sexta-feira, 17 de abril de 2015

“Hillary Clinton é a super favorita” - entrevista ao site «Panorama»


O Panorama falou com Germano Almeida, autor da rubrica “Histórias da Casa Branca” no site da TVI24, para perceber quais as condicionantes que se adivinham na corrida de Hillary Clinton à Casa Branca.
Com que trunfos conta hoje Hillary Clinton que não tinha em 2008, quando perdeu as primárias para Obama?
Diria que o essencial tem a ver com não ter, desta vez, adversário directo. É certo que em 2007, quando se partiu para as primárias de 2008, Hillary tinha um bom avanço. Parecia, na altura, a nomeada quase inevitável. Mas 2008 teve um fenómeno – Barack Obama – que aparece muito raramente, pela forma meteórica como apareceu e ascendeu. Desta vez, jáhillaryObama não há tempo para que surja um outro candidato capaz de retirar a vitória à favorita. E com esta diferença: em 2008, Hillary partiu com 20/30 pontos de avanço para as primárias. Agora tem avanço de 40/50. Ora, uma diferença dessas não é reversível no espaço de um ano e pouco (o nomeado democrata definir-se-á no verão de 2016). Hillary não foi nomeada em 2008 mas obteve 18 milhões de votos. O problema dela foi apenas um: Barack Obama. Num cenário de normalidade, ela já tinha ganho em 2008. Parte para 2016 com vantagem nunca vista nesta fase (quase 50 pontos de avanço para as primárias e cerca de 10 pontos de vantagem contra todos os republicanos para a eleição geral). A menos que tenha um problema de saúde ou algo de absolutamente imprevisto, é a super favorita.
O facto de ser mulher pode ser uma mais valia para Hillary Clinton?
Ajuda a diferenciá-la. Não creio que seja o ponto decisivo na sua candidatura, mas pode ter efeitos benéficos, se ela os souber usar (em 2008 não soube completamente). Se em 2008 a história das eleições foi Barack Obama, por ter conseguido provar que era possível eleger um negro para a Casa Branca, Hillary vai querer fazer de 2016 a primeira eleição de uma mulher para a Casa Branca. Ela já tinha tentado fazer isso em 2008, mas o fenómeno Obama acabou por se sobrepor. Poderá ajudar Hillary o facto de ser mulher? Diria que sim, por duas razões: por esse efeito «novidade» (as eleições na América adoram novidades e detestam coisas previsíveis) e pelos problemas que isso coloca aos republicanos: sendo as mulheres maioria do eleitorado americano (cerca de 52 em cada 100 americanos que votam nas presidenciais são mulheres), atacar Hillary é, em última instância, atacar a única representante do leque de candidatos do género feminino…
Quais serão as maiores dificuldades que a candidata vai encontrar?
Uma eleição presidencial americana é um monte de dificuldades, que se prolonga ao longo de quase dois anos. Esta campanha parte a 20 meses da data da eleição, a de 2008 partiu ainda antes (Obama e Hillary apresentaram-se às primárias desse ano em… Janeiro de 2007). Portanto, diria que a primeira dificuldade é o tempo imensamente longo desta batalha, algo que só se consegue gerir com auto-controlo, resistência física e muito ânimo. Depois há três «sombras» no seu passado: Bengazhi, a maior mancha em percurso público de quatro décadas (quando era secretária de Estado, um embaixador americano foi morto na Líbia); mailgate (uso indevido do e-mail pessoal em exercício de funções); financiamento das fundações dos Clinton. Os republicanos vão tratar, nos próximos meses, de falar muito destas três coisas. Há ainda o factor idade: em 2008, os americanos preferiram um candidato extremamente jovem e inexperiente (Barack Obama) sobre um velho leão da política americana (John McCain). Se elegerem Hillary vão escolher uma candidata com quase 70 anos e que tem uma vida pública de mais de quatro décadas. Isso pode ser um problema.
O contexto político actual nos EUA é favorável a esta candidatura?
Hillary tem muito mais trunfos que problemas no actual contexto. Diria que o principal problema tem a ver com o princípio da alternância: depois de oito anos de presidente democrata, talvez fosse provável que para a Casa Branca, em 2016, fosse um republicano. Mas isso não é obrigatório: por exemplo, depois dos dois mandatos de Reagan, republicano, houve outro republicano, George Bush pai. E depois dos dois mandatos de Clinton, Gore esteve pertíssimo de ser eleito. No resto, Hillary quase só tem trunfos. Destacava quatro principais:
1- A “Maioria democrática é real”: A evolução demográfica favorece o nomeado presidencial democrata, pelo menos enquanto os republicanos continuarem a ter tantas dificuldades como os segmentos «negros» e «hispânicos». Os democratas venceram no voto popular em cinco das últimas seis eleições presidenciais (Gore teve mais 500 mil votos que W. Bush em 2000, mas perdeu no Colégio Eleitoral, Obama e Bill Clinton ganharam duas vezes o voto popular). Desde 1992, só George W. Bush em 2004 conseguiu ter mais votos, como nomeado republicano, que o nomeado democrata (John Kerry).
2 – O voto jovem: Barack Obama arrasou nesse segmento em 2008 e, embora tenha baixado um pouco, voltou a ganhar por larga margem em 2012. Nenhum republicano parece ter, para já, condições de conquistar o voto jovem.
3 – Notoriedade quase total: Hillary Clinton é conhecida de quase 100% dos americanos. Qualquer adversário (seja nas primárias democratas ou na eleição geral com o nomeado republicano) terá que fazer um caminho muito duro para chegar sequer perto. Mesmo com uma taxa de rejeição considerável (há milhões de americanos que não gostam dela), Hillary é muito popular. E isso, na hora do voto, conta incrivelmente.
4 – A herança económica: A presidência Obama colocou os EUA na mais baixa taxa de desemprego dos últimos sete anos e no maior crescimento económico da última década. Hillary poderá vir a colher os créditos desse desempenho. E ainda há, é claro, a «herança económica» do marido da candidata, o presidente Bill Clinton, que dirigiu a América nos prósperos anos 90 e deixou o país com um superavite significativo.
Quem poderá vir a ser o seu grande adversário?
Nas primárias democratas, acredito que dois ou três dos seguintes nomes serão candidatos: o vice-presidente Joe Biden (que poderá tentar ficar com parte da herança Obama); Martin O’Malley, governador do Maryland; Elizabeth Warren, senadora do Massachussets; Jim Webb, ex-senador da Virgínia; Bernie Sanders, senador do Vermont. Para a eleição geral, creio que o nomeado republicano será um destes três nomes: Jeb Bush, ex-governador da Florida e irmão e filho de ex-presidentes da República; Scott Walker, governador do Wisconsin; Marco Rubio, senador da Florida. Em condições normais, o duelo final será Hillary/Jeb, numa improvável repetição dum duelo Clinton/Bush (em 1992, foi esse o duelo, entre Bill Clinton e George Bush pai). Mas Scott Walker e Marco Rubio podem ter uma palavra a dizer e tirar a nomeação a Bush.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: Marco Rubio, latino e conservador

