondagens indicam que Hillary bateria facilmente Ted na eleição geral, numa proporação de 60/40. 

O seu discurso político foca-se muito nos conceitos de Deus, «sonho americano» e três inimigos: o aborto, os impostos e o «peso do Governo». 

Foi nesse mantra que viveram os radicais de direita nos últimos anos. O eleitorado natural de Ted são os republicanos mais à direita, que nunca digeriram as eleições presidenciais de Barack Obama.  

Um dos pontos que Ted Cruz mais tem atacado integra-se nessa ideia geral do «peso do Governo». 

O «ObamaCare», como os republicanos gostam de chamar à Reforma da Saúde aprovada pela Administração Obama, levou até, há dois anos, a um ato bizarro de Ted Cruz: em pleno Senado, falou durante 21 horas seguidas, para tentar boicotar a aprovação da proposta, um instrumento de «filibuster» levado ao limite.  

Apesar de se opor de forma tão radical ao ObamaCare, Ted admitiu que irá usufruir dele para obter um seguro de saúde. Only in America... 

Em outubro de 2013, Ted Cruz foi um dos principais promotores, no Senado, do «shutdown» que paralisou, durante duas semanas, o governo federal, por falta de acordo orçamental. Mesmo depois de se ter chegado a uma solução bipartidária, de modo a retomar a normalidade dos serviços federais, Ted foi um dos 18 republicanos que, no Senado, votaram contra. 

As sondagens não dão mais que 5/7 pontos percentuais a Ted Cruz na corrida republicana. Um pouco atrás dos nomes referidos que com ele disputarão a ala direita; menos de metade das preferências dos dois «frontrunners» do momento: Jeb Bush, ex-governador da Florida e favorito à nomeação, e Scott Walker, governador do Wisconsin e muito forte nos estados de arranque. 

Ted Cruz vai jogar quase tudo nas votações no New Hampshire (forte presença de cristãos evangélicos, um dos segmentos que o podem favorecer) e, sobretudo, na Carolina do Sul.  

Para já, foi só a lebre. Quase nada indica que vá ser o vencedor a cortar a meta. Mas, pelo menos, pode dar para perturbar a conversa no lado republicano.  

terça-feira, 24 de março de 2015

Histórias da Casa Branca: o fantasma israelita e um improvável aliado

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 24 DE MARÇO DE 2015:


«Os Estados Unidos nunca deixarão de trabalhar a favor de uma solução de dois Estados. Há que terminar com uma ocupação (de territórios palestinianos) que já dura há 50 anos» 
Denis McDonough, chefe de gabinete da Casa Branca 

Há vários temas quentes na agenda de política externa do Presidente Obama até ao fim do seu segundo mandato. 
  
Dois deles são óbvios e prementes: a luta contra o avanço do Estado Islâmico e a ameaça russa no Leste da Europa. 
  
Outros dois têm a ver com a definição de estratégia a longo prazo: o tal «shift» para a Ásia-Pacífico, para conter a ascensão da China, ideia base dos anos Obama, que tem sido adiada pelos olhares mediáticos, mais atraídos por outras crises imediatas; e uma reaproximação à Europa, já sinalizada com a preocupação de Washington com o caso grego e com a intenção de Barack Obama de selar enquanto estiver na Casa Branca um grande acordo transatlântico de comércio livre, que torne o eixo EUA/Europa como o maior espaço económico do Mundo. 

Há ainda uma frente em que o Presidente Obama gastará boa parte dos seus últimos trunfos: a concretização do acordo com Cuba, perante o plano republicano de o tornar mínimo, por uma espécie de boicote legislativo, via Congresso. 

Se a contenção da China, a reaproximação à Europa e o acordo com Cuba têm sido apostas políticas planeadas por Barack Obama, o mesmo já não poderemos dizer da alteração de posições a que poderemos estar a assistir, na relação dos EUA com Israel e com o Irão. 

A vitória de Netanyahu nas eleições da semana passada, a todos os títulos inesperada, está a obrigar a Administração Obama a «rever» a sua relação com Israel, aliado crucial na posição norte-americana no Médio Oriente. 

Ao mesmo tempo, a ameaça crescente do Estado Islâmico, na sua condição de terrorismo com ideologia «wahabista», provoca uma inesperada condição comum a americanos e iranianos: ambos têm urgência em travar os jiadistas sunitas. 

As vantagens de aprofundar esta inesperada cooperação Washington/Teerão são maiores que os riscos (que também existem, claro). Para lá do inimigo comum (o terrorismo do ISIS), existe também uma rara vontade nas lideranças políticas de Obama e Rohani. E isso pode explicar a desconcertante carta escrita pelo senador republicano Tom Cotton, em tom de irresponsável ameaça ao Presidente do EUA. 

Mas ainda há desconfianças mútuas, claro. O maior envolvimento dos iranianos em terreno dominado pelo Estado Islâmico nunca será admitido como aliança real entre EUA e Irão. Mas ambos sabem que dependem do outro. 