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 13 DE ABRIL DE 2015:


Na corrida presidencial americana, o «timing» é fundamental.

Marco Rubio avisou demasiado cedo que iria lançar a candidatura a 13 de abril: sim, hoje mesmo.

Hillary Clinton antecipou-se e teve o fim de semana de total cobertura mediática, entrando na corrida com o vídeo («Getting started») tremendamente eficaz.

O senador republicano da Florida vai tentar, ainda assim, ter o seu momento, quando anunciar, esta tarde, um «novo século americano», na Miami Freedom Tower

Marco Antonio Rubio, 44 anos, senador júnior da Florida desde janeiro de 2011, nascido em Miami a 28 de maio de 1971, formado em Direito, casado e pai de quatro filhos, é um dos produtos da direita americana da «era Obama».

Depois da derrota de McCain em 2008, e sobretudo depois da derrota de Romney em 2012, o Partido Republicano olhou para jovens valores que pudessem estar a despontar.

Os seus pais, cubanos, emigraram para os EUA nos anos 50, tendo adquirido a nacionalidade norte-americana só duas décadas depois. Marco personifica, assim, o «sonho americano», agarrado à custa de sofrimento dos pais, mas também de muitas oportunidades.

A história repete-se em muitas narrativas políticas na América: o resto depende da interpretação. Ora, se para a visão de Barack Obama, por exemplo, o sonho americano depende também dum poder federal que o torne possível, para Marco Rubio esse sonho funda-se na ideia de Liberdade em todos os níveis, o que implica um estado que não se meta muito nos negócios e nos impostos.

O «novo século americano»

Latino e conservador, Marco Rubio funda o seu discurso no livre negócio, em gerar emprego pela via dos incentivos por baixos impostos, mas consegue ter a «nuance» (e aí é um pouco mais moderado que outros «tea party darlings») de falar de soluções fiscais para a classe média e de não rejeitar os programas sociais.

Rubio foi-se destacando como o elemento mais promissor da «nova geração republicana», desde que, em novembro de 2010, obteve quase 50% dos votos na eleição para o Senado, para a vaga de Mel Martinez, como nomeado republicano (ganhou a nomeação a Charlie Christ, então governador, e que acabaria por concorrer como independente).

Pela juventude (chegou a senador antes dos 40 anos), pelo «background» familiar (é filho de cubanos, sendo uma espécie de campeão da comunidade hispânica da Florida, conservadora e católica), por ser ao mesmo tempo um «Tea Party darling» e alguém com propostas na área económica que se enquadram num republicanismo mais clássico.

Nas sondagens, aparece bem atrás de Jeb Bush e Scott Walker (neste momento os dois pré-candidatos mais viáveis), mas mostra credenciais mais sólidas do que Ted Cruz, Rand Paul ou Mike Huckabee (e muito acima de outros possíveis candidatos de direita, como Rick Santorum, Rick Perry ou Ben Carson). E está também à frente de Chris Christie, o governador da Nova Jérsia (que parece estar com problemas para arrancar).

O fator Romney e a luta com Jeb na Florida

Marco Rubio não é o favorito à nomeação, mas tem legitimidade para sonhar com ela.

Tem «media appeal» (muito mais que os dois republicanos já oficialmente declarados, Paul e Cruz), tem uma base de financiadores apetrechada e pode ser o principal, beneficiários da não comparência de Mitt Romney, o nomeado republicano de 2012.

A relação pessoal de Rubio com Romney foi intensificada nos últimos anos. Marco pode vir a herdar boa parte da equipa de assessores, conselheiros e (mais importante ainda...) financiadores de Romney 2012.

Não é coisa pouca: perante a máquina Jeb Bush, e perante um Scott Walker que começou a correr por fora mas está forte nos estados de arranque, Marco Rubio precisa de uma estrutura forte para se lançar, a sério, na discussão da nomeação.

A Florida pode, assim, ser o terreno decisivo da batalha republicana: Marco ou Jeb, quem dominará o «sunshine state»?

Até lá, os «early states» (Iowa, New Hampshire, Carolina do Sul), mostram um Scott Walker promissor, mas Rubio, mesmo não vencendo qualquer dos três, poderá ter três «vitórias» se ficar claramente à frente dos restantes candidatos mais à direita (Paul, Cruz, Huckabee, Santorum, Perry).

Marco Rubio quer personificar o «novo século americano». Quando o enunciar, ainda esta segunda, na Miami Freedom Tower, estará ainda bem atrás das possibilidades de Hillary Clinton ou Jeb Bush. Mas não é de excluir que seja ele a suceder a Obama, a 20 de janeiro de 2017.

Afinal de contas, há já quem garanta que «o primeiro Presidente latino» já nasceu.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»

Histórias da Casa Branca: Hillary Clinton a correr para a História


TEXTO PUBLICADO A 11 DE ABRIL DE 2015, NO SITE TVI24.IOL.PT:


A super favorita à nomeação democrata avança este domingo. Parte com vantagem nunca vista nesta fase. Mas não é a candidata perfeita: tem fantasmas no passado e sombras para o futuro

Por: Germano Almeida  Germano Almeida    |   11 de Abril às 16:08
Hillary Clinton avança amanhã, domingo, possivelmente pelo twitter, para uma segunda candidatura à presidência dos Estados Unidos da América.

Depois de dois anos e meio de rumores, sinais e fortes tendências (basicamente, desde a reeleição de Obama que se aponta a probabilidade de Hillary Clinton vir a ser candidata às primárias democratas, tornando-se, de imediato, a principal favorita à nomeação), a ex-secretária de Estado fez saber, por via de dois assessores, que escolheu o dia 12 de abril (talvez para se antecipar a Marco Rubio, senador republicano da Florida, que se apresenta na segunda) para tornar oficial o que, na prática, já quase todos sabiam.

Em 2008, Hillary falhou, por muito pouco, o comboio da História. Esteve pertíssimo de se tornar a primeira mulher a obter nomeação presidencial dum grande partido do sistema.
 
Fez quase tudo por isso: partiu muito à frente, fez campanha dura e exigente, somou 18 milhões de votos no total das primárias democratas. Só não conseguiu travar definitivamente o maior e mais bem organizado movimento social em torno de um candidato político alguma vez visto: Barack Obama 08’.
 
Mesmo assim, talvez já pensando em segunda tentativa presidencial, aceitou fazer parte do governo do rival que a derrotara («Team of Rivals») e foi, no State Department, uma chefe da diplomacia que se integrou quase em pleno na estratégia do primeiro mandato de Obama (as «nuances» de posições entre os dois, sobretudo sobre a Síria e Israel, só viriam depois de Hillary sair).

No final do seu mandato no Departamento de Estado, teve no episódio de Bengazhi (atentado que vitimou o então embaixador americano na Líbia) a maior mancha em percurso político, cívico e público de mais de quatro décadas.
 
Foi mulher de governador de estado, Primeira Dama dos EUA, senadora por Nova Iorque, segunda classificada nas primárias democratas de 2008 e secretária de Estado.
 
Formada em Wellesley, em Ciências Políticas, e em Yale, em Direito, foi sempre aluna exemplar e mereceu a distinção, muito importante no imaginário académico norte-americano, de fazer o «commencement speach» em Wellesley.

De jovem republicana a democrata de referência
 
Nascida a 26 de outubro de 1947 no Edgewater Hospital, em Chicago, Illinois, filha de Dorothy Howell, dona de casa, e Hugh Rodham, pequeno empresário da área têxtil, Hillary Diane Rodham terá dois irmãos mais novos: Hugh e Tony.
 
Longe de saber, é claro, que viria a tornar-se a primeira mulher de Presidente dos EUA nascida após a II Guerra Mundial e terceira mulher a chefiar a diplomacia norte-americana.
 
Cresceu em ambiente republicano, por influência do pai. Hillary escreve no seu primeiro livro de memórias, «Living History»: «Não nasci democrata».
 
Depois de infância tranquila, em família conservadora, desde cedo se destaca como aluna aplicada e brilhante na Maine East High School, quase sempre no quadro de honra. Gostava também de desporto, especialmente natação e beisebol. Nas férias escolares, costumava fazer «babysitting» com filhos de mexicanos que trabalhavam na zona de Chicago.

Aos 13 anos, escreveu carta à NASA, mostrando interesse em coloborar para a agência espacial americana e recebeu como resposta: «We don’t take girls» (Não aceitamos raparigas).

O seu primeiro grande envolvimento na política, ainda do lado republicano, foi com a campanha pelo candidato republicano Barry Goldwater, por influência do professor de história do nono ano, também ele ativo republicano, que a levou à leitura da obra de Goldwater, «Conscience of a Conservative» (Consciência de um Conservador), livro que inspirou Hillary para a escrita de ensaio sobre o movimento conservador americano, tornando-se numa «Goldwater Girl».
 
A viragem de republicana a democrata não foi imediata: teve a ver com uma consciência progressiva que foi ganhando, relacionada com uma leitura sobre como cada partido olhava para os direitos civis.
 
Em 1968, ainda vai à Convenção Republicana de Miami, Florida, que viria a confirmar a nomeação presidencial de Richard Nixon, envolvida na campanha do então governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller (que foi o segundo mais votado, atrás de Nixon e à frente de Ronald Reagan e tinha George Romney, pai de Mitt Romney, como candidato a vice-presidente).

O Arkansas, a Casa Branca, o Senado e o Departamento de Estado
 
Em 1975, já democrata, casa-se com Bill Clinton. Cinco anos depois, em 1980, terá a sua única filha, Chelsea.
 
O casamento com Bill é registo decisivo para perceber a evolução da vida pública e política de Hillary: foi mulher de um dos mais jovens governadores de estado e também um dos mais jovens presidentes da história da América.

Mas desde cedo Hillary marcou território: nunca quis «ficar em casa a fazer bolinhos» (a expressão é dela) e assumiu temas como os direitos das mulheres, das crianças, dos trabalhadores e dos utilizadores dos cuidados de saúde como combates de uma vida (no plano político e na atividade profissional, como advogada).

Os anos 80 e inícios de 90 foram passados no Arkansas; o resto da década de 90 na Casa Branca, na sua «Hillarylândia», com agenda e funcionários independentes do marido-Presidente; a primeira década dos anos 2000 no Senado e a tentar obter a nomeação democrata. Os anos mais recentes na Administração Obama e, é claro, a preparar a segunda investida à Casa Branca.
 
Um currículo potencialmente imbatível

Resiliente, determinada, ultrapassou a derrota inesperada nas primárias democratas de 2008 com inteligência, sendo capaz, em poucas semanas, de se tornar em forte apoiante de Obama, o que lhe valeu lugar de relevo como secretária de Estado.
 
Já com a campanha presidencial de 2016 no horizonte, anunciou atempadamente que não estaria disponível para segundo mandato no Departamento de Estado.
 