Stephen Hayes, na «Time», nota: «O Irão é uma oportunidade, não uma ameaça. É um parceiro potencial, não um inimigo. Por mais de seis anos, a visão do Irão guiou as decisões de Barack Obama. O presidente declarou, de forma repetida, a sua vontade clara de abraçar o Irão na comunidade das nações civilizadas. As suas palavras, por vezes, sugerem que o Irão tem uma escolha a fazer. Conseguir entrar nessa tal mítica comunidade de nações civilizadas depende, de algum modo, do seu próprio comportamento. Mas, nestes seis anos, pouco aconteceu que possa indicar-nos que o Irão quer mesmo isso». 

O fator Netanyahu está a tornar este jogo ainda mais perigoso para a política externa de Obama. O convite dos senadores republicanos ao primeiro-ministro israelita extremou posições nos dois campos político que dominam Washington. 

A via norte-americana para lidar com o Irão conhecido consenso bipartidário há mais de três décadas. Isso está, neste momento, em risco. Obama quer travar o fantasma do programa nuclear iraniano com um acordo que os republicanos, agora em maioria no Senado, nunca assinarão. 

Torna-se difícil ver desfecho feliz para este jogo de sombras: Israel, com Netanyahu reforçado, não admite a aproximação EUA/Irão, com medo do nuclear e de apoio de Teerão a inimigos de Telavive; os republicanos no Congresso sem dar cobertura ao caminho do Presidente em fim de mandato; Barack Obama desesperadamente a lutar contra o relógio, querendo juntar o Irão à lista de conquistas da sua atribulada presidência. 
   

sexta-feira, 20 de março de 2015

Histórias da Casa Branca: Hillary aguenta o embate

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 20 DE MARÇO DE 2015:


Hillary Clinton sobreviveu ao primeiro grande embate. 
  
Sondagem CNN/Opinion Research Corporation, feita já depois do «mailgate», coloca a ex-secretária de Estado à frente em todos os cenários de luta final com os republicanos para novembro de 2016. 
  
Hillary mantém também enorme avanço para a nomeação democrata, ainda que tenho baixado um pouco depois da crise da utilização de email pessoal em matéria governamental enquanto chefe da diplomacia americana. 
  
A antiga Primeira Dama dos EUA surge como a possível candidata com melhor níveis de aprovação junto do eleitorado (53%), à frente de Joe Biden (43%), Mike Huckabee (35%), Jeb Bush (31%), Rand Paul (31%), Marco Rubio (25%), Chris Christie (25%), Ben Carson (22%) e Scott Walker (21%). 

Ainda muita água correrá debaixo da ponte até ao início das votações, em janeiro, mas a vantagem de Hillary parece fundar-se em mais do que mera opinião política: ela assenta no enorme grau de notoriedade que a «frontrunner» tem no eleitorado americano, bem acima da do vice-presidente em funções e muitíssimo superior a qualquer outro nome dos dois campos partidários que possam estar aptos a avançar.  

O que impressiona mesmo no estudo da CNN/ORC é a margem da vantagem de Hillary na eleição geral: vantagem de dois dígitos sobre todos os possíveis opositores republicanos. Clinton bateria Rand Paul por 54-43, ganharia a Jeb Bush e Scott Walker por igual margem (55-40) e esmagaria Mike Hukcabee (56-41) e Ben Carson (56-40). 

No campo republicano, Jeb Bush continua a apresentar um pequeno avanço no plano nacional, mas ainda pouco significativo: recolhe 16% das preferências, enquanto Scott Walker tem 13%, Rand Paul 12%, Mike Huckabee 10%, Ben Carson 9%, Chris Christie e Marco Rubio 7%, Ted Cruz e Rick Perry 4%, Lindsay Graham, Bobby Jindal e Rick Santorum 1%. 

Mas como a corrida à nomeação partidária tem diversas fases, não se cingindo a uma votação simultânea nos diferentes estados (algo que sondagens como esta simulam), não é líquido que Jeb Bush seja mesmo o republicano em melhores condições, neste momento. 

Scott Walker, governador do Wisconsin, continua a surpreender nos estados de arranque (Iowa e New Hampshire) e está a apostar forte também em terreno relevantes nas etapas seguintes, sobretudo a Carolina do Sul. 

No lado republicano, a grande questão parece ser, portanto, se Jeb conseguirá obter resultados animadores nos estados de arranque, que lhe permitam chegar aos «grandes prémios» (Texas e Florida) em condições boas para, nesses estados com características que o favorecem e que dão muitos delegados, possa resolver relativamente cedo a questão. 

Em relação aos democratas, o «passeio Hillary», mesmo depois do escândalo dos emails, é evidente: vantagem de quase 50 pontos sobre Joe Biden (62-15), com a senadora democrata do Massachussets, Elizabeth Warren, em terceiro, com 10%. 

Perante estes dados, fica mais fácil perceber porque é que não há mesmo «plano B» a Hillary no lado democrata. É que, com um avanço destes, e tão consistente garantia que de a mais-do-que-provável nomeada democrata tem vantagem de mais de dez pontos sobre os republicanos, não será um escândalo qualquer a conseguir abalar tamanho favoritismo. 

Glenn Thrush, no «Politico», nota: «Não é que Hillary deseje uma coroação. As pessoas que a rodeiam garantem que ela apenas pretende adiar ao máximo o salto para a lava da luta presidencial».   

O problema dos «emails» está «queimado»... Será o financiamento da Clinton Foundation o próximo?