Sem a capacidade retórica de Barack Obama ou Bill Clinton, tem, no entanto, um tipo de discurso articulado e sempre bem fundamentado, capaz de gerar credibilidade mesmo junto dos seus opositores.
 
As sondagens até agora mostram que é fortíssima em segmentos como as mulheres, os negros e os latinos. Não tão forte nos jovens (com quem Obama foi campeão em 2008 e 2012).
 
A vantagem com que parte para a nomeação democrata (entre 40 a 55 pontos) torna-a vencedora antecipada, a menos que algo de inesperado aconteça.
 
Para a eleição geral, a história é diferente. Pode ter problemas na Florida, se o adversário for Jeb Bush ou Marco Rubio; no Midwest, se for Scott Walker; e no Sul, se a escolha dos republicanos recair num nome mais à direita, como Rand Paul (não é provável, mas não é impossível).

Não é uma candidata perfeita (o recente escândalo dos mails voltou a lembrar-nos disso). Tem um passado com alguns fantasmas (Bengazhi e Monica Lewinsky são outros) e algumas sombras no futuro (a idade avançada para quem concorre a primeiro mandato é uma delas, os problemas de saúde, com dois desmaios em pleno desempenho de funções, na parte final do mandato como secretária de Estado, é outro).

Mas o currículo pessoal e político de Hillary Rodham Clinton torna-a numa candidata potencialmente imbatível.

Aguentará 20 meses de gestão de favoritismo aparentemente tão claro?
 
Outros textos sobre Hillary Clinton já escritos em «Histórias da Casa Branca»:
 
Hillary no centro da tempestade

Hillary aguenta o embate
 
Hillary Clinton marca território
 
Hillary Clinton a adiar o inevitável
 
A «campanha sombra» de Hillary Clinton
 
Quase só trunfos para Hillary
 
Nos 67 anos de Hillary Rodham Clinton
 
A visão de Hillary

Hillary, trunfos e fantasmas

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: novas peças no xadrez do Médio Oriente

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 10 DE ABRIL DE 2015:

«Somos poderosos o suficiente para seremos capazes de testar os pressupostos deste acordo sem nos colocarmos em risco. E isso é algo que nem toda a gente parece entender. Vejamos o exemplo de Cuba. Para nós, testar a possibilidade de um entendimento leva a uma melhor situação para o povo cubano e não há assim tantos riscos para nós. É um país pequeno. Não nos ameaça no essencial dos nossos interesses, na nossa segurança. E se se verificar que não nos leva a grandes vantagens, podemos ajustar as nossas política. O mesmo acontece com o Irão, um país bem maior que Cuba, um país perigoso, que entrou em atividades que resultaram na morte de cidadãos americanos, mas a verdade é esta: o Irão tem um orçamento de defesa de 30 mil milhões de dólares. O nosso orçamento de defesa é de cerca de 600 mil milhões de dólares. O Irão sabe que não pode lutar contra nós. Sabe disso. Por isso, uma «Doutrina Obama» será: vamos procurar entendimentos, mas vamos preservar as nossas capacidades»  
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos, entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, após o acordo com o Irão 


Nos últimos anos, já perdemos a conta das vezes que ouvimos e lemos frases como: « O Médio Oriente está em polvorosa»; «Instabilidade no Médio Oriente»; « Atentados no Médio Oriente». 

O estado de «guerra permanente» passou a ser uma espécie de «novo normal». 

Mas a evolução dos acontecimentos nos meses mais recentes, sobretudo depois do verão de 2014, com a ascensão galopante do Estado Islâmico, agravou essa perceção. O prolongar da guerra na Síria, a desfragmentação do Iraque e, eventualmente, também do Iémen são novas ameaças que somam a noção de caos. 

O Médio Oriente, poço de conflitos crónicos (e um deles tendencialmente insolúvel, o israelo-palestiniano) -- mesmo sendo tema recorrente da agenda mediática internacional -- passou de ameaça relativa, algo «lá longe», para um caldeirão de problemas, numa escalada de instabilidade, mortos e violência. 

O Estado Islâmico 

O emergir do Estado Islâmico, com as suas práticas assustadoras na estratégia e bárbaras na concretização (decapitações, piloto jordano queimado vivo, ataques informáticos em larga escala, recrutamento de jovens combatentes via internet), foram o ponto de viragem. 

Levaram os EUA a liderar coligação internacional, com mais de 40 países, para travar a escalada da ameaça e fizeram com que as peças do complicado xadrez da região se movessem em direções aparentemente improváveis.  

Os americanos, que desde 2008 revelaram vontade eleitoral de sair militarmente do Iraque e do Afeganistão, haviam deixado a administração do Iraque pós-Saddam a um governo eleito democraticamente, liderado pelo xiita Nouri Al-Maliki, mas frágil na capacidade de fortalecer as instituições locais. 

De raiz sunita, o Estado Islâmico terá tido apoio inicial da Arábia Saudita e do Qatar, monarquias árabes que entretanto passaram a recear o crescimento inesperado e ameaçador do movimento liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi. 

Nasceu de dissidência com o «modus operandi» da Al Qaeda (progressivamente ultrapassada nos métodos e na liderança, na última década, pela eficácia do combate americano pós 9/11 na eliminação das principais figuras da organização terrorista que perpetrou o ataque às Torres Gémeas) e cresceu, com rapidez inusitada, conjugado pelo sentimento de vingança dos sunitas no Iraque (humilhados pela maioria xiita pós-Saddam) e pela noção de «ausência de poder» em vastas áreas do Iraque e da Síria. 

Xiitas «vs» Sunitas; Irão e Síria «vs» Arábia Saudita 

A grande divisão passou a ser, muito por culpa dos desastres do pós-guerra do Iraque 2003, entre o mundo xiita e o mundo sunita. 

Ora, duas das grandes potências regionais xiitas são a Síria de Assad (ainda que devassada por quatro anos de guerra civil destruidora) e o Irão. 

Um ano e meio depois de ter estado a um passo de bombardear a Síria, na sequência das suspeitas de ataque com armas químicas nos arredores de Damasco no final de agosto de 2013, os EUA veem-se não propriamente ao lado de Assad (a prioridade tem sido ajudar a oposição considerada «moderada»), mas com um inimigo comum: o Daesh (o «Estado Islâmico») sunita. 

E os EUA, que há mais de três décadas têm tido no Irão um dos seus principais focos de receio na região, passaram também a ter no regime de Teerão (desde junho de 2013 com um presidente mais moderado que era Ahmadinejad, Hassan Rohani) um aliado improvável.  

Chamar «aliado» ao Irão será talvez excessivo, mas olhando para o atual enquadramento da região, percebe-se que os pontos de contato entre Washington e Teerão são mais do que se poderia imaginar.

A recente recuperação de Tikrit, cidade iraquiana onde nasceu Saddam Hussein, ao Estado Islâmico, tendo sido obtida por combatentes xiitas, teve apoio direto do Irão e foi momento chave na estratégia dos EUA para travar o avanço do ISIS na região.  

Ao mesmo tempo, e numa daquelas ironias em que o Médio Oriente é fértil, e no caos atual está a chegar ao extremo, os EUA dão apoio indireto à coligação liderada pela Arábia Saudita (com outros países árabes sunitas) no Iémen, que combatem as milícias «houthi», xiitas e apoiadas pelo Irão, pelo controlo da capital, Sana. 

Isso mesmo: EUA e Irão de um lado e em campos opostos, no Iraque/Síria e no Iémen. Confusos? Bem-vindos ao Médio Oriente.

O nervosismo de Israel 

Os dados mudaram, pois, e muito,  no xadrez complexo da região. 

Se até há não muito tempo os EUA tinham na Casa Real Saudita o aliado mais sólido (com profundos negócios ligados ao petróleo a fortalecer esses laços), e viam no programa nuclear iraniano e no regime de Assad em Damasco os dois perigos mais ameaçadores, num ano e pouco, as peças moveram-se.

E ainda há, pelo meio, outro dois «players» relevantes a adicionar na equação: a Turquia, país com 99% de muçulmanos, liderada por um inimigo figadal de Assad (Erdogan); e Israel (com governo presidido pelo líder político com péssima relação pessoal e política com Barack Obama, Bibi Netanyahu).

Israel não vê com bons olhos esta aproximação EUA/Irão e não é por acaso que Obama, nas entrevistas que deu a seguir ao acordo de Lausanne, tenha repetido a estranheza por «haver quem duvide» que é bem maior a sua proximidade com Televive.

O cenário, que já era complicado, tornou-se um labirinto potencialmente interminável. E quando se entra num labirinto, nunca se sabe quando é que se consegue de lá sair. 

Obama: «Entendimento não significa risco»

É neste contexto que o acordo de Lausanne ganha ainda maior significado.

Na «tempestade perfeita» do caos do Médio Oriente, a única conjugação positiva que terá acontecido nos últimos anos foi mesma a vontade das lideranças politicas em Washington (Barack Obama) e Teerão (Rohani), apesar de alguns contrapesos de relevo nos dois lados (Senado republicano, nos EUA; o aiatola Ali Khameni, líder religioso supremo do regime iraniano, que olha para os americanos com muito mais desconfiança do que o tendencialmente moderado Rohani, líder de cariz político).

Obama foi o principal impulsionador político do acordo obtido à mesa das negociações por Kerry, Javad Zarif e ainda os chefes da diplomacia de Rússia, China e os restantes membros dos «5+1».

Em entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, o Presidente dos EUA deixou claro: prefere o envolvimento e a negociação ao «isolamento». E não teme que os acordos que fez com Cuba e o Irão ponham em risco a supremacia americana, que continua a sentir como evidente.

A visão do Presidente dos EUA, em traços gerais, aponta para um bom senso raro neste nível de negociação, sobretudo no Médio Oriente: aliviar sanções é obviamente bom para o Irão (houve festejos em Teerão, após o acordo de Lausanne), mas também pode trazer vantagens para outros países da região.

Por outro, há uma noção de que as restrições ao enriquecimento de urânio (mais de dois terços de atual capacidade iraniana suspensa e monitorizada por dez anos) resolve, na prática, o risco nuclear por um período largo de tempo, sendo que algumas restrições previstas têm duração até maior do que dez anos.

Kissinger e Schultz entre o elogio e a prudência

Em artigo conjunto publicado no Wall Street Journal, com o título «O acordo com o Irão e as suas consequências», os antigos secretários de Estado norte-americanos Henry Kissinger (administrações Nixon e Ford) e George Schultz (administração Reagan) apontam: «O cenário anunciado para um acordo sobre o programa nuclear iraniano tem o potencial de gerar um grande debate nacional sobre o tema. Os seus defensores exultam em relação às restrições nucleares que se impõem sobre o Irão. Os críticos questionam a capacidade de verificação dessas restrições e o seu impacto a longo prazo na estabilidade regional e mundial. O significado histórico do acordo e, na verdade, a sua sustentabilidade depende do modo como estas emoções podem ser conciliáveis».

Kissinger e Schultz identificam a dimensão histórica do que foi alcançado por Obama e Kerry, mas preferem ser cautelosos em relação ao alcance temporal do que foi conseguido. E avisam, prudentes, com uma certa preocupação pelo longo prazo: «Se o mundo cair em ainda maior turbulência, os Estados Unidos terão que desenvolver uma doutrina estratégica para a região. A estabilidade implica um papel ativo dos americanos. Para o Irão ser um membro válido da comunidade internacional, o pré-requisito é que aceite ser restringido nas suas capacidades desestabilizar o Médio Oriente e desafiar o ordem internacional».

«Até que seja atingido um conceito político claro na estratégia americana», observam Kissinger e Schultz, «o acordo nuclear projetado vai reforçar, mas não resolver, os grandes desafios na região. Mais do que garantir um certo alívio das responsabilidades americanas no Médio Oriente, a contenção nuclear deverá necessitar de ainda maior envolvimento na região -- e novos termos complexos. A História não fará o nosso trabalho por nós. Apenas ajuda aqueles que procuram ser ajudados». 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

«A política dos EUA em Cuba era vestígio ultrapassado da Guerra Fria»

Entrevista com David Leopold, ex-presidente da American Immigration Lawyers Association, sobre o acordo EUA/Cuba, a reabertura da embaixada americana em Havana, a cimeira das Américas que começa sexta no Panamá e a Reforma de Imigração. Exclusivo tvi24.iol.pt


David Wolfe Leopold é um dos maiores especialistas na influência dos hispânicos na sociedade norte-americana. Ex-presidente da American Immigration Lawyers Association, é forte apoiante da Reforma de Imigração que o Presidente Obama tem vindo a tentar implementar. 

É comentador em sites de referência, como «Huffington Post» e o «The Hill» e tem presença frequente na CNN, Al-Jazeera America, CCTV-America, The New York Times, Congressional Qarterly, The Los Angeles Times e The Washington Post. 

Em entrevista, este advogado de Cleveland, Ohio, explica as vantagens políticas e económicas que o acordo EUA/Cuba poderá vir a ter e vê a reabertura da embaixada americana em Havana como um dado consumado embora ainda sem data prevista, considerando improvável que se concretize o desejo anunciado por Barack Obama de que corresponda com a Cimeira das Américas, que inicia esta sexta no Panamá (onde se espera encontro entre Barack Obama e Raul Castro). 

«Obama fez acordo geracional e a normalização de relações com Cuba será uma realidade incontornável, mesmo para quem, agora, a critica, por interesses políticos de curto prazo», apontou, em alusão às oposições de republicanos como Marco Rubio ou Jeb Bush. 

David Leopold elogia ainda as medidas de Barack Obama sobre Imigração e relativiza a importância do voto latino na decisão das primárias republicanas («talvez com a exceção da Florida»), embora recorde que, «na eleição geral, ele já terá um grande peso».  E isso «pode ser um problema» na dinâmica da escolha do nomeado republicano, avisa. 

Exclusivo site TVI24


O acordo com Cuba ficará para a história como um dos maiores feitos dos anos Obama?
 

Sem dúvida. A política norte-americana em Cuba era, antes deste acordo, um vestígio ultrapassado da Guerra Fria. O Presidente Obama está em certo em querer mudar essa político arcaica que já não serve os interesses dos Estados Unidos, na região e no Mundo. 
  

O Presidente Obama revelou o desejo de ver reaberta a embaixada em Cuba por altura da «Cimeira das Américas», no Panamá (dias 10 e 11 de abril). Acha possível? 

Já não há dúvidas de que os Estados Unidos vão abrir uma embaixada em Havana e que irão restabelecer as relações diplomáticas com Cuba. Mas já será duvidoso que isso aconteça tão rapidamente e não é prudente estar a prever datas, neste momento. 
  

Pode tentar antecipar que efeitos este acordo EUA/Cuba poderá produzir, não só em termos económicos mas também no ambiente político da região? Será este um «acordo geracional», como o definiu o Presidente Obama? 

Terá um grande impacto. Sem qualquer dúvida que será um acordo generacional. A maioria dos americanos, incluindo o Presidente Obama, não têm memória do tempo em que os EUA tinham uma relação normal com Cuba. Americanos e cubanos vão beneficiar, de forma mútua, com esta normalização de relações entre dois países vizinhos. As trocas económicas, sociais, culturais vão acrescentar fabrico social e levarão a vantagens para as duas sociedades. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. 
  

«A liderança cubana não pode continuar isolada para sempre» 


A queda significativa dos preços de petróleo no último ano pode ajudar a explicar a urgência de Cuba em aproximar-se dos EUA, sobretudo porque a ajuda venezuelana a Havana está em risco?   

Poderá ser um fator, mas penso que é tudo mais complicado do que isso. A comunicação em massa – incluindo a internet e os social media – tornaram o mundo um lugar bem mais pequeno. A liderança cubana tem que encarar a realidade de que não pode continuar isolada do mundo, e em particular, dos EUA, para sempre. O desenvolvimento social e a abertura não é uma escolha para Cuba, é uma realidade. A liderança cubana reconhece que a normalização de relações com os Estados Unidos é inevitável, com ou sem a sua intervenção.    
  

Será politicamente sensato que políticos republicanos como Marco Rubio ou Jeb Bush se oponham a este acordo? 

Tem a ver com a base política de apoio deles, muito relacionada com a comunidade cubana exilada nos EUA. Pode até ser vantajoso em termos políticos no curto prazo, mas a longo prazo eles terão que aceitar a normalização de relações com Cuba. 
  

«Que interessa nacional tinha o embargo para os EUA?» 


Como vê a posição de Rand Paul, que disse que «o embargo é estúpido» e apoia a intenção do Presidente de pôr um fim a esse bloqueio económico a Cuba? 

Acho que Rand Paul está correto. Qual é o propósito do embargo? Que interesse nacional nos serve a nós, EUA? Bem pelo contrário, cria-nos problemas. Quanto mais forte Cuba se tornar economicamente, mais provável será que a sua liderança política se modere. 



David Leopold: «Acordo com Cuba vai desafiar os republicanos no Senado»



Pela primeira vez nos anos Obama, o Senado é dominado pelos republicanos. Será o acordo com Cuba o primeiro grande desafio que mostrará quem realmente manda na política externa americana (os republicanos ou o Presidente Obama)? 

Essa é uma pergunta de resposta difícil. Os republicanos têm um propósito de se opor a tudo o que Obama faça, seja em questões domésticas, como o Health Care ou a Imigração, ou nos objetivos de política externa, como o acordo nuclear com o Irão ou ainda a normalização de relações com Cuba. Acho que Cuba vai desafiar os republicanos em cair nos seus dogmas partidários ou então de ficarem, desta vez, de forma corajosa ao lado de Obama no apoio a uma normalização com Cuba. 


Ted Cruz, filho de um cubano, foi o primeiro candidato declarado às presidenciais de 2016. Marco Rubio, que deverá avançar em breve, também é descendente de cubanos. Jeb Bush, um dos «frontrunners», é casado com uma mexicana. Será o fator latino decisivo nas primárias republicanas? 

Não me parece que vá decidir, com a exceção da Florida. No entanto, Ted Cruz, armado com a marca arrogante da direita extremista, pode forçar os outros candidatos (incluindo Rubio e Bush) a virarem-se para a direita, especialmente na imigração. Isso será um problema para o Partido Republicano e para quem vier a ser nomeado, porque o voto latino será muito importante na eleição geral. Em 2012, o nomeado republicano, Mitt Romney, recebeu apenas 23% do voto latino depois de concorrer com uma plataforma que incluía o conceito de «auto-deportação» para imigrantes sem documentos. Desde aí, o GOP (Grand Old Party) mostrou poucos avanços na inclusão das comunidades hispânicas. Essa versão esquisita de «chegar» e «fazer pontes» com os votantes hispânicos passa por coisas como deportar «dreamers» ( nota: beneficiários de lei aprovada durante os anos Obama, de inclusão de imigrantes que pretendessem continuar nos EUA) e passa também por tentar bloquear as medidas executivas do Presidente pela imigração. 


David Leopold: «Só o Congresso pode resolver o problema da Imigração»


Os hispânicos foram muito importantes para a reeleição de Obama (votação muito superior em relação a Romney, acima dos 70 por cento). Acredita que Hillary Clinton nos latinos, frente ao nomeado repubicano, seja idêntica, especialmente se esse nomeado for Bush ou Rubio? 

Sim, acredito que se mantenha. A menos que os republicanos se moderem no seu extremismo anti-imigração, anti-latinos, Hillary Clinton poderá passar dos 70% nesse segmento, tal como conseguiu o Presidente Obama em 2012. 


Que candidato presidencial poderá obter, em 2016, mais apoio dos latinos? 

Acredito que a posição republicano de desvalorizar os latinos (incluindo em questões como a Reforma da Saúde e a Imigração) poderá custar-lhes a Casa Branca em 2016 e mesmo para a frente. 


As medidas executivas unilaterais tomadas pelo Presidente Obama em novembro, sobre Imigração, foram efetivas? O risco de cerca de cinco milhões de pessoas serem deportadas dos EUA está controlado? E o grande problema tem agora um caminho para ser resolvido? 

As medidas de novembro estão temporariamente suspensas, em função de uma ação judicial tomada no Texas pelos republicanos. Espero que o tribunal de apelo reverta a ação judicial de suspender as medidas do Presidente. Mas é importante lembrar que as ações executivas do Presidente Obama são, no máximo, uma medida temporária. Não criam um caminho duradouro na questão da imigração, um «green card» ou a cidadania. Apenas o Congresso pode fazer isso. Infelizmente, o Congresso recusa-se a resolver o problema de um sistema de imigração que não funcionam. E, enquanto isso não for feito, um sistema disfuncional vai continuar a infetar a América, vai continuar a prejudicar os negócios, vai continuar a adiar separar famílias. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Histórias da Casa Branca: nova página na contenção nuclear

TEXTO PUBLICADO NO SITE TVI24.IOL.PT, A 6 DE ABRIL DE 2015:


«Graças aos nossos esforços diplomáticos, o Mundo manteve-se connosco e juntaram-se a nós nesta negociação a principais potências internacionais: o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Rússia, a China e a União Europeia. Há cerca de um ano, tomámos o primeiro passo rumo ao que atingimos hoje, com vista a um acordo que trave o crecimento do programa nuclear iraniano e o adapte a áreas chave» 
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos 


«Se a outra parte honrar as suas promessas, nós honraremos as nossas promessas» 
HASSAN ROHANI, Presidente do Irão 


«Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo» 
BENJAMIN NETANYAHU, primeiro-ministro de Israel 


O Irão nuclear pode ter deixado de ser uma das principais ameaças da realidade internacional. 

O acordo de Lausanne, obtido na passada sexta depois de uma longa negociação (especialmente intensa nas últimas semanas, com empenhamento direto do secretário de Estado norte-americano John Kerry e do seu homólogo iraniano, Javad Zarif), deverá ficar como um dos grandes marcos dos «achievements» em política externa dos EUA. 

A obtenção de um acordo nuclear global, que garantisse que o Irão suspendesse o seu programa de enriquecimento de urânio, a troco do alívio das sanções impostas a Teerão, era uma das grandes prioridades da reta final da presidência Obama. 

Ainda não está tudo garantido (até 30 de junho, terá que ser redigido um texto final do acordo Irão/potências internacionais), mas essa conjunção (suspensão da escalada do programa nuclear iraniano a troco do alívio de sanções) parece estar já garantida, tendo em conta as reações globalmente positivas das partes que se sentaram à mesa na Suíça, nas últimas semanas.  

Vitória política e diplomática indiscutível para Barack Obama (que nos últimos meses somou Cuba e Irão em acordos de dimensão histórica só possíveis pela sua liderança), sendo que, desta vez, não se tratou de mero entendimento bilateral entre os Estados Unidos e outro país. 

O problema do Irão tem extensões mais vastas e envolveu todos os grandes poderes do Mundo atual. De tal modo a ameaça era abrangente que colocou Rússia e China, principais rivais dos EUA em muitos outros temas, envolvidas de forma progressivamente mais clara, quando a perspetiva de acordo se foi desenvolvendo, nos dias finais da negociação. 

Até 30 de junho há arestas a limar, para que se chegue a um acordo final sublimado em texto escrito, assinado por todas as partes. 

Israel e mundo árabe olham de lado 

O acordo é histórico mas está longe de ser consensual. 

Em Telavive, o governo israelita, com relação muito tensa com a Administração Obama, não gostou do que saiu de Lausanne: «Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo», apontou Netanyahu, agora reforçado internamente. 

Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, reagiu, em defesa do que a diplomacia americana obteve: «O primeiro-ministro israelita disse o que tinha que dizer e, sinceramente, acho que isso pode virar-se contra ele.  

Uma parte do mundo árabe, com os sauditas (aliados principais dos EUA na região) na linha da frente, temem que o acordo de Lausanne abra uma nova etapa na relação EUA/Irão, terminado em definitivo com as tensões dos últimos 35 anos. 

Perante o inimigo comum (o «Estado Islâmico» feito de jiadistas sunitas), EUA e Irão, agora aproximados pelo acordo de Lausanne, são um «gamechanger» inquietante para sauditas e israelitas, sobretudo. 

O aviso de Obama ao Congresso: não estraguem isto 

Tem sido frequente nos anos Obama, mas desta vez foi feito com particular veemência: o Presidente dos EUA fez aviso sério ao Congresso de maioria republicana: não estraguem isto. 

«Se o Congresso matar este acordo, de forma não baseada na análise e sem oferecer qualquer alterantiva razoável, então serão os Estados Unidos a serem culpados pelo falhanço da sua diplomacia. A comunidade internacional vai colapsar e o caminho será muito estreito. O povo americano sabe disso e é por isso que dou suporte sólido a uma resolução diplomática para a questão nuclear iraniana». 

Não é essa a visão de muitos setores conservadores, aqui representados pelo comentário de Charles Krauthammer na FOX: «Basta ver as reações de contentamento do ministro dos negócios estrangeiros do Irão no momento do acordo. Eles foram muito pouco claros sobre os pressupostos. É possível que quando assinarem em junho, já beneficiem de uma enorme quantidade de sanções aliviadas. E quando Obama fala de levantar as sanções, seos iranianos estiverem a fazer batota, não voltará a a haver a hipótese de russos, chineses e europeus voltaram a impor sanções outra vez. Vamo agir sozinhos, estaremos completamente isolados». 

terça-feira, 31 de março de 2015

Communication Advisory: Mitos e medos que não resistem à realidade

ARTIGO PUBLICADO NO BLOGUE «COMMUNICATION ADVISORY», A 31 DE MARÇO DE 2015:

A política é uma caixinha de surpresas e isso nem sempre é mau. O que se passou em França no passado domingo ajuda-nos a perceber um pouco melhor essa ideia pouco divulgada, mas tantas vezes verificada.

Nos últimos anos, sobretudo a partir do acentuar da austeridade na Europa, temos ouvido falar no perigo iminente de Marine Le Pen poder chegar à Presidência da República francesa.
Os resultados das «departamentais» de domingo passado, porém, mostraram que esse receio é manifestamente exagerado.
Marine está a subir, cavalgando o descontentamento em relação a quem costuma estar no poder e teve, nestes anos, que esquecer os valores partidários e carregar nos cortes? Certo.
Isso já valeu à Frente Nacional uma surpreendente vitória nas Europeias e bons resultados em legislativas e eleições locais? Verdade.
Mas uma coisa é ter 25/30% dos votos à primeira volta (e com isso talvez ser a mais votada nessa primeira volta). Outra, completamente diferente, é obter 50% mais um à segunda, em presidenciais.
Lembremo-nos do que aconteceu ao pai de Marine, Jean Marie Le Pen.
Em 2002, e depois de muito tentar nos anos 80 e 90, escandalizou o «mainstream» da política francesa e europeia ao chegar à segunda volta, sendo mais votado que o então candidato socialista Lionel Jospin.
O sistema, assustado, protegeu-se, unindo-se em torno do candidato da direita tradicional, Jacques Chirac.
As consequências foram aparentemente tranquilizadoras: Chirac esmagou Le Pen por 82-18. Toda a esquerda votou no «adversário», para travar o «inimigo». Jean-Marie teve, em percentagem, um resultado mais baixo que na primeira volta.
Passou mais de uma década. Marine não é igual ao pai. Tendo herdado a estrutura partidária, as bases, um certo estilo agressivo, arrogante e autoritário, mostra-se, no entanto, mais sofisticada.
Não cai nos disparates de Le Pen pai nas tiradas racistas ou relacionadas com o holocausto. Mas uma análise pormenorizada identifica que o essencial está lá: o nacionalismo extremado, a defesa do regresso às fronteiras, a França para os franceses, «nada contra os estrangeiros, mas na terra deles, a França tem desempregados a mais».
Mistura explosiva, em cenário de crise económica e desgaste (cansaço, mesmo) em relação aos partidos de poder.
François Hollande está desacreditado (foi eleito para o Eliseu prometendo trocar a austeridade pelo «investimento» e em poucos meses tornou-se uma espécie de porta-voz de Merkel com sotaque francês).
Manuel Valls, o primeiro-ministro que o Presidente nomeou para evitar a humilhação em pleno mandato, é um líder de governo supostamente «socialista» que, qual paradoxo, se mostra feroz crítico da «esquerda» em quase tudo. Nem mesmo «Terceira Via». Coisa ainda mais original, até.
Sarkozy, enredado em confusões e processos judiciais depois da perda do Eliseu, tenta voltar à ribalta e, em mais uma ironia de que a alta política é fértil, pode ser o beneficiário da crise aguda do PSF.
O cenário parece ser ideal para o «assalto» de Marine ao Eliseu em 2017.
Mas, por vezes, basta uma análise fria da realidade para afastar medos que são repetidos à exaustão, mesmo por supostamente credível.
As eleições «departamentais» de domingo mostraram que Nicolas Sarkozy tem tudo para regressar ao Eliseu em 2017 (e sem grande dificuldade, dado o estado moribundo do PSF, pelo desastre político da presidência Hollande).
Não sendo o regresso de Sarko uma grande notícias, é mais do que tudo um grande alívio.
A derrocada (da República francesa e do projeto europeu, num cenário de Marine no Eliseu) pode esperar.
Marine é para levar a sério. Passou a ser uma «player» indisfarçável do jogo político francês. Pode, até, dizer-se que a bipolarização socialistas/direita tradicional terminou (a Frente Nacional é, neste momento, força quase tão abrangente nas câmaras e nas legislativas que o PSF e a UMP).
Mas a filha de Le Pen nunca será presidente da França. Vai uma aposta